quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sagrado Apego

Este titulo sugere o percurso contrário ao do budismo e do ideal monástico em geral.
Nas também sugere o naturalíssimo movimento da vida.
Aquilo a que hoje chamamos de "apegos" são o movimento natural da vida que se foi replicando, multiplicando e complicando, até atingir a misteriosa complexidade que hoje somos. E está bem patente que a nossa mente consciente não sabe muito bem lidar com esta realidade. Como se a própria natureza tivesse dado um passo maior que o que devia, precipitando-se. A chegada à mente consciente foi, de facto, um verdadeiro salto. E depois, como se conservássemos, e conservando mesmo, o exercício e a memória dos automatismos originais, percebemos que nem sempre tudo corre bem e começamos a recear pelo sucesso do movimento vital. É o medo e a dor vividos em consciência, que ora nos pode tolher os movimentos, ora nos pode aguçar o engenho para triunfar.
Eu só posso e quero pensar uma sabedoria que se ajuste a este percurso natural da vida, que as ciências actuais, como nunca na História Humana, nos vão revelando cada vez com mais precisão e profundidade.
António Damásio acaba de publicar o título que resume toda uma filosofia: " E O Cérebro Criou o Homem". Por mais voltas que dermos ao pensamento, nunca será ao contrário. Mas também é verdade que, depois de perceber isso, o homem já sonha ser a sua vez de criar um cérebro consciente...

Um dos muitos paradoxos com que temos de lidar é o percurso da mente consciente, que pretende libertar-se das amarras dos automatismos e ganhar a liberdade criativa, sabendo que esses mesmos automatismos são a sua matriz indissociável e inalienável. Como se fosse possível a metafísica sem a física. Como se fizéssemos de conta que não é o cérebro que cria o homem e que agora é o homem a querer criar um homem novo.

Por isso considero sagrado o "apego" às nossas raízes: à física que faz a metafísica.
Complicado? Se é! Mas talvez mais de acordo com a sucessão dos acontecimentos ou, como gostamos de dizer, mais de acordo com a senhora realidade.

Matthieu Ricard, quando esteve em Lisboa para dar uma conferencia, deixou-nos esta definição do budismo:
"Em essência, eu diria, que o budismo é uma tradição metafísica da qual emana uma sabedoria aplicável a todos os instantes da existência e em todas as circunstâncias".

Não será que a sabedoria desta "tradição metafísica" desvalorizou demasiado a física enquanto raiz dessa mesma metafísica?

Eu penso que sim. O sonho do homem em criar o cérebro que o criou é um completo apego à realidade estruturada.
No principio eram as formas...

2 comentários:

  1. Constato que ando há uns tempos a pensar, meio subliminarmente, se a tua "hostilidade" ao budismo não é espelho de uma hostilidade mais essencial à vida monástica, à qual o budismo pode ser associado...

    Ando sumido, metade por força de muito trabalho, agora em vias de acalmar, e a outra metade porque a leitura de "O Túnel do Ego", de Thomas Metzinger, me faz sentir que tudo o que possa dizer seja sobre o que for é demasiado pequeno e irrelevante. Tenho a sensação de abrir a caixa de Pandora a cada página...

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  2. Não penso que tenha qualquer espécie de hostilidade para com o budismo. Se comparo, por vezes, o monge cristão com o monge budista não é para os identificar mas simplesmente para realçar uma atitude pratica perante a vida, comum a ambos: o desapego às "coisas deste mundo", como se estivessemos destinados a um outro (ou a nenhum, no caso budista) que pouco tem a ver com as "formas" do mundo presente.
    Penso numa direcção contrária: eu só me afirmo e ganho consistência (personalidade, "ego")investindo tudo na estrutura que possibilita a consciência de mim e do universo onde "sou" e existo. Poderá dizer-se que é verdadeiramente um sonho incipente de imortalidade, na medida em que tudo o que pretendo é conservar a capacidade da minha consciência e viver a festa de a poder partilhar com outras consciências. Viver a festa é ser criativo. E será por esta festa e criatividade que vou esconjurar o sofrimento. E este será cada vez mais um resquício da inconsciência primordial donde procedo, mera fase da minha história pessoal. A plenitude da consciência será a plenitude do conhecimento. Isto é simultaneamente um sonho e um objectivo. E compreendo-o como o meu mais intimo impulso e vontade e não como imposição de "alguém". Assim como que se depois de acordar para a consciência, eu me tornasse inteiramente senhor e responsável pelo meu destino. Só acidentes de percurso ou limitações decorrentes do "parto" doloroso e recente me perturbam o percurso e o intento.
    Definitivamente, preso e apegado ao fruto da minha consciência: "EU".
    Sei bem que o edificio acabará por se desmoronar, mas tal facto não me fará esmorecer nem me impedirá de erguer a catedral...

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