sábado, 5 de junho de 2010

O Meu Quadro Negro «Pedralhães»

«Em miúdo eu tive um PEDRALHÃES, com monitor de 12 polegadas !... E sei a tabuada, fazer contas de cabeça e escrevo sem erros!!!!!...Ganda máquina aquela !!...»

Recebi, por e-mail, da minha amiga BEBE. Respondi-lhe a dar-lhe conta do meu «pedralhães»...

Olá BEBE

Em miúdo eu também tive um «pedralhães». Também aprendi a tabuada toda, de cor e salteado, decorei rios e montanhas de Portugal a Timor, mais os nomes e cognomes dos réis das nossas dinastias. E muito mais.
Quando passo junto ao edifício que foi a minha escola primária, aqui em Balugães, sinto ainda uma leve comoção de ternura pela minha infância.
Quando era miúdo, havia crianças e idosos a pedir de porta em porta e morria-se por não ter dinheiro para comprar uma «pastilha» no boticário, para fazer baixar a febre.
Quando era miúdo, trabalhava-se no campo de sol a sol e as moças cantavam pelos caminhos enquanto tangiam o gado para os pastos ou no regresso aos currais.
Quando era miúdo havia desfolhadas animadas com sardinha assada, vinho verde tinto a sair da pipa e desgarradas marotas.
Quando era miúdo, uma junta de bois, espicaçada pelos aguilhões das varas, arrastava-se, mesmo assim, um dia inteiro, para lavrar um pequeno campo. E o lavrador derretia-se em suor, guiando o arado.
Quando era miúdo, nos campos só havia férias se faltava o trabalho.
Quando era miúdo, jantava-se à luz da vela e éramos todos muito felizes, os que tínhamos pão para colocar sobre a mesa.
E era o «pedralhães» na escola, mais a «pena» com aparo de molhar no tinteiro e os livros herdados dos irmãos mais velhos. Numa escola gelada no inverno, quatro classes para a mesma professora, ao mesmo tempo e na mesma sala.
Todo este passado é meu e não o troco por coisa nenhuma desta vida.
Mas encanta-me ver um sobrinho neto, de quatro anos, ensinar o avô a trabalhar com o «menu» de um telemóvel.
Imagino o que esta criança não fará, aos seis anos, quando tiver nas mãos o tão vilipendiado «magalhães».
Mesmo antes de saber fazer contas de cabeça, viaja pelo mundo numa linguagem universal.
Amo a infância que sou, tanto como o momento que vivo. Ninguém me verá parado no passado porque eu venho de lá, é verdade, mas trouxe-o todo comigo.
E é a contar com esse passado que construo o futuro que ainda sonho.

Um abraço
Mário

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