segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Valor Acrescentado

Cada um de nós é, neste momento, a matéria prima original e o "valor acrescentado" de uma vida. E se este "valor acrescentado" estava potenciado na origem, de modo algum estava implicito nessa mesma materia prima original. De facto, e como a ciência evolutiva evidencia cada vez mais, as vicissitudes do percurso da materia prima original criaram e continuam a criar uma realidade "personalizada", insuspeitada no ponto de partida. No ser humano este "valor acrescentado" assume a novissima realidade de sujeito consciente da sua personalidade.
O tempo em que acordamos para a realidade evolutiva é apenas um instante, se comparado com a grandeza do caminho percorrido. Isto devia fazer-nos pensar que vivemos apenas mais uma fase do percurso da matéria prima original e que o futuro, de maneira nenhuma está implicito na realidade presente.
O que isto significa, na prática, é que vivemos num espaço de liberdade criativa, que nada faria prever, depois de uma origem que aparenta ser totalmente definida e determinada.
O "valor acrescentado" é a completa surpresa. Deram-nos as pedras e nós construimos a "catedral".
Porreiro, pá!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo

A todos os que seguem este nosso espaço de diálogo, faço votos que o novo ano prestes a iniciar-se não só não seja o último da História, conforme prevê o calendário Maia, como traga tudo de bom para cada um de vocês.
Particularmente desejo um feliz Ano Novo aos autores e amigos que gentilmente aceitaram construir comigo este cantinho, o Luis e o Lima.
Que todas as bençãos vos acompanhem até ao fim da vossa história individual, este sim, mais do que uma profecia, é uma realidade inevitável. Mas não inelutável, como demonstra a tenacidade com que o homem procura superar as fragilidades e limitações do corpo e do espirito. Podemos até nem estar conscientes disso permanentemente, mas a verdade é que o homem vive, trabalha, luta, sonha, inventa, cria e recria como se no horizonte da sua história individual não pairasse o espectro do fim da linha. Teimosamente, quase a raiar a "inconsciência", o homem acredita em dias e anos futuros e por isso sonha e projecta, sem levantar os pés do chão firme do presente, afinal o verdadeiro patamar do salto da esperança, como quem diz, "aqui chegamos e pela frente temos mais tempo e mais vida".
O calendário Maia está errado.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Meu Deus

Depois re receber um video sobre o tsunami no Japão, que eu lhe reencaminhara, um amigo meu comentou assim na volta do correio:

"DEPOIS DE VER, SÓ ME APETECE DIZER QUE SE DEUS EXISTE, PURA E
SIMPLESMENTE ELE ESTÁ MORTO!"

Trago aqui a minha resposta porque ela exprime bastante bem o meu pensamento acerca do tema do post anterior "DEUS". Aqui fica.

Sim, meu caro Zé Simões, o Deus da minha vontade, do meu sentimento ou do meu pensamento está morto. Se não estiver, terá tão somente a consistência e a duração da minha própria vida, porque ele não é mais que a minha imagem, semelhança, pensamento e sentimento projectados em "algo" a que chamo Deus.

Saindo deste plano dos mitos, somos confrontados com a nossa realidade que é a vida e a morte. Nem todo o pensamento do mundo consegue explicar, nem todo o sentimento pode abarcar, seja para admirar até ficarmos extasiados, seja para temer até ficarmos terrificados.

Aqui chegados, esqueçamos a palavra que dá para tudo o que lá quisermos meter -DEUS- e quedemo-nos pela contemplação do mistério do nosso universo. Afoito, inteligente e criativo como nenhum outro ser vivo, o homem faz de tudo para superar a sua ignorância e lutar pelo seu lugar neste universo. Lançou e lança mão de tudo para conseguir um lugar seguro e da felicidade possível. E não tem hesitado em servir-se daquele mesmo "Deus-Sentido-e-Pensado" para levar a água ao seu moinho.
Inteligente e autocritico como só ele é, o homem já percebeu o seu próprio "joguinho" de querer fintar o mistério da existência. Perante acontecimentos como este do tsunami japonês, vai tendo cada vez mais dificuldade em "vender" o Deus que fabricou no seu sentimento, no seu pensamento e na sua vontade de ser amado.

Acredito que, bem maior que a frustração da ignorância acerca do mistério da vida, é a frustração que advém da possibilidade de não sermos amados e, pelo contrário, estarmos abandonados à nossa solidão cósmica. Felizmente, temos o antídoto mesmo ao nosso lado: a amizade, o amor e a a compreensão dos que nos estão próximos. Façamos destes o "Deus" que de forma alguma vislumbramos na tragédia de um tsunami qualquer.

Porque nós podemos suportar bem a falta de conhecimento do nosso mundo, mas não sabemos como aguentar a vida sem o amor e a compreensão dos outros.
Não sei quem nos mimou deste jeito.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

DEUS

Quando afirmamos "Deus existe" ou "Deus não existe" de que é que estamos realmente a falar?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Mudança de Paradigma

"A 'história universal'já não pode hoje ser entendida como sendo somente a história da humanidade (com algumas centenas de milhares de anos), mas deve sê-lo como uma verdadeira história de um universo com 13,7 biliões de anos desde a explosão inicial. Foram precisos contudo cerca de quatrocentos anos para que o novo modelo físico e astronómico do universo se impusesse em absoluto como o fundamento científico da moderna imagem do universo" (Hans Küng, in O Principio de Todas as Coisas, Edições 70).
É uma mudança de paradigma "traumática" até aos nossos dias, quando o homem tem de assimilar que nem a Terra é mais o "centro do mundo" (logo, centro das atenções divinas), nem o luminoso sol ou a nossa imensa via láctea são mais que pontos perdidos na imensidão de um universo em movimento.

E como se tudo isto fosse ainda coisa pouca, a ciência da evolução da vida coloca o homem como apenas mais um acontecimento na incrível odisseia da vida.
Somos um momento na história do universo conhecido e um instante como consciência dessa história que parece ultrapassar-nos até ao infinito.

A nossa conversa acerca do "apego" e "desapego" deverá ter sempre em conta esta circunstancia, para não perdermos a perspectiva do conjunto.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sagrado Apego

Este titulo sugere o percurso contrário ao do budismo e do ideal monástico em geral.
Nas também sugere o naturalíssimo movimento da vida.
Aquilo a que hoje chamamos de "apegos" são o movimento natural da vida que se foi replicando, multiplicando e complicando, até atingir a misteriosa complexidade que hoje somos. E está bem patente que a nossa mente consciente não sabe muito bem lidar com esta realidade. Como se a própria natureza tivesse dado um passo maior que o que devia, precipitando-se. A chegada à mente consciente foi, de facto, um verdadeiro salto. E depois, como se conservássemos, e conservando mesmo, o exercício e a memória dos automatismos originais, percebemos que nem sempre tudo corre bem e começamos a recear pelo sucesso do movimento vital. É o medo e a dor vividos em consciência, que ora nos pode tolher os movimentos, ora nos pode aguçar o engenho para triunfar.
Eu só posso e quero pensar uma sabedoria que se ajuste a este percurso natural da vida, que as ciências actuais, como nunca na História Humana, nos vão revelando cada vez com mais precisão e profundidade.
António Damásio acaba de publicar o título que resume toda uma filosofia: " E O Cérebro Criou o Homem". Por mais voltas que dermos ao pensamento, nunca será ao contrário. Mas também é verdade que, depois de perceber isso, o homem já sonha ser a sua vez de criar um cérebro consciente...

Um dos muitos paradoxos com que temos de lidar é o percurso da mente consciente, que pretende libertar-se das amarras dos automatismos e ganhar a liberdade criativa, sabendo que esses mesmos automatismos são a sua matriz indissociável e inalienável. Como se fosse possível a metafísica sem a física. Como se fizéssemos de conta que não é o cérebro que cria o homem e que agora é o homem a querer criar um homem novo.

Por isso considero sagrado o "apego" às nossas raízes: à física que faz a metafísica.
Complicado? Se é! Mas talvez mais de acordo com a sucessão dos acontecimentos ou, como gostamos de dizer, mais de acordo com a senhora realidade.

Matthieu Ricard, quando esteve em Lisboa para dar uma conferencia, deixou-nos esta definição do budismo:
"Em essência, eu diria, que o budismo é uma tradição metafísica da qual emana uma sabedoria aplicável a todos os instantes da existência e em todas as circunstâncias".

Não será que a sabedoria desta "tradição metafísica" desvalorizou demasiado a física enquanto raiz dessa mesma metafísica?

Eu penso que sim. O sonho do homem em criar o cérebro que o criou é um completo apego à realidade estruturada.
No principio eram as formas...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Santissima Realidade

Este post pretende ser uma continuação do anterior e surge na sequência dos 66 comentários ao "Budismo Sem Mim".

Estabelecendo uma espécie de analogia com a Santíssima Trindade do cristianismo, começo por especificar quais são as três entidades de uma Santíssima Realidade:

EU (o "mim" da consciência)
TU (a alteridade)
UNIVERSO (as formas objectivas)

São três realidades que se constituem como um verdadeiro mistério e tão paradoxal como o da Santíssima Trindade cristã.
Tal como na minha catequese católica, vou responder "sim" a cada uma das três perguntas sobre o inexplicável paradoxo.

EU sou Realidade? Sim
TU és Realidade? Sim
O UNIVERSO é Realidade? Sim
Então são TRÊS Realidades? Não senhor! São três Entidades iguais e distintas numa só Realidade verdadeira.

Existe proximidade entre o pensamento de Platão e o pensamento de Buda, apesar de uma divergência fundamental. O que os aproxima é a desvalorização do "mundo sensível". O que os separa é a realidade-múltipla.
(O Luís nota que Buda e Platão quase não são contemporaneos. Buda terá vivido um pouco antes. Mas também é verdade que Buda não escreveu nada e o que dele conhecemos recebêmo-lo através das escolas posteriores dos seus muitos seguidores).

Platão afirma a falsa realidade do mundo sensível e todas as suas formas. Mas a cada forma enganosa corresponde uma ideia que é a sua verdadeira essência e, esta sim, perfeita, inteligível e bela.

Buda foge desta confusão toda, em que a cada forma enganosa do mundo material corresponde uma realidade essencial e reduz tudo a uma única ideia-entidade, o SER Uno, Indivisível, Informe, Impessoal.


Em que se fundamenta Buda para dizer que "eu" sou precisamente "tu" e "tu" és exactamente o Universo?
Porque ficou desencantado com a fluidez das formas com que a Realidade se oferece à nossa mente consciente? Porque ficou desenganado com a volatilidade e fragilidade da própria mente consciente? Porque desistiu de procurar (filosofar e viver) perante a grandeza insondável do universo que a sua inteligencia aguda vislumbrou?

A ideia do "ser-uno" de Buda foi gerada pela mesma mente que gerou a ideia múltipla de Platão. Ou alguém duvida que assim tenha sido? O princípio de qualquer filosofia ou teologia é o próprio homem: EU e TU, contemplando um UNIVERSO que, simultanemente, somos e temos consciência de ser. E é esta consciência de ser, este "nada-de-ser" que nos constitui como EU e TU.

Será errado dizer que Buda pretende anular esta "luz da consciência", o EU, e muito menos considerá-lo intrinsecamente uma ilusão. Intrinsecamente, o universo existe, "eu" existo e "tu" existes. Sim, mas integrados, até à completa fusão, no Uno Impessoal. O supremo objectivo do homem é reconhecer "finalmente" que só ilusoriamente "é" ou alguma vez "foi" outra realidade que não a absoluta unidade do SER. Logo, qualquer pensamento de compartimentação é estranho à sua Ideia. E, mais que estranho, Buda determina que é ilusório.
É uma ideia. Que não partilho.

Há uma verdade fundamental que partilho com Buda: a "realidade intrínseca das coisas", seja lá o que ela for, para Buda ou para mim. Eu aceito que não sabemos o que é essa realidade intrínseca mas fazemos parte dela. Por isso mesmo é que discorremos sobre como será.
Para Buda ela é intrinsecamente monolítica e para mim é intrinsecamente multiforme ou multi-estrutural, a ponto de a descrever como a "Realíssima Trindade".

Se imaginarmos a Realidade como uma bola multicolor de plasticina, esta pode ser modelada numa infinidade de "bonecos" sem nunca deixar de ser intrinsecamnete o que é. Enquanto a forma dura, somos intrinsecamente essa forma. E desde que descobrimos isso o nosso sonho é fazer durar o "boneco", se possível, até sempre...

Duas filosofias e duas propostas concretas para a vida: fazer desaparecer o "EU" (o boneco da analogia) ou fazer emergir o "EU".
Por mim, "viva o boneco"!