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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Budismo e Cristianismo. Outra Vez

Segundo «critérios neurológicos», como diz o Luis, Matthieu Ricard foi considerado o homem mais feliz do planeta. Tenho curiosidade em saber se a Madre Teresa de Calcutá entrou no teste-concurso.
Mas hoje não é por aqui que pretendo ir.
Diz-se do budismo que este não é nem religião, nem filosofia, nem teologia. E também já encontramos cristãos a afirmar que o cristianismo não é uma religião nem uma filosofia. Mas estes últimos afirmam, claramente, que o cristianismo é uma teologia.
Não sei porque se há-se pensar que a filosofia é alheia ao budismo e ao cristianismo. De facto, a filosofia, na sua essência, é o primeiro movimento da mente humana e da consciência humana face ao grandioso espectáculo que se lhe depara, que é a festa e o drama da vida e o universo onde eles se desenrolam. Espanto, encantamento e também todos os medos e todas as interrogações.
É isto que eu entendo por filosofia.
Os discursos produzidos por séculos de interrogações são a «história da filosofia» e o museu precioso, onde sentimos o pulsar da alma dos nossos antepassados. Vibramos com pensamento de Platão ou Aristóteles como nos deslumbramos perante a magia das catedrais.
Também nos comovemos profundamente perante a alma patenteada do budista e do cristão.
O que eu pretendo dizer, com todo este intróito, é que os «movimentos» da alma budista e cristã emergiram da mais pura filosofia.
Separar estes movimentos da alma humana daquele primordial,espontâneo e real encontro com a vida e o universo - a filosofia - é criar mistificações para «levar a água ao seu moinho». E isto significa, na prática, criar barreiras e distancias, baralhando os dados simples da realidade.É confundir o «meu» espanto,encantamento, interrogação ou medo com a essência da Realidade e da Verdade.
Literalmente, esquece-se como tudo começou.
Ninguém, de boa fé, pode negar esta evidencia: no principio era a filosofia.
Se disserem «no principio era a paixão», também vale.
O resto, um vastíssimo e valioso património da humanidade, são apenas interpretações. Neste património se incluem as religiões, as teologias, as "filosofias". Também o cristianismo e o budismo, traduzidos em catedrais de pedra e pensamento.

sábado, 5 de junho de 2010

O Meu Quadro Negro «Pedralhães»

«Em miúdo eu tive um PEDRALHÃES, com monitor de 12 polegadas !... E sei a tabuada, fazer contas de cabeça e escrevo sem erros!!!!!...Ganda máquina aquela !!...»

Recebi, por e-mail, da minha amiga BEBE. Respondi-lhe a dar-lhe conta do meu «pedralhães»...

Olá BEBE

Em miúdo eu também tive um «pedralhães». Também aprendi a tabuada toda, de cor e salteado, decorei rios e montanhas de Portugal a Timor, mais os nomes e cognomes dos réis das nossas dinastias. E muito mais.
Quando passo junto ao edifício que foi a minha escola primária, aqui em Balugães, sinto ainda uma leve comoção de ternura pela minha infância.
Quando era miúdo, havia crianças e idosos a pedir de porta em porta e morria-se por não ter dinheiro para comprar uma «pastilha» no boticário, para fazer baixar a febre.
Quando era miúdo, trabalhava-se no campo de sol a sol e as moças cantavam pelos caminhos enquanto tangiam o gado para os pastos ou no regresso aos currais.
Quando era miúdo havia desfolhadas animadas com sardinha assada, vinho verde tinto a sair da pipa e desgarradas marotas.
Quando era miúdo, uma junta de bois, espicaçada pelos aguilhões das varas, arrastava-se, mesmo assim, um dia inteiro, para lavrar um pequeno campo. E o lavrador derretia-se em suor, guiando o arado.
Quando era miúdo, nos campos só havia férias se faltava o trabalho.
Quando era miúdo, jantava-se à luz da vela e éramos todos muito felizes, os que tínhamos pão para colocar sobre a mesa.
E era o «pedralhães» na escola, mais a «pena» com aparo de molhar no tinteiro e os livros herdados dos irmãos mais velhos. Numa escola gelada no inverno, quatro classes para a mesma professora, ao mesmo tempo e na mesma sala.
Todo este passado é meu e não o troco por coisa nenhuma desta vida.
Mas encanta-me ver um sobrinho neto, de quatro anos, ensinar o avô a trabalhar com o «menu» de um telemóvel.
Imagino o que esta criança não fará, aos seis anos, quando tiver nas mãos o tão vilipendiado «magalhães».
Mesmo antes de saber fazer contas de cabeça, viaja pelo mundo numa linguagem universal.
Amo a infância que sou, tanto como o momento que vivo. Ninguém me verá parado no passado porque eu venho de lá, é verdade, mas trouxe-o todo comigo.
E é a contar com esse passado que construo o futuro que ainda sonho.

Um abraço
Mário

terça-feira, 18 de maio de 2010

Lugares da minha infância

Laje Negra, penedo da peneirada,pocinho, ponte das tábuas, fonte da cal, lugar do souto, etc
Nas férias de verão, na páscoa percorremos o monte e estes lugares inúmeras vezes, contavam-se histórias de outros tempos, o porquê dos nomes, mas hoje lembro-me de poucos.
Seria de veras um trabalho interessante fazer um levantamento dos nomes dos lugares de Balugães, das possíveis origens dos mesmos e das histórias associadas.

domingo, 16 de maio de 2010

Laje Negra, Porquê

Apenas um lugar situado no monte da minha pequena aldeia de Balugães, onde se destaca uma laje de granito escurecida pelo tempo e que a pequenada havia transformado num improvisado escorrega.
Ainda hoje costumo subir o monte, perguntando, ás vezes, inquieto, se a extracção de pedra que já se fez nas suas proximidades não acabará por levar a “nossa” Laje Negra.
Quando lá subo, é como se retornasse aos dias de infância. Não é para escorregar, porque não tenho idade para essas folias, mas aproveito para descer o olhar até à planura dos campos da Agra, por onde serpenteia o rio Neiva, sereno, quase preguiçoso, sem pressa de prosseguir o seu curso até ao Atlântico, dali tão perto.

sábado, 15 de maio de 2010

Conde da Laje Negra

O "Conde da Laje Negra" é uma anedota do boticário cá da terrinha, «o Sr Marques da Farmácia», falecido há mais de quarenta anos.
Contaram-me que o meu avô Neiva lhe estava a sugerir ascendências de nobrezas tão antigas como a Sé de Braga e que, supostamente, ele carregava no sangue e no apelido Neiva.
Homem inteligente, bom e brincalhão, o boticário tomou um ar sério, perante tão subida pretensão, enquanto foi pensando nos domínios mais remotos, secos e agrestes de Balugães, para imortalizar a nobreza do João José Neiva. E vai daí, enquanto alinhava, nas prateleiras, os potes das mezinhas por ele próprio cozinhadas, decidiu distinguir o meu avô Neiva com o mui nobre título de Conde de Laje Negra.
O incauto do meu querido antepassado não se deu conta que estava, efectivamente, a descer perigosamente na escala social. Com efeito, devido ao seu desempenho habitual como figura do Rei Herodes no famoso «Baile Dos Reis», exibido anualmente na época natalícia, o povo já o proclamava de «Reir'odes». Passar de «rei» a «conde» não é propriamente uma promoção social.
O certo é que, tal como o título de conde, o de «rei» também sobreviveu para além da morte do «Baile dos Reis» e continua vivo na memória dos netos e bisnetos.