sábado, 18 de dezembro de 2010

Do Livro da Sabedoria (Pe Mário) ao Livro da Consciência (António Damásio)

Deliberadamente, ao estabelecer aquela sequência no título desta postagem, como se estivesse a sugerir um percurso que vai da sabedoria para a ciência, quis dar o mote para este meu comentário acerca do posicionamento dos dois autores face à realidade do ser humano.
António Damásio, com a humildade dos antigos filósofos gregos, investiga persistente e apaixonadamente, na demanda da ciência (a nossa sabedoria possível) do universo da vida. O Pe Mário, dizendo-se o mais humilde dos homens, proclama, do alto da soberba montanha onde subiu, a sua sabedoria infusa, que faz dele um iluminado desde que nasceu. Bem ao jeito do seu «Jesus-o-de-Nazaré»
Sabedoria infusa, sim; adquirida, não, porque não há escola que a dispense.
Não é de estranhar que, em trinta anos, o Pe Mário publique trinta títulos da sua sabedoria infusa, porque é só deixar jorrar da sábia fonte, enquanto que António Damásio publique apenas três, à razão de dez anos para um livro. E, o que ainda é mais significativo, Damásio, no livro seguinte corrige e completa os anteriores, confessando, de cada vez, que o mistério da emergência da mente consciente continua por explicar e compreender.
Para que nós saibamos ao que vamos, quando nos preparamos para ler o seu Livro da Consciência, Damásio deixa esta citação esclarecedora de Richard Feynman: «O que não consigo construir não consigo compreender». Por outras palavras, os homens que se dedicam ao estudo da consciência humana vão dizendo que só compreenderão a mente humana quando forem capazes de a criar.
É verdade que Damásio se dedica ao estudo específico da realidade que é o nosso cérebro e de como neste emerge a mente consciente. Mas ele tem sempre presente o ser humano como «um todo». Este facto faz dele um cientista invulgar, aliás, como outros que hoje vão aparecendo, ao ponto de nós não conseguirmos perceber a diferença entre o observador e experimentador e o homem que se interroga para além do que observa e experiencia, já numa clara atitude filosófica. E todos nós sabemos que o homem-filósofo não se fica pela compreensão da actividade cerebral. Se é verdade que a actividade cerebral se explica a si própria à medida que se observa a sua organização e o seu funcionamento, não é menos verdade que aquela organização prodigiosa tem um historial impressionante de biliões de anos. Se conseguirmos recriar, em laboratório, essa história, compreenderemos a mente consciente. Dizem eles.
Até lá, restam-nos duas atitudes perante a realidade misteriosa: continuar a investigar, pacientemente, ou saltar por cima da realidade do nosso conhecimento e capacidades actuais, acenando com as verdades definitivas da fé, seja no Jesus-o-de-Nazaré do Pe Mário, seja no Deus das religiões. Em alternativa a estas, também há os que se sentam, meditabundos, concentrando as energias todas da mente para mergulhar no vácuo absoluto, onde um «eu» laboriosamente construído ao longo de biliões de anos, desapareça diluído na “substância original”, una, indivisível e impessoal. Ora isto é o caminho inverso da evolução por força de um impulso vital, que resultou na criação da mente consciente e do «eu» que a preside, segundo António Damásio. Poderíamos considerar a atitude dos «meditadores» como o resultado de um impulso contrário à emergência do «eu», designando-a de auto-aniquilamento. Uma espécie de suicídio espiritual. E digo «suicídio espiritual» lembrando que o «suicido material» eles já o iniciaram, ao reduzir ao mínimo dos mínimos a actividade «física», manifesta no desprezo pelo «bulício» ou «fervilhar» da vida do dia-a-dia. No limite, este «suicídio material» consubstancia-se no desprezo por toda a pesquisa científica.
A propósito, recordo que já escrevi, neste blog, acerca do cientista francês que largou todo o seu trabalho de pesquisa cientifica, para se recolher num mosteiro budista e depois deambular pelo mundo de braço dado com o Dalai Lama. Bem podem dizer estes «suicidas» que aceitam a pesquisa cientifica e a ciência, porque ninguém vai acreditar naqueles que a abandonaram em nome de uma forma de compreensão e construção do ser humano que, na prática, a nega.
E tudo isto porquê? Porque esses “pregadores”, sejam o Pe Mário ou o Dalai Lama, já se julgam senhores da EXPLICAÇÃO para o mistério da vida. E a prova é que todos deixam a «escola da ciência» e se perdem num diletantismo oco e vaidoso, porque é nisso que transformam o apreço pela cultura humana, quando a ISOLAM DA MENTE CONSCIENTE QUE A PRODUZIU. Ora, na base da cultura está o conhecimento; e a pesquisa cientifica pode ser considerada como as pernas e as mãos da nossa mente curiosa e sempre insatisfeita. Saramago, de uma forma feliz e carregada de intenção e significado, diz que «os sentidos são as pernas da alma».
António Damásio, neste seu último livro, que demorou dez anos a construir, procura explicar como isso acontece, denunciando sempre o «Erro de Descartes», erro esse que está na base do pensamento desincarnado.
E é aí que eu vou deter-me numa segunda parte deste comentário. Mas não queria fechar esta primeira, sem destacar o entusiasmo destes homens cientistas-filósofos pelo momento que vivemos de autêntica explosão do conhecimento em todas as direcções e a consciência crescente que eles manifestam de que «tudo tem a ver com tudo». Assim como os físicos teóricos procuram uma «teoria de tudo», os homens da pesquisa científica já entenderam que devem caminhar no sentido da «ciência do todo».
Contrastando com este entusiasmos dos “damásios” deste mundo, deixo-vos com as palavras azedas dos derrotistas e derrotados “padres mários”.

«Os tempos são de demência global»
«São tempos de generalizada demência»
«O ser humano nunca esteve tão desenvolvido e tão distante do ser humano que devemos ser».
E que preconizam estes pregadores iluminados para chegarmos «ao que devemos ser?
Ouçamos o mesmo autor das palavras acima citadas, o Pe Mário: «Nada melhor que a leitura deste livro (o seu Livro da Sabedoria) para conseguir esse desígnio».
Ocorre-me dizer que é tudo tão fácil quando se acredita na magia do milagre, em que a leitura de um livro constrói a nossa história individual ou colectiva. Na falta de uma ciência como a que hoje conhecemos, os nossos antepassados acreditaram que isso era possível e alguém cuidou de servir-lhes, oportunamente, «A Palavra de Deus», milhões de vezes transcrita em todas as bíblias sagradas. Nem por um instante escarneço dos meus pais e dos meus avós que não tiveram outra oportunidade que não fosse seguir a voz desses pregadores. Neste inicio de o século XXI, ver pregadores letrados a acenar com a «Palavra de Deus», isso me leva a denunciá-los como vendedores de banha da cobra, fazendo a gente simples e crédula acreditar que por uma leitura e conversão a uma determinada ética ou uma determinada moral conseguem construir um homem novo, de um dia para o outro, como se tudo na vida fosse resultado de uma magia.
Bem gostava de saber como é que se vão safar aqueles que não terão a oportunidade ou a pachorra para ler o Livro da Sabedoria!

9 comentários:

  1. Como não tenho o poder de desenvolvimento do Mário, aqui deixo três ideias básicas me vêm ao pensamento:
    -Construir a nossa vida segundo as crenças e ideologias que professamos é um direito que nos assiste.
    -Precisamos acreditar em nós mesmos para sobreviver.
    -A verdade é algo de provisório, mas só a sua busca nos torna amadurecidos.

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  2. Meu caro Lima, quando dito assim, genericamente, que é um «direito que nos assiste» construir as nossas vidas segundo as nossas crenças e ideologias, também estou de acordo. O problema é que as ideologias são como a camisa que vestimos: com o tempo gastam-se ou passam de moda e querer eternizá-las é tentar fazer parar o conhecimento e, no limite, o próprio processo evolutivo. Pelo menos atrasá-lo. Uma boa parte dos conflitos humanos são fruto da tensão entre o avanços ditados pelo conhecimento e a tentativa de cristalização no pensamneto feito ideologia ou crença.
    Estamos "condenados" a criar ideologias e ter crenças para nos construirmos e sempre prontos a dispensá-las para seguir outros rumos. É a vida. Quem diria, há cinquenta anos, que o Papa ia concordar com o uso do preservativo? E talvez ainda possamos assistir à alteração da lei islamica que ordena a lapidação das mulheres adulteras.

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  3. Mário, este seu blogue é uma cornucópia de diálogo filosófico da qual eu comeria e beberia incansavelmente, não fosse o caso de o tempo ser (demasiado) limitado. Quando lhe lia sua referência aos sentados meditabundos, de ego diluído, veria os seus olhos bem fixos em mim, e o seu dedo para mim bem apontado - não fosse o facto de eu realmente não existir: MUAHAHAHAHAH! - e assim me safei. Brinco, claro. Os meditabundos não querem acabar com o eu. Nem agarrá-lo. O Mário vê cavalos nas nuvens, e vou eu desmenti-lo? Também eu os vejo, não nego. E no entanto vejo nuvens. E gigantes. E ondas. Os antigos viam no céu caçadores, e ursas. Outras viam outras coisas. Mas as estrelas, essas, estão realmente lá. Ou talvez seja gás concentrado... ou talvez...

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  4. Ò Luis, eu quase nem consigo enxergar o jumento que sou aqui no chão, quanto mais avistar e testemunhar cavalos nas nuvens!
    Tens razão quando dizes que eu tinha o pensamento caidinho em ti e nos teus amigos "meditabundos". Quem acompanha este blog desde o nascimento sabe o que nós esgrimimos em «pros e contras». Depois, deixaste-me a falar sozinho, mas nao desisti. Entretanto, saltou-me ao caminho um condiscipulo e amigo de criança/adolescente, o Limabar, para alegria de um blogger solitário...
    Não te estou a recriminar, porque tens a tua vida e essa tem de estar sempre em primeiro lugar, exactamente como eu faço. Mas deixa que eu diga que tive saudades tuas.
    Quando a tua vida te permitir, da cá um saltinho, porque eu gosto tanto de discordar de ti...seu cartesiano encapotado!

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  5. Costumo dizer ao meu puto que, quando falamos mais do que ouvimos, ficamos com a cabeça vazia! Tenho de recarregar as baterias de ideias, novas, velhas ou recauchutadas, mas para isso preciso de tempo...

    ...agora "cartesiano"? Esse capote, nem com este frio! Nem mente e corpo, nem quente e frio, nem bem e mal, nem tu e eu.

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  6. Este Luis dá cabo de mim!
    «Agora "cartesiano"?».
    Qual a diferença substantiva entre o famoso "cartesianismo" «Penso, logo existo» e o teu não declarado, mas implicito no que afirmas, «Penso, logo não existo»?
    (...«não fosse o facto de eu realmente não existir«).
    Considero "castesiano" todo aquele que identifica o seu pensamento com a realidade objectiva, mesmo quando essa realidade é o proprio pensador a ser "dissecado" pela razão.
    Quando alguém identifica a realidade com o pensamento que temos acerca dela, torna-se fácil, num segundo momento, dizer que a realidade não existe. De facto, aquela realidade que constitui o acervo completo dos meus conhecimentos não é a realidade, mas simplemente o que consigo captar dela.
    Uma cobra surucucu, que é privada do sentido da visão, não falha a presa a que se atira, apesar de não ver o colorido passarinho que eu vejo, mas apenas uma fonte de calor, com a forma exacta das presas que escolhe. Ora, o facto de a cobra e eu captarmos de modo diferenciado um acontecimento, neste caso o pássaro, não significa que a realidade que é o passarinho não exista ou só exista no meu cérebro e no cérebro da surucucu.
    Outra coisa bem diferente são os «produtos» ou «realidades» mentais, como o conceito de "cartesianismo".
    Nós podemos desmontar (ou fazer um mapa ou maquete) da realiadde como quem desmonta um automóvel, peça a peça, átomo a átomo, que continuaremos a lidar com realidade objectiva. Não o todo que é a realidade, porque para isso teríamos de ser «deuses». Parafraseando o que se diz acerca da mente consciente, nós só conseguiremos compreender a realidade que é o universo quando formos capazes de construir um.

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  7. Pois aí no desmontar é que está o busílis. O que eu digo é tão somente isto: eu não existo, porque para me encontrares tens de desmontar a realidade. Como o Miguel Ângelo sacava as estátuas da pedra, tirando "o que estava a mais". Mas, claro, se desmontando a realidade me encontras, então afinal existo. Existo, não existo. Não existo, existo. Se insistires que existo, mostro-te que não existo. Se jurares que não existo, mostro-te que sem dúvida existo. Mário, se te digo que não existo é tão somente porque teimas que existo.

    A citação que transcrevo abaixo vem de certeza a propósito, pese embora a minha compreensão dela não ser absolutamente total. Mas vale a pena ler o que foi dito há uns 2500 anos (de tudo, é a precocidade desta intuição que me deixa mais desconcertado):

    "O que é, monges, o mundo?

    O olho e as formas, o ouvido e os sons, o nariz e os cheiros, a língua e os sabores, o corpo e os objectos tácteis, a mente e os objectos mentais - estes formam o mundo como o conhecemos.

    Quando o olho e a forma estão lá, então a consciência da visão surge.

    Desta consciência da visão vem a sensação; aquilo que é sentido é alvo do pensamento; aquilo que é pensado é projectado para fora como mundo externo.

    Assim eu declaro que neste corpo de um metro e oitenta com as suas percepções e pensamento reside o mundo, o começo do mundo, o fim do mundo, e o caminho para o fim do mundo."

    De "Majjhima Nikaya" do Buddha

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  8. Ó Luis, não me peças para fazer de «Deus», que cago-me e mijo-me todo. Como poderei eu, num espaço-de-tempo tão limitado, como é o nosso aqui na Terra-Mãe, de uns escassos quatro biliões de anos, desmontar uma realidade de que nem se conhece, ao certo, a idade que tem, nem o espaço que percorreu? «Espaço percorrido»? Mas então existe uma outra realidade, a "arena" , «a passadeira vermelha», onde o tempo-espaço se desdobra? Não estás a ver, pois não? Nem eu. E ainda querias que eu desmontasse a realidade! Eu ou Einstein. Dá tu um jeitinho, se puderes. Mas olha que o Einstein deu uma boa achega.

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  9. Tens razão, Mário. Há tarefas demasiado vastas. Por ex., tornar o mundo um lugar menos agressivo para os pés cobrindo-o de alcatifa, era uma ideia. Mas basta usar uns sapatos. Dá no mesmo, para todos os fins práticos.

    Mas note: andar de sapatos calçados não é o mesmo que julgar que o mundo está alcatifado.

    Eu sei que o que digo não se entende. Mas espero que vá fazendo o efeito pretendido... é um processo de erosão.

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