«Ao vivenciarem a realidade absoluta - onde não se aplicam as fronteiras convencionadas que definem os objectos, as coisas do mundo material (o único que existe, aliás) - não estarão para lá do sofrimento e, por fim, para lá até do budismo». (Citando o Luis)
R. Com certeza que sim, Luís. Estão, de facto, para lá do sofrimento e até do budismo.O problema é que estão, também, para lá da realidade.
Qualquer ser humano que conserve a sua consciência, distingue-se de um ser inconsciente e este, sim, está para lá do sofrimento, do budismo e de muito mais. E o ser humano, quanto mais consciente estiver desta sua condição, mais exposto está ao sofrimento, nem que seja sob a forma da simples inquietação, que pode não ser tão simples como isso, se vier a tornar-se na inquietação existencial última:
qual o sentido da minha existência?
Mas não será preciso chegar a tanto para deixar a descoberto a falácia da imperturbabilidade budista e consequente plena auto-satisfação. É que não vejo como um ser consciente da dádiva da vida, imediatamente referida aos seus progenitores, mas logo extensiva a toda a sociedade, pode ter garantida a superação do sofrimento próprio sem que o sofrimento alheio não perturbe pela raiz a sua auto- satisfação e coloque em causa a sua felicidade.
Numa palavra: como posso permanecer imperturbável perante o sofrimento alheio e pensar que conseguirei, isoladamente, o êxtase da felicidade?
O budismo há muito que se aproximou da certeza desta incompatibilidade e daí a sua dedicação à causa da paz universal. E neste «universal» está incluída a própria natureza «morta».
O que fascina no budismo é esta dupla maravilha: meditação profunda sobre a nossa realidade mais íntima, desvalorizando o que é superficial e efémero e a busca da paz, querendo abraçar o mundo na sua totalidade.
O que desilude no budismo é a fuga radical da realidade, que nos serve um mundo em contínua transformação, que genericamente podemos designar por «sofrimento», como que em «dores de parto», onde tudo está em altíssima convulsão desde o «Big Bang».
No mesmo instante em que, na paz merecida de uma meditação bem conduzida, cem mil monges atingem o êxtase sublime, um tsunami tão inesperado quanto devastador, mergulha a todos no silencio da morte.
Esta é que é a realidade a ter em conta!
segunda-feira, 24 de maio de 2010
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Tenho 3 objecções às suas objecções:
ResponderEliminar1) "O problema é que estão, também, para lá da realidade."
O que é o Tudo?
Uma vez, o Buda ensinou os Bhikkhus (monges) acerca do Tudo:
"Vou ensinar-vos o Tudo. Ouçam com atenção. O que é o Tudo? É olho e objecto visível, ouvido e som, nariz e aroma, língua e sabor, corpo e sensações, mente e ideias.
Isto é o Tudo.
Se alguém disser "Este Tudo não é suficiente. Reclamo um outro Tudo", poderá isso ser feito? O que o diz poderá acreditar que sim, mas não será capaz de mostrar outro Tudo."
2) "não vejo como um ser consciente da dádiva da vida, imediatamente referida aos seus progenitores, mas logo extensiva a toda a sociedade, pode ter garantida a superação do sofrimento próprio sem que o sofrimento alheio não perturbe pela raiz a sua auto- satisfação e coloque em causa a sua felicidade"
Mas de quem fala, Mário? De quem é o sofrimento próprio? De quem é o sofrimento alheio? De quem é a auto-satisfação? De quem é a sua felicidade? Só existe o Caminho, não quem o percorra.
3) "O que desilude no budismo é a fuga radical da realidade, que nos serve um mundo em contínua transformação, que genericamente podemos designar por «sofrimento», como que em «dores de parto», onde tudo está em altíssima convulsão desde o «Big Bang»."
O budismo não foge da realidade. O budismo reflecte exactamente essa altíssima convulsão da realidade
Vou citar Thich Nhat Hanh, que não faço ideia quem seja, mas concordo (pronto, agora já sei: http://en.wikipedia.org/wiki/Thich_Nhat_Hanh):
"Se não formos vazios, tornamo-nos um bloco de matéria. Não podemos respirar, não podemos pensar. Estar vazio significa estar vivo, inspirar e expirar. Não podemos estar vivos se não formos vazios. Vazio é impermanência, é mudança. Não devemos queixar-nos da impermanência, porque sem a impermanência, nada é possível."
Vale a pena ler de novo com atenção, à luz do seguinte: não termos existência intrínseca é reflexo (e consequência lógica) da fluidez do universo, das leis da física. Nada está parado. As nossas convenções, evoluídas milhões de anos, são pragmaticamente recicláveis de instante para instante, na sua redutora tentativa de explicar, classificar, balizar o real. São uma espécie de visão estatística do real. Mas como o Mário sabe, só porque em média cada um come meio frango, não quer dizer que não tenha um comido o frango tudo e o outro morrido à fome. A estatística não é o retrato fiel da realidade. À luz disto, proponho que releia o pensamento de Thich Nhat Hanh.