quinta-feira, 3 de junho de 2010

Vinho Novo Em Odres Velhos

Excertos de uma carta a um amigo ex-candidato a padre.

Sabes por experiência própria que há tanta gente, sobretudo jovem, à espera de uma palavra esclarecida sobre o nosso destino. E faz-se uma doutrinação em linguagem envelhecida, já sem significado, com a «pastoral da Igreja» a tentar encher de vinho novo, odres velhos. O resultado é uma debandada generalizada, sem que tal facto preocupe os «pastores». Esvaziaram-se os seminários e conventos, os padres escasseiam, as freiras estão em vias de extinção. A resposta dos responsáveis pela Igreja é o “deixa andar”.
Pessoalmente, e como já te disse, tal facto não me preocupa, porque penso que o que há de melhor no cristianismo, o fermento do amor entre os homens, está a levedar a massa. Os rituais religiosos, lindos e veneráveis, carregados de ensinamento, tendem a acabar, arrumadinhos nas prateleiras da História, para serem visitados e admirados como as velhas e magnificas catedrais góticas. Serão para sempre o hino da fé dos nossos avós.
E qual será o caminho, o seu “hino”, para as gentes de hoje? Vai consistir apenas em mudar o feitio das igrejas, os cânticos e as vestes sacerdotais? Vai ser a permissão do casamento dos padres e a ordenação de sacerdotisas? Mas isso não seria mais que a reedição do passado, enchendo, efectivamente, odres velhos com o vinho novo que é a pujança da jovem humanidade. Está-se a perder o vinho e os odres.
O odre velho é a Igreja nos seus rituais, nas suas vestes, nos seus «paços episcopais», nos seus conceitos de ética e moral desadequados.
No que respeita à ética e à moral o panorama é confrangedor. E não estou a referir-me apenas ao apego a uma sexualidade animalizada, invocando uma «lei natural» que ignora a evolução de milhões de anos até ao «homem-espiritual» que hoje somos. O apego “visceral” a essa pretensa «lei natural» é a fixação na ideia de que as pernas só servem para perseguir a presa, o alimento para ser combustível de um corpo, a palavra o simples substituto do primitivo grunhido para chamar ou avisar de perigos. Esquece-se, displicentemente, que o homem começou a transformou em arte a sua própria vida. E continua o percurso, criando um ser cada vez mais espiritual. Sem espiritismos tolos à mistura, expressão de filosofias ancestrais baseadas num conhecimento incipiente do homem e seu universo.

Até quando vamos continuar a levar ao engano as crianças que ainda vão à «missa», ensinando-as, em tão tenra idade, a linguagem da duplicidade? Estou a lembrar-me dos sermões e das homilias…

-Queridos irmãos e fiéis piedosos...

Era assim que o sr Prior e pregador, de Carvoeiro de Viana do Castelo, mesmo aqui ao lado de Balugães, abria sermões e homilias.
Todos sabemos que só dentro das paredes da igreja éramos irmãos. Fora de portas deste simulacro de paraíso fraterno, éramos ricos ou pobres, lavradores ou "jornaleiros", empregadores ou empregados, feios ou bonitos, doentes ou saudáveis. E, sobretudo, «cada um por si e Deus por todos».
Na nossa cabecinha de meninos começava a germinar a ideia de uma vida dupla ou de um ensinamento enganador, para não dizer mentiroso. Como se nos estivessem a ensinar a mentir.
Lembro-me que tinha um amigo de infância «pobre de pedir» a quem matei a fome algumas vezes quando ele chegava ao fim do dia sem ter comido nadinha. Ele era a prova viva de que o sr prior ou sr abade andavam a brincar às fraternidades, dentro da igreja, ao domingo e durante a homilia. A verdade, nua e crua, é que a minha sociedade de Balugães e todas as outras, se estruturaram à margem do cristianismo do amor.
Na micro sociedade que era a minha família de nove irmãos, mais um pai e uma mãe, todos comiam do que havia. Todos vestiam e calçavam de acordo com o orçamento da pequena comunidade familiar.
Esta sim, verdadeira, que a outra era uma “mentira” do senhor prior, na homilia, ao domingo.
E eu pensava que se fosse padre ia ser diferente. E queria muito ser padre. A «família cristã» tinha que ser para valer. Sonho de criança e não só, porque eu tive a percepção de que algo ia muito mal. Percebi que o catecismo ensinava o que o senhor abade não pregava. Nem o abade nem o Arcebispo de Braga, imponente, distante e luxuoso na sua visita pastoral, ao som de cânticos aclamatórios e foguetes...
Apesar de tudo, silenciosamente, o fermento foi desenvolvendo a sua acção, levedando a massa, criando estruturas fraternas e até um catecismo novo, que nós chamamos carta dos direitos do homem.
Enquanto isso, os bispos lá continuam a entreter beatas, que já têm o céu mais que ganho...
Hoje falei-te de um tempo em sonhávamos mudar a Igreja em que nascemos. Agora parece-me que já não se trata de mudar a Igreja, mas estar atento ao trabalho silencioso do fermento, poderoso fermento do amor anunciado no cristianismo. Não é por acaso, como alguém dizia, que as democracias floresceram no ocidente cristianizado.
Imperfeitas como tudo o que está em crescimento.
Levar a democracia até às últimas consequências é realizar a colheita como deve ser e encubar o vinho novo em odres novos. Guardemos como preciosas relíquias os «velhos odres», cheios durante milénios, da fé dos nossos antepassados.

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