terça-feira, 16 de novembro de 2010

Para Além da Consciência...

(Comentário repescado do blog aaacarmelitas, que decidi colocar também na Laje Negra porque serve de continuação à mimha resposta - na caixa de comentários - ao leitor Limabar)

«O homem nasceu para ser livre e feliz, e a conquista dessa liberdade é mais importante que o pão de cada dia».(Mariano)

«Mais formoso que o Universo que nos rodeia é o que existe nos nossos corações». (Mariano)

O texto que o Mariano nos trouxe é cheio de eloquência mas, aqui e ali, expressa-se numa linguagem que se proporciona a muitos equívocos, como as frases que citei.

Começando pela primeira citação, a frase é de belo efeito literário mas carregadinha de inverdade. A liberdade nunca pode ser mais importante que o pão de cada dia porque, sem este, somos privados da raiz da própria liberdade, que é a sanidade "corporal", consagrada pelos nossos antepassados, de forma lapidar e sábia: «mente sã em corpo são». No fundo, aquela afirmação equivale a dizer que o nobilíssimo cérebro bem podia dispensar o verdadeiro carregador de pianos que é o coração. E já todos sabem o que vale um cérebro sem irrigação sanguínea.
O equívoco que pode estar escondido por detrás de tal asserção é pensar que a alma e as suas faculdades constituem uma entidade autónoma dentro do «espaço-corporal-material». Bem pode desfazer-se o homem-corpo em podridão ou cinza, que o espírito subsiste vivo e luminoso...
Como repeti vezes sem conta neste espaço, não é nem esta filosofia nem esta teologia que sustentam o dogma fundamental da ressurreição cristã, que assenta no pressuposto do homem integral e uno. O dualismo platónico ou cartesiano foi sempre a grande tentação derrotada. Um bem-haja sincero aos teólogos cristãos.

Quanto à segunda citação, claramente o autor parece ter perdido a noção das proporções e, mais uma vez, tal facto deriva da concepção dualista da vida. Nós somos uma «partícula» de um único universo e não um mundo dentro de outro mundo. A beleza impar que realmente irradia dos nossos "corações" é parte integrante do próprio universo. Por isso mesmo se chama «UNIVERSO». Logicamente estamos englobados na sua «universalidade».
Ai essa velha tentação de partir o homem em duas metades inconciliáveis e com destinos distintos(corpo-espirito)!
Outra coisa bem diferente, intrigante, pertinente, emocionante e verdadeiro quebra-cabeças para a biologia e a neurociência é a emergência do que parece ser o milagre da construção ou organização da mente humana, onde emerge claramente um «eu consciente», capaz de olhar para si próprio e para o UNIVERSO a que pertence, com a mesma facilidade com que olhamos a Terra a partir de uma nave espacial ou quando, numa noite de luar, ficamos fascinados a olhar a lua cheia no mês de Agosto.
O paradoxo que nos deixa estonteados é que nós fazemos isto tudo, sem fazer a mínima ideia de como chegamos até aqui e porque este «eu» fabuloso se desfaz como bola se sabão ou desaparece, em cinzas, no forno crematório.
Perante estes factos inelutáveis, quem pode recriminar o homem de hoje e de sempre por se refugiar no seio consolador da fé numa vida depois da morte, contra todas as evidências?

1 comentário:

  1. Mario, acabo de ler este teu “post” e apercebo-me que, afinal, o meu ultimo comentário, no “post” anterior, encaixaria aqui tal qual. Do que até agora pude extrair quando te leio, ressaltam dois pontos básicos, sobre os quais pareces centralizar a tua argumentação. Falo do conceito de “o homem integral e uno” e na crença irredutível de “uma vida para além da morte”.
    Se me engano, corrige-me!
    Permite-me, no entanto, expor, ainda que sucintamente, o que a vivência da minha “longa” existência, gravou nos centros cerebrais onde a razão opera. (A minha evidentemente.)
    1 – Quanto ao “o homem integral e uno”, estou de acordo com a fórmula, mas não com a sua justificação.
    O homem, basicamente, é um animal, igual a tantos outros, engendrado pela força criadora da natureza, durante a evolução da vida através dos tempos. A consciência, a capacidade de pensar, foi o “milagre” que, pouco a pouco, através de séculos de transformações e enriquecimentos, o vestiu deste capote que hoje o cobre, tecido de aquisições múltiplas e multiformes, herança acumulada da vivência de milhares de milhões de seres humanos, que com as suas vidas efémeras e obscuras, nos transmitiram os genes da evolução biológica e a acumulação da aprendizagem da vida pessoal, herança essa que, a pouco e pouco, foi alimentando o imenso caudal de transformações e conhecimento, inscritos nos genes e memoria colectivos da raça humana.
    O homem é constituído de dois blocos inseparáveis: o corpo físico, visível e palpável, e o “centro metafisico”, espírito, alma ou mente, segundo a ideologia preferida. O corpo físico é o depositário da herança genética da evolução animal, o “metafisico” é o centro de aquisição, armazenamento e gestão da aprendizagem e vivências sócio-culturais. Nenhuma destas duas partes básicas do homem pode ter vida independente. Quando uma delas cessa a actividade, a outra é incapaz de continuar sozinha. É, então que homem volta à sua origem, “integral e uno”, sem esperanças de retorno, porque entretanto a natureza seguiu, indiferente, o ciclo inelutável da vida e da morte.
    2 – Quanto ao segundo ponto de “uma vida para além da morte” é um apêndice do primeiro. É a resultante de aquisições do “centro metafisico” orientadas pelo sentimento, insustentável para eu consciente, de um fim inconfessávelmente absoluto e irreversível. A fé é assim uma muleta que ampara o homem na sua caminhada pela a terra, mas não o pode socorrer noutras paragens. Crente ou não crente, quando a barreira da existência é ultrapassada, o ser humano volta, inteiro, ao seu estado original, esse lugar indefinido que a inteligência humana não suporta: a não existência.

    Claro é só a minha convicção!

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