segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Propósito de Palácios

(Comentário para um amigo)

Às vezes fico a pensar que quanto mais se esbate a crença na vida para além da vida mais se investe no sonho e na criação de um «paraíso» na terra. E sou levado também a pensar que a crença na vida depois da morte já só move os mais fanatizados. O comum dos crentes respeita profundamente as tradições e professa as crenças ancestrais, mas na hora da verdade vem perguntar, com toda a sinceridade da alma, «como é do outro lado?» Porque, entretanto, se impusera a evidência que instalara a dúvida: «de lá não vêm cartas».
É certo que muitos crentes mandaram erguer maravilhas arquitetónicas, tentando comprar um lugar no paraíso do além. Mas era bem terreno o amor à beleza esculpida, pintada ou musicada. E para quê um mausoléu sumptuoso, se de tudo isto não haveria de restar pedra sobre pedra? Parece mesmo que nunca foram convencidos. Não é por acaso que a explosão artística da antiga Grécia cresceu no contexto da ridicularização dos deuses tradicionais. E os artistas esculpiam-nos a seu bel-prazer e descreviam-lhes a alma conforme os sentimentos e emoções humanos. Sem dó nem piedade. Os artistas demoliram as divindades. No mínimo, reduziram-nas à vulgaridade.
Nunca, como hoje, se investiu tanto numa vida para ser vivida cá, na sua totalidade. A fé não é combatida pela ciência. A ciência investiga e faz o seu caminho «apesar da fé». Nem se dá ao trabalho de a discutir. A prova da existência de vida noutros «sistemas solares» (que são incontáveis) iria estoirar com a cristologia cristã. E os cientistas prosseguem a sua pesquisa sem ligar a mínima. Como os cristãos se estiveram borrifando para a proibição dos anticoncepcionais, do divórcio, do casamento gay, da investigação genética etc.
Atrevia-me as dizer que se as riquezas são mal distribuídas isso fica a dever-se, em boa parte, a uma desgraçada pregação de que estamos aqui de passagem e a nossa verdadeira casa é «no outro lado». Até parece que era mesmo isso que queriam ouvir os «senhores do dinheiro».
A fé foi amplamente utilizada para amordaçar a «revolta» dos esfomeados e injustiçados.
Tudo isto por causa do palácio italiano que te enviei em vídeo...

4 comentários:

  1. Quando a idade nos incita a reflectir sobre questões que sempre nos interpelaram sejamos claros no questionamento: -há ou não há uma vida depois da morte?
    A pergunta é simples, clara. Quem pode responder? A religião, a ciência, a teologia? Ou cada um terá que contentar-se com intuição da sua própria consciência?

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  2. Sobre a sua pergunta, Limabar, a resposta também é simples e clara: ninguém sabe. Se alguém soubesse, não estavamos ainda a fazer a pergunta ou a ter este debate. Quando comecei a estudar filosofia ocorreu-me nitida e perturbadora esta ideia: se, depois de séculos de procura e de tantos e sábios sistemas filosóficos, continuamos a fazer as perguntas fundamentais acerca da vida e do universo, isso significa que ainda não temos a RESPOSTA. No mínimo, as respostas dadas até ao presente são insatisfatórias.
    A ciência, em vez de revelar os segredos do nosso universo, adensa o seu mistério, alargando, de uma forma até há pouco tempo imaginável, o objecto das nossas pesquisas e interrogações.
    Quanto à religião e à teologia, desbastadas da camada espessa da ingenuidade e beleza dos mitos, fruto de uma ciência incipiente e de uma sensibiliadde aguda à presença do mistério que emergiu do prodigio da consciência humana, remetem para a fé sem condições.
    Aqueles que se quedam pela interrogação filosófica e pelo conhecimento científico, morrerão tal como nasceram: sem resposta.
    Desesperados? Nem pensar! As perguntas sem resposta são o motor da vida, da criatividade e da paixão pelo conhecimento. Imagine, quem for capaz, o desconforto e a frustração de ter chegado ao fim da história...Era como se fosse o fim de uma paixão amorosa, em que os amantes se separam tendo concluido: «já não me "dizes" nada».
    Quanto à fé dos homens eu considero-a um poderoso lenitivo para a dureza do caminho que a humanidade tem de percorrer, antecipando, na esperança, a posse da felicidade sonhada.
    Lamentavelmente, uma orda de exploradores e manipuladores transformou o sonho de muitos, em pesadelo de morte de outros tantos.

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  3. Sim, a fé acalma as inquietações, suaviza as incertezas, abafa todo o questionamento. Refugio benfazejo do espírito, é um formidável sedativo para a vida e para a morte.
    De acordo; mas quanto a mim por aí se fica. A fé, infelizmente pertence aos vivos. Ou será que ela acompanha o crente do outro lado da barreira?

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  4. È claro que a fé acaba com a morte, como se aprende na catequese católica. Na morte o crente entra na posse da herança que esperava receber e no gozo pleno da felicidade em que acreditava. Só o amor permanece, segundo a mesma catequese.

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