quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
A Forma e o Fundo
Entre forma e fundo
É esta harmonia
Entre forma e fundo
Que eu desejaria
Ver florir no mundo
Ver florir no mundo
Ver florir no mundo
São os versos de uma canção de Manuel Freire, que encantavam a minha juventude há quase cinquenta anos.
Foram escritos e cantados quando tu, Luís, ainda não eras nascido. Agora vens dizer-me que as «formas» são a «absoluta vacuidade». E dizes mais, que as formas estão na origem do «apego» da alma (?) do eu (?) a essa mesma vacuidade, impedindo o encontro com a verdadeira realidade, que designarei como o «fundo» da cantiga do Manuel Freire. Será, este «fundo», o correspondente da tua «realidade última, subjacente a tudo, como escreveste no comentário ao post anterior?
«Eu cá acredito na existência de uma realidade última, subjacente a tudo. Ou seja, que no fim há algo "duro" e não o absoluto "vazio".
Eu confrontei-te com a radical «desmontagem» das formas, quando a estrutura espantosa de um ser vivo como o homem se reduz a um punhado de cinzas e, mais ainda, a um informe aglomerado de partículas subatómicas, que se irão subdividindo até ao ...nada. Aqui, atalhaste o meu raciocínio e fizeste a profissão de fé que transcrevi do teu comentário. Mal te li, imaginei-te abraçado ao Pe Mário Oliveira ou ao Dalai Lama, três crentes que por caminhos diferentes encontraram a realidade primeira, «subjacente a tudo».
Eu não me importava nada de me juntar ao grupo nesse abraço. E só não vos caio no colo porque a minha fé segue outra direcção.
Vocês três recusam o absurdo do aniquilamento da realidade que somos (para além da fase da forma). Eu também. Acontece é que vocês ficam-se pela profissão de fé numa hipotética «realidade última», enquanto que eu junto-me aos operários da ciência que querem dar «forma» a essa realidade última e para o efeito pesquisam em todas as direcções e, mais espantoso de tudo, andam a estilhaçar as partículas das partículas, destruindo formas atrás de formas (subatómicas), como que continuando ou reproduzindo o papel da morte, para lhe descobrir os segredos. A esperança destes operários da ciência é, precisamente, aprender como criar formas a partir da realidade última (ou primeira?).
Esmagar um átomo no acelerador de partículas é abater uma forma no limiar do vazio ou do nada, para começar a estruturar a realidade a partir de um «quase nada».
A diversidade impressionantes de formas em que a realidade se estruturou não desvia o homem da "verdade" ou da verdadeira realidade. Mas eu compreendo que é muito difícil aceitar acontecimentos que nos parecem existir e não existir, ao mesmo tempo. O Luís tem uma percepção aguda deste facto e eu compreendo-o. Realmente nós somos um ser muito estranho. Somos actores e espectadores do teatro da nossa própria vida. Se estou no palco, não posso existir, simultâneamente, como espectador na plateia; se estou na plateia, não posso existir como actor no palco. No entanto é isso que acontece, como está a acontecer neste momento em que me observo a escrever este texto. Se houvesse, nem que fosse uma fracção de segundo, a separar os dois actos, teria tempo de sair de mim e contemplar-me "de fora". Mas não acontece nada disso, nem pode, porque sou uma unidade indissociável. E então acabo por perceber que a mente consciente me dá uma espécie de dom da ubiquidade! A coisa é tão estranha que o Luís diz que é tudo uma ilusão: a minha consciência, o palco onde desempenho o meu papel e todo o cenário envolvente. Real mesmo, só a «realidade última», seja lá o que isso for.
Não sei se lhe dê razão, se aceite esta espécie de ubiquidade. O pior é que isto não vai lá com voluntarismos, de modo que vou aceitar o meu dom da ubiquidade. E acabo por dar razão ao Luís, quando diz que as formas atrapalham, porque nos limitam a um determinado tempo e espaço.
Os «inimigos» das formas têm que reconsiderar a sua atitude e acabarão por descobrir que não há "forma" sem "fundo" e que o "fundo" sempre se trans-forma. Ao jeito da plasticina...
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
A Realidade E A Ficção
Não sei, Luís, a quem te referes quando alguém imagina (só pode) um cérebro isolado, «com identidade própria, por oposição à realidade». Não serei eu, de certeza, mas quem sou eu para falar com autoridade dessas matérias. Para uma autoridade que vou conhecendo cada vez melhor, A.Damásio, essa de um cérebro separado e autónomo do corpo de que faz parte, não tem cabimento.
O que tem sido estabelecido como doutrina de teologias e filosofias é algo bem diferente e, a meu ver, aí é que entra o que eu chamaria de «pensamento desincarnado», quando se considera a existência de uma mente ou alma ou espírito, autónomos da realidade física. É a tal «res cogitans» de que fala Descartes.
No Livro da Consciência, A.Damásio faz remontar as "raízes" do cérebro humano, com as capacidades de que beneficiamos, às estruturas celulares e aos fundamentos de onde estas estruturas emergiram.
Mais «continuum» não podia ser.
Ninguém inventa fronteiras para as estrelas ou para os planetas do sistema solar. Ninguém inventa fronteiras para a organização dos electrões e protões em interacção com o núcleo atómico, nem com a organização molecular, celular e dos tecidos, para dar origem aos organismos. Se duas moléculas de hidrogénio e uma de oxigénio se combinam para me encher um copo de água fresca, ninguém ficcionou coisa alguma. Se um dia a nossa brilhante capacidade cerebral reproduzir um cérebro igual a este, como hoje já pode reproduzir um copo de água fresca, continuamos no mundo da realidade que vamos conseguindo compreender, transformar, reproduzir e até criar.
Quando o magnifico Aristóteles, há cerca de 2500 anos, coleccionava centenas de plantas e animais, para compreender a vida, o que ele "via" nas espécies vivas que recolhia não tem comparação com aquilo que um biólogo actual "vê" nessas mesmas espécies. Isto quer dizer que nem Aristóteles nem os actuais biólogos manipulam ficções, antes realidades com fronteiras e nós estamos conscientes dessas fronteiras, que não são mais que os limites do nosso conhecimento. Estou convencido que os biólogos do próximo século hão-de sorrir condescendentes, ao ler o que hoje escrevemos sobre as espécies vivas e o que “apenas” conseguimos perceber nelas.
A consciência dos nossos limites e os enganos a que estamos expostos são a prova mais eficaz de que lidamos com a realidade e não com a ficção. Mas também somos fantásticos ficcionistas.
Desde meninos aprendemos a brincar ao «faz-de-conta», treinando-nos para distinguir entre ficção e realidade.
domingo, 19 de dezembro de 2010
II parte «Do Livro da Sabedoria ao Livro da Consciencia»
Antes mesmo de entrar na análise das consequências do que significa considerar o ser humano como uma realidade única e indivisível, tal como Damásio propõe e eu concordo plenamente, queria deixar mais uma nota sobre a "pregação" e a ciência.
Há muito que me parece evidente que os pregadores atacam os efeitos - a "desgraça" humana - e a ciência ataca as causas dos "desatinos" dos homens, com a mesma simplicidade e verdade que se impõe, como quando explica que, é o Sol e não a Terra, o centro do nosso sistema solar. O resultado desta distinta postura é que os pregadores tendem a desencadear conflitos e a ciência surge no papel de bombeiro e apaziguador, acabando sempre por levar a melhor, porque a inteligência dos homens prevalece, quando ficam patentes as raízes dos "desvarios".
As consequências das parcelares mas enormes verdades científicas são tão demolidoras para a «pregação» dos iluminados que a instintiva reacção destes é condená-las, pura e simplesmente, ou demorar cinquenta ou cem anos a dar o braço a torcer.
A legislação de todos os países condena, e bem, os assassinos em série, que matam com frieza inimaginável. E quem for ler investigadores científicos na área da genética fica a saber que um gene degenerado do embrião humano é a causa imediata do nascimento do monstro assassino tal como podem outras degenerescências ser causa da cegueira, dos diabetes ou do impulso frenético para acumular riquezas.
Os pregadores vão gastar a vida inteira a vociferar contra os «filhos da mãe», quando, nestes, a degenerescencia atenta contra a moral ou a ética que pregam, enquanto que a ciência, no silêncio paciente e profícuo dos laboratórios, procura combater as causas, amando, como ninguém, a condição humana que também é a sua.
É por estas e por outras que eu já não suporto ouvir mais os «padres mários» e me encanto com a nobreza do trabalho de homens como António Damásio.
Também por isso não estranho nada que os pregadores anunciem, constantemente, o fim do mundo para ontem e a ciência nos empolgue com o mundo novo que podemos construir.
Existe, a meu ver, um «preconceito» antigo que determinou a atitude dos «pregadores». É esse «preconceito» que é preciso desmontar, com a mesma convicção e força da verdade dos factos, com que Galileu arriscou a vida para defender as verdades da ciência.
A propósito destas coisas, estou com uma vontade enorme de ler todo, o título que apenas folheei na Bertrand «O Dedo de Galileu».
sábado, 18 de dezembro de 2010
Do Livro da Sabedoria (Pe Mário) ao Livro da Consciência (António Damásio)
António Damásio, com a humildade dos antigos filósofos gregos, investiga persistente e apaixonadamente, na demanda da ciência (a nossa sabedoria possível) do universo da vida. O Pe Mário, dizendo-se o mais humilde dos homens, proclama, do alto da soberba montanha onde subiu, a sua sabedoria infusa, que faz dele um iluminado desde que nasceu. Bem ao jeito do seu «Jesus-o-de-Nazaré»
Sabedoria infusa, sim; adquirida, não, porque não há escola que a dispense.
Não é de estranhar que, em trinta anos, o Pe Mário publique trinta títulos da sua sabedoria infusa, porque é só deixar jorrar da sábia fonte, enquanto que António Damásio publique apenas três, à razão de dez anos para um livro. E, o que ainda é mais significativo, Damásio, no livro seguinte corrige e completa os anteriores, confessando, de cada vez, que o mistério da emergência da mente consciente continua por explicar e compreender.
Para que nós saibamos ao que vamos, quando nos preparamos para ler o seu Livro da Consciência, Damásio deixa esta citação esclarecedora de Richard Feynman: «O que não consigo construir não consigo compreender». Por outras palavras, os homens que se dedicam ao estudo da consciência humana vão dizendo que só compreenderão a mente humana quando forem capazes de a criar.
É verdade que Damásio se dedica ao estudo específico da realidade que é o nosso cérebro e de como neste emerge a mente consciente. Mas ele tem sempre presente o ser humano como «um todo». Este facto faz dele um cientista invulgar, aliás, como outros que hoje vão aparecendo, ao ponto de nós não conseguirmos perceber a diferença entre o observador e experimentador e o homem que se interroga para além do que observa e experiencia, já numa clara atitude filosófica. E todos nós sabemos que o homem-filósofo não se fica pela compreensão da actividade cerebral. Se é verdade que a actividade cerebral se explica a si própria à medida que se observa a sua organização e o seu funcionamento, não é menos verdade que aquela organização prodigiosa tem um historial impressionante de biliões de anos. Se conseguirmos recriar, em laboratório, essa história, compreenderemos a mente consciente. Dizem eles.
Até lá, restam-nos duas atitudes perante a realidade misteriosa: continuar a investigar, pacientemente, ou saltar por cima da realidade do nosso conhecimento e capacidades actuais, acenando com as verdades definitivas da fé, seja no Jesus-o-de-Nazaré do Pe Mário, seja no Deus das religiões. Em alternativa a estas, também há os que se sentam, meditabundos, concentrando as energias todas da mente para mergulhar no vácuo absoluto, onde um «eu» laboriosamente construído ao longo de biliões de anos, desapareça diluído na “substância original”, una, indivisível e impessoal. Ora isto é o caminho inverso da evolução por força de um impulso vital, que resultou na criação da mente consciente e do «eu» que a preside, segundo António Damásio. Poderíamos considerar a atitude dos «meditadores» como o resultado de um impulso contrário à emergência do «eu», designando-a de auto-aniquilamento. Uma espécie de suicídio espiritual. E digo «suicídio espiritual» lembrando que o «suicido material» eles já o iniciaram, ao reduzir ao mínimo dos mínimos a actividade «física», manifesta no desprezo pelo «bulício» ou «fervilhar» da vida do dia-a-dia. No limite, este «suicídio material» consubstancia-se no desprezo por toda a pesquisa científica.
A propósito, recordo que já escrevi, neste blog, acerca do cientista francês que largou todo o seu trabalho de pesquisa cientifica, para se recolher num mosteiro budista e depois deambular pelo mundo de braço dado com o Dalai Lama. Bem podem dizer estes «suicidas» que aceitam a pesquisa cientifica e a ciência, porque ninguém vai acreditar naqueles que a abandonaram em nome de uma forma de compreensão e construção do ser humano que, na prática, a nega.
E tudo isto porquê? Porque esses “pregadores”, sejam o Pe Mário ou o Dalai Lama, já se julgam senhores da EXPLICAÇÃO para o mistério da vida. E a prova é que todos deixam a «escola da ciência» e se perdem num diletantismo oco e vaidoso, porque é nisso que transformam o apreço pela cultura humana, quando a ISOLAM DA MENTE CONSCIENTE QUE A PRODUZIU. Ora, na base da cultura está o conhecimento; e a pesquisa cientifica pode ser considerada como as pernas e as mãos da nossa mente curiosa e sempre insatisfeita. Saramago, de uma forma feliz e carregada de intenção e significado, diz que «os sentidos são as pernas da alma».
António Damásio, neste seu último livro, que demorou dez anos a construir, procura explicar como isso acontece, denunciando sempre o «Erro de Descartes», erro esse que está na base do pensamento desincarnado.
E é aí que eu vou deter-me numa segunda parte deste comentário. Mas não queria fechar esta primeira, sem destacar o entusiasmo destes homens cientistas-filósofos pelo momento que vivemos de autêntica explosão do conhecimento em todas as direcções e a consciência crescente que eles manifestam de que «tudo tem a ver com tudo». Assim como os físicos teóricos procuram uma «teoria de tudo», os homens da pesquisa científica já entenderam que devem caminhar no sentido da «ciência do todo».
Contrastando com este entusiasmos dos “damásios” deste mundo, deixo-vos com as palavras azedas dos derrotistas e derrotados “padres mários”.
«Os tempos são de demência global»
«São tempos de generalizada demência»
«O ser humano nunca esteve tão desenvolvido e tão distante do ser humano que devemos ser».
E que preconizam estes pregadores iluminados para chegarmos «ao que devemos ser?
Ouçamos o mesmo autor das palavras acima citadas, o Pe Mário: «Nada melhor que a leitura deste livro (o seu Livro da Sabedoria) para conseguir esse desígnio».
Ocorre-me dizer que é tudo tão fácil quando se acredita na magia do milagre, em que a leitura de um livro constrói a nossa história individual ou colectiva. Na falta de uma ciência como a que hoje conhecemos, os nossos antepassados acreditaram que isso era possível e alguém cuidou de servir-lhes, oportunamente, «A Palavra de Deus», milhões de vezes transcrita em todas as bíblias sagradas. Nem por um instante escarneço dos meus pais e dos meus avós que não tiveram outra oportunidade que não fosse seguir a voz desses pregadores. Neste inicio de o século XXI, ver pregadores letrados a acenar com a «Palavra de Deus», isso me leva a denunciá-los como vendedores de banha da cobra, fazendo a gente simples e crédula acreditar que por uma leitura e conversão a uma determinada ética ou uma determinada moral conseguem construir um homem novo, de um dia para o outro, como se tudo na vida fosse resultado de uma magia.
Bem gostava de saber como é que se vão safar aqueles que não terão a oportunidade ou a pachorra para ler o Livro da Sabedoria!
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Em atenção ao post anterior
Há dias li o post abaixo e tinha decido ficar por aí, pois não conheço o Pe Mário e a conversa não era comigo. Hoje, no entanto, ao passar de novo por aqui, deu-me vontade de entrar na conversa e expor um pouco o que penso a respeito deste post, e digo só deste post porque não li nenhum dos livros de que aqui se fala.
E não sei se seria necessário! O Pe Mário, nesta sua resposta ao Mário Neiva, deixa transparecer tudo o que lhe vai na alma. A sua ideologia, a sua fé, a seu caminho para a “salvação”. E penso que é feliz. Traçou a seu caminho e segue-o fielmente, cegamente, sem sombras de hesitações, nem questionamentos desnecessários. O seu percurso raciocinativo é exclusivo, único e verdadeiro por essência. Não posso duvidar de que é feliz.
Mas, hó Pe Mário, como hei-de eu segui-lo na sua exortação? Diz-me ser necessário despir o manto da Ideologia... para descobrir a realidade. Ora despir a minha, para vestir a sua ideologia, diga-me por que razão hei-de eu fazê-lo? E se me dispo do meu manto, sem vestir outro, fico nu! Nu como nasci, sem consciência do que sou. Serei então menino, menino animal, sem consciência de que sou parte da humanidade, consciente e racional. O “ser-menino” de que fala no seu texto é isso! É isso o renascer!... Tarefa bem difícil, di-lo e eu concordo. Isso implica regressão, esmagamento do ideal do homem. O ser humano, sim, é evolução, é progressão, é eterno caminhar subindo. Subindo e não descendo, Pe Mário! Quando me ensinaram a catequese, ainda me lembro, para baixo era o inferno, o céu ficava em cima, muito em cima, sendo preciso subir muito para o alcançar.
O Pe Mário me dirá: Sim, sim! Descer em ser-humano, subir em ser-menino. Aprazível ideologia, mas dura realidade. O homem é um animal inteligente e consciente. Se lhe tirarmos a inteligência e a consciência só ficará o animal.
Não será isso regressão?
Enfim... é só a minha opinião!
Limabar
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
A Resposta do Pe Mário
É assim que (me) vê ESCRITO?!
Agradeço-lhe as palavras-que-me-dá.
Toda a Crítica que me chega, transformo-a logo em auto-crítica. Nada se perde. Também sou as Críticas que-me-dão-a-comer.
Bem-haja, pois!
Quase me apetecia convidá-lo a voltar a ler o NOVO LIVRO DO APOCALIPSE OU DA REVELAÇÃO. Agora, já não com esses olhos com que me leu, mas como um menino. E, se ao NOVO LIVRO DO APOCALIPSE, lido como um menino, juntar O LIVRO DA SABEDORIA, Edium Editores, poderá, no final, estar também menino. E, então, verá como a Realidade sem o Manto da Ideologia e da Idolatria é tão diferente de como aqui a/me descreve! Tão diferente, Mário! Tão diferente! Mas lá está: Se vos não fizerdes como meninos (= meninos-servo, entenda-se), não enxergais a Realidade, tal como ela é. Só enxergais o Manto Ideológico / Teológico que, desde que há animais racionais sobre a Terra, sempre a cobre e a esconde. E não é que este Manto está na nossa Mente? Pois se fosse fora, seria fácil tirá-lo, sem MUDARMOS o nosso ser-viver-pensar-actuar histórico. O problema, Mário, é que está dentro. E só sai de nós, se nós o EXPULSARMOS. Porém, semelhante OPERAÇÃO, exige que Nasçamos de Novo. É o caraças, Mário. Porque ninguém NASCE DE NOVO, se não começar por se fazer pobre por opção e por toda a vida. Nada Ter. Nada Poder. Nada Saber. Nunca SUBIR. Sempre DESCER-DESCER-DESCER. Tudo Perder. Até o bom-nome! E lá está Jesus, CERTEIRO, mas como Espada de dois gumes: É mais fácil um camelo entrar pelo buraco da agulha, do que alguém ser pobre por opção e por toda a vida.
Perdoe-me, Mário, este atrevimento de menino.
Quanto a Jesus não escrever nenhum livro, está, obviamente, a referir-se a Jesus Século I, quando havia os profissionais da Escrita. E todos os demais, ou sabiam ler (não escrever), ou aprendiam a escutar. Memorizavam. Jesus Século XXI, porém, escreve-e-fala-como-vive, é jornalista sem empresário para dar a Boa Notícia do Projecto Político Maiêutico aos Povos que os faz Livres e Autónomos, nos antípodas do Projecto de Poder Político que Domina e Descria os Povos; tem site na internet; conversa regularmente no youtube, e Compartilha a Mesa com gente-sem-templo-nem-altar em Restaurantes de refeições económicas e casas de famílias-que-o-acolham, ao mesmo tempo que ele próprio sempre se dá a Comer. O que gera Polémica até mais não!
Vá lá, Mário. E, por favor e amor de si, não confunda Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, com o todo-poderoso Cristo de Paulo, ou do Pedro, ou do Papa Bento XVI, ou do Bispo do Porto, Prémio Pessoa 2010, nos cem anos da REPÚBLICA. Mas que COINCIDÊNCIA(?!), não é?. Cristo é o Poder-que-crucifica, Mário. Jesus é o Crucificado! São antípodas um do outro. Não o mesmo!
Fico abraçado a si. Ou, mesmo, no seu colo. Como um menino. Mário
Livro do Apocalipse -Pe Mário Oliveira
Caro Pe Mário
Já acabei de ler o seu livro anterior, o do Apocalipse. Muitos textos já conhecia.
Apenas uma nota. Da leitura dos seus escritos fica-me a impressão de que tudo o que o homem vai fazendo para transformar a sociedade, quase sempre de forma atabalhoada, como seria de esperar de quem evoluiu desde a idade das cavernas e de muito antes disso, fica-me a impressão de que o Pe Mário condena tudo a eito, numa linguagem que anatematiza tudo e todos. Até o acelerador de partículas tem o selo do diabo! Parece que o Pe Mário, bem à sua maneira, idealizou uma Cidade de Deus como havia feito Santo Agostinho e quem não for como o seu inspirador, Jesus-o-de-Nazaré,vive fora de portas.
Acreditando eu que está imbuído do espírito de «Jesus-o-de-Nazaré», não compreendo como se virou para a escrita, e de que maneira! sabendo que ele não escreveu uma única linha em papiro ou pele de animal, ficando para a história, como comprovativo de que era alfabetizado, a narrativa que o apresenta a escrever na areia os pecados dos fariseus acusadores da mulher adúltera.
Talvez a ausência de uma única palavra escrita pelo seu punho seja a razão pela qual cada um pode dizer tudo e o seu contrário acerca da sua doutrina. Cada evangelista escreveu do que ouviu falar e não vejo porque o seu «Jesus o de Nazaré» valha mais ou menos que o deles. E o seu evangelho, tal como o de Paulo encrostado nas epistolas (pelo menos nas autenticas) vale o que vale e vale até para diabolizar o acelerador de partículas. E o Pe Mário é coerente na sua pregação, que desvaloriza até à diabolização completa a trabalho árduo e ardoroso de uma Humanidade que não desiste de crescer. Apesar dos seus anátemas.
Para si, as pessoas ou agem da forma que o senhor prega ou encaminham-se para o abismo.
Todos os empreendimentos humanos (desde quando?) são ditados pela ganancia ou por uma tenebrosa trindade de poderes e, em consequència, de toda a obra humana que se constituiu como acervo cultural, não restará pedra sobre pedra. Dentro desta lógica, compreendo que me tenha devolvido o vídeo sobre os magníficos edifícios construídos para a ópera, considerando tais coisas desprezáveis, porque feitas sobre o suor e sangue de gente escravizada.
Para si, Deus (o ídolo?) nunca escreveu direito por linhas tortas. No entanto, se nós somos obra sua (do ídolo?) bem tortos saímos da criação. E quem é criado torto, tarde e mal se endireita.
Não tem receio que alguns euros aplicados na construção do seu «barracão da cultura» tenham procedência demoníaca?
O meu abraço fraterno e sincero e não veja nesta critica má vontade contra a sua pessoa. Apenas contra a sua pregação. Como pessoa, sempre admirei o seu coração generoso.
Mário Neiva
(Acima refiro «livro anterior» porque, entretanto, o Pe Mário publicou o «Livro da Sabedoria»