Foi-me reencaminhado por um amigo o texto de um padre acerca do amor, sob o título «Amar é Uma Decisão, Não Um Sentimento». O meu amigo encantou-se com o texto e revela todo o seu entusiasmo ao comentar que «é difícil ler uma coisa mais bonita! Este padre, tem de ser alguém muito especial!»
Até pode ser lindo, e no entanto...
Eu penso que o amor não é uma decisão. E apetece dizer que aquele texto só podia ter sido mesmo escrito por um padre.
O padre é um homem só. Pensa que pode partilhar a alma sem partilhar o corpo, porque lhe ensinaram ou porque pensa que o homem não «é» corpo. Mas sem corpo ninguém dá pela nossa presença. Também ninguém sentirá a nossa ausência. Considerando que o amor é uma simples decisão e a decisão é da alma, para que serviria o corpo?
Da alma a decisão, do corpo o sentimento.
Bate tudo certo para definir o amor de um "padre". A sua «vocação» de padre também foi uma decisão, não um sentimento.
A lógica continua.
Certamente por lapso, alguém lhe falou que «vocação» é chamamento. Mas não pode ser assim com este padre que diz que o amor é decisão.A decisão é um acto solitário e "chamamento" implica outra pessoa, outra presença...
Amor é presença! De mim perante ti e de ti perante mim, numa descoberta emocionante pelo olhar, pelo toque suave das carícias ou pela força do abraço; pelo calor do corpo e pelo perfume dos cabelos; pela beleza do rosto e pela leveza dos passos. O amor é a felicidade de ter a presença de alguém e ser presença para esse alguém e por isso amar nunca tem o sentido apenas de «dar» ou «disponibilizar», como quem cuida de alguém, como quem dá uma esmola, como quem cumpre um obrigação...por uma decisão que se tomou.
Se dissermos que amar é «dar-se», está bem melhor. Mas isto implica o ser humano integral (corpo-alma). Não vale dar uma esmola e seguir o seu caminho, consciente do dever cumprido.
Cuidar do nosso semelhante é um dever de solidariedade. Amar é muito mais do que isso. É a loucura de Francisco de Assis a beijar nos lábios o leproso na beira do caminho.
Ninguém o vai imitar numa loucura dessas mas, quem quiser definir o amor, grave na memória, para sempre, esse quadro de loucura. Francisco podia limitar-se a cuidar das feridas horrendas, matar-lhe a fome e a sede, vesti-lo e abrigá-lo, mas o amor de que eu estou a falar teve que deixar-lhe nos lábios miseráveis toda a força da sua presença. Desse-lhe, Francisco, o alimento e o agasalho e o leproso ficaria agradecido, rezando a Deus para que o compensasse pela boa acção.
Momentaneamente de estômago cheio e a alma permanentemente vazia e solitária.
Não podemos beijar-nos e abraçar-nos todos e em todo o tempo, realizando a presença, mas podemos fazer o exercício do amor com quem escolhemos para partilhar o lar e o leito.
Então, sim, cada gesto nosso para com todos aqueles que encontramos no caminho da vida vai carregado da «presença» que, em casa, aprendemos a "ser".
Que grande equivoco pensar que amar é como oferecer um diamante que se tenha guardado no cofre, mesmo que se chame a esse cofre, coração!
Eu quero a tua presença e tu a minha, porque não fomos feitos para a solidão.
«Onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles».
Claramente não chega "Pai" no Céu e "eu" na Terra. Pelo menos Três no Céu e, pelo menos, dois ou três, na Terra...
Entenda-se para sempre: a mensagem do cristianismo não é o «evangelho da esmola» mas da doação mútua, de um ser humano que é tanto corpo como alma.
Podemos decidir procurar o «outro», mas nunca podemos decidir amá-lo. Imagine-se que o "outro" não está para aí virado! E sem o "outro" não se pode fazer a festa do amor. Nem no Céu, nem na Terra.
Temos de procurar o nosso amor, que será o caminho seguro para te encontrar a "ti" e a "ele", na expectativa de um dia podermos, realmente, cantar em coro: nós!
Ninguém se engane pensando que matando a "fome" do corpo sacia a fome mais dolorosa de uma pessoa solitária, porque estamos condenados ao amor.
Que perfeita perdição!
terça-feira, 1 de junho de 2010
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è só um teste..
ResponderEliminarJosé Moreira
Bem sucedido, Zé Moreira. Podes avançar mais.
ResponderEliminarUm abraço