sexta-feira, 19 de novembro de 2010

As «Ideias» de Descartes e os «Mapas» de Damásio

A propósito de alguém ter dito que, segundo Damásio, «Deus é uma maravilha de invenção do cérebro».

Conheço bem o que António Damásio escreve e não faço ideia onde ele possa ter escrito que o nosso cérebro inventou a maravilha que é Deus. Damásio é um cientista e considero-o intelectualmente muito honesto. Sabe distinguir o plano da investigação científica acerca da génese e funcionamento do cérebro, da manifestação de todas as suas capacidades, nomeadamente do pensamento discursivo. Não me consta que Damásio tenha afirmado onde quer que seja que o nosso cérebro inventou a árvore ou a lua ou Deus. Além de imaginar, inventar, pensar e criar, o nosso cérebro faz aquilo que é a base de todo o seu virtuosíssimo trabalho: fazer “mapas”, que mantém em permanente actualização (porque a vida não pára), de si próprio, de todo o «organismo» corporal e do meio ambiente com que interage, num processo ininterrupto. Ora, o que está no coração das pesquisas de Damásio, ao longo de trinta anos e três livros publicados, é a formação do cérebro e a sua interacção com toda a realidade interior ou exterior ao próprio cérebro.
Saber em que consiste a «realidade» em si mesma é já uma problemática situada para lá da sua neurociência.
Repito, e penso que estou a "ler" bem António Damásio, que este nunca poderia ter afirmado que o sol, uma árvore, ou o Deus da fé dos crentes são uma fantasia ou uma invenção do cérebro humano, exactamente como não é fantasia ou invenção do nosso cérebro uma mão com cinco dedos e dois olhos brilhantes no rosto de cada um de nós, não obstante o nosso maravilhoso cérebro ter executado um detalhadíssimo e invisível mapa para acompanhar bem de perto a sua preciosa actividade.
Estes «mapas» cerebrais aproximam-se daquilo a que os antigos filósofos chamaram «ideias». E já naquela altura o assunto deu a confusão que se conhece. Os neurocientistas, com os seus mapas cerebrais, alertam-nos para a capacidade do nosso cérebro de elaborar «projectos» a partir de um estudo prévio baseado em esquemas ou mapas. Mas esta capacidade não dispensa o «trabalho de trolha» de todo o organismo, que tem de mexer com a “dureza” dos materiais e considerar o espaço que eles ocupam.
Até nisto Damásio corrigiu o «Erro de Descartes», que pensava ser possível fazer mapas a partir de coisa nenhuma. A «res cogitans» (a sua alma pensante) bastava-se a si própria. A «Res Divina» (Deus) e a «Res extensa» (A Matéria) seriam, para Descartes, aquilo que a razão da alma determinasse que fossem. Do filósofo Descartes é que se pode dizer verdadeiramente que, no seu pensamento, Deus ou a lua ou as árvores são uma fantasia ou uma maravilhosa criação do cérebro.
Temos de ser compreensivos porque, no seu tempo, ainda não tinha sido descoberta a realidade “extensa” dos neurónios, dentro do espaço craniano...

5 comentários:

  1. Noto: - “”Temos de ser compreensivos porque, no seu tempo, ainda não tinha sido descoberta a realidade “extensa” dos neurónios, dentro do espaço craniano... “”

    Aqui está uma afirmação que merece esclarecimentos. É que a ciência, contrariamente às ideologias religiosas, não é matéria baseada em dogmas imudáveis, inscritos “ad-eternum” nos cânones respectivos. A ciência, mais especificamente a pesquisa cientifica, é o esforço do homem na exploração do saber humano, e como tal, sujeito às limitações do conhecimento global do homem, num dado momento da sua historia. O progresso da ciência não é constante nem definitivo. Avança às apalpadelas, lançando hipóteses, quase definitivas ou simplesmente de trabalho, que sempre serão sujeitas à refutação de terceiros, à confirmação ou infirmação, por experiências reais, do princípio enunciado. De forma muito generalizada, podemos afirmar que qualquer teoria ou enunciado científicos serão válidos enquanto o resultado de novas experiências, no domínio do real, não confirmar o contrário. Deduz-se, pois, que a ciência, na sua busca constante de conhecimento, tem de usar de discernimento e humildade e ter em conta que “Todo o conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão”, (Capítulo I de “Os sete saberes necessários
    à educação do futuro
    ” de Edgar Morin: uma analise plena de verdade, de humildade e bom senso, a respeito do desejado conteúdo educacional do ser humano.)

    António Damásio, no seu excelente e erudito livro “O Livro da Consciência”, deixa transparecer exactamente essa mesma ideia, e adverte logo ao principio: “Tenho perfeita noção de que abordar questões não é o mesmo que responder-lhes e que, no que respeita à mente consciente, seria disparatado partir do princípio que é hoje possível obter uma resposta definitiva.”

    Do acima exposto ressalta a ideia, ainda que tenuemente, da incompatibilidade da ciência e da religião. O verdadeiro cientista, no seu raciocínio de pesquisa, não é capaz de incluir um Ser, tal como o Deus das religiões, antigas ou modernas, mesmo se, em certos casos, maravilhado e incrédulo diante da extraordinária complexidade e perfeição da matéria e dos seres vivos, a ideia de um Ser omnisciente e cósmico lhe parece uma evidência. Porém, entre a ciência e a religião, há um muro de uma espessura tal, que há séculos resiste a avalanches de teorias e a ataques repetidos de cavaleiros da concórdia.
    Mais simplesmente: o cientista é um ser essencialmente racional; a fé religiosa é um impulso irracional. Querer unir os dois, é uma tarefa delicada, senão impossível.

    Claro, é só a minha opinião!

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  2. Meu caro Limabar

    A minha frase que citaste é uma ironia e o sinal de reticências a substituir o ponto final é indicativo disso mesmo.
    De qualquer modo não foi à toa que referi a "falha" de conhecimento cientifico de Descartes, exactamnete nessa área. No seu livro O Erro de Descartes, A. Damásio, sem pretender intrometer-se na área especifica da filosofia cartesiana, apenas adverte que os sentimentos e as emoções entram na formação do pensamento humano. Desse modo, as teologias e as filosofias, fruto do brilhantismo da nossa mente consciente, não conseguem libertar-se das "amarras" dos sentimentos e das emoções, tal como acontece com toda a expressão artística.
    E depois há mais: em momento algum, A. Damásio ou qualquer outro cientista deixa de ser inteiramente homem para ser exclusivamente «cientista». «Fazer ciência» é apenas umas das nobilissimas tarefas da mente humana. Se fosse a única ou considerada isoladamente, não saberiamos se estávamos em presença de um homem ou de um aperfeiçoadissimo computador, porquanto a tarefa específica do cientista não é outra coisa senão fazer medições rigorosas e encaixá-las em equações lógicas. Para realizar esta tarefa, as emoções e os sentimentos até acabam por atrapalhar.
    Mas foi esta "atrapalhação" indissociável da mente humana que fez nascer as artes, as filosofias e as teologias. Além da ciência, naturalmente. E cada coisa se faz seguindo uma determinada metodologia.
    Se um dia eu vir um robot em peregrinação a Fátima eu vou pensar que o homem, finalmente, se construiu a si próprio. Claro que nem todos vão gostar da Senhora de Fátima ou ter a paixão da música. Porque, para serem como nós, terão de ser únicos e irrepetiveis.

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  3. Caro amigo Mario

    Começas na ironia , terminas ironizando.

    Permite-me então que ironize: Também os macacos são “únicos e irrepetíveis”, têm sentimentos e emoções ... e não vão a Fátima.

    Quanto ao robô de que me falas, talvez não seja assim definitivamente utópico.
    Repara: Partamos do princípio, que, basicamente, todos nós somos programados, (não é verdade?).

    Então supõe: tens um robô fisicamente bem constituído, memória limpa e vírus controlado. Preparas com cuidado os dados e o programa de um qualquer fiel cristão, temente a Deus. Integras tudo no seu sistema operativo, (do robô claro), dás-lhe energia e activas…
    Estou quase certo … verás em breve o teu robô, de vela acesa e mão no peito, cantando a “Avé Maria”.

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  4. Meu caro Limabar

    De facto, também o macaco, assim como qualquer ser vivo e até um diamante, são únicos e irrepetíveis. Mas eu gosto de insistir nesta verdade em relação ao homem, porque ouço «sumidades» a encher a boca com ela quando se trata de proclamar a excelsa dignidade da pessoa humana, mas são os primeiros, tantas vezes, a desvalorizá-la (é o mínimo que posso dizer) quando se trata de questões relacionadas com a ética ou com a moral "normativas". Veja a vergonha da discriminação étnica, da xenofobia, da homofobia, proclamada do alto dos mais variados púlpitos. Aqui, o mais primitivo e grosseiro preconceito sobrepõe-se e esmaga a verdade da condição de «único e irrepetivel» da pessoa humana, uniformizando-se e nivelando-se tudo.
    E, neste caso sim, reduzindo o ser humano a um robot programado na perfeição (da sua ética e da sua moral).
    Acontece que, se alguém nos programou, esse alguém é o perfeito exemplo do paradoxo: criar a inacreditável maravilha do universo e, dentro dele, a nossa mente consciente, que tem um comportamento mais errático que as particulas subatómicas na física quântica.
    Não tenho dúvidas de que se formos capazes de criar macacos e homens, havemos de ver uns ir a Fátima de vela na mão e outros a rirem-se dos crédulos que cairam no embuste de uma aparição.
    E, se assim não for, é porque as "peças" sairam da fábrica com defeito.
    Nisto consistiria o paradoxo do genial criador de robôs: sermos criados para errar.

    «Errare humanum est»! Não diria o mesmo para um «perfeito robot».

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  5. Perfeitamente de acordo. Nada a acrescentar!

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