Há um ditado latino antigo que reza assim: se queres a paz, prepara-te para a guerra.´
Por tudo o que o Luis nos tem trazido sobre o budismo, este ditado propõe exactamente o contrário do "caminho" budista.
Logo à partida, o budismo não estabelece um plano de acção para a sua vida. Antecipar e planear acarreta preocupação e ânsia, logo gera sofrimento, que é tudo o que o budismo pretende evitar, fazendo, simplesmente,o que é apropriado em cada situação real. "Esperar acontecer", como diz a canção.
Observo que o budismo tem como motivaçâo central "superar" o sofrimento ou anular as suas causas, através do auto controle, e nâo da "prevenção" das situações que possam acarretar sofrimento. Porque o acçâo preventiva exige uma constante preocupaçâo com o futuro e com os factores que possam estar fora do nosso controle.
E isso representaria uma grande canseira, preocupaçâo e sofrimento.
Evidentemente que o budismo também faz planos. Por exemplo, se prevê mau tempo ou bom tempo para os dias imediatos toma as suas providencias. Mas digamos que tem por lema fazer o minimo indispensável.
No campo oposto, tempos "os ocidentais" que querem prever e planear tudo ao milimetro. Curiosamente, também para evitar contratempos, surpresas desagradáveis e até grandes ou pequenos sofrimentos.
O ojectivo de uns e de outros parece ser o mesmo. Mas não é.
O budista procura a imunidade ao sofrimento, conseguindo, dessa forma, uma "certa" felicidade, que se caracteriza, exactamente, pela ausencia do sofrimento.
O "ocidental" não deseja uma "certa" felicidade. Quer a felicidade TODA. Quer a divindade ou o infinito e a forma que foi encontrando para realizar esse sonho foi "agarrar-se a Deus", um Deus Pessoal com quem sonha poder interagir e partilhar uma plenitude de vida, se nâo for aqui e agora, será depois da morte...
Como tudo isto é vivido em fé e esperança, numa ausencia efectiva e irremediavel de plenitude, o crente carrega a cruz da vida.
E aqui para nós: quem se contenta ou acomoda a uma "certa felicidade"?
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domingo, 12 de junho de 2011
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Nirvana Não, Amor Sim
Em vez de falar-se em «pensamento» budista será mais apropriado falar em «convicções budistas». Porque o pensamento, qualquer que ele seja, é o discurso sobre a realidade ou o que se julga ser a realidade. Para o budismo, o que chamamos realidade não é mais do que aquilo que nós pensamos acerca dela. E é neste sentido que o Luís refere num dos seus comentários ao penúltimo post, que nem «eu» próprio, enquanto fazedor de pensamentos sobre a realidade, sou, intrinsecamente, real.
A compreensão deste facto é a iluminação definitiva, é quando se atinge o Nirvana.
Traduzindo o que se pretende afirmar no budismo: eu sou nada e, quando perceber isso, é que sou realmente…alguma coisa!
Talvez um «eu» feito de iluminação pura
Decorre desta convicção que, procurar explicações para o nosso destino e para o destino do universo ou, ainda, se nós temos um destino ou o que é tudo isso e mais alguma coisa, é um inútil e desvairado propósito que só acrescenta sofrimento à nossa já sofredora humana condição.
Para escapar a esta verdadeira maldição humana do sofrimento, Buda aponta o caminho de um desapego progressivo de tudo até à extinção, em nós, do simples desejo de formular perguntas. E este desejo de conhecer parece ser o último resquício da existência de um «eu» que se quer completamente anulado.
Notemos então: a vontade de conhecer, que foi a mola impulsionadora de toda a nossa civilização «cristã ocidental» é, para o budismo, não a mãe do sofrimento, porque o sofrimento precede o pensamento, mas um cúmulo de desgraça humana.
Nada de novo, se pensarmos na belíssima alegoria do paraíso de Adão e Eva. Estes pais da humanidade, cedendo à tentação de comer o fruto da «árvore do conhecimento» arranjaram uma bela carga de trabalhos para a desgraçada prole.
O autor do paraíso perdido de Adão e Eva explica porque existe o sofrimento. O budismo entende que o sofrimento não é para ser explicado, mas anulado. O problema, na minha perspectiva, é que se despeja o bebé com a água do banho, por esta simples razão: o homem "é" intrinsecamente, e é "intrinsecamente" sofredor, se entendermos que sofrimento significa “mudança”ou “transformação”. E o nosso Universo anda em “sofrimento” pelo menos desde o Big Bang.
E o «eu» que o budismo pretende anular com o seu Nirvana sabe perfeitamente o que se está a passar. E por saber tal, transforma em deleite o que Buda chama de sofrimento, empolgando-se e, esquecido do curto tempo que dura a sua consciente aventura individual, lança-se a caminho das estrelas.
Verdadeiramente, só queremos deixar o sofrimento budista se isso servir os nossos sonhos mais profundos.
Convivemos bem com o «contentamento descontente» de Camões e o nosso rosto ilumina-se de felicidade quando encontra o olhar do nosso amor. Ia apostar que não há Nirvana que se lhe compare. Nunca me descobri tão plenamente «eu» como no dia em que comecei a ouvir uma voz divinamente meiga a sussurrar-me: meu amor. Não troco esta presença amorosa por iluminação nenhuma deste mundo e de todos os outros. E só desejo que tudo o que descobrirmos e inventarmos com o nosso génio humano seja para tornar mais intensa, perfeita e duradoura a presença dos que nos amam e nós amamos.
Dizia o Luís, repetindo palavras do budismo: «se tens fome, come; se tens sede bebe…».
Chega a ser deprimente, no budismo, a ideia do sentido «utilitário» das coisas. Comer, beber, fazer sexo, vestir, calçar, tudo é sempre encarado numa perspectiva individualista. Tudo deve estar ao «serviço» da “minha” iluminação. Tal atitude pressupõe uma filosofia que pensa o homem como indivíduo solitário face ao universo. Acontece que nós descobrimos alguém e fomos descobertos por alguém e formamos um trio inseparável: eu, tu e o universo. Por isso, quando comemos, bebemos, fazemos sexo e nos enfeitamos; ou pensamos, sonhamos e investigamos, estamos a fazê-lo para os outros e com os outros. É por essa razão que fazemos a festa da vida, sinalizando a nossa presença uns aos outros. O amor é o culminar da festa humana. E não nos conformamos que dure apenas o espaço de uma vida. É um doce sofrimento este inconformismo. E nós temos uma palavra divina para o expressar: saudade.
È uma palavra que só o amor sabe dizer.
A compreensão deste facto é a iluminação definitiva, é quando se atinge o Nirvana.
Traduzindo o que se pretende afirmar no budismo: eu sou nada e, quando perceber isso, é que sou realmente…alguma coisa!
Talvez um «eu» feito de iluminação pura
Decorre desta convicção que, procurar explicações para o nosso destino e para o destino do universo ou, ainda, se nós temos um destino ou o que é tudo isso e mais alguma coisa, é um inútil e desvairado propósito que só acrescenta sofrimento à nossa já sofredora humana condição.
Para escapar a esta verdadeira maldição humana do sofrimento, Buda aponta o caminho de um desapego progressivo de tudo até à extinção, em nós, do simples desejo de formular perguntas. E este desejo de conhecer parece ser o último resquício da existência de um «eu» que se quer completamente anulado.
Notemos então: a vontade de conhecer, que foi a mola impulsionadora de toda a nossa civilização «cristã ocidental» é, para o budismo, não a mãe do sofrimento, porque o sofrimento precede o pensamento, mas um cúmulo de desgraça humana.
Nada de novo, se pensarmos na belíssima alegoria do paraíso de Adão e Eva. Estes pais da humanidade, cedendo à tentação de comer o fruto da «árvore do conhecimento» arranjaram uma bela carga de trabalhos para a desgraçada prole.
O autor do paraíso perdido de Adão e Eva explica porque existe o sofrimento. O budismo entende que o sofrimento não é para ser explicado, mas anulado. O problema, na minha perspectiva, é que se despeja o bebé com a água do banho, por esta simples razão: o homem "é" intrinsecamente, e é "intrinsecamente" sofredor, se entendermos que sofrimento significa “mudança”ou “transformação”. E o nosso Universo anda em “sofrimento” pelo menos desde o Big Bang.
E o «eu» que o budismo pretende anular com o seu Nirvana sabe perfeitamente o que se está a passar. E por saber tal, transforma em deleite o que Buda chama de sofrimento, empolgando-se e, esquecido do curto tempo que dura a sua consciente aventura individual, lança-se a caminho das estrelas.
Verdadeiramente, só queremos deixar o sofrimento budista se isso servir os nossos sonhos mais profundos.
Convivemos bem com o «contentamento descontente» de Camões e o nosso rosto ilumina-se de felicidade quando encontra o olhar do nosso amor. Ia apostar que não há Nirvana que se lhe compare. Nunca me descobri tão plenamente «eu» como no dia em que comecei a ouvir uma voz divinamente meiga a sussurrar-me: meu amor. Não troco esta presença amorosa por iluminação nenhuma deste mundo e de todos os outros. E só desejo que tudo o que descobrirmos e inventarmos com o nosso génio humano seja para tornar mais intensa, perfeita e duradoura a presença dos que nos amam e nós amamos.
Dizia o Luís, repetindo palavras do budismo: «se tens fome, come; se tens sede bebe…».
Chega a ser deprimente, no budismo, a ideia do sentido «utilitário» das coisas. Comer, beber, fazer sexo, vestir, calçar, tudo é sempre encarado numa perspectiva individualista. Tudo deve estar ao «serviço» da “minha” iluminação. Tal atitude pressupõe uma filosofia que pensa o homem como indivíduo solitário face ao universo. Acontece que nós descobrimos alguém e fomos descobertos por alguém e formamos um trio inseparável: eu, tu e o universo. Por isso, quando comemos, bebemos, fazemos sexo e nos enfeitamos; ou pensamos, sonhamos e investigamos, estamos a fazê-lo para os outros e com os outros. É por essa razão que fazemos a festa da vida, sinalizando a nossa presença uns aos outros. O amor é o culminar da festa humana. E não nos conformamos que dure apenas o espaço de uma vida. É um doce sofrimento este inconformismo. E nós temos uma palavra divina para o expressar: saudade.
È uma palavra que só o amor sabe dizer.
domingo, 20 de junho de 2010
O Budismo e o Sonho
Alonguei-me no comentário ao comentário do Luis sobre o post anterior e achei melhor fazer nova postagem. Aqui vai.
Curiosamente, a imagem que eu tenho de um «buda» é de uma figura masculina anafada, sentada sobre os calcanhares, meditabunda, ensimesmada, distante e inerte, parada mesmo, alheada do espaço que ocupa e do tempo que passa.
Mas nunca imaginei o «buda» um sonhador.
Porque do sonho de um homem segue-se a aventura de uma vida, com a sua natural carga de realizações, de alegrias, decepções e sofrimentos. E mais sonhos, e novos sonhos. Sonhamos descer ao fundo mar e mergulhar por entre galáxias, à velocidade da luz; erguer pontes, escavar túneis, construir torres de chegar ao céu; dissecar os corpos, as células, o próprio genoma; já partimos também os "indivisiveis" átomos e agora perseguimos o «santo graal» da «particula de Deus», sonhando espreitar para lá desse profundissimo horizonte...
E, apesar de tudo, conservando a lucidez de de quem sabe que escavando até à raíz do nosso ser, nunca perdemos a visão de conjunto que dá sentido ao que somos e fazemos. É como empreender uma caminhada, em que cada passo ganha sentido tanto pela história do caminho percorrido, como pelo sonho do caminho a percorrer.
Por isso a Humanidade não desiste...
Consciência do passado vivido e do futuro sonhado, será este o «despertar do teu «buda», Luis?
Se é, como se explica que Ricard Matthieu tenha abandonado a «investigação cientifica» e se sente o «homem mais feliz do mundo» acompanhando a pregação itinerante de Dalai Lama, deixando para os dedicados milhões de investigadores a tarefa de viajar até ao coração da vida?
AH! Já sei! Tavez o «homem feliz» de «buda» seja apenas um espirito incarnado na matéria... Para quê perder tempo, nos laboratórios, a fossar na matéria que, no fim de contas, não tem nada a ver com o homem-espirito que somos e muito menos com a nossa felicidade?
É isso?
Acredito que o homem será cada vez mais um «ser espiritual», mas sê-lo-á através desta coisa que chamamos «matéria», que nós sonhamos transformar à medida dos sonhos que vamos sonhando. Porque se esta «matéria» nos fez o que já somos e conhecemos, que maiores segredos não terá para nós descobrirmos?
E, como sempre aconteceu desde que começamos a trabalhar a pedra, o conhecimento e a descoberta implicam a transformação da «matéria».
Do Mundo, quero eu dizer.
Porque será, Luis, que se agarrou a mim a ideia de que o budismo se fica pelo «conhecimento», pelo «despertar», agarrado, ele sim, à jangada (do pensamento) que o transporta?
Tivesse Alexander Fleming, depois da guerra, abandonado a medicina para se juntar a um Dalai Lama no Tibete e não sei quantos milhões de seres humanos teriam continuado a sucumbir às infecções que os seus antibióticos vieram debelar.
Concluo: despertar é essencial e nisso bendito seja o budismo. Mas despertar para quê, se ainda vemos apenas um pouquinho do caminho a percorrer? Por isso compreendo mal como se pode trocar a investigação pela meditação, quando as duas são essenciais e complementares. Parece-me que o problema, embora os budistas não o admitam claramente, é que o budismo assenta no dualismo "ontológico" espirito e matéria.
Curiosamente, a imagem que eu tenho de um «buda» é de uma figura masculina anafada, sentada sobre os calcanhares, meditabunda, ensimesmada, distante e inerte, parada mesmo, alheada do espaço que ocupa e do tempo que passa.
Mas nunca imaginei o «buda» um sonhador.
Porque do sonho de um homem segue-se a aventura de uma vida, com a sua natural carga de realizações, de alegrias, decepções e sofrimentos. E mais sonhos, e novos sonhos. Sonhamos descer ao fundo mar e mergulhar por entre galáxias, à velocidade da luz; erguer pontes, escavar túneis, construir torres de chegar ao céu; dissecar os corpos, as células, o próprio genoma; já partimos também os "indivisiveis" átomos e agora perseguimos o «santo graal» da «particula de Deus», sonhando espreitar para lá desse profundissimo horizonte...
E, apesar de tudo, conservando a lucidez de de quem sabe que escavando até à raíz do nosso ser, nunca perdemos a visão de conjunto que dá sentido ao que somos e fazemos. É como empreender uma caminhada, em que cada passo ganha sentido tanto pela história do caminho percorrido, como pelo sonho do caminho a percorrer.
Por isso a Humanidade não desiste...
Consciência do passado vivido e do futuro sonhado, será este o «despertar do teu «buda», Luis?
Se é, como se explica que Ricard Matthieu tenha abandonado a «investigação cientifica» e se sente o «homem mais feliz do mundo» acompanhando a pregação itinerante de Dalai Lama, deixando para os dedicados milhões de investigadores a tarefa de viajar até ao coração da vida?
AH! Já sei! Tavez o «homem feliz» de «buda» seja apenas um espirito incarnado na matéria... Para quê perder tempo, nos laboratórios, a fossar na matéria que, no fim de contas, não tem nada a ver com o homem-espirito que somos e muito menos com a nossa felicidade?
É isso?
Acredito que o homem será cada vez mais um «ser espiritual», mas sê-lo-á através desta coisa que chamamos «matéria», que nós sonhamos transformar à medida dos sonhos que vamos sonhando. Porque se esta «matéria» nos fez o que já somos e conhecemos, que maiores segredos não terá para nós descobrirmos?
E, como sempre aconteceu desde que começamos a trabalhar a pedra, o conhecimento e a descoberta implicam a transformação da «matéria».
Do Mundo, quero eu dizer.
Porque será, Luis, que se agarrou a mim a ideia de que o budismo se fica pelo «conhecimento», pelo «despertar», agarrado, ele sim, à jangada (do pensamento) que o transporta?
Tivesse Alexander Fleming, depois da guerra, abandonado a medicina para se juntar a um Dalai Lama no Tibete e não sei quantos milhões de seres humanos teriam continuado a sucumbir às infecções que os seus antibióticos vieram debelar.
Concluo: despertar é essencial e nisso bendito seja o budismo. Mas despertar para quê, se ainda vemos apenas um pouquinho do caminho a percorrer? Por isso compreendo mal como se pode trocar a investigação pela meditação, quando as duas são essenciais e complementares. Parece-me que o problema, embora os budistas não o admitam claramente, é que o budismo assenta no dualismo "ontológico" espirito e matéria.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Budismo e Cristianismo. Outra Vez
Segundo «critérios neurológicos», como diz o Luis, Matthieu Ricard foi considerado o homem mais feliz do planeta. Tenho curiosidade em saber se a Madre Teresa de Calcutá entrou no teste-concurso.
Mas hoje não é por aqui que pretendo ir.
Diz-se do budismo que este não é nem religião, nem filosofia, nem teologia. E também já encontramos cristãos a afirmar que o cristianismo não é uma religião nem uma filosofia. Mas estes últimos afirmam, claramente, que o cristianismo é uma teologia.
Não sei porque se há-se pensar que a filosofia é alheia ao budismo e ao cristianismo. De facto, a filosofia, na sua essência, é o primeiro movimento da mente humana e da consciência humana face ao grandioso espectáculo que se lhe depara, que é a festa e o drama da vida e o universo onde eles se desenrolam. Espanto, encantamento e também todos os medos e todas as interrogações.
É isto que eu entendo por filosofia.
Os discursos produzidos por séculos de interrogações são a «história da filosofia» e o museu precioso, onde sentimos o pulsar da alma dos nossos antepassados. Vibramos com pensamento de Platão ou Aristóteles como nos deslumbramos perante a magia das catedrais.
Também nos comovemos profundamente perante a alma patenteada do budista e do cristão.
O que eu pretendo dizer, com todo este intróito, é que os «movimentos» da alma budista e cristã emergiram da mais pura filosofia.
Separar estes movimentos da alma humana daquele primordial,espontâneo e real encontro com a vida e o universo - a filosofia - é criar mistificações para «levar a água ao seu moinho». E isto significa, na prática, criar barreiras e distancias, baralhando os dados simples da realidade.É confundir o «meu» espanto,encantamento, interrogação ou medo com a essência da Realidade e da Verdade.
Literalmente, esquece-se como tudo começou.
Ninguém, de boa fé, pode negar esta evidencia: no principio era a filosofia.
Se disserem «no principio era a paixão», também vale.
O resto, um vastíssimo e valioso património da humanidade, são apenas interpretações. Neste património se incluem as religiões, as teologias, as "filosofias". Também o cristianismo e o budismo, traduzidos em catedrais de pedra e pensamento.
Mas hoje não é por aqui que pretendo ir.
Diz-se do budismo que este não é nem religião, nem filosofia, nem teologia. E também já encontramos cristãos a afirmar que o cristianismo não é uma religião nem uma filosofia. Mas estes últimos afirmam, claramente, que o cristianismo é uma teologia.
Não sei porque se há-se pensar que a filosofia é alheia ao budismo e ao cristianismo. De facto, a filosofia, na sua essência, é o primeiro movimento da mente humana e da consciência humana face ao grandioso espectáculo que se lhe depara, que é a festa e o drama da vida e o universo onde eles se desenrolam. Espanto, encantamento e também todos os medos e todas as interrogações.
É isto que eu entendo por filosofia.
Os discursos produzidos por séculos de interrogações são a «história da filosofia» e o museu precioso, onde sentimos o pulsar da alma dos nossos antepassados. Vibramos com pensamento de Platão ou Aristóteles como nos deslumbramos perante a magia das catedrais.
Também nos comovemos profundamente perante a alma patenteada do budista e do cristão.
O que eu pretendo dizer, com todo este intróito, é que os «movimentos» da alma budista e cristã emergiram da mais pura filosofia.
Separar estes movimentos da alma humana daquele primordial,espontâneo e real encontro com a vida e o universo - a filosofia - é criar mistificações para «levar a água ao seu moinho». E isto significa, na prática, criar barreiras e distancias, baralhando os dados simples da realidade.É confundir o «meu» espanto,encantamento, interrogação ou medo com a essência da Realidade e da Verdade.
Literalmente, esquece-se como tudo começou.
Ninguém, de boa fé, pode negar esta evidencia: no principio era a filosofia.
Se disserem «no principio era a paixão», também vale.
O resto, um vastíssimo e valioso património da humanidade, são apenas interpretações. Neste património se incluem as religiões, as teologias, as "filosofias". Também o cristianismo e o budismo, traduzidos em catedrais de pedra e pensamento.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
As Sombras de Platão, as Abstracções de Aristóteles e as Convenções do Luis
E não será a nossa condição humana, olhando o mundo com olhos de ver, uma ilusão? (Citando o Luís)
Por mais voltas que se dê ao texto, no contexto da história da filosofia, ao longo dos últimos 2500 anos, é da mesma realidade que se trata quando falamos das «sombras», «abstracções» ou das “verdades convencionadas”.
Imagino-me numa viagem a Lisboa ou à Grande Lisboa e aí encontro e reconheço, entre dois milhões de pessoas, o meu filho Tiago. Imaginemos ainda que o encontro, reconheço e observo, mas não me manifesto. O Tiago continuará a ser apenas mais uma entre dois milhões de pessoas. A minha presença ali, naquele dia e naquela hora, apesar da novidade absoluta, que foi o reconhecimento do meu filho, em nada altera a realidade tal como a encontrei.
Claro que estou a simplificar, porque a minha presença ali altera um sem numero de coisas, desde o oxigénio da atmosfera que consumo, até à infeliz formiga que o meu sapato inconsciente esmaga.
De facto, de uma forma consciente, observando e reconhecendo o Tiago ou de uma forma inconsciente, respirando o oxigénio, eu estou a interagir com a realidade.
Posso optar por dar meia volta e regressar ao Minho ou ir ao encontro do meu Tiago e abraça-lo efusivamente. Como posso deixar tranquilamente a Grande Lisboa ou lançar fogo à «terra dos mouros».
Fica evidente que só interagindo com a realidade, de uma forma ou de outra, essa mesma realidade sai da «sombra» de Platão, da «abstracção» de Aristóteles ou da «verdade convencionada» do Luís.
Pela acção e pela interacção, quebra-se a magia pura da observação e expomo-nos ao choque que resulta do encontro com a realidade.
A emoção de abraçar o Tiago, o desastre do meu sapato sobre a formiga, a devastação levada pela minha mão incendiária à «terra dos mouros» não permitirá, jamais, a confusão entre observar, reconhecer e agir nem tão pouco insistir na ideia infundada de que o «mundo é uma ilusão».
O Tiago não deixará de estar presente na grande Lisboa, se de facto lá estiver, quer eu o encontre ou não, nem a formiga nem a «terra dos mouros». É tão verdadeiro que se eu não me deslocar lá não vou interferir com nada nem provocar alterações na realidade, como é verdadeiro que se eu fizer a viagem posso desencadear a emoção e a transformação do meio. Nem que seja, apenas, pelo simples consumo do oxigénio da atmosfera.
Não há trabalho especulativo consistente se for desligado, por um instante que seja, do conteúdo das «sombras», das «abstracções» ou das «convenções» do nosso Luís. Seja qual for esse «conteúdo». E aqui é que reside o mistério do universo com que nos deparamos. É que esse «conteúdo» confunde-nos pela sua grandeza e complexidade.
Mas que não seja essa grandeza e complexidade o motivo para desisti do «encontro» com a realidade, desanimando, rendidos, desiludidos ou simplesmente feridos no orgulho, para proclamar que tudo não passa de uma ilusão.
A formiga não vai ganhar nada ser ignorada e esmagada pelo meu sapato. E se o Tiago souber que estive em Lisboa e não lhe «passei cartão», não vai gostar nem um pouco.
E agora imaginem que, inadvertidamente, esmaguei a última das formigas do planeta Terra!
Àqueles que de uma forma tão ligeira confundem a realidade com o nosso encontro ou desencontro com ela, pensem no que acontece quando deixarmos de interagir com o oxigénio! Lá se vão as «sombras», as «abstracções» e todas as verdades convencionadas.
Por mais voltas que se dê ao texto, no contexto da história da filosofia, ao longo dos últimos 2500 anos, é da mesma realidade que se trata quando falamos das «sombras», «abstracções» ou das “verdades convencionadas”.
Imagino-me numa viagem a Lisboa ou à Grande Lisboa e aí encontro e reconheço, entre dois milhões de pessoas, o meu filho Tiago. Imaginemos ainda que o encontro, reconheço e observo, mas não me manifesto. O Tiago continuará a ser apenas mais uma entre dois milhões de pessoas. A minha presença ali, naquele dia e naquela hora, apesar da novidade absoluta, que foi o reconhecimento do meu filho, em nada altera a realidade tal como a encontrei.
Claro que estou a simplificar, porque a minha presença ali altera um sem numero de coisas, desde o oxigénio da atmosfera que consumo, até à infeliz formiga que o meu sapato inconsciente esmaga.
De facto, de uma forma consciente, observando e reconhecendo o Tiago ou de uma forma inconsciente, respirando o oxigénio, eu estou a interagir com a realidade.
Posso optar por dar meia volta e regressar ao Minho ou ir ao encontro do meu Tiago e abraça-lo efusivamente. Como posso deixar tranquilamente a Grande Lisboa ou lançar fogo à «terra dos mouros».
Fica evidente que só interagindo com a realidade, de uma forma ou de outra, essa mesma realidade sai da «sombra» de Platão, da «abstracção» de Aristóteles ou da «verdade convencionada» do Luís.
Pela acção e pela interacção, quebra-se a magia pura da observação e expomo-nos ao choque que resulta do encontro com a realidade.
A emoção de abraçar o Tiago, o desastre do meu sapato sobre a formiga, a devastação levada pela minha mão incendiária à «terra dos mouros» não permitirá, jamais, a confusão entre observar, reconhecer e agir nem tão pouco insistir na ideia infundada de que o «mundo é uma ilusão».
O Tiago não deixará de estar presente na grande Lisboa, se de facto lá estiver, quer eu o encontre ou não, nem a formiga nem a «terra dos mouros». É tão verdadeiro que se eu não me deslocar lá não vou interferir com nada nem provocar alterações na realidade, como é verdadeiro que se eu fizer a viagem posso desencadear a emoção e a transformação do meio. Nem que seja, apenas, pelo simples consumo do oxigénio da atmosfera.
Não há trabalho especulativo consistente se for desligado, por um instante que seja, do conteúdo das «sombras», das «abstracções» ou das «convenções» do nosso Luís. Seja qual for esse «conteúdo». E aqui é que reside o mistério do universo com que nos deparamos. É que esse «conteúdo» confunde-nos pela sua grandeza e complexidade.
Mas que não seja essa grandeza e complexidade o motivo para desisti do «encontro» com a realidade, desanimando, rendidos, desiludidos ou simplesmente feridos no orgulho, para proclamar que tudo não passa de uma ilusão.
A formiga não vai ganhar nada ser ignorada e esmagada pelo meu sapato. E se o Tiago souber que estive em Lisboa e não lhe «passei cartão», não vai gostar nem um pouco.
E agora imaginem que, inadvertidamente, esmaguei a última das formigas do planeta Terra!
Àqueles que de uma forma tão ligeira confundem a realidade com o nosso encontro ou desencontro com ela, pensem no que acontece quando deixarmos de interagir com o oxigénio! Lá se vão as «sombras», as «abstracções» e todas as verdades convencionadas.
A Ilusão do Budismo
«Ao vivenciarem a realidade absoluta - onde não se aplicam as fronteiras convencionadas que definem os objectos, as coisas do mundo material (o único que existe, aliás) - não estarão para lá do sofrimento e, por fim, para lá até do budismo». (Citando o Luis)
R. Com certeza que sim, Luís. Estão, de facto, para lá do sofrimento e até do budismo.O problema é que estão, também, para lá da realidade.
Qualquer ser humano que conserve a sua consciência, distingue-se de um ser inconsciente e este, sim, está para lá do sofrimento, do budismo e de muito mais. E o ser humano, quanto mais consciente estiver desta sua condição, mais exposto está ao sofrimento, nem que seja sob a forma da simples inquietação, que pode não ser tão simples como isso, se vier a tornar-se na inquietação existencial última:
qual o sentido da minha existência?
Mas não será preciso chegar a tanto para deixar a descoberto a falácia da imperturbabilidade budista e consequente plena auto-satisfação. É que não vejo como um ser consciente da dádiva da vida, imediatamente referida aos seus progenitores, mas logo extensiva a toda a sociedade, pode ter garantida a superação do sofrimento próprio sem que o sofrimento alheio não perturbe pela raiz a sua auto- satisfação e coloque em causa a sua felicidade.
Numa palavra: como posso permanecer imperturbável perante o sofrimento alheio e pensar que conseguirei, isoladamente, o êxtase da felicidade?
O budismo há muito que se aproximou da certeza desta incompatibilidade e daí a sua dedicação à causa da paz universal. E neste «universal» está incluída a própria natureza «morta».
O que fascina no budismo é esta dupla maravilha: meditação profunda sobre a nossa realidade mais íntima, desvalorizando o que é superficial e efémero e a busca da paz, querendo abraçar o mundo na sua totalidade.
O que desilude no budismo é a fuga radical da realidade, que nos serve um mundo em contínua transformação, que genericamente podemos designar por «sofrimento», como que em «dores de parto», onde tudo está em altíssima convulsão desde o «Big Bang».
No mesmo instante em que, na paz merecida de uma meditação bem conduzida, cem mil monges atingem o êxtase sublime, um tsunami tão inesperado quanto devastador, mergulha a todos no silencio da morte.
Esta é que é a realidade a ter em conta!
R. Com certeza que sim, Luís. Estão, de facto, para lá do sofrimento e até do budismo.O problema é que estão, também, para lá da realidade.
Qualquer ser humano que conserve a sua consciência, distingue-se de um ser inconsciente e este, sim, está para lá do sofrimento, do budismo e de muito mais. E o ser humano, quanto mais consciente estiver desta sua condição, mais exposto está ao sofrimento, nem que seja sob a forma da simples inquietação, que pode não ser tão simples como isso, se vier a tornar-se na inquietação existencial última:
qual o sentido da minha existência?
Mas não será preciso chegar a tanto para deixar a descoberto a falácia da imperturbabilidade budista e consequente plena auto-satisfação. É que não vejo como um ser consciente da dádiva da vida, imediatamente referida aos seus progenitores, mas logo extensiva a toda a sociedade, pode ter garantida a superação do sofrimento próprio sem que o sofrimento alheio não perturbe pela raiz a sua auto- satisfação e coloque em causa a sua felicidade.
Numa palavra: como posso permanecer imperturbável perante o sofrimento alheio e pensar que conseguirei, isoladamente, o êxtase da felicidade?
O budismo há muito que se aproximou da certeza desta incompatibilidade e daí a sua dedicação à causa da paz universal. E neste «universal» está incluída a própria natureza «morta».
O que fascina no budismo é esta dupla maravilha: meditação profunda sobre a nossa realidade mais íntima, desvalorizando o que é superficial e efémero e a busca da paz, querendo abraçar o mundo na sua totalidade.
O que desilude no budismo é a fuga radical da realidade, que nos serve um mundo em contínua transformação, que genericamente podemos designar por «sofrimento», como que em «dores de parto», onde tudo está em altíssima convulsão desde o «Big Bang».
No mesmo instante em que, na paz merecida de uma meditação bem conduzida, cem mil monges atingem o êxtase sublime, um tsunami tão inesperado quanto devastador, mergulha a todos no silencio da morte.
Esta é que é a realidade a ter em conta!
sábado, 22 de maio de 2010
O Monge e o Filósofo
Vai estar em Lisboa, para uma conferencia, um dos autores (o filho) da obra em título, o monge budista Matthieu Ricard.É francês e filho do famoso filósofo Jean François Revel. O livro nasceu da conversa entre ambos. O pai é filósofo ateu, o filho cientista das ciências genéticas, convertido ao budismo.
Acabei de ler alguns trechos da obra. São palavras do monge a definir o budismo. Graças ao meu amigo Luís, não fui apanhado desprevenido com afirmações como esta:
” O sofrimento resulta da ignorância. Portanto é a ignorância que preciso dissipar. E a ignorância, em essência, é o apego ao “eu” e à solidez dos fenómenos. Aliviar os sofrimentos imediatos de outrem é um dever, mas não basta: é preciso remediar as causas do próprio sofrimento.”
Não sei o que o pai filósofo terá dito para contraditar uma ideia destas. Nem sei, sequer, se rebateu a ideia. Mas eu discordo frontalmente do monge. Começo logo por pensar que a felicidade não se consegue dissipando o sofrimento e nem este resulta da ignorância. O sofrimento da mulher que dá à luz não resulta da ignorância e o que dele resulta é a felicidade de uma nova vida.
Tanto meditam estes monges budistas e não dão conta das realidades mais elementares.
Se não é deste sofrimento que falam, do parto da mulher, de que outros sofrimentos falam? Da unha encravada, do desgosto por não ter ganho o euro milhões ou de ter perdido o campeonato de futebol?
O sofrimento existe como forma de crescimento e como parte integrante da nossa condição humana. Será superado apenas na medida em que criarmos uma realidade nova, onde ele já não possa desempenhar função útil. Acabaremos por dispensar o sofrimento, como dispensamos o rabicho ao fundo das costas. Poderá é levar tanto tempo como levamos a perder a cauda.
Os fenómenos que ditam o sofrimento são sólidos, tangíveis, inteligíveis e transformáveis. A mulher que dá à luz não se debate com o fantasma do sofrimento. Nem o adepto sportinguista sofreria «pra burro» ano após ano, à espera de ganhar o campeonato, se a realíssima e reluzente taça não fosse entregue quatro anos seguidos ao FCP e neste último ano ao SLB.
Haverá sempre uma réstia de sofrimento enquanto houver em nós uma réstia de sonho. E quando deixarmos de sonhar é porque já estamos mortos e falta só fechar os olhos.
É mesmo assim, como dizias, Luís, «com um olho no finito e outro no infinito».
É um sofrimento quase deleitoso. Pode-se morrer serenamente, balançando sobre esta existência paradoxal.
Acabei de ler alguns trechos da obra. São palavras do monge a definir o budismo. Graças ao meu amigo Luís, não fui apanhado desprevenido com afirmações como esta:
” O sofrimento resulta da ignorância. Portanto é a ignorância que preciso dissipar. E a ignorância, em essência, é o apego ao “eu” e à solidez dos fenómenos. Aliviar os sofrimentos imediatos de outrem é um dever, mas não basta: é preciso remediar as causas do próprio sofrimento.”
Não sei o que o pai filósofo terá dito para contraditar uma ideia destas. Nem sei, sequer, se rebateu a ideia. Mas eu discordo frontalmente do monge. Começo logo por pensar que a felicidade não se consegue dissipando o sofrimento e nem este resulta da ignorância. O sofrimento da mulher que dá à luz não resulta da ignorância e o que dele resulta é a felicidade de uma nova vida.
Tanto meditam estes monges budistas e não dão conta das realidades mais elementares.
Se não é deste sofrimento que falam, do parto da mulher, de que outros sofrimentos falam? Da unha encravada, do desgosto por não ter ganho o euro milhões ou de ter perdido o campeonato de futebol?
O sofrimento existe como forma de crescimento e como parte integrante da nossa condição humana. Será superado apenas na medida em que criarmos uma realidade nova, onde ele já não possa desempenhar função útil. Acabaremos por dispensar o sofrimento, como dispensamos o rabicho ao fundo das costas. Poderá é levar tanto tempo como levamos a perder a cauda.
Os fenómenos que ditam o sofrimento são sólidos, tangíveis, inteligíveis e transformáveis. A mulher que dá à luz não se debate com o fantasma do sofrimento. Nem o adepto sportinguista sofreria «pra burro» ano após ano, à espera de ganhar o campeonato, se a realíssima e reluzente taça não fosse entregue quatro anos seguidos ao FCP e neste último ano ao SLB.
Haverá sempre uma réstia de sofrimento enquanto houver em nós uma réstia de sonho. E quando deixarmos de sonhar é porque já estamos mortos e falta só fechar os olhos.
É mesmo assim, como dizias, Luís, «com um olho no finito e outro no infinito».
É um sofrimento quase deleitoso. Pode-se morrer serenamente, balançando sobre esta existência paradoxal.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Se Eu Tivesse Alma De Budista
Se eu tivesse alma de budista suportaria pacientemente, passivamente, humildemente, calmamente, estoicamente os insultos e incompreensões.
Se tivesse conseguido um grau elevado na meditação e anulação do meu próprio “eu”, afinal, a fonte de todos os meus sofrimentos, nem poderia falar em suportar, porque os insultos já não me poderiam atingir.
Digo isto, quando penso no blog da aaacarmelitas, com o qual deixei de colaborar. As palavras degradáveis que foram dirigidas a mim e a amigos meus poderiam ser esquecidas ou até desprezadas.
Se tivesse alma de budista, tais palavras poderiam, quiçá, não apenas ser objecto de compreensão mas serem contributo para o meu aperfeiçoamento.
Acontece que eu «sou filho de uma mãe doente» e fugi, porque a pancada doeu. Não contente com a simples fuga, ainda dei algum “troco”, murmurando como os meus botões «toma lá que é para saberes como elas mordem».
Se eu tivesse alma de budista…Mas não tenho, nem quero ter. Quero ter a alma que tenho, de levar pancada e dar pancada, de criticar e ser criticado, de errar e sofrer com os meus erros, olhando sempre em frente, esforçando-me por não cometer amanhã os erros de hoje. E se não for por um motivo mais “nobre”, que seja pelo mais simples e utilitário motivo: sofrer menos e progredir melhor.
Exactamente como faz a ciência! Com infinita, mas activíssima paciência.
Porque não tenho alma de budista, não vou permanecer num espaço que não me respeita e onde eu não vejo como fazer-me respeitar, porque se entrou num diálogo de surdos.
Mude-se o palco e os actores para ajudar a “descomprimir”. Quem sabe, com outros interlocutores, todos acabem por dar uns passinhos em frente, na via da nossa humanização. Às vezes, fugir é a melhor solução, para começar de novo, noutro lugar e com outras pessoas. Como num divórcio, para que acabe um casamento e se salvem os divorciados.
Experimente-se uma e outra vez e todas as que forem necessárias. Errando as vezes que se tiver de errar. Se for possível o diálogo, siga-se a norma imprescindível para caminhar em direcção à perfeição: corrigir os que erram. E vale para todos, como quem diz, eu corrijo-te, tu corriges-me, nós corrigimo-nos. E se alguém não quiser falar contigo, vai ter com quem o queira fazer. Mas não pares.
Sobretudo não fiques em silêncio!
O “pensamento” budista é praticamente irrepreensível. Está perfeito na sua intencionalidade e por isso seduz quem toma contacto com ele. Mas encerra, dentro de si, uma contradição insanável: como pode o homem comportar-se como um puro espírito ou tentar transformar-se em tal, se é a sua “materialidade” que produz a sua “espiritualidade”?
Enquanto não se aceitar esta verdade primordial, que a ciência vai deixando cada vez mais a descoberto, quem procurar «encontrar-se», «apesar do corpo», só contribuirá para escavar o fosso que o separa da sua própria realidade.
Para onde eu for, a minha materialidade terá de ir junto, porque sem ela «eu não sou».
O primeiro grande equívoco do budismo é sonhar que se pode, no espaço de uma vida, transitar da «materialidade» para a «imaterialidade». E o segundo é pensar que tal se consegue pela meditação, numa curta, intensa e dedicada viagem ao interior de si próprio. E enganando-se, de novo, pensando que "lá" chegaram sem o corpo-cérebro!
Será que o budista não se dá conta que nesse “interior” apenas encontra a paz que é a ante-câmera dos cemitérios?
Se tivesse conseguido um grau elevado na meditação e anulação do meu próprio “eu”, afinal, a fonte de todos os meus sofrimentos, nem poderia falar em suportar, porque os insultos já não me poderiam atingir.
Digo isto, quando penso no blog da aaacarmelitas, com o qual deixei de colaborar. As palavras degradáveis que foram dirigidas a mim e a amigos meus poderiam ser esquecidas ou até desprezadas.
Se tivesse alma de budista, tais palavras poderiam, quiçá, não apenas ser objecto de compreensão mas serem contributo para o meu aperfeiçoamento.
Acontece que eu «sou filho de uma mãe doente» e fugi, porque a pancada doeu. Não contente com a simples fuga, ainda dei algum “troco”, murmurando como os meus botões «toma lá que é para saberes como elas mordem».
Se eu tivesse alma de budista…Mas não tenho, nem quero ter. Quero ter a alma que tenho, de levar pancada e dar pancada, de criticar e ser criticado, de errar e sofrer com os meus erros, olhando sempre em frente, esforçando-me por não cometer amanhã os erros de hoje. E se não for por um motivo mais “nobre”, que seja pelo mais simples e utilitário motivo: sofrer menos e progredir melhor.
Exactamente como faz a ciência! Com infinita, mas activíssima paciência.
Porque não tenho alma de budista, não vou permanecer num espaço que não me respeita e onde eu não vejo como fazer-me respeitar, porque se entrou num diálogo de surdos.
Mude-se o palco e os actores para ajudar a “descomprimir”. Quem sabe, com outros interlocutores, todos acabem por dar uns passinhos em frente, na via da nossa humanização. Às vezes, fugir é a melhor solução, para começar de novo, noutro lugar e com outras pessoas. Como num divórcio, para que acabe um casamento e se salvem os divorciados.
Experimente-se uma e outra vez e todas as que forem necessárias. Errando as vezes que se tiver de errar. Se for possível o diálogo, siga-se a norma imprescindível para caminhar em direcção à perfeição: corrigir os que erram. E vale para todos, como quem diz, eu corrijo-te, tu corriges-me, nós corrigimo-nos. E se alguém não quiser falar contigo, vai ter com quem o queira fazer. Mas não pares.
Sobretudo não fiques em silêncio!
O “pensamento” budista é praticamente irrepreensível. Está perfeito na sua intencionalidade e por isso seduz quem toma contacto com ele. Mas encerra, dentro de si, uma contradição insanável: como pode o homem comportar-se como um puro espírito ou tentar transformar-se em tal, se é a sua “materialidade” que produz a sua “espiritualidade”?
Enquanto não se aceitar esta verdade primordial, que a ciência vai deixando cada vez mais a descoberto, quem procurar «encontrar-se», «apesar do corpo», só contribuirá para escavar o fosso que o separa da sua própria realidade.
Para onde eu for, a minha materialidade terá de ir junto, porque sem ela «eu não sou».
O primeiro grande equívoco do budismo é sonhar que se pode, no espaço de uma vida, transitar da «materialidade» para a «imaterialidade». E o segundo é pensar que tal se consegue pela meditação, numa curta, intensa e dedicada viagem ao interior de si próprio. E enganando-se, de novo, pensando que "lá" chegaram sem o corpo-cérebro!
Será que o budista não se dá conta que nesse “interior” apenas encontra a paz que é a ante-câmera dos cemitérios?
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