domingo, 19 de dezembro de 2010

II parte «Do Livro da Sabedoria ao Livro da Consciencia»

Começo com uma citação da última publicação de António Damásio:«...não sugeria de todo a existência de substâncias separadas, uma mental e outra biológica. Não sou um dualista da substancia, como Descartes o era, ou nos fazia crer que fosse, ao afirmar que o corpo tinha extensão física mas a mente não, sendo os dois feitos de substâncias diferentes». (Livro da Consciência, 1ª edição, Circulo-Leitores, pag.91).

Antes mesmo de entrar na análise das consequências do que significa considerar o ser humano como uma realidade única e indivisível, tal como Damásio propõe e eu concordo plenamente, queria deixar mais uma nota sobre a "pregação" e a ciência.
Há muito que me parece evidente que os pregadores atacam os efeitos - a "desgraça" humana - e a ciência ataca as causas dos "desatinos" dos homens, com a mesma simplicidade e verdade que se impõe, como quando explica que, é o Sol e não a Terra, o centro do nosso sistema solar. O resultado desta distinta postura é que os pregadores tendem a desencadear conflitos e a ciência surge no papel de bombeiro e apaziguador, acabando sempre por levar a melhor, porque a inteligência dos homens prevalece, quando ficam patentes as raízes dos "desvarios".
As consequências das parcelares mas enormes verdades científicas são tão demolidoras para a «pregação» dos iluminados que a instintiva reacção destes é condená-las, pura e simplesmente, ou demorar cinquenta ou cem anos a dar o braço a torcer.
A legislação de todos os países condena, e bem, os assassinos em série, que matam com frieza inimaginável. E quem for ler investigadores científicos na área da genética fica a saber que um gene degenerado do embrião humano é a causa imediata do nascimento do monstro assassino tal como podem outras degenerescências ser causa da cegueira, dos diabetes ou do impulso frenético para acumular riquezas.
Os pregadores vão gastar a vida inteira a vociferar contra os «filhos da mãe», quando, nestes, a degenerescencia atenta contra a moral ou a ética que pregam, enquanto que a ciência, no silêncio paciente e profícuo dos laboratórios, procura combater as causas, amando, como ninguém, a condição humana que também é a sua.
É por estas e por outras que eu já não suporto ouvir mais os «padres mários» e me encanto com a nobreza do trabalho de homens como António Damásio.
Também por isso não estranho nada que os pregadores anunciem, constantemente, o fim do mundo para ontem e a ciência nos empolgue com o mundo novo que podemos construir.
Existe, a meu ver, um «preconceito» antigo que determinou a atitude dos «pregadores». É esse «preconceito» que é preciso desmontar, com a mesma convicção e força da verdade dos factos, com que Galileu arriscou a vida para defender as verdades da ciência.
A propósito destas coisas, estou com uma vontade enorme de ler todo, o título que apenas folheei na Bertrand «O Dedo de Galileu».

3 comentários:

  1. Todos os pontos de vista sobre a realidade são simplificações condicionadas por formas particulares de utilitarismo/pragmatismo.

    A ideia de que existe uma mente é uma simplificação grosseira sobre a realidade da complexidade do cérebro humano (para quem não o entende), mas pode também ser vista como uma complicação grosseira sobre a realidade da simplicidade do cérebro humano (para quem o entende, ainda que grosseiramente)!

    Compreender, por fim, que a própria ideia de um cérebro isolado, com identidade própria, em oposição a uma realidade "que o rodeia" é um idealismo, e que a realidade é um continuum sem preconceitos, sem fronteiras que não as que inventamos para a abarcar, isso já é outro passo.

    Vivenciar isso é o passo final.

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  2. Luis, o meu comentário saiu muito comprido e resolvi fazer dele um post.
    Agradeço-te o desafio estimulante e compreendo a tua falta de tempo. Mas agora tenho o meu amigo Lima que não me vai deixar sozinho.

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  3. Às vezes é o tempo... às vezes é a sensação de ter sempre a mesma coisa para dizer... mas até vos maçar (vou bem lançado), tenho muito gosto de vir aqui filosofar, que é como quem diz: "viver" a sério.

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