Se eu tivesse alma de budista suportaria pacientemente, passivamente, humildemente, calmamente, estoicamente os insultos e incompreensões.
Se tivesse conseguido um grau elevado na meditação e anulação do meu próprio “eu”, afinal, a fonte de todos os meus sofrimentos, nem poderia falar em suportar, porque os insultos já não me poderiam atingir.
Digo isto, quando penso no blog da aaacarmelitas, com o qual deixei de colaborar. As palavras degradáveis que foram dirigidas a mim e a amigos meus poderiam ser esquecidas ou até desprezadas.
Se tivesse alma de budista, tais palavras poderiam, quiçá, não apenas ser objecto de compreensão mas serem contributo para o meu aperfeiçoamento.
Acontece que eu «sou filho de uma mãe doente» e fugi, porque a pancada doeu. Não contente com a simples fuga, ainda dei algum “troco”, murmurando como os meus botões «toma lá que é para saberes como elas mordem».
Se eu tivesse alma de budista…Mas não tenho, nem quero ter. Quero ter a alma que tenho, de levar pancada e dar pancada, de criticar e ser criticado, de errar e sofrer com os meus erros, olhando sempre em frente, esforçando-me por não cometer amanhã os erros de hoje. E se não for por um motivo mais “nobre”, que seja pelo mais simples e utilitário motivo: sofrer menos e progredir melhor.
Exactamente como faz a ciência! Com infinita, mas activíssima paciência.
Porque não tenho alma de budista, não vou permanecer num espaço que não me respeita e onde eu não vejo como fazer-me respeitar, porque se entrou num diálogo de surdos.
Mude-se o palco e os actores para ajudar a “descomprimir”. Quem sabe, com outros interlocutores, todos acabem por dar uns passinhos em frente, na via da nossa humanização. Às vezes, fugir é a melhor solução, para começar de novo, noutro lugar e com outras pessoas. Como num divórcio, para que acabe um casamento e se salvem os divorciados.
Experimente-se uma e outra vez e todas as que forem necessárias. Errando as vezes que se tiver de errar. Se for possível o diálogo, siga-se a norma imprescindível para caminhar em direcção à perfeição: corrigir os que erram. E vale para todos, como quem diz, eu corrijo-te, tu corriges-me, nós corrigimo-nos. E se alguém não quiser falar contigo, vai ter com quem o queira fazer. Mas não pares.
Sobretudo não fiques em silêncio!
O “pensamento” budista é praticamente irrepreensível. Está perfeito na sua intencionalidade e por isso seduz quem toma contacto com ele. Mas encerra, dentro de si, uma contradição insanável: como pode o homem comportar-se como um puro espírito ou tentar transformar-se em tal, se é a sua “materialidade” que produz a sua “espiritualidade”?
Enquanto não se aceitar esta verdade primordial, que a ciência vai deixando cada vez mais a descoberto, quem procurar «encontrar-se», «apesar do corpo», só contribuirá para escavar o fosso que o separa da sua própria realidade.
Para onde eu for, a minha materialidade terá de ir junto, porque sem ela «eu não sou».
O primeiro grande equívoco do budismo é sonhar que se pode, no espaço de uma vida, transitar da «materialidade» para a «imaterialidade». E o segundo é pensar que tal se consegue pela meditação, numa curta, intensa e dedicada viagem ao interior de si próprio. E enganando-se, de novo, pensando que "lá" chegaram sem o corpo-cérebro!
Será que o budista não se dá conta que nesse “interior” apenas encontra a paz que é a ante-câmera dos cemitérios?
segunda-feira, 17 de maio de 2010
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Os budistas saem daqui cheios de nódoas negras, mas realmente a pancada não é para eles. Ou pelo menos não para todos eles. Isso são tiros mal apontados. Niilistas há-de os haver em muito lado, gente equivocada, mal informada, enganada... entre os budistas, como entre os talhantes, os franceses, os gordos e os malucos. Porque hão-de ser eleitos os budistas entre tantos?
ResponderEliminarNão nega o budismo a materialidade do homem nem das coisas. Nem a sua existência. Trata-se aqui, antes, de olhar para as coisas como elas realmente são.
Ora veja, Mário: há-de convir que, se ao que vemos por fora, juntarmos o que está cá por dentro, somos razoavelmente feios. As minhas tripas estão cheias daquilo a que lhe vou poupar a menção. Das minhas vísceras não havia de ter boa recordação. Por trás da pele do meu rosto (que por fora já será de interesse discutível) estão horrores que os meus olhos desencarnados nunca hão, espero, de contemplar. A mente, cujas ideias prezo, é uma papa nojenta. E tudo isto é a realidade. Pois, como imagina, não gosto de estar sempre a pensar nisto, nem acerca de mim, nem acerca dos outros. Torna-se desagradável, sobretudo à hora de almoço.
Ora, mas não é por isso que deixa de ser uma perspectiva válida sobre a nossa realidade, e, até certo ponto, mais completa e perfeita do que a que habitualmente usamos para nos relacionarmos. Serve, naturalmente, propósitos diferentes.
Outra imagem, também útil. Uma casa. A perspectiva que dela tem o fulano que a comprou, e que não percebe nada de construção, é muito diferente daquele que escolheu os materiais, acompanhou a sua construção, e em cada parede vislumbra ainda os tijolos de que é feita. O Mário sobe apressado a escada de madeira, e ele lembra-se de cada prego que ficou mal pregado. O Mário admira a vista da varanda, e ele sabe o mau isolamento que ficou feito. O Mário gosta do soalho, e ele sabe tudo o que está por baixo deste até às fundações.
Com a sua mente treinada, o construtor é capaz de escalpelizar mentalmente cada pormenor da casa enquanto, ainda assim, disfruta da vista da varanda ou lê um livrito na sala. Ele não nega a existência da casa, mas está perfeitamente ciente de que esta poe ser alterada, destruída, reconstruída, parcialmente demolida, ampliada e que, no fundo, não tem uma existência intrínseca. Mas a prespectiva do Mário, preocupado com a SUA casa, é diferente. Comprou-a já assim, não quer que ela mude nunca.
Mais: se o Mário compra um quadro de que gosta e alguém pega numa esferográfica e o risca... crime!!! Destuiram o MEU quadro. Ele ERA , e já não É. Está alterado! Assassinado!... e apetece esganar quem assim macula para sempre uma obra de arte. Entretanto, vem o pintor, imperturbável, e dá-lhe duas ou três pinceladas mais, como as dúzias que já tinha dado, e o quadro restaura-se, na sua mente. Na dele, provavelmente a situação é diferente. Porquê?
O budismo não é passividade. É imperturbabilidade. Poderá, quando muito, defender uma visão mais desapaixonada da vida.. aí compreendo o seu desencanto de poeta.
Meu caro Luis,
ResponderEliminarEu não peguei o budista "de ponta". Se tenho andado a falar especificamente dele é porque tu e outros o têm trazido à baila. Sabes que há muita gente a reflectir sobre as duas vias diferentes, tanto para a interpretação da «vida" como para a «realização do homem», que são as propostas cristã e budista.
Portanto, que fique claro que nada me move especialmente contra o budismo. Aliás, escrevi aí atrás que «“o pensamento” budista é praticamente irrepreensível. Está perfeito na sua intencionalidade e por isso seduz quem toma contacto com ele».
Nunca me tinha debruçado muito a sério sobre o budismo e esta «discussão» contigo está a fazer-me realçar o contraste entre o que designo por «alma budista» e «alma cristã». Sei que estou a simplificar tremendamente as coisas, porque aquelas almas não só não existem em «estado puro», como também nunca foram bem definidas por ninguém.
Ajuda-me a realçar o contraste entre ambas, atirando cá para fora tudo o que tens por aí, que eu vou tentar fazer o mesmo, acerca desta «alma de cristão», meio herdada e meio construída.
Encara-me como alguém disposto a tentar perceber um mundo que não penso nem sinto, o do budismo.
Mas há uma verdade, meu caro Luis, que nós não podemos escamotear, se queremos seguir por um caminho que valha a pena trilhar. Essa verdade é que, independentemente da interpretação que tenhamos da vida e do universo ( e podes identificar, "grosso modo" «interpretação» com a tua «convenção») o que faz "girar o mundo" é a nossa intervenção sobre a vida e o universo em que ela se processa. São as «realizações» que dão corpo à História Humana. E é nesta perspectiva apenas, sem cuidar do rigor do pormenor, que falo da «passividade budista» e do «activismo cristão». No blog que abandonei e aonde não volto, falei dos budas passivos e dos chafurdantes cristãos. Estes "metem a mão na merda", e por isso também fazem tanta besteira, aqueles procuram viver «apesar dela». Na «imperturbabilidade», como acabas de dizer.
Se eu tivesse alma de budista, devia ter continuado no blog da aaacarmelitas, imperturbável perante o insulto e a estupidez. A minha alma de cristão manda-me «corrigir os que erram», aceitando conjugar o verbo da vida em todas as pessoas: eu corrijo-te, tu corriges-me, nós corrigimo-nos...Ora eu não posso corrigir ou ser corrigido por quem não tem rosto ou não o que dar a conhecer, porque permanece anónimo.
Foi porque quisemos intervir na História que viemos aqui escrever, coisa que, diz-se de Buda, ele nunca fez, porque "estava noutra".
Estava, de facto, a "pensar com os seus botões". E não há mal nenhum nisso, antes pelo contrário, porque a meditação é mãe da sabedoria. Mas se não for seguida de acção intensa (cá está a alma de cristão) o buda vai viver e morrer olhando sempre o mesmo pedaço de céu e comendo sempre a mesma fruta da época.
E assim, de tanto se fixar no «seu interior», o budista acabará por passar ao lado da festa da vida.
O êxtase que ele atinge, mercê de muito esforço, muita persistência e muito auto controlo, eu chego lá, facilmente, uma vez e outra, nos braços do meu amor ou, de forma mais expedita e menos empenhada, ao colo de uma moderada bebedeira, com um tinto medalha-de-ouro...