Quem me acompanhou no que escrevi para o blog aaacarmelitas sabe que mantive um permanente confronto amigável com a ideia do «monaquismo». Há quem lhe chame «solipsismo». Significa sempre a procura individual da felicidade, seja para esta vida terrena e efémera, seja para uma outra, imortal e eterna. Em qualquer caso, o homem dobra-se sobre si mesmo, rezando e meditando, julgando que se une a Deus-Pessoal ou ao Princípio Infinito Impessoal do Ser.
Eu penso que estes solitários - «monacus=monge=solitário»- no fim da meditação acabam perdidos no labirinto dos seus pensamentos ou a andar em círculos à volta de si mesmos até ficarem adormecidos, pensando que estão a olhar para a sua mais intima realidade. Costumo dizer, por graça, que estão a olhar para o umbigo do sua existência. Pensam eles que quanto mais se aproximarem da perfeita meditação, mais imperturbáveis ficam face ao que se passa à sua volta. Amam, indiferentemente, o calhau do caminho, o gato que se enrosca no seu colo, o monge que a seu lado entra em êxtase ou o homem rude e grosseiro que o insulta.
Não sei porque se afastam do incêndio que avança na sua direcção. Logicamente, deveriam permanecer serenos e acolher o «ser» das maravilhosas chamas.
Sem saber o rumo certo, eu vou por outro caminho.
Sou cada átomo do meu «corpo-espírito». E digo assim, porque sei que sou o «corpo» que toda a gente vê e o «espírito» que a todos vós se dirige, aqui e agora. Dizem os espiritistas que o espírito não tem partículas atómicas ou sub-atómicas mas, se assim fosse, não seria eu deste mundo.
Mal por mal, prefiro acreditar que não sou uma «alma penada».
Sei que ainda suscita uma grande polémica dizer que é o meu corpo que produz o meu espírito. Mas eu prefiro isto à afirmação espírita de que somos duas entidades com principio e destino diferentes, corpo para um lado, alma para o outro. Prefiro seguir a inspiração cristã da «ressurreição». Para onde vai a alma vai o corpo junto, porque, na verdade, o ser humano é uma unidade indivisível. E como o homem foi feito do «barro da terra», que é exactamente o que significa a palavra «Adão», a ressurreição cristã engloba também «os Céus e a Terra». O mesmo é dizer que o destino do homem e do universo é um só. E nesta perspectiva cristã não existem «corpos mortais» nem «almas imortais». Morre tudo e ressuscita tudo aquilo que o homem é no seu universo. A nossa morte é o nosso «fim do mundo» individual, enquanto não chega o cataclismo universal, o derradeiro «fim do mundo» de que tanto se fala.
Eu não acompanho o cristianismo neste «fim do mundo», mas agarro com as duas mãos a ideia da unidade do homem. As ciências caminham também nessa direcção.
Porquê toda esta longa introdução? Já vão entender.
Se, à nascença, cada um de nós é uma entidade única, isso significa que recebemos, necessariamente, todas as potencialidade humanas, dos nossos progenitores e o nosso destino está indissoluvelmente ligado a terceiros (lá se vai o ideal monástico). Pelo contrário, admitindo a existência, em nós, de uma dupla entidade –um corpo+uma alma- tal ideia começa logo por secundarizar o papel dos outros na existência de cada um de nós. E a história do pensamento e das religiões está cheia de afirmações a sustentar que dos nossos pais apenas recebemos a «parte corporal», por que a alma ou é criada «na hora» por Deus e introduzida no corpo ou já existia antes do corpo porque é imortal.
O próprio cristianismo baralhou tudo e traiu muitas vezes os seus próprios dogmas. Apesar disso mantém-se fiel ao dogma da ressurreição, que só aceita o homem integral e uno.
Se aceitamos que ao nascer dependemos totalmente dos nossos pais isso só pode ter como consequência que a nossa vida está intrínseca e irremediavelmente ligada às outras pessoas. Isto significa, na prática, que nós “fazemos” os outros e os outros nos “fazem” a nós. É como se estivéssemos condenados a caminhar juntos.
Há dias um amigo meu, historiador, dizia-me que «a ciência não liberta». E eu respondi-lhe que «nem a ciência, nem arte, nem a sabedoria. Só o amor liberta».
Aquilo que começa por ser uma dependência total dos outros para nascer e dar os primeiros passos na vida, acaba em liberdade e afirmação pessoal nos braços dos que amamos e nos amam. Como se completássemos o nosso nascimento.
Amar é ter consciência da nossa dependência uns dos outros e amar essa dependência. «É querer estar preso por vontade», como diz Camões.
Camões não sabia mas adivinhou: o amor não está escrito no céu, mas no nosso ADN.
Nem monge budista nem monge cristão.
Ninguém viaje sozinho, indiferente ao apelo da vida.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
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