E não será a nossa condição humana, olhando o mundo com olhos de ver, uma ilusão? (Citando o Luís)
Por mais voltas que se dê ao texto, no contexto da história da filosofia, ao longo dos últimos 2500 anos, é da mesma realidade que se trata quando falamos das «sombras», «abstracções» ou das “verdades convencionadas”.
Imagino-me numa viagem a Lisboa ou à Grande Lisboa e aí encontro e reconheço, entre dois milhões de pessoas, o meu filho Tiago. Imaginemos ainda que o encontro, reconheço e observo, mas não me manifesto. O Tiago continuará a ser apenas mais uma entre dois milhões de pessoas. A minha presença ali, naquele dia e naquela hora, apesar da novidade absoluta, que foi o reconhecimento do meu filho, em nada altera a realidade tal como a encontrei.
Claro que estou a simplificar, porque a minha presença ali altera um sem numero de coisas, desde o oxigénio da atmosfera que consumo, até à infeliz formiga que o meu sapato inconsciente esmaga.
De facto, de uma forma consciente, observando e reconhecendo o Tiago ou de uma forma inconsciente, respirando o oxigénio, eu estou a interagir com a realidade.
Posso optar por dar meia volta e regressar ao Minho ou ir ao encontro do meu Tiago e abraça-lo efusivamente. Como posso deixar tranquilamente a Grande Lisboa ou lançar fogo à «terra dos mouros».
Fica evidente que só interagindo com a realidade, de uma forma ou de outra, essa mesma realidade sai da «sombra» de Platão, da «abstracção» de Aristóteles ou da «verdade convencionada» do Luís.
Pela acção e pela interacção, quebra-se a magia pura da observação e expomo-nos ao choque que resulta do encontro com a realidade.
A emoção de abraçar o Tiago, o desastre do meu sapato sobre a formiga, a devastação levada pela minha mão incendiária à «terra dos mouros» não permitirá, jamais, a confusão entre observar, reconhecer e agir nem tão pouco insistir na ideia infundada de que o «mundo é uma ilusão».
O Tiago não deixará de estar presente na grande Lisboa, se de facto lá estiver, quer eu o encontre ou não, nem a formiga nem a «terra dos mouros». É tão verdadeiro que se eu não me deslocar lá não vou interferir com nada nem provocar alterações na realidade, como é verdadeiro que se eu fizer a viagem posso desencadear a emoção e a transformação do meio. Nem que seja, apenas, pelo simples consumo do oxigénio da atmosfera.
Não há trabalho especulativo consistente se for desligado, por um instante que seja, do conteúdo das «sombras», das «abstracções» ou das «convenções» do nosso Luís. Seja qual for esse «conteúdo». E aqui é que reside o mistério do universo com que nos deparamos. É que esse «conteúdo» confunde-nos pela sua grandeza e complexidade.
Mas que não seja essa grandeza e complexidade o motivo para desisti do «encontro» com a realidade, desanimando, rendidos, desiludidos ou simplesmente feridos no orgulho, para proclamar que tudo não passa de uma ilusão.
A formiga não vai ganhar nada ser ignorada e esmagada pelo meu sapato. E se o Tiago souber que estive em Lisboa e não lhe «passei cartão», não vai gostar nem um pouco.
E agora imaginem que, inadvertidamente, esmaguei a última das formigas do planeta Terra!
Àqueles que de uma forma tão ligeira confundem a realidade com o nosso encontro ou desencontro com ela, pensem no que acontece quando deixarmos de interagir com o oxigénio! Lá se vão as «sombras», as «abstracções» e todas as verdades convencionadas.
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Pego só no fim, que pelo calcanhar se apanhou o Aquiles...
ResponderEliminar"Àqueles que de uma forma tão ligeira confundem a realidade com o nosso encontro ou desencontro com ela, pensem no que acontece quando deixarmos de interagir com o oxigénio! Lá se vão as «sombras», as «abstracções» e todas as verdades convencionadas. "
Pois é. Então, que é feito dessas abstracções e verdades convencionadas? Onde estão elas agora? Não existem. Nunca existiram. É por isso que são meras convenções.
Enquanto se separar a si mesmo da realidade, vai pensar que se pode encontrar ou desencontrar com ela.
Enquanto vir a realidade convencionada como tendo existência intrínseca, vai-se separar a si mesmo da realidade.
Enquanto vir a realidade convencionada como tendo existência intrínseca, vai pensar que os budistas negam a realidade.
Cada convenção procura apanhar a realidade num fotograma imutável. A não-convenção abarca o mundo em mudança, tal qual ele é.
Um monge perguntou a Nansen: "Há algum ensinamento que nenhum mestre tenha pregado antes?"
Nansen disse: "Sim, há."
"Qual é?" perguntou o monge.
Nansen respondeu: "Não é mente, não é Buda, não são coisas.'
Não consigo enviar o texto sobre "anonimato", pelo processo "copiar-colar".
ResponderEliminarVou ver se esta mensagem passa.
Adeus.
Pois é, meu caro Mário!
ResponderEliminarPassam as pequenas mensagens! Mas o texto que tinha para enviar (3 páginas) sobre a insensatez do anonimato não passa!
Fica para... o dia de São Nunca à tarde.
Se o texo ultrapassar um determinado numero de caracteres o comentador é avisado que excedeu o limite. Devias ter enviado em duas metades. Experimenta, que estou com vontade de ler isso
ResponderEliminarUm abraço
Mário
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminar«Pois é. Então, que é feito dessas abstracções e verdades convencionadas? Onde estão elas agora? Não existem. Nunca existiram. É por isso que são meras convenções» (Citando o Luis).
ResponderEliminarNão perguntes, Luis, pelas nossas abstracções ou pelas nossas convençoes, porque a pergunta certa deve ser: depois do tsunami, onde vamos nós parar mais as nossas abstracções?
E quando souberes responder a esta pergunta vem contar-me.
Aquele que «é», tu e eu e ele, é quem faz abstracções ou convenções. O oxigénio não faz falta às abstracções que escarrapachamos aqui no blog. Mas faz falta ao cérebro que as concebe. Por isso até há quem lhe chame «conceitos».
Pegaste pelo calcanhar. Olha que pelos cornos é mais eficaz. Pelo menos é uma realidade mais rija e consistente...
Está implicito, mas ficou por explicitar: nós não somos os nossos conceitos (=as abstracções ou as convenções). Era tudo muito mais fácil se assim fosse. Não era, Luis?
ResponderEliminarSerei frio como o pólo sul... depois do tsunami, muito pouco coisa muda, no Universo. Algumas (muitas!) existências individuais convencionadas cessam. A sua desagregação juntar-se-á à gigantesca massa da qual germina o futuro. Convencionalmente, é um desastre, um drama horrível. Atenção: o que sobretudo defendo é que o budismo conduz a uma visão verdadeira da realidade. Não digo que ela é necessariamente bonita... pago para ver.
ResponderEliminar«Enquanto se separar a si mesmo da realidade, vai pensar que se pode encontrar ou desencontrar com ela».(Citando o Luis)
ResponderEliminarQuando eu te disse que nós não somos os nossos «conceitos» estava claramente a dizer-te que não me separo da realidade. Eu e os meus «conceitos» somos uma e a mesma realidade.
E este é o meu único «preconceito».
Se não partir deste «preconceito» como se explicava que estamos aqui a conversar? Eu sei que tens a resposta «budista» de que o «mundo é uma ilusão».
Platão disse que era «uma aparência» (sombras de um ser do outro mundo, o das ideias (para os crentes, almas penadas). Aristóteles disse que esse mundo é realíssimo e a ele acedemos pelos sentidos e pelo intelecto, assim como se os sentidos fossem as raízes e a razão a extraordinária fábrica que transforma a seiva na árvore das folhas, flores e frutos que é o nosso conhecimento.
E eu diria que, literalmente, do estrume se faz a luz da auto-consciência que somos.
Isto é que me baralha e intriga.
Tu és um homem feliz, tranquilo, pacificado porque viste «uma grande luz» e agora podes anunciar ao mundo com a força da crença de um taliban:
«...depois do tsunami, muito pouca coisa muda, no Universo. Algumas (muitas!) existências individuais convencionadas cessam. A sua desagregação juntar-se-á à gigantesca massa da qual germina o futuro».
Que futuro, se vai tudo por água abaixo: o estrume da terra que somos e a consciência que o estrume gerou?
Meu caro Luis, eu aguento viver na interrogação filosófica. Como sei que a resposta não está dada, corro atrás de cada novidade, por pequena que seja, anunciada pelas ciências que vamos fazendo. Mesmo sem «a resposta», consigo uma certa tranquilidade de espirito, nascida, penso eu, da humildade da minha ignorância aceite e confessada.
Como sabes há muitas crenças a afirmar que esta consciência, a que uns chamam "alma", outros "mente", outros "espirito", não vai por água abaixo juntamente com o "estrume", porque de facto não foi o "estrume" que a gerou e até existia mesmo antes de entrar no "estrume".
Cada um constrói o seu mito.
"Tu és um homem feliz, tranquilo, pacificado porque viste «uma grande luz»"
ResponderEliminarPodia ser verdade, mas não é. Nem há uma grande luz para ver, nem eu sou um homem feliz e tranquilo. Mais feliz que tranquilo, isso talvez...
"Eu e os meus «conceitos» somos uma e a mesma realidade.
E este é o meu único «preconceito»."
Sim, isto é absolutamente verdade. Eu nem queria ir por aí, mas efectivamente as nossas ideias têm também um susbstracto estritamente material, nos neurónios, designdamente. Portanto, desse ponto de vista, não há um "mundo das ideias" diferente do do real. Mas... cuidado! Só porque as ideias em si são substantivas (como um livro, por ex.), isso não significa que a sua semântica não seja subjectiva, porque é subjectiva. E ao ser subjectiva, não pode ser realidade última. Assim, as ideias impõem restrições subjectivas à realidade objectiva, restrições essas que, objectivamente, não são objectivas!!! Ai, que estou a ficar louco. Assim, a água está no copo, mas não existe a "metade esquerda da água no copo" nem a "metade direita da água no copo". Na verdade, nem existe a "água que está no copo" porque também não existe copo. Mas é falso negar de forma simplista que o copo exista. Porque está lá tudo o "que faz parte do copo". Menos o "copo" propriamente dito, claro, e aí é que está o busílis.
Agora ponho-me a mim no lugar do c"Tu és um homem feliz, tranquilo, pacificado porque viste «uma grande luz»"
Podia ser verdade, mas não é. Nem há uma grande luz para ver, nem eu sou um homem feliz e tranquilo. Mais feliz que tranquilo, isso talvez...
"Eu e os meus «conceitos» somos uma e a mesma realidade.
E este é o meu único «preconceito»."
Sim, isto é absolutamente verdade. Eu nem queria ir por aí, mas efectivamente as nossas ideias têm também um subsstracto estritamente material, nos neurónios, designadamente. Portanto, desse ponto de vista, não há um "mundo das ideias" diferente do do real. Mas... cuidado! Só porque as ideias em si são substantivas (como um livro, por ex.), isso não significa que a sua semântica não seja subjectiva, porque é subjectiva. E ao ser subjectiva, não pode ser realidade última. Assim, as ideias impõem restrições subjectivas à realidade objectiva, restrições essas que, objectivamente, não são objectivas!!! Ai, que estou a ficar louco.
Assim, a água está no copo, mas não existe a "metade esquerda da água no copo" nem a "metade direita da água no copo". Na verdade, nem existe a "água que está no copo" porque também não existe copo. Mas é falso negar de forma simplista que o copo exista. Porque está lá tudo o "que faz parte do copo". Menos o "copo" propriamente dito, claro, e aí é que está o busílis.
Agora ponho-me a mim em análise (voltamos à história dos bichinhos do outro dia):
Para um tigre, eu posso ser um almoço, e desse ponto de vista oa óptica do tigre até é parecida com a nossa. O Mário vê uma formiguita e pensa "que bicharoco engraçado"... mas talvez um biólogo veja a formiga como parte de um animal que é o formigueiro. E não está mais certo um do que o outro, porque estão a usar duas convenções diferentes:
- "tem pernocas e mexe-se sozinho, logo é vida com identidade própria"; (quem tem pernocas e se mexe é a formiga)
- "reproduz-se e alimenta-se, logo é vida com identidade própria" (quem se reproduz e se alimenta é o formigueiro, sob certa óptica).
Obviamente, concluir que ambas estão certas (porque relativas) é também concluir que nenhuma está certa (em absoluto).
É capaz de haver exemplos melhores.
... pois e acho que existe... ia-me pôr a mim em análise, comparando a ideia que de mim faz a minha Mãe ("ai meu rico filho"), e a ideia que de mim fazem as bactérias ("ena pá nunca vi tantos almoços juntos"). Mas as bactérias não são seres conscientes, pelo que podia estar aqui a usar um exemplo meio falhado... há outro melhor, até na sequência de uns mails com umas pinturas que o Mário (salvo erro) me enviou... já volto...
ResponderEliminarhttp://chost.sites.uol.com.br/Principal/teste_de_daltonismo.html
ResponderEliminarOra ei-lo!
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