segunda-feira, 15 de novembro de 2010

De Fernando Pessoa

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
E o mito brilhante e mudo-
O corpo morto de Deus
Vivo e desnudo.

Este, que por aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo.
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre,
Em baixo a vida, metade
De nada, morre.

(Fernando Pessoa, poema Ulisses)

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