Vai estar em Lisboa, para uma conferencia, um dos autores (o filho) da obra em título, o monge budista Matthieu Ricard.É francês e filho do famoso filósofo Jean François Revel. O livro nasceu da conversa entre ambos. O pai é filósofo ateu, o filho cientista das ciências genéticas, convertido ao budismo.
Acabei de ler alguns trechos da obra. São palavras do monge a definir o budismo. Graças ao meu amigo Luís, não fui apanhado desprevenido com afirmações como esta:
” O sofrimento resulta da ignorância. Portanto é a ignorância que preciso dissipar. E a ignorância, em essência, é o apego ao “eu” e à solidez dos fenómenos. Aliviar os sofrimentos imediatos de outrem é um dever, mas não basta: é preciso remediar as causas do próprio sofrimento.”
Não sei o que o pai filósofo terá dito para contraditar uma ideia destas. Nem sei, sequer, se rebateu a ideia. Mas eu discordo frontalmente do monge. Começo logo por pensar que a felicidade não se consegue dissipando o sofrimento e nem este resulta da ignorância. O sofrimento da mulher que dá à luz não resulta da ignorância e o que dele resulta é a felicidade de uma nova vida.
Tanto meditam estes monges budistas e não dão conta das realidades mais elementares.
Se não é deste sofrimento que falam, do parto da mulher, de que outros sofrimentos falam? Da unha encravada, do desgosto por não ter ganho o euro milhões ou de ter perdido o campeonato de futebol?
O sofrimento existe como forma de crescimento e como parte integrante da nossa condição humana. Será superado apenas na medida em que criarmos uma realidade nova, onde ele já não possa desempenhar função útil. Acabaremos por dispensar o sofrimento, como dispensamos o rabicho ao fundo das costas. Poderá é levar tanto tempo como levamos a perder a cauda.
Os fenómenos que ditam o sofrimento são sólidos, tangíveis, inteligíveis e transformáveis. A mulher que dá à luz não se debate com o fantasma do sofrimento. Nem o adepto sportinguista sofreria «pra burro» ano após ano, à espera de ganhar o campeonato, se a realíssima e reluzente taça não fosse entregue quatro anos seguidos ao FCP e neste último ano ao SLB.
Haverá sempre uma réstia de sofrimento enquanto houver em nós uma réstia de sonho. E quando deixarmos de sonhar é porque já estamos mortos e falta só fechar os olhos.
É mesmo assim, como dizias, Luís, «com um olho no finito e outro no infinito».
É um sofrimento quase deleitoso. Pode-se morrer serenamente, balançando sobre esta existência paradoxal.
sábado, 22 de maio de 2010
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Com efeito mais facilmente me verá a defender a óptica budista sobre a natureza da realidade (a vacuidade dos fenómenos: 100%) do que o objectivo budista de supressão do sofrimento, o qual manifestamente ainda (?) não domino nem sequer na teoria. Mas, em prol do senhor matthieu Ricard, há que dizer que ele é A PESSOA MAIS FELIZ DO PLANETA, pelo critério neurológico. Ouvi-lo falar, é um deleite. No youtube está disponível uma prelecção dele, em inglês, a empregados da Google. Vale a pena ouvir. (http://www.youtube.com/watch?v=L_30JzRGDHI)
ResponderEliminarAgora especulo, apenas... penso alto... há que não temer o pensamento.
ResponderEliminar"O sofrimento existe como forma de crescimento e como parte integrante da nossa condição humana." - e não estará, portanto, a nossa condição humana na origem do sofrimento, portanto? E não será a nossa condiçãp humana, olhando o mundo com olhos de ver, uma ilusão?
"Será superado apenas na medida em que criarmos uma realidade nova, onde ele já não possa desempennhar função útil." - Será que não é isto mesmo que os budistas ("iluminados") conseguem? Ao vivenciarem a realidade absoluta - onde não se aplicam as fronteiras convencionadas que definem os objectos, as coisas do mundo material (o único que existe, aliás) - não estarão para lá do sofrimento e, por fim, para lá até do budismo?
«Pessoa mais feliz do mundo». Relativamente aos que com ele foram comparados, em experiência de laboratório. Traduzo isso como o homem mais «auto-satisfeito» do mundo. Não sei porquê, faz-me pensar num leão com a barriga cheia, sempre servido a tempo e horas, sem ter que lutar pela refeição, porque o tratador providencia. O tratador do buda seria a sua meditação.
ResponderEliminarMas, ao contrário do leão, o buda quer que todos se sintam auto-satisfeitos. É o seu toque de humanidade.
Sei que estou a simplicar demasiado. Mas não é tudo tão demasiadamente simples na vida de um budista? Para que serviu o ciência genética que Ricard estudou? Continua a ser cientista? Ou desistiu da investigação, por achá-la suprérflua, senão inutil? Será que a meditação e o controlo da mente nos proporciona tudo o que é necessáio, a felicidade?
O homem parece mais que auto-satisfeito, para dizer a verdade. Parece mesmo bastante satisfeito. Tem um bom sentido de humor, e uma óptima capacidade de comunicação (não a deve ter ganho a olhar para o umbigo). Biografia em português: http://pt.wikilingue.com/es/Matthieu_Ricard
ResponderEliminarJá ontem era para ter escrito isto, Mário, mas era um bocado tarde... as suas questões, dúvidas e afirmações (e, claro, também as minhas) desembocam todas numa, que dava um livro intitulado:
"Qual é, afinal, o Sentido da Vida?"
...e como subtítulo: " (e poderá cada um inventar o seu?) "
... e tira umas fotografias que foram elogiadas por Henri Cartier-Bresson (“A vida espiritual de Matthieu e a sua câmara são uma só. Dela brotam estas imagens, fugazes e eternas”):
ResponderEliminarhttp://www.matthieuricard.org/en/index.php/gallery/