«Assim, as ideias impõem restrições subjectivas à realidade objectiva, restrições essas que, objectivamente, não são objectivas!!!» (Citando o Luís)
Na mesma frase, parece-me, dizes uma verdade e uma meia-verdade. Como se fosse o resumo da história do pensamento.
A filosofia pretende fazer coincidir o subjectivo (a minha ideia, abstracção, convenção) com a realidade objectiva. A coincidência perfeita seria a posse da VERDADE absoluta. A SABEDORIA. Bem avisados, os gregos antigos foram dizendo que isso era tarefa só ao alcance dos Deuses. Os humanos (filósofos) ficavam apenas com um cheirinho (de Sabedoria).
A guerra entre subjectividade e objectividade do conhecimento desenrola-se sobre o pano de fundo das nossas limitações, que eu chamo de filosófica ignorância.
No dia em que esta limitação for superada não haverá mais nada para investigar, não haverá mais inquietação, nem sonho, nem apelo à criatividade. Porque tudo será conhecido em definitivo e tudo estará criado ou feito, numa perfeição de «Fim da História», que também podemos chamar de «Fim do Mundo».
Estranhamente, a «iluminação» do budismo ou a «perfeição» do cristianismo, assemelham-se à paralisia absoluta da morte.
Em contraponto, o «sofrimento-movimento-mudança» parece ser a única realidade com futuro...
quarta-feira, 26 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
As Sombras de Platão, as Abstracções de Aristóteles e as Convenções do Luis
E não será a nossa condição humana, olhando o mundo com olhos de ver, uma ilusão? (Citando o Luís)
Por mais voltas que se dê ao texto, no contexto da história da filosofia, ao longo dos últimos 2500 anos, é da mesma realidade que se trata quando falamos das «sombras», «abstracções» ou das “verdades convencionadas”.
Imagino-me numa viagem a Lisboa ou à Grande Lisboa e aí encontro e reconheço, entre dois milhões de pessoas, o meu filho Tiago. Imaginemos ainda que o encontro, reconheço e observo, mas não me manifesto. O Tiago continuará a ser apenas mais uma entre dois milhões de pessoas. A minha presença ali, naquele dia e naquela hora, apesar da novidade absoluta, que foi o reconhecimento do meu filho, em nada altera a realidade tal como a encontrei.
Claro que estou a simplificar, porque a minha presença ali altera um sem numero de coisas, desde o oxigénio da atmosfera que consumo, até à infeliz formiga que o meu sapato inconsciente esmaga.
De facto, de uma forma consciente, observando e reconhecendo o Tiago ou de uma forma inconsciente, respirando o oxigénio, eu estou a interagir com a realidade.
Posso optar por dar meia volta e regressar ao Minho ou ir ao encontro do meu Tiago e abraça-lo efusivamente. Como posso deixar tranquilamente a Grande Lisboa ou lançar fogo à «terra dos mouros».
Fica evidente que só interagindo com a realidade, de uma forma ou de outra, essa mesma realidade sai da «sombra» de Platão, da «abstracção» de Aristóteles ou da «verdade convencionada» do Luís.
Pela acção e pela interacção, quebra-se a magia pura da observação e expomo-nos ao choque que resulta do encontro com a realidade.
A emoção de abraçar o Tiago, o desastre do meu sapato sobre a formiga, a devastação levada pela minha mão incendiária à «terra dos mouros» não permitirá, jamais, a confusão entre observar, reconhecer e agir nem tão pouco insistir na ideia infundada de que o «mundo é uma ilusão».
O Tiago não deixará de estar presente na grande Lisboa, se de facto lá estiver, quer eu o encontre ou não, nem a formiga nem a «terra dos mouros». É tão verdadeiro que se eu não me deslocar lá não vou interferir com nada nem provocar alterações na realidade, como é verdadeiro que se eu fizer a viagem posso desencadear a emoção e a transformação do meio. Nem que seja, apenas, pelo simples consumo do oxigénio da atmosfera.
Não há trabalho especulativo consistente se for desligado, por um instante que seja, do conteúdo das «sombras», das «abstracções» ou das «convenções» do nosso Luís. Seja qual for esse «conteúdo». E aqui é que reside o mistério do universo com que nos deparamos. É que esse «conteúdo» confunde-nos pela sua grandeza e complexidade.
Mas que não seja essa grandeza e complexidade o motivo para desisti do «encontro» com a realidade, desanimando, rendidos, desiludidos ou simplesmente feridos no orgulho, para proclamar que tudo não passa de uma ilusão.
A formiga não vai ganhar nada ser ignorada e esmagada pelo meu sapato. E se o Tiago souber que estive em Lisboa e não lhe «passei cartão», não vai gostar nem um pouco.
E agora imaginem que, inadvertidamente, esmaguei a última das formigas do planeta Terra!
Àqueles que de uma forma tão ligeira confundem a realidade com o nosso encontro ou desencontro com ela, pensem no que acontece quando deixarmos de interagir com o oxigénio! Lá se vão as «sombras», as «abstracções» e todas as verdades convencionadas.
Por mais voltas que se dê ao texto, no contexto da história da filosofia, ao longo dos últimos 2500 anos, é da mesma realidade que se trata quando falamos das «sombras», «abstracções» ou das “verdades convencionadas”.
Imagino-me numa viagem a Lisboa ou à Grande Lisboa e aí encontro e reconheço, entre dois milhões de pessoas, o meu filho Tiago. Imaginemos ainda que o encontro, reconheço e observo, mas não me manifesto. O Tiago continuará a ser apenas mais uma entre dois milhões de pessoas. A minha presença ali, naquele dia e naquela hora, apesar da novidade absoluta, que foi o reconhecimento do meu filho, em nada altera a realidade tal como a encontrei.
Claro que estou a simplificar, porque a minha presença ali altera um sem numero de coisas, desde o oxigénio da atmosfera que consumo, até à infeliz formiga que o meu sapato inconsciente esmaga.
De facto, de uma forma consciente, observando e reconhecendo o Tiago ou de uma forma inconsciente, respirando o oxigénio, eu estou a interagir com a realidade.
Posso optar por dar meia volta e regressar ao Minho ou ir ao encontro do meu Tiago e abraça-lo efusivamente. Como posso deixar tranquilamente a Grande Lisboa ou lançar fogo à «terra dos mouros».
Fica evidente que só interagindo com a realidade, de uma forma ou de outra, essa mesma realidade sai da «sombra» de Platão, da «abstracção» de Aristóteles ou da «verdade convencionada» do Luís.
Pela acção e pela interacção, quebra-se a magia pura da observação e expomo-nos ao choque que resulta do encontro com a realidade.
A emoção de abraçar o Tiago, o desastre do meu sapato sobre a formiga, a devastação levada pela minha mão incendiária à «terra dos mouros» não permitirá, jamais, a confusão entre observar, reconhecer e agir nem tão pouco insistir na ideia infundada de que o «mundo é uma ilusão».
O Tiago não deixará de estar presente na grande Lisboa, se de facto lá estiver, quer eu o encontre ou não, nem a formiga nem a «terra dos mouros». É tão verdadeiro que se eu não me deslocar lá não vou interferir com nada nem provocar alterações na realidade, como é verdadeiro que se eu fizer a viagem posso desencadear a emoção e a transformação do meio. Nem que seja, apenas, pelo simples consumo do oxigénio da atmosfera.
Não há trabalho especulativo consistente se for desligado, por um instante que seja, do conteúdo das «sombras», das «abstracções» ou das «convenções» do nosso Luís. Seja qual for esse «conteúdo». E aqui é que reside o mistério do universo com que nos deparamos. É que esse «conteúdo» confunde-nos pela sua grandeza e complexidade.
Mas que não seja essa grandeza e complexidade o motivo para desisti do «encontro» com a realidade, desanimando, rendidos, desiludidos ou simplesmente feridos no orgulho, para proclamar que tudo não passa de uma ilusão.
A formiga não vai ganhar nada ser ignorada e esmagada pelo meu sapato. E se o Tiago souber que estive em Lisboa e não lhe «passei cartão», não vai gostar nem um pouco.
E agora imaginem que, inadvertidamente, esmaguei a última das formigas do planeta Terra!
Àqueles que de uma forma tão ligeira confundem a realidade com o nosso encontro ou desencontro com ela, pensem no que acontece quando deixarmos de interagir com o oxigénio! Lá se vão as «sombras», as «abstracções» e todas as verdades convencionadas.
A Ilusão do Budismo
«Ao vivenciarem a realidade absoluta - onde não se aplicam as fronteiras convencionadas que definem os objectos, as coisas do mundo material (o único que existe, aliás) - não estarão para lá do sofrimento e, por fim, para lá até do budismo». (Citando o Luis)
R. Com certeza que sim, Luís. Estão, de facto, para lá do sofrimento e até do budismo.O problema é que estão, também, para lá da realidade.
Qualquer ser humano que conserve a sua consciência, distingue-se de um ser inconsciente e este, sim, está para lá do sofrimento, do budismo e de muito mais. E o ser humano, quanto mais consciente estiver desta sua condição, mais exposto está ao sofrimento, nem que seja sob a forma da simples inquietação, que pode não ser tão simples como isso, se vier a tornar-se na inquietação existencial última:
qual o sentido da minha existência?
Mas não será preciso chegar a tanto para deixar a descoberto a falácia da imperturbabilidade budista e consequente plena auto-satisfação. É que não vejo como um ser consciente da dádiva da vida, imediatamente referida aos seus progenitores, mas logo extensiva a toda a sociedade, pode ter garantida a superação do sofrimento próprio sem que o sofrimento alheio não perturbe pela raiz a sua auto- satisfação e coloque em causa a sua felicidade.
Numa palavra: como posso permanecer imperturbável perante o sofrimento alheio e pensar que conseguirei, isoladamente, o êxtase da felicidade?
O budismo há muito que se aproximou da certeza desta incompatibilidade e daí a sua dedicação à causa da paz universal. E neste «universal» está incluída a própria natureza «morta».
O que fascina no budismo é esta dupla maravilha: meditação profunda sobre a nossa realidade mais íntima, desvalorizando o que é superficial e efémero e a busca da paz, querendo abraçar o mundo na sua totalidade.
O que desilude no budismo é a fuga radical da realidade, que nos serve um mundo em contínua transformação, que genericamente podemos designar por «sofrimento», como que em «dores de parto», onde tudo está em altíssima convulsão desde o «Big Bang».
No mesmo instante em que, na paz merecida de uma meditação bem conduzida, cem mil monges atingem o êxtase sublime, um tsunami tão inesperado quanto devastador, mergulha a todos no silencio da morte.
Esta é que é a realidade a ter em conta!
R. Com certeza que sim, Luís. Estão, de facto, para lá do sofrimento e até do budismo.O problema é que estão, também, para lá da realidade.
Qualquer ser humano que conserve a sua consciência, distingue-se de um ser inconsciente e este, sim, está para lá do sofrimento, do budismo e de muito mais. E o ser humano, quanto mais consciente estiver desta sua condição, mais exposto está ao sofrimento, nem que seja sob a forma da simples inquietação, que pode não ser tão simples como isso, se vier a tornar-se na inquietação existencial última:
qual o sentido da minha existência?
Mas não será preciso chegar a tanto para deixar a descoberto a falácia da imperturbabilidade budista e consequente plena auto-satisfação. É que não vejo como um ser consciente da dádiva da vida, imediatamente referida aos seus progenitores, mas logo extensiva a toda a sociedade, pode ter garantida a superação do sofrimento próprio sem que o sofrimento alheio não perturbe pela raiz a sua auto- satisfação e coloque em causa a sua felicidade.
Numa palavra: como posso permanecer imperturbável perante o sofrimento alheio e pensar que conseguirei, isoladamente, o êxtase da felicidade?
O budismo há muito que se aproximou da certeza desta incompatibilidade e daí a sua dedicação à causa da paz universal. E neste «universal» está incluída a própria natureza «morta».
O que fascina no budismo é esta dupla maravilha: meditação profunda sobre a nossa realidade mais íntima, desvalorizando o que é superficial e efémero e a busca da paz, querendo abraçar o mundo na sua totalidade.
O que desilude no budismo é a fuga radical da realidade, que nos serve um mundo em contínua transformação, que genericamente podemos designar por «sofrimento», como que em «dores de parto», onde tudo está em altíssima convulsão desde o «Big Bang».
No mesmo instante em que, na paz merecida de uma meditação bem conduzida, cem mil monges atingem o êxtase sublime, um tsunami tão inesperado quanto devastador, mergulha a todos no silencio da morte.
Esta é que é a realidade a ter em conta!
sábado, 22 de maio de 2010
O Monge e o Filósofo
Vai estar em Lisboa, para uma conferencia, um dos autores (o filho) da obra em título, o monge budista Matthieu Ricard.É francês e filho do famoso filósofo Jean François Revel. O livro nasceu da conversa entre ambos. O pai é filósofo ateu, o filho cientista das ciências genéticas, convertido ao budismo.
Acabei de ler alguns trechos da obra. São palavras do monge a definir o budismo. Graças ao meu amigo Luís, não fui apanhado desprevenido com afirmações como esta:
” O sofrimento resulta da ignorância. Portanto é a ignorância que preciso dissipar. E a ignorância, em essência, é o apego ao “eu” e à solidez dos fenómenos. Aliviar os sofrimentos imediatos de outrem é um dever, mas não basta: é preciso remediar as causas do próprio sofrimento.”
Não sei o que o pai filósofo terá dito para contraditar uma ideia destas. Nem sei, sequer, se rebateu a ideia. Mas eu discordo frontalmente do monge. Começo logo por pensar que a felicidade não se consegue dissipando o sofrimento e nem este resulta da ignorância. O sofrimento da mulher que dá à luz não resulta da ignorância e o que dele resulta é a felicidade de uma nova vida.
Tanto meditam estes monges budistas e não dão conta das realidades mais elementares.
Se não é deste sofrimento que falam, do parto da mulher, de que outros sofrimentos falam? Da unha encravada, do desgosto por não ter ganho o euro milhões ou de ter perdido o campeonato de futebol?
O sofrimento existe como forma de crescimento e como parte integrante da nossa condição humana. Será superado apenas na medida em que criarmos uma realidade nova, onde ele já não possa desempenhar função útil. Acabaremos por dispensar o sofrimento, como dispensamos o rabicho ao fundo das costas. Poderá é levar tanto tempo como levamos a perder a cauda.
Os fenómenos que ditam o sofrimento são sólidos, tangíveis, inteligíveis e transformáveis. A mulher que dá à luz não se debate com o fantasma do sofrimento. Nem o adepto sportinguista sofreria «pra burro» ano após ano, à espera de ganhar o campeonato, se a realíssima e reluzente taça não fosse entregue quatro anos seguidos ao FCP e neste último ano ao SLB.
Haverá sempre uma réstia de sofrimento enquanto houver em nós uma réstia de sonho. E quando deixarmos de sonhar é porque já estamos mortos e falta só fechar os olhos.
É mesmo assim, como dizias, Luís, «com um olho no finito e outro no infinito».
É um sofrimento quase deleitoso. Pode-se morrer serenamente, balançando sobre esta existência paradoxal.
Acabei de ler alguns trechos da obra. São palavras do monge a definir o budismo. Graças ao meu amigo Luís, não fui apanhado desprevenido com afirmações como esta:
” O sofrimento resulta da ignorância. Portanto é a ignorância que preciso dissipar. E a ignorância, em essência, é o apego ao “eu” e à solidez dos fenómenos. Aliviar os sofrimentos imediatos de outrem é um dever, mas não basta: é preciso remediar as causas do próprio sofrimento.”
Não sei o que o pai filósofo terá dito para contraditar uma ideia destas. Nem sei, sequer, se rebateu a ideia. Mas eu discordo frontalmente do monge. Começo logo por pensar que a felicidade não se consegue dissipando o sofrimento e nem este resulta da ignorância. O sofrimento da mulher que dá à luz não resulta da ignorância e o que dele resulta é a felicidade de uma nova vida.
Tanto meditam estes monges budistas e não dão conta das realidades mais elementares.
Se não é deste sofrimento que falam, do parto da mulher, de que outros sofrimentos falam? Da unha encravada, do desgosto por não ter ganho o euro milhões ou de ter perdido o campeonato de futebol?
O sofrimento existe como forma de crescimento e como parte integrante da nossa condição humana. Será superado apenas na medida em que criarmos uma realidade nova, onde ele já não possa desempenhar função útil. Acabaremos por dispensar o sofrimento, como dispensamos o rabicho ao fundo das costas. Poderá é levar tanto tempo como levamos a perder a cauda.
Os fenómenos que ditam o sofrimento são sólidos, tangíveis, inteligíveis e transformáveis. A mulher que dá à luz não se debate com o fantasma do sofrimento. Nem o adepto sportinguista sofreria «pra burro» ano após ano, à espera de ganhar o campeonato, se a realíssima e reluzente taça não fosse entregue quatro anos seguidos ao FCP e neste último ano ao SLB.
Haverá sempre uma réstia de sofrimento enquanto houver em nós uma réstia de sonho. E quando deixarmos de sonhar é porque já estamos mortos e falta só fechar os olhos.
É mesmo assim, como dizias, Luís, «com um olho no finito e outro no infinito».
É um sofrimento quase deleitoso. Pode-se morrer serenamente, balançando sobre esta existência paradoxal.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Não Caminhemos Sozinhos
Quem me acompanhou no que escrevi para o blog aaacarmelitas sabe que mantive um permanente confronto amigável com a ideia do «monaquismo». Há quem lhe chame «solipsismo». Significa sempre a procura individual da felicidade, seja para esta vida terrena e efémera, seja para uma outra, imortal e eterna. Em qualquer caso, o homem dobra-se sobre si mesmo, rezando e meditando, julgando que se une a Deus-Pessoal ou ao Princípio Infinito Impessoal do Ser.
Eu penso que estes solitários - «monacus=monge=solitário»- no fim da meditação acabam perdidos no labirinto dos seus pensamentos ou a andar em círculos à volta de si mesmos até ficarem adormecidos, pensando que estão a olhar para a sua mais intima realidade. Costumo dizer, por graça, que estão a olhar para o umbigo do sua existência. Pensam eles que quanto mais se aproximarem da perfeita meditação, mais imperturbáveis ficam face ao que se passa à sua volta. Amam, indiferentemente, o calhau do caminho, o gato que se enrosca no seu colo, o monge que a seu lado entra em êxtase ou o homem rude e grosseiro que o insulta.
Não sei porque se afastam do incêndio que avança na sua direcção. Logicamente, deveriam permanecer serenos e acolher o «ser» das maravilhosas chamas.
Sem saber o rumo certo, eu vou por outro caminho.
Sou cada átomo do meu «corpo-espírito». E digo assim, porque sei que sou o «corpo» que toda a gente vê e o «espírito» que a todos vós se dirige, aqui e agora. Dizem os espiritistas que o espírito não tem partículas atómicas ou sub-atómicas mas, se assim fosse, não seria eu deste mundo.
Mal por mal, prefiro acreditar que não sou uma «alma penada».
Sei que ainda suscita uma grande polémica dizer que é o meu corpo que produz o meu espírito. Mas eu prefiro isto à afirmação espírita de que somos duas entidades com principio e destino diferentes, corpo para um lado, alma para o outro. Prefiro seguir a inspiração cristã da «ressurreição». Para onde vai a alma vai o corpo junto, porque, na verdade, o ser humano é uma unidade indivisível. E como o homem foi feito do «barro da terra», que é exactamente o que significa a palavra «Adão», a ressurreição cristã engloba também «os Céus e a Terra». O mesmo é dizer que o destino do homem e do universo é um só. E nesta perspectiva cristã não existem «corpos mortais» nem «almas imortais». Morre tudo e ressuscita tudo aquilo que o homem é no seu universo. A nossa morte é o nosso «fim do mundo» individual, enquanto não chega o cataclismo universal, o derradeiro «fim do mundo» de que tanto se fala.
Eu não acompanho o cristianismo neste «fim do mundo», mas agarro com as duas mãos a ideia da unidade do homem. As ciências caminham também nessa direcção.
Porquê toda esta longa introdução? Já vão entender.
Se, à nascença, cada um de nós é uma entidade única, isso significa que recebemos, necessariamente, todas as potencialidade humanas, dos nossos progenitores e o nosso destino está indissoluvelmente ligado a terceiros (lá se vai o ideal monástico). Pelo contrário, admitindo a existência, em nós, de uma dupla entidade –um corpo+uma alma- tal ideia começa logo por secundarizar o papel dos outros na existência de cada um de nós. E a história do pensamento e das religiões está cheia de afirmações a sustentar que dos nossos pais apenas recebemos a «parte corporal», por que a alma ou é criada «na hora» por Deus e introduzida no corpo ou já existia antes do corpo porque é imortal.
O próprio cristianismo baralhou tudo e traiu muitas vezes os seus próprios dogmas. Apesar disso mantém-se fiel ao dogma da ressurreição, que só aceita o homem integral e uno.
Se aceitamos que ao nascer dependemos totalmente dos nossos pais isso só pode ter como consequência que a nossa vida está intrínseca e irremediavelmente ligada às outras pessoas. Isto significa, na prática, que nós “fazemos” os outros e os outros nos “fazem” a nós. É como se estivéssemos condenados a caminhar juntos.
Há dias um amigo meu, historiador, dizia-me que «a ciência não liberta». E eu respondi-lhe que «nem a ciência, nem arte, nem a sabedoria. Só o amor liberta».
Aquilo que começa por ser uma dependência total dos outros para nascer e dar os primeiros passos na vida, acaba em liberdade e afirmação pessoal nos braços dos que amamos e nos amam. Como se completássemos o nosso nascimento.
Amar é ter consciência da nossa dependência uns dos outros e amar essa dependência. «É querer estar preso por vontade», como diz Camões.
Camões não sabia mas adivinhou: o amor não está escrito no céu, mas no nosso ADN.
Nem monge budista nem monge cristão.
Ninguém viaje sozinho, indiferente ao apelo da vida.
Eu penso que estes solitários - «monacus=monge=solitário»- no fim da meditação acabam perdidos no labirinto dos seus pensamentos ou a andar em círculos à volta de si mesmos até ficarem adormecidos, pensando que estão a olhar para a sua mais intima realidade. Costumo dizer, por graça, que estão a olhar para o umbigo do sua existência. Pensam eles que quanto mais se aproximarem da perfeita meditação, mais imperturbáveis ficam face ao que se passa à sua volta. Amam, indiferentemente, o calhau do caminho, o gato que se enrosca no seu colo, o monge que a seu lado entra em êxtase ou o homem rude e grosseiro que o insulta.
Não sei porque se afastam do incêndio que avança na sua direcção. Logicamente, deveriam permanecer serenos e acolher o «ser» das maravilhosas chamas.
Sem saber o rumo certo, eu vou por outro caminho.
Sou cada átomo do meu «corpo-espírito». E digo assim, porque sei que sou o «corpo» que toda a gente vê e o «espírito» que a todos vós se dirige, aqui e agora. Dizem os espiritistas que o espírito não tem partículas atómicas ou sub-atómicas mas, se assim fosse, não seria eu deste mundo.
Mal por mal, prefiro acreditar que não sou uma «alma penada».
Sei que ainda suscita uma grande polémica dizer que é o meu corpo que produz o meu espírito. Mas eu prefiro isto à afirmação espírita de que somos duas entidades com principio e destino diferentes, corpo para um lado, alma para o outro. Prefiro seguir a inspiração cristã da «ressurreição». Para onde vai a alma vai o corpo junto, porque, na verdade, o ser humano é uma unidade indivisível. E como o homem foi feito do «barro da terra», que é exactamente o que significa a palavra «Adão», a ressurreição cristã engloba também «os Céus e a Terra». O mesmo é dizer que o destino do homem e do universo é um só. E nesta perspectiva cristã não existem «corpos mortais» nem «almas imortais». Morre tudo e ressuscita tudo aquilo que o homem é no seu universo. A nossa morte é o nosso «fim do mundo» individual, enquanto não chega o cataclismo universal, o derradeiro «fim do mundo» de que tanto se fala.
Eu não acompanho o cristianismo neste «fim do mundo», mas agarro com as duas mãos a ideia da unidade do homem. As ciências caminham também nessa direcção.
Porquê toda esta longa introdução? Já vão entender.
Se, à nascença, cada um de nós é uma entidade única, isso significa que recebemos, necessariamente, todas as potencialidade humanas, dos nossos progenitores e o nosso destino está indissoluvelmente ligado a terceiros (lá se vai o ideal monástico). Pelo contrário, admitindo a existência, em nós, de uma dupla entidade –um corpo+uma alma- tal ideia começa logo por secundarizar o papel dos outros na existência de cada um de nós. E a história do pensamento e das religiões está cheia de afirmações a sustentar que dos nossos pais apenas recebemos a «parte corporal», por que a alma ou é criada «na hora» por Deus e introduzida no corpo ou já existia antes do corpo porque é imortal.
O próprio cristianismo baralhou tudo e traiu muitas vezes os seus próprios dogmas. Apesar disso mantém-se fiel ao dogma da ressurreição, que só aceita o homem integral e uno.
Se aceitamos que ao nascer dependemos totalmente dos nossos pais isso só pode ter como consequência que a nossa vida está intrínseca e irremediavelmente ligada às outras pessoas. Isto significa, na prática, que nós “fazemos” os outros e os outros nos “fazem” a nós. É como se estivéssemos condenados a caminhar juntos.
Há dias um amigo meu, historiador, dizia-me que «a ciência não liberta». E eu respondi-lhe que «nem a ciência, nem arte, nem a sabedoria. Só o amor liberta».
Aquilo que começa por ser uma dependência total dos outros para nascer e dar os primeiros passos na vida, acaba em liberdade e afirmação pessoal nos braços dos que amamos e nos amam. Como se completássemos o nosso nascimento.
Amar é ter consciência da nossa dependência uns dos outros e amar essa dependência. «É querer estar preso por vontade», como diz Camões.
Camões não sabia mas adivinhou: o amor não está escrito no céu, mas no nosso ADN.
Nem monge budista nem monge cristão.
Ninguém viaje sozinho, indiferente ao apelo da vida.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Um Amigo Que Chega da Austrália
Olá Pedro
Vejo a tua foto chegar, como «seguidor», à Laje Negra. Aparece a comentar,mesmo no teu português inglesado, se gostares dos temas propostos, que serão sobre a vida da gente. Como escrevi e pudeste ler, «ninguém sabe o caminho», mas ainda podemos dizer «não vás por aí, que já experimentei e não dá». Vamos pensar, juntos, em alternativas.
E eu tenho um conselho, o único, que dou a toda a gente: não caminhem sozinhos! Levem convosco um amigo, muitos amigos, todos os que puderem abraçar. E comecem por abraçar o vosso amor primeiro, aquele que partilha convosco a casa, o leito e o corpo inteiro. Uma viagem em tão boa companhia vai proporcionar a felicidade possível. Talvez a única que todos procuramos; hoje, porque amanhã, talvez os netos dos nossos netos a queiram toda, no sentido em que escrevia o Luís, meu amigo e companheiro no blog, «com um olho no finito e outro no infinito». Somos insaciáveis e isto tanto nos faz tomar consciência da nossa grandeza humana, como nos deixa, irremediavelmente, com água na boca. Mas que bom, porque assim se alimenta o sonho.
Um abraço
Mário
Vejo a tua foto chegar, como «seguidor», à Laje Negra. Aparece a comentar,mesmo no teu português inglesado, se gostares dos temas propostos, que serão sobre a vida da gente. Como escrevi e pudeste ler, «ninguém sabe o caminho», mas ainda podemos dizer «não vás por aí, que já experimentei e não dá». Vamos pensar, juntos, em alternativas.
E eu tenho um conselho, o único, que dou a toda a gente: não caminhem sozinhos! Levem convosco um amigo, muitos amigos, todos os que puderem abraçar. E comecem por abraçar o vosso amor primeiro, aquele que partilha convosco a casa, o leito e o corpo inteiro. Uma viagem em tão boa companhia vai proporcionar a felicidade possível. Talvez a única que todos procuramos; hoje, porque amanhã, talvez os netos dos nossos netos a queiram toda, no sentido em que escrevia o Luís, meu amigo e companheiro no blog, «com um olho no finito e outro no infinito». Somos insaciáveis e isto tanto nos faz tomar consciência da nossa grandeza humana, como nos deixa, irremediavelmente, com água na boca. Mas que bom, porque assim se alimenta o sonho.
Um abraço
Mário
Quando a Terra se Apagar
Quem me conhece sabe que fui frade e quase padre. Mas acreditem que não venho para aqui armar-me em pregador Se quisesse ser pregador tinha permanecido frade. Além disso, os crentes já sabem, todos, o caminho direitinho para o céu. É certo que toda a gente deseja conhecer o caminho a seguir, se não for por outros motivos, sê-lo-á, pelo menos, para evitar contratempos. Não pretendo indicar esse caminho a ninguém e também não espero que mo indiquem a mim. Não é por má vontade, mas porque, simplesmente, não o conhecemos. Apesar disso, ainda vamos podendo dizer uns aos outros «olha que por aí não vais bem». E é tudo o que podemos fazer, enquanto caminhamos conscientes do nosso destino paradoxal. Com efeito, se é verdade que à superfície da Terra traçamos o percurso a seguir, com os zig-zagues todos que se conhecem, não é menos verdade que a Terra gira sobre si própria e à volta do Sol sem nos dar cavaco. Acendeu-se quando bem entendeu e há-de apagar as luzes, daqui a uns anitos largos, com indiferença majestática para com estes baralhados terráqueos.
Há dias, um cientista ligado à genética disse qualquer coisa como o nosso ADN estar a ficar demasiado igual e poder surgir o fenómeno de "consanguinidade" global. Nesse caso, a salvação da espécie humana consistiria em emigrar para outro planeta, onde «acasalássemos» com outra espécie (inteligente, soponho).
Até parece que a mãe Terra nos está a pôr fora de casa, com um pontapé no cu...
Sejamos um pouco mais poéticos: está, de facto, a empurrar-nos para fora do ninho, como fazem as avezinhas do céu aos seus filhotes "preguiçosos", para voarmos no espaço aberto, testando as lindas asas que entretanto nos foram crescendo.
Há dias, um cientista ligado à genética disse qualquer coisa como o nosso ADN estar a ficar demasiado igual e poder surgir o fenómeno de "consanguinidade" global. Nesse caso, a salvação da espécie humana consistiria em emigrar para outro planeta, onde «acasalássemos» com outra espécie (inteligente, soponho).
Até parece que a mãe Terra nos está a pôr fora de casa, com um pontapé no cu...
Sejamos um pouco mais poéticos: está, de facto, a empurrar-nos para fora do ninho, como fazem as avezinhas do céu aos seus filhotes "preguiçosos", para voarmos no espaço aberto, testando as lindas asas que entretanto nos foram crescendo.
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