quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Unidade do Homem

Não preciso de corrigir, Limabar, porque é isso mesmo. Eu debato-me com o paradoxo do ser humano uno e integral em toda a sua dimensão "fisica" e "espiritual”, aceitando-o em vez de o negar ou tentar disfarçar. Só por uma questão de metodologia eu falo em duas dimensões, porque não faz sentido falar da frondosa copa de uma árvore como se aquela fosse capaz da sua manifestação exuberante sem a fecundidade essencial da humilde e obscura raiz.
Compreendo que «isto é de doidos», mas a evidência da unidade no ser humano impõe-se cada vez mais de forma avassaladora e não adianta negar a morte. Não adianta fazer da morte um «tabu». Não adianta «fazer de conta» que é com os outros seres vivos mas não é connosco, só porque atingimos o patamar invejável do pensamento consciente. Não adianta tentar esconder o longo percurso desde a "matéria" e para além dela, até à espantosa "organização" da primeira molécula e da primeira célula viva que se auto replica ou auto reproduz. Não adianta negar a historicidade da vida, nostálgicos do belíssimo mito bíblico de Adão e Eva.
Nos aceleradores de partículas a ciência da física procura os constituintes «primeiros» da matéria. Nos laboratórios da ciência biológica procura determinar-se como destes se transitou para a vida.
Na mente dos homens da ciência não estará o pensamento da negação da morte mas a vontade indómita de saber como emergiu a vida que somos. E reproduzi-la.
E fazem-no sem cuidar da situação paradoxal em fundo: evoluir da "morte", no sentido da «não-vida», para a vida.
Paradoxal, de facto, até que fique demonstrado que há mais «potencial», organização e complexidade no seio dos átomos que no “produto final” das circunvoluções do cérebro humano, a nossa maravilhosa mente consciente. Se tal for demonstrado, acaba-se o paradoxo de ser a «não-vida» (a “morte”?) a criar a "vida" dando, aparentemente, razão às correntes espiritualistas, quando afirmam que o "espírito" cria a "matéria", invertendo os acontecimentos, segundo a ciência actual. Como se a chama da candeia estivesse na origem do óleo e do pavio e a copa da árvore se antecipasse às raízes que a sustentam.
Não fora a «seta do tempo», que nos impõe o passado, o presente e o futuro e tudo isso haveria de parecer naturalíssimo…
Mas abstrair do tempo e do espaço é entrar num mundo que não é o palco onde se desenrola o teatro da nossa vida. Tem um nome bem conhecido - eternidade – e, cá por mim, não tenho pressa nenhuma de lá chegar

Para Além da Consciência

Transferi da caixa de comentários e coloco em post o comentário do Limabar


Mario, acabo de ler este teu “post” e apercebo-me que, afinal, o meu ultimo comentário, no “post” anterior, encaixaria aqui tal qual. Do que até agora pude extrair quando te leio, ressaltam dois pontos básicos, sobre os quais pareces centralizar a tua argumentação. Falo do conceito de “o homem integral e uno” e na crença irredutível de “uma vida para além da morte”.
Se me engano, corrige-me!
Permite-me, no entanto, expor, ainda que sucintamente, o que a vivência da minha “longa” existência, gravou nos centros cerebrais onde a razão opera. (A minha evidentemente.)
1 – Quanto ao “o homem integral e uno”, estou de acordo com a fórmula, mas não com a sua justificação.
O homem, basicamente, é um animal, igual a tantos outros, engendrado pela força criadora da natureza, durante a evolução da vida através dos tempos. A consciência, a capacidade de pensar, foi o “milagre” que, pouco a pouco, através de séculos de transformações e enriquecimentos, o vestiu deste capote que hoje o cobre, tecido de aquisições múltiplas e multiformes, herança acumulada da vivência de milhares de milhões de seres humanos, que com as suas vidas efémeras e obscuras, nos transmitiram os genes da evolução biológica e a acumulação da aprendizagem da vida pessoal, herança essa que, a pouco e pouco, foi alimentando o imenso caudal de transformações e conhecimento, inscritos nos genes e memoria colectivos da raça humana.
O homem é constituído de dois blocos inseparáveis: o corpo físico, visível e palpável, e o “centro metafisico”, espírito, alma ou mente, segundo a ideologia preferida. O corpo físico é o depositário da herança genética da evolução animal, o “metafisico” é o centro de aquisição, armazenamento e gestão da aprendizagem e vivências sócio-culturais. Nenhuma destas duas partes básicas do homem pode ter vida independente. Quando uma delas cessa a actividade, a outra é incapaz de continuar sozinha. É, então que homem volta à sua origem, “integral e uno”, sem esperanças de retorno, porque entretanto a natureza seguiu, indiferente, o ciclo inelutável da vida e da morte.
2 – Quanto ao segundo ponto de “uma vida para além da morte” é um apêndice do primeiro. É a resultante de aquisições do “centro metafisico” orientadas pelo sentimento, insustentável para eu consciente, de um fim inconfessávelmente absoluto e irreversível. A fé é assim uma muleta que ampara o homem na sua caminhada pela a terra, mas não o pode socorrer noutras paragens. Crente ou não crente, quando a barreira da existência é ultrapassada, o ser humano volta, inteiro, ao seu estado original, esse lugar indefinido que a inteligência humana não suporta: a não existência.

Claro é só a minha convicção!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Para Além da Consciência...

(Comentário repescado do blog aaacarmelitas, que decidi colocar também na Laje Negra porque serve de continuação à mimha resposta - na caixa de comentários - ao leitor Limabar)

«O homem nasceu para ser livre e feliz, e a conquista dessa liberdade é mais importante que o pão de cada dia».(Mariano)

«Mais formoso que o Universo que nos rodeia é o que existe nos nossos corações». (Mariano)

O texto que o Mariano nos trouxe é cheio de eloquência mas, aqui e ali, expressa-se numa linguagem que se proporciona a muitos equívocos, como as frases que citei.

Começando pela primeira citação, a frase é de belo efeito literário mas carregadinha de inverdade. A liberdade nunca pode ser mais importante que o pão de cada dia porque, sem este, somos privados da raiz da própria liberdade, que é a sanidade "corporal", consagrada pelos nossos antepassados, de forma lapidar e sábia: «mente sã em corpo são». No fundo, aquela afirmação equivale a dizer que o nobilíssimo cérebro bem podia dispensar o verdadeiro carregador de pianos que é o coração. E já todos sabem o que vale um cérebro sem irrigação sanguínea.
O equívoco que pode estar escondido por detrás de tal asserção é pensar que a alma e as suas faculdades constituem uma entidade autónoma dentro do «espaço-corporal-material». Bem pode desfazer-se o homem-corpo em podridão ou cinza, que o espírito subsiste vivo e luminoso...
Como repeti vezes sem conta neste espaço, não é nem esta filosofia nem esta teologia que sustentam o dogma fundamental da ressurreição cristã, que assenta no pressuposto do homem integral e uno. O dualismo platónico ou cartesiano foi sempre a grande tentação derrotada. Um bem-haja sincero aos teólogos cristãos.

Quanto à segunda citação, claramente o autor parece ter perdido a noção das proporções e, mais uma vez, tal facto deriva da concepção dualista da vida. Nós somos uma «partícula» de um único universo e não um mundo dentro de outro mundo. A beleza impar que realmente irradia dos nossos "corações" é parte integrante do próprio universo. Por isso mesmo se chama «UNIVERSO». Logicamente estamos englobados na sua «universalidade».
Ai essa velha tentação de partir o homem em duas metades inconciliáveis e com destinos distintos(corpo-espirito)!
Outra coisa bem diferente, intrigante, pertinente, emocionante e verdadeiro quebra-cabeças para a biologia e a neurociência é a emergência do que parece ser o milagre da construção ou organização da mente humana, onde emerge claramente um «eu consciente», capaz de olhar para si próprio e para o UNIVERSO a que pertence, com a mesma facilidade com que olhamos a Terra a partir de uma nave espacial ou quando, numa noite de luar, ficamos fascinados a olhar a lua cheia no mês de Agosto.
O paradoxo que nos deixa estonteados é que nós fazemos isto tudo, sem fazer a mínima ideia de como chegamos até aqui e porque este «eu» fabuloso se desfaz como bola se sabão ou desaparece, em cinzas, no forno crematório.
Perante estes factos inelutáveis, quem pode recriminar o homem de hoje e de sempre por se refugiar no seio consolador da fé numa vida depois da morte, contra todas as evidências?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

De Fernando Pessoa

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
E o mito brilhante e mudo-
O corpo morto de Deus
Vivo e desnudo.

Este, que por aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo.
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre,
Em baixo a vida, metade
De nada, morre.

(Fernando Pessoa, poema Ulisses)

A Propósito de Palácios

(Comentário para um amigo)

Às vezes fico a pensar que quanto mais se esbate a crença na vida para além da vida mais se investe no sonho e na criação de um «paraíso» na terra. E sou levado também a pensar que a crença na vida depois da morte já só move os mais fanatizados. O comum dos crentes respeita profundamente as tradições e professa as crenças ancestrais, mas na hora da verdade vem perguntar, com toda a sinceridade da alma, «como é do outro lado?» Porque, entretanto, se impusera a evidência que instalara a dúvida: «de lá não vêm cartas».
É certo que muitos crentes mandaram erguer maravilhas arquitetónicas, tentando comprar um lugar no paraíso do além. Mas era bem terreno o amor à beleza esculpida, pintada ou musicada. E para quê um mausoléu sumptuoso, se de tudo isto não haveria de restar pedra sobre pedra? Parece mesmo que nunca foram convencidos. Não é por acaso que a explosão artística da antiga Grécia cresceu no contexto da ridicularização dos deuses tradicionais. E os artistas esculpiam-nos a seu bel-prazer e descreviam-lhes a alma conforme os sentimentos e emoções humanos. Sem dó nem piedade. Os artistas demoliram as divindades. No mínimo, reduziram-nas à vulgaridade.
Nunca, como hoje, se investiu tanto numa vida para ser vivida cá, na sua totalidade. A fé não é combatida pela ciência. A ciência investiga e faz o seu caminho «apesar da fé». Nem se dá ao trabalho de a discutir. A prova da existência de vida noutros «sistemas solares» (que são incontáveis) iria estoirar com a cristologia cristã. E os cientistas prosseguem a sua pesquisa sem ligar a mínima. Como os cristãos se estiveram borrifando para a proibição dos anticoncepcionais, do divórcio, do casamento gay, da investigação genética etc.
Atrevia-me as dizer que se as riquezas são mal distribuídas isso fica a dever-se, em boa parte, a uma desgraçada pregação de que estamos aqui de passagem e a nossa verdadeira casa é «no outro lado». Até parece que era mesmo isso que queriam ouvir os «senhores do dinheiro».
A fé foi amplamente utilizada para amordaçar a «revolta» dos esfomeados e injustiçados.
Tudo isto por causa do palácio italiano que te enviei em vídeo...

sábado, 13 de novembro de 2010

O Silêncio Fecundo

O silêncio é fecundo hoje, como já foi ontem e desde que o homem atingiu a elevação do pensamento consciente. Do alto, olhou o presente, o passado e o futuro possível ou projectado. Apesar do ruído, que foi ensurdecedor em todas as épocas, assumindo sempre formas de expressão diferentes, desde os electrizantes batuques da savana africana até ao ruído infernal das arenas em combates de morte, o homem sempre soube encontrar os seus tempos de recolhimento. Chego a ficar comovido quando penso nas dezenas ou centenas de milhares de investigadores dedicados e que respeitam apenas o horário da sua paixão pelo conhecimento, ano após ano, nos mais diversos ramos da pesquisa cientifica ou meditação filosófica. Se não estivermos atentos, este mundo maravilhoso passa-nos tão despercebido quanto o génio do nosso Camões foi ignorado pelos seus contemporâneos.
O estardalhaço dos foguetes ou da música pimba não são mais que o ruído normal provocado pelos nossos passos, enquanto avançamos no caminho íngreme e pedregoso de um futuro que vamos sonhando.
Se o Intrometido pode falar do escândalo da sua alma quieta, eu venho aqui, uma vez e outra, com o escândalo de uma alma inquieta, mas, estranha e paradoxalmente, em paz com a vida que amo e me amou primeiro.

( publicado em aaacarmelitas)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Carta a um Amigo

«A história não se refaz, mas repete-se noutras condições...» Dizes.

Como tenho em mente a história de um universo progressivo (em expansão) e a história da vida em processo evolutivo, não direi que o futuro é o passado (« a história repete-se») mas uma novíssima realidade, algo muito próximo de uma verdadeira criação. Sei que este pensamento é o inverso daquilo que seríamos, em lógica, levados a pensar, que é considerar o acto absoluto da criação no «princípio dos tempos» e não a apontar para o «fim dos tempos». Mas, de facto, a mim afigura-se-me que nós e o universo procedemos de coisa nenhuma e somos um puro processo em curso, sem vislumbre de um verdadeiro principio nem tão pouco de um fim à vista. Porque, em rigor, não pode ter principio o que ainda nem realidade é -o futuro - nem tão pouco podemos antecipar o que há-de ser -o futuro, novamente. Em verdade só o presente «é» em plenitude, enquanto «histórico» do passado e embrião do futuro.
O que complica tudo e provoca esta confusão toda é a nossa humana capacidade de, mentalmente, recuar ou avançar no tempo, sem sair do espaço e do tempo que somos no presente. Somos como que um elástico que se estica em todas as direcções e que acaba por regressar e encolher-se no ponto de partida, depois do esticão exploratório. Não admira nada que, face a tamanha «elasticidade» do pensamento consciente, Descartes, na esteira de tantos outros, tenha considerado a dualidade intrínseca do homem como um facto. Para ele a «res extensa» (o corpo) nada tem a ver com «res cogitans» (a alma e as suas faculdades). A tentaçao é grande para aceitar a dicotomia, pela evidencia do poder da mente a contrastar com a fragilidade de um corpo que parece não ser mais que o habitáculo temporário da alma. O avanço da ciência, porém, vai no claro sentido de que é o "frágil" corpo que está na génese da alma e não o inverso. Ambos formam uma unidade indissociável e essencial.
Para a nossa compreensão da realidade, diga-se em abono da verdade, a situação fica ainda mais complicada ou misteriosa.
Neste contexto, a mente humana surge como o patamar mais avançado da história da vida. E falta saber se não será também o prodígio maior de um universo evolutivo, que se organizou num corpo capaz de gerar o pensamento consciente.
Muito honestamente, penso que é cagança a mais pensar o homem como a «consciência do universo».
Mesmo assim, apetece-me acabar este email como tu fizeste num outro que me enviaste: «Eppur si muove»