Em vez de falar-se em «pensamento» budista será mais apropriado falar em «convicções budistas». Porque o pensamento, qualquer que ele seja, é o discurso sobre a realidade ou o que se julga ser a realidade. Para o budismo, o que chamamos realidade não é mais do que aquilo que nós pensamos acerca dela. E é neste sentido que o Luís refere num dos seus comentários ao penúltimo post, que nem «eu» próprio, enquanto fazedor de pensamentos sobre a realidade, sou, intrinsecamente, real.
A compreensão deste facto é a iluminação definitiva, é quando se atinge o Nirvana.
Traduzindo o que se pretende afirmar no budismo: eu sou nada e, quando perceber isso, é que sou realmente…alguma coisa!
Talvez um «eu» feito de iluminação pura
Decorre desta convicção que, procurar explicações para o nosso destino e para o destino do universo ou, ainda, se nós temos um destino ou o que é tudo isso e mais alguma coisa, é um inútil e desvairado propósito que só acrescenta sofrimento à nossa já sofredora humana condição.
Para escapar a esta verdadeira maldição humana do sofrimento, Buda aponta o caminho de um desapego progressivo de tudo até à extinção, em nós, do simples desejo de formular perguntas. E este desejo de conhecer parece ser o último resquício da existência de um «eu» que se quer completamente anulado.
Notemos então: a vontade de conhecer, que foi a mola impulsionadora de toda a nossa civilização «cristã ocidental» é, para o budismo, não a mãe do sofrimento, porque o sofrimento precede o pensamento, mas um cúmulo de desgraça humana.
Nada de novo, se pensarmos na belíssima alegoria do paraíso de Adão e Eva. Estes pais da humanidade, cedendo à tentação de comer o fruto da «árvore do conhecimento» arranjaram uma bela carga de trabalhos para a desgraçada prole.
O autor do paraíso perdido de Adão e Eva explica porque existe o sofrimento. O budismo entende que o sofrimento não é para ser explicado, mas anulado. O problema, na minha perspectiva, é que se despeja o bebé com a água do banho, por esta simples razão: o homem "é" intrinsecamente, e é "intrinsecamente" sofredor, se entendermos que sofrimento significa “mudança”ou “transformação”. E o nosso Universo anda em “sofrimento” pelo menos desde o Big Bang.
E o «eu» que o budismo pretende anular com o seu Nirvana sabe perfeitamente o que se está a passar. E por saber tal, transforma em deleite o que Buda chama de sofrimento, empolgando-se e, esquecido do curto tempo que dura a sua consciente aventura individual, lança-se a caminho das estrelas.
Verdadeiramente, só queremos deixar o sofrimento budista se isso servir os nossos sonhos mais profundos.
Convivemos bem com o «contentamento descontente» de Camões e o nosso rosto ilumina-se de felicidade quando encontra o olhar do nosso amor. Ia apostar que não há Nirvana que se lhe compare. Nunca me descobri tão plenamente «eu» como no dia em que comecei a ouvir uma voz divinamente meiga a sussurrar-me: meu amor. Não troco esta presença amorosa por iluminação nenhuma deste mundo e de todos os outros. E só desejo que tudo o que descobrirmos e inventarmos com o nosso génio humano seja para tornar mais intensa, perfeita e duradoura a presença dos que nos amam e nós amamos.
Dizia o Luís, repetindo palavras do budismo: «se tens fome, come; se tens sede bebe…».
Chega a ser deprimente, no budismo, a ideia do sentido «utilitário» das coisas. Comer, beber, fazer sexo, vestir, calçar, tudo é sempre encarado numa perspectiva individualista. Tudo deve estar ao «serviço» da “minha” iluminação. Tal atitude pressupõe uma filosofia que pensa o homem como indivíduo solitário face ao universo. Acontece que nós descobrimos alguém e fomos descobertos por alguém e formamos um trio inseparável: eu, tu e o universo. Por isso, quando comemos, bebemos, fazemos sexo e nos enfeitamos; ou pensamos, sonhamos e investigamos, estamos a fazê-lo para os outros e com os outros. É por essa razão que fazemos a festa da vida, sinalizando a nossa presença uns aos outros. O amor é o culminar da festa humana. E não nos conformamos que dure apenas o espaço de uma vida. É um doce sofrimento este inconformismo. E nós temos uma palavra divina para o expressar: saudade.
È uma palavra que só o amor sabe dizer.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
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Uma manifesta e incontornável falta de tempo não me permite comentar de forma séria. Mas tenho de deixar uma achega.
ResponderEliminarO Budismo não pode ser individualismo, se o que prega é a extinção do "eu"... ainda não é isso. O Budismo é amor compassivo, no sentido de hiper-solidariedade para com os outros, já que não há, fundamentalmente, distinção entre os outros e nós próprios.
Time out!
«O Budismo é amor compassivo, no sentido de hiper-solidariedade para com os outros, já que não há, fundamentalmente, distinção entre os outros e nós próprios».
ResponderEliminarDefines e dizes, Luis. Significa exactamente que amamos do memo modo um homem e um cão ou o mar e as estrelas. Este amor busista "compassivo" também não distingue entre o amor a si próprio e o amor aos outros porque somos um «uno indissociável».
A grande pedrada no charco que é o pensamento cristão reside na afirmação da alteridade não só entre mim e ti mas entre nós e o próprio universo "insconsciente". A tal trindade de que eu falei.
Nem eu e tu nos confundimos um com o outro, nem mergulhamos cegamente no infinito universo. Porque quando acontecer esse mergulho inevitável que parece fundir-nos com o universo, já não serei "eu" quem mergulha. Esta minha e tua preciosa alteridade parece esfumar-se na hora da morte. Vai-se, com a inacreditável vida consciente, o que me distinguia de ti, de um cão e de uma estrela. E não me perguntes o que acontece depois, «porque de lá não vêm cartas», como dizia a minha avó Ana Rosa.
Mas até chegar essa hora derradeira do juizo final, eu sei que não sou o Luis nem o Tiago e vocês sabem que este côdeas não tem nada a ver com a vossa excelsa personalidade. E é a surpresa dessa vossa excelsa condição que me faz amar-vos de uma forma única, por saber que é o "confronto" de dois gigantescos seres conscientes. Tão gigantescos que abraçam todo o mundo "observado" num só relance, transcendendo o tempo e o espaço,
ao mesmo tempo que sabem o que estão a ver e o lugar que ocupam no infinito que os fascina.
Se eu puder um dia amar um cão como amo a pessoa consciente...isso quer dizer que o cão evoluiu atè à humanidade, como quem diz, até perceber quem eu sou e quem ele é.
Nesse dia, e sem a menor ofensa, até lhe posso chamar Luis...
Voltando à carga: não é a existência ou vida em si mesma que me torna um ser único, mas a consciência de o ser. Somos um emissor-receptor como qualquer ser vivo ou qualquer ser inerte. O que nos torna diferentes é conhecer essa nossa realidade e a realidade de todos os outros seres. Nesta perspectiva, quanto mais se acentuar esta nossa capacidade de emissores-receptores-conscientes mais nos humanizamos, aproximando-nos não de uma fusão na universalidade pela anulação do «eu» mas de uma personalização crescente que nos distingue sempre mais e nos aproxima nessa mesma medida porque aumenta o nivel de comunicação emissor-receptor.
ResponderEliminarMaior campatibilidade dos emissores-receptores, maior simpatia, mais amor na originalidade de cada um.
Tudo o que nós eu façamos, sê-lo-a para aperfeiçoar a comunicação entre emissores-receptores-cosncientes e não para nos fundirmos num único ser, mesmo que infinito, porque seria um infinito e silencioso destino.
Não me seduz nem um pouco ter como objectivo, nesta nossa vida, reduzir-nos a um inerte e anónimo bloco de uma gigantesca construção tão anónima e tão inerne quanto cada um dos seres que a sustentam.
A solidariedade do budista parece-se muito com dois blocos de cimentos, solidários para sustentar a construção...Tão radicalmente solidários que nada os diferencia.
E posso perguntar: anulam a sua «personalidade» em função de quê? Tavez para acabar com o sofrimento, as dúvidas, os medos, os desejos.
Tudo pela negativa! Mesmo assim conseguem passar nos testes como os homens mais felizes do planeta. (Talvez porque se aproximam, perigosamente, do nivel da inconsciência)
São felizes "assim" e nem precisaram de ir ao espaço pra verem, lá de cima, o planeta azul e lindo que é a Terra.
O que aqueles infelizes astronautas sofreram para lá chegar. Se tivessem pensado bem, iam ter com o Dalai Lama.
Os budistas não têm sonhos e a sua ascese consiste exactamente em baní-los da sua mente. Tudo o que desejam é desaparecer no abismo, como gota num imenso oceano, deixando de ser «gota» para ser apenas a grande massa de água.OH2, cientifica e prosaicamente.