Viva o Campeão do Mundo e cada um de nós com ele
Parece um fenómeno estranho, esta exaltação impressionante de uma nação à volta de um triunfo desportivo.
Talvez não se trate de um simples evento desportivo.E não é de todo.
Nesta hora recordo os versos do nosso poeta maior:
«aqueles que por obras valorosas
se vão da lei da morte libertando».
Camões refere-se aos heróis de todos os tempos. A heroicidade traz a fama e esta a imortalidade que perdura na lembrança dos povos.
O herói sai do anonimato pelos seus feitos assinaláveis. O herói emerge do nada que a todos cobre como uma capa silenciosamente pesada e ganha um nome e um lugar na história, talvez sonhando que assim nunca morrerá.
Uma forma de imortalidade e de uma verdadeira ressurreição de quem se sente morto e enterrado no anonimato.
Não é nada de novo, o crente sentir como seu o grande poder do seu Deus, o súbdito sentir como sua a glória do seu rei, o cidadão sentir-se engrandecido no triunfo dos seus atletas.
Habitualmente não nos damos conta, mas nós chegamos a vibrar como um corpo e um espírito em uníssono, em alegria arrebatadora, contagiante e genuína. A pele que se arrepia dentro do estádio é a alma de cada um que sonha sair do anonimato para se afirmar como «alguém».
As lágrimas que correm pela face do peregrino no «adeus à virgem», em Fátima, são "prova de vida" e expressão dolorosa de quem se despede «daquela que me ama, me vê e compreende» até ao âmago do meu ser. E como ninguém. Pode não passar de um profundo anseio, mas o peregrino estremece da cabeça aos pés, sonhando com tal possibilidade.
Sempre o eterno desejo de vencer a solidão do anonimato, pelo amor que podemos dar e receber, que não é mais que o primeiro gesto de um reconhecimento que se quer total. Como se cada um de nós precisasse de ouvir
«és tu!»
e nós podermos responder, eternamente reconhecidos,
«sim, meu amor, sou eu!»
A hora da vitória é a hora do reconhecimento. É a hora em que alguém ou muitos olham para nós e nos dizem: sois fantásticos.
A derrota não pode ser o momento da solidão. Mas é o que tantos, tantas as vezes, sentem e "bebem para esquecer".
(In aaacarmelitas. MN)
terça-feira, 13 de julho de 2010
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Meu Corpo Minha Vida
Desde pequeno que fui ouvindo esta sentença evangélica: «o espírito está pronto mas a carne é fraca». Hoje, ouve-se cantar: «quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga».
Ocorre pensar que antigamente o corpo era responsabilizado pelas nossas desgraças, ao contrário do que pensamos hoje, em que é o espírito a corromper o corpo, numa inversão muito significativa da responsabilidade pelos nossos males.
Temos o privilégio de viver num tempo em que se está a abandonar aquela atitude de «passa-culpas». As filosofias que dividiram o homem em «espírito» e «matéria», como se cada um de nós não fosse inteiramente ambas as realidades, estão a ser corrigidas do erro histórico de um pensamento que não soube ou não pôde aceitar o óbvio: a chama de uma candeia, apesar da magia da sua luz, não subsiste um instante que seja sem o azeite e o pavio que lhe dão a "vida".
Verdade tão simples que ofuscava. Mas só cegava aqueles que pretendiam ter a verdade toda nas mãos e encaixar os sonhos metafísicos e os anseios da fé em sistemas filosóficos da verdade toda. Fatalmente, sobrou-lhes uma filosofia desgarrada da realidade e uma teologia etérea acerca de "homens desincarnados", em que a "parte material" do homem estava ali só para dar chatices.
Hoje, já não se pode pensar que o "azeite e o pavio da candeia" atrapalham o fulgor da chama que eles próprios geram e ouvir-se-á cada vez mais insistentemente: Meu corpo minha vida!
Recentemente, tivemos a notícia de que já é possível sintetizar a vida em laboratório. Não se trata de «criar» a vida mas de o génio humano reproduzir com fidelidade as leis da física e da química que estão na origem da vida, enquanto já se sonha com o derradeiro «milagre» que é dar consciência à vida reproduzida.
Literalmente, para aqueles que sempre acreditaram na imortalidade, seria uma certa concretização da sua esperança. Para os outros, seria, finalmente, a criação da própria imortalidade, o mais antigo dos sonhos do homem, mas nunca antes realizado.
Até esse dia chegar, e se chegar, temos de viver com o mistério de ver um pouco de "azeite" e um "fio de linho" produzir a chama da vida, e de uma vida consciente como a que somos.
A perspectiva de que só no futuro se poderá reproduzir ou criar uma certa imortalidade é susceptível de causar frustração naqueles que querem abraçar a História toda numa vida só. Mas eu não vejo outra saída que não seja continuar a fazer o caminho, pensando que o futuro também é nosso porque lá estarão os nossos filhos. Parca consolação? Talvez, mas correr por gosto não cansa.
A transformação no homem imortal é um cenário de autentica ficção científica e corresponde, de certa forma, à fé cristã na «ressurreição dos mortos».
Pertencemos a um tempo em que Ciência, filosofia e teologia poderão assumir definitivamente a unidade intrínseca do ser humano e levar até às últimas consequencias uma ética e uma moral em conformidade. Como ficará a face da Humanidade quando se generalizar a convicção de que não há salvação da "alma" sem a salvação do "corpo", como quem diz, que só poderemos preservar o espírito quando formos capazes de imortalizar o corpo?
Parece estarmos bem longe desse dia e o cristão obriga-se a viver da fé e o filósofo na expectativa do que vier.
Felizes os que acreditam em fantasmas, que já têm o problema resolvido há muito tempo.
A convicção da unidade do ser humano está a ser expressa no conceito de «pessoa», claramente a sobrepor-se ao de «animal-racional». A ética e a moral estão a ser pensadas para a «pessoa» e não para o "animal". Não se trata de sublimar a nossa animalidade e muito menos negá-la, mas de reconhecer o especialíssimo e exclusivo estatuto que nos confere a consciência.
Cientes desse nobilíssimo estatuto, exigimos ser tratados em conformidade.
Não me admiraria que o próprio conceito de «pessoa» venha a ser vertido no conceito de «homem-espiritual», o homem do futuro, não um fantasma ou alma penada, mas um espírito sustentado na «carne e nos ossos» que nunca deixaremos de ser.
Pela fé, já lá chegou o crente. A ficção cientifica alimenta o sonho dos outros.
Enquanto os académicos se entretêm nas suas intermináveis discussões sobre o assunto, o homem comum, bem mais prático, agarra com sofreguidão os meios que a ciência e a tecnologia vão disponibilizando para ir prolongando a juventude, não de um corpo ou de um espírito, mas da sua "pessoa". Mas há que compreender que a juventude é para o amor e não para a exibição. Depressa se há-de concluir que ser jovem por uma vida longa só valerá se a felicidade for junto
Ocorre pensar que antigamente o corpo era responsabilizado pelas nossas desgraças, ao contrário do que pensamos hoje, em que é o espírito a corromper o corpo, numa inversão muito significativa da responsabilidade pelos nossos males.
Temos o privilégio de viver num tempo em que se está a abandonar aquela atitude de «passa-culpas». As filosofias que dividiram o homem em «espírito» e «matéria», como se cada um de nós não fosse inteiramente ambas as realidades, estão a ser corrigidas do erro histórico de um pensamento que não soube ou não pôde aceitar o óbvio: a chama de uma candeia, apesar da magia da sua luz, não subsiste um instante que seja sem o azeite e o pavio que lhe dão a "vida".
Verdade tão simples que ofuscava. Mas só cegava aqueles que pretendiam ter a verdade toda nas mãos e encaixar os sonhos metafísicos e os anseios da fé em sistemas filosóficos da verdade toda. Fatalmente, sobrou-lhes uma filosofia desgarrada da realidade e uma teologia etérea acerca de "homens desincarnados", em que a "parte material" do homem estava ali só para dar chatices.
Hoje, já não se pode pensar que o "azeite e o pavio da candeia" atrapalham o fulgor da chama que eles próprios geram e ouvir-se-á cada vez mais insistentemente: Meu corpo minha vida!
Recentemente, tivemos a notícia de que já é possível sintetizar a vida em laboratório. Não se trata de «criar» a vida mas de o génio humano reproduzir com fidelidade as leis da física e da química que estão na origem da vida, enquanto já se sonha com o derradeiro «milagre» que é dar consciência à vida reproduzida.
Literalmente, para aqueles que sempre acreditaram na imortalidade, seria uma certa concretização da sua esperança. Para os outros, seria, finalmente, a criação da própria imortalidade, o mais antigo dos sonhos do homem, mas nunca antes realizado.
Até esse dia chegar, e se chegar, temos de viver com o mistério de ver um pouco de "azeite" e um "fio de linho" produzir a chama da vida, e de uma vida consciente como a que somos.
A perspectiva de que só no futuro se poderá reproduzir ou criar uma certa imortalidade é susceptível de causar frustração naqueles que querem abraçar a História toda numa vida só. Mas eu não vejo outra saída que não seja continuar a fazer o caminho, pensando que o futuro também é nosso porque lá estarão os nossos filhos. Parca consolação? Talvez, mas correr por gosto não cansa.
A transformação no homem imortal é um cenário de autentica ficção científica e corresponde, de certa forma, à fé cristã na «ressurreição dos mortos».
Pertencemos a um tempo em que Ciência, filosofia e teologia poderão assumir definitivamente a unidade intrínseca do ser humano e levar até às últimas consequencias uma ética e uma moral em conformidade. Como ficará a face da Humanidade quando se generalizar a convicção de que não há salvação da "alma" sem a salvação do "corpo", como quem diz, que só poderemos preservar o espírito quando formos capazes de imortalizar o corpo?
Parece estarmos bem longe desse dia e o cristão obriga-se a viver da fé e o filósofo na expectativa do que vier.
Felizes os que acreditam em fantasmas, que já têm o problema resolvido há muito tempo.
A convicção da unidade do ser humano está a ser expressa no conceito de «pessoa», claramente a sobrepor-se ao de «animal-racional». A ética e a moral estão a ser pensadas para a «pessoa» e não para o "animal". Não se trata de sublimar a nossa animalidade e muito menos negá-la, mas de reconhecer o especialíssimo e exclusivo estatuto que nos confere a consciência.
Cientes desse nobilíssimo estatuto, exigimos ser tratados em conformidade.
Não me admiraria que o próprio conceito de «pessoa» venha a ser vertido no conceito de «homem-espiritual», o homem do futuro, não um fantasma ou alma penada, mas um espírito sustentado na «carne e nos ossos» que nunca deixaremos de ser.
Pela fé, já lá chegou o crente. A ficção cientifica alimenta o sonho dos outros.
Enquanto os académicos se entretêm nas suas intermináveis discussões sobre o assunto, o homem comum, bem mais prático, agarra com sofreguidão os meios que a ciência e a tecnologia vão disponibilizando para ir prolongando a juventude, não de um corpo ou de um espírito, mas da sua "pessoa". Mas há que compreender que a juventude é para o amor e não para a exibição. Depressa se há-de concluir que ser jovem por uma vida longa só valerá se a felicidade for junto
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Nirvana Não, Amor Sim
Em vez de falar-se em «pensamento» budista será mais apropriado falar em «convicções budistas». Porque o pensamento, qualquer que ele seja, é o discurso sobre a realidade ou o que se julga ser a realidade. Para o budismo, o que chamamos realidade não é mais do que aquilo que nós pensamos acerca dela. E é neste sentido que o Luís refere num dos seus comentários ao penúltimo post, que nem «eu» próprio, enquanto fazedor de pensamentos sobre a realidade, sou, intrinsecamente, real.
A compreensão deste facto é a iluminação definitiva, é quando se atinge o Nirvana.
Traduzindo o que se pretende afirmar no budismo: eu sou nada e, quando perceber isso, é que sou realmente…alguma coisa!
Talvez um «eu» feito de iluminação pura
Decorre desta convicção que, procurar explicações para o nosso destino e para o destino do universo ou, ainda, se nós temos um destino ou o que é tudo isso e mais alguma coisa, é um inútil e desvairado propósito que só acrescenta sofrimento à nossa já sofredora humana condição.
Para escapar a esta verdadeira maldição humana do sofrimento, Buda aponta o caminho de um desapego progressivo de tudo até à extinção, em nós, do simples desejo de formular perguntas. E este desejo de conhecer parece ser o último resquício da existência de um «eu» que se quer completamente anulado.
Notemos então: a vontade de conhecer, que foi a mola impulsionadora de toda a nossa civilização «cristã ocidental» é, para o budismo, não a mãe do sofrimento, porque o sofrimento precede o pensamento, mas um cúmulo de desgraça humana.
Nada de novo, se pensarmos na belíssima alegoria do paraíso de Adão e Eva. Estes pais da humanidade, cedendo à tentação de comer o fruto da «árvore do conhecimento» arranjaram uma bela carga de trabalhos para a desgraçada prole.
O autor do paraíso perdido de Adão e Eva explica porque existe o sofrimento. O budismo entende que o sofrimento não é para ser explicado, mas anulado. O problema, na minha perspectiva, é que se despeja o bebé com a água do banho, por esta simples razão: o homem "é" intrinsecamente, e é "intrinsecamente" sofredor, se entendermos que sofrimento significa “mudança”ou “transformação”. E o nosso Universo anda em “sofrimento” pelo menos desde o Big Bang.
E o «eu» que o budismo pretende anular com o seu Nirvana sabe perfeitamente o que se está a passar. E por saber tal, transforma em deleite o que Buda chama de sofrimento, empolgando-se e, esquecido do curto tempo que dura a sua consciente aventura individual, lança-se a caminho das estrelas.
Verdadeiramente, só queremos deixar o sofrimento budista se isso servir os nossos sonhos mais profundos.
Convivemos bem com o «contentamento descontente» de Camões e o nosso rosto ilumina-se de felicidade quando encontra o olhar do nosso amor. Ia apostar que não há Nirvana que se lhe compare. Nunca me descobri tão plenamente «eu» como no dia em que comecei a ouvir uma voz divinamente meiga a sussurrar-me: meu amor. Não troco esta presença amorosa por iluminação nenhuma deste mundo e de todos os outros. E só desejo que tudo o que descobrirmos e inventarmos com o nosso génio humano seja para tornar mais intensa, perfeita e duradoura a presença dos que nos amam e nós amamos.
Dizia o Luís, repetindo palavras do budismo: «se tens fome, come; se tens sede bebe…».
Chega a ser deprimente, no budismo, a ideia do sentido «utilitário» das coisas. Comer, beber, fazer sexo, vestir, calçar, tudo é sempre encarado numa perspectiva individualista. Tudo deve estar ao «serviço» da “minha” iluminação. Tal atitude pressupõe uma filosofia que pensa o homem como indivíduo solitário face ao universo. Acontece que nós descobrimos alguém e fomos descobertos por alguém e formamos um trio inseparável: eu, tu e o universo. Por isso, quando comemos, bebemos, fazemos sexo e nos enfeitamos; ou pensamos, sonhamos e investigamos, estamos a fazê-lo para os outros e com os outros. É por essa razão que fazemos a festa da vida, sinalizando a nossa presença uns aos outros. O amor é o culminar da festa humana. E não nos conformamos que dure apenas o espaço de uma vida. É um doce sofrimento este inconformismo. E nós temos uma palavra divina para o expressar: saudade.
È uma palavra que só o amor sabe dizer.
A compreensão deste facto é a iluminação definitiva, é quando se atinge o Nirvana.
Traduzindo o que se pretende afirmar no budismo: eu sou nada e, quando perceber isso, é que sou realmente…alguma coisa!
Talvez um «eu» feito de iluminação pura
Decorre desta convicção que, procurar explicações para o nosso destino e para o destino do universo ou, ainda, se nós temos um destino ou o que é tudo isso e mais alguma coisa, é um inútil e desvairado propósito que só acrescenta sofrimento à nossa já sofredora humana condição.
Para escapar a esta verdadeira maldição humana do sofrimento, Buda aponta o caminho de um desapego progressivo de tudo até à extinção, em nós, do simples desejo de formular perguntas. E este desejo de conhecer parece ser o último resquício da existência de um «eu» que se quer completamente anulado.
Notemos então: a vontade de conhecer, que foi a mola impulsionadora de toda a nossa civilização «cristã ocidental» é, para o budismo, não a mãe do sofrimento, porque o sofrimento precede o pensamento, mas um cúmulo de desgraça humana.
Nada de novo, se pensarmos na belíssima alegoria do paraíso de Adão e Eva. Estes pais da humanidade, cedendo à tentação de comer o fruto da «árvore do conhecimento» arranjaram uma bela carga de trabalhos para a desgraçada prole.
O autor do paraíso perdido de Adão e Eva explica porque existe o sofrimento. O budismo entende que o sofrimento não é para ser explicado, mas anulado. O problema, na minha perspectiva, é que se despeja o bebé com a água do banho, por esta simples razão: o homem "é" intrinsecamente, e é "intrinsecamente" sofredor, se entendermos que sofrimento significa “mudança”ou “transformação”. E o nosso Universo anda em “sofrimento” pelo menos desde o Big Bang.
E o «eu» que o budismo pretende anular com o seu Nirvana sabe perfeitamente o que se está a passar. E por saber tal, transforma em deleite o que Buda chama de sofrimento, empolgando-se e, esquecido do curto tempo que dura a sua consciente aventura individual, lança-se a caminho das estrelas.
Verdadeiramente, só queremos deixar o sofrimento budista se isso servir os nossos sonhos mais profundos.
Convivemos bem com o «contentamento descontente» de Camões e o nosso rosto ilumina-se de felicidade quando encontra o olhar do nosso amor. Ia apostar que não há Nirvana que se lhe compare. Nunca me descobri tão plenamente «eu» como no dia em que comecei a ouvir uma voz divinamente meiga a sussurrar-me: meu amor. Não troco esta presença amorosa por iluminação nenhuma deste mundo e de todos os outros. E só desejo que tudo o que descobrirmos e inventarmos com o nosso génio humano seja para tornar mais intensa, perfeita e duradoura a presença dos que nos amam e nós amamos.
Dizia o Luís, repetindo palavras do budismo: «se tens fome, come; se tens sede bebe…».
Chega a ser deprimente, no budismo, a ideia do sentido «utilitário» das coisas. Comer, beber, fazer sexo, vestir, calçar, tudo é sempre encarado numa perspectiva individualista. Tudo deve estar ao «serviço» da “minha” iluminação. Tal atitude pressupõe uma filosofia que pensa o homem como indivíduo solitário face ao universo. Acontece que nós descobrimos alguém e fomos descobertos por alguém e formamos um trio inseparável: eu, tu e o universo. Por isso, quando comemos, bebemos, fazemos sexo e nos enfeitamos; ou pensamos, sonhamos e investigamos, estamos a fazê-lo para os outros e com os outros. É por essa razão que fazemos a festa da vida, sinalizando a nossa presença uns aos outros. O amor é o culminar da festa humana. E não nos conformamos que dure apenas o espaço de uma vida. É um doce sofrimento este inconformismo. E nós temos uma palavra divina para o expressar: saudade.
È uma palavra que só o amor sabe dizer.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
O Mistério Aqui Tão Perto
Para mim, o mistério dos mistérios é o papel de «observadores» que desempenhamos na incrível sinfonia da existência. Estou convencido de que, se queremos pegar no fio desta intrincada meada que somos neste nosso universo, temos de centrar o nosso pensamento na condição única a que chegamos, que é a auto consciência.
Nós somos o universo a olhar para si mesmo. Perguntamo-nos: «quem és tu?». E atónitos perante o universo que nos envolve, indagamos: «O que é isto?».
Confundidos, caímos na tentação de pensar que somos «dois em um», como se aquele que pergunta não fosse o mesmo que responde, como se estivéssemos em presença de duas entidades autónomas e até conflituantes.
Ousava dizer que a filosofia e a física só entrarão, definitivamente, no caminho certo, quando aceitarem o principio da unidade intrínseca do homem e vingue a ideia de que nós somos o despertar da consciência do universo.
E será que poderemos reproduzir este "milagre" em laboratório? Há cientistas a dizer que só compreenderemos o mistério da auto consciência quando a conseguirmos reproduzir. Se isso acontecer será muito mais do que ter descoberto o elixir da juventude. Reproduzindo a consciência humana e compreendendo-a, estaremos aptos a prolongar por tempo indeterminado a nossa própria consciência. Será um principio da imortalidade do homem, porque o que nos falta mesmo é um suporte «material» para as nossas memórias, de modo a poder revisita-las sempre que quisermos e continuar a reinventar a vida a partir delas. O que temos, por enquanto...
É muito lindo falar, genérica e pomposamente, em nós sermos a consciência do universo. O pior é quando nos damos conta de que esta «consciência do universo» só existe na forma «individualizada». A dita «consciência do universo» na sua forma universalizada não é mais que um conceito traduzido num desejo e acarinhado num sonho! Este desejo e este sonho são intrinsecamente reais mas o conceito de «consciência do universo» não é mais que a expressão do desejo e do sonho e como tal não é, como gosta de dizer o Luís, «intrinsecamente» real. E o Luís está coberto de razão.
E vejam, então, como as coisas começam a ficar feias e negras! Se a «consciência do universo» só existe porque eu e tu somos essa consciência, o que será feito dessa coisa linda se desapareceram da face da Terra ou da vastidão do Universo todas as formas individualizadas de consciência?! Eu, tu, ele... nós todos os conscientes! Vão-se os magníficos "mapas mentais" dentro do caixão. A não ser que os tenhamos gravado na "pedra", para serem lidos enquanto houver alguém para os ler.
É caso para pensar e pasmar: cada um de nós carrega em si a mais espantosa realidade do universo «observado»: a auto-consciência. E o que nos confunde completamente é a certeza da fragilidade e precaridade do vaso de argila em que transportamos tão precioso tesouro.
A metafísica do sonho ou da fé dos homens é a recusa em aceitar esta tremenda realidade.
Pelo que me diz o Luís, o budismo aceita essa fatalidade e prepara o nosso espírito para acolhê-la lúcida e conformadamente, porque o seu «sonho»o» não vai além deste horizonte. Nem deseja ir, nem aconselha ninguém a ir, porque encontrará apenas sofrimento numa demanda que considera inútil.
Do mesmo modo, o designado «materialismo ateu» se limita à «física», sem a metafísica -do sonho ou da fé-e proclama o absurdo de tudo isto. O materialismo ateu seria, então, uma espécie de budismo que perdeu a paciência e vive zangado com a vida. Qualquer bom médico lhe receitaria um estágio prolongado num mosteiro de monges budistas. Garantidamente, regressará de lá sem fé e sem sonhos. Terá desistido de mudar o mundo em três dias ou em três milénios e morrerá tão tranquilo como um canário na gaiola da sua vida.
Eu sou um insensato, preferindo sonhar durante o tempo todo da minha consciência. É uma doença que parece não ter cura. Nasci com os genes do cristianismo que fizeram de mim um sonhador. Sinto-me bem assim e penso que do amor me vem a paz que o budista encontra no "esquecimento de si". Ele diz no «desapego do «eu».
Eu também me «desapeguei» de um «eu» inchado de conceitos e preconceitos, feitos carne nos meus genes ou bebidos na cultura da minha juventude cristã. Desprendi-me dos dogmas todos mas retive do cristianismo a mensagem sublime do amor. Porque experiencio o amor em cada dia da minha vida é que eu alimento o sonho insensato da metafísica inconformada. Balançado entre entre o nascimento e a morte da minha consciência, agarro a mão do meu amor e deixo que a ilusão da imortalidade se apodere de mim. E vou dizer a derradeira tolice: enquanto dura, esta "imortalidade", é muito boa. E quando acaba, inexoravelmente, fica uma doce saudade, que talvez seja o que nos faz sonhar...
Nós somos o universo a olhar para si mesmo. Perguntamo-nos: «quem és tu?». E atónitos perante o universo que nos envolve, indagamos: «O que é isto?».
Confundidos, caímos na tentação de pensar que somos «dois em um», como se aquele que pergunta não fosse o mesmo que responde, como se estivéssemos em presença de duas entidades autónomas e até conflituantes.
Ousava dizer que a filosofia e a física só entrarão, definitivamente, no caminho certo, quando aceitarem o principio da unidade intrínseca do homem e vingue a ideia de que nós somos o despertar da consciência do universo.
E será que poderemos reproduzir este "milagre" em laboratório? Há cientistas a dizer que só compreenderemos o mistério da auto consciência quando a conseguirmos reproduzir. Se isso acontecer será muito mais do que ter descoberto o elixir da juventude. Reproduzindo a consciência humana e compreendendo-a, estaremos aptos a prolongar por tempo indeterminado a nossa própria consciência. Será um principio da imortalidade do homem, porque o que nos falta mesmo é um suporte «material» para as nossas memórias, de modo a poder revisita-las sempre que quisermos e continuar a reinventar a vida a partir delas. O que temos, por enquanto...
É muito lindo falar, genérica e pomposamente, em nós sermos a consciência do universo. O pior é quando nos damos conta de que esta «consciência do universo» só existe na forma «individualizada». A dita «consciência do universo» na sua forma universalizada não é mais que um conceito traduzido num desejo e acarinhado num sonho! Este desejo e este sonho são intrinsecamente reais mas o conceito de «consciência do universo» não é mais que a expressão do desejo e do sonho e como tal não é, como gosta de dizer o Luís, «intrinsecamente» real. E o Luís está coberto de razão.
E vejam, então, como as coisas começam a ficar feias e negras! Se a «consciência do universo» só existe porque eu e tu somos essa consciência, o que será feito dessa coisa linda se desapareceram da face da Terra ou da vastidão do Universo todas as formas individualizadas de consciência?! Eu, tu, ele... nós todos os conscientes! Vão-se os magníficos "mapas mentais" dentro do caixão. A não ser que os tenhamos gravado na "pedra", para serem lidos enquanto houver alguém para os ler.
É caso para pensar e pasmar: cada um de nós carrega em si a mais espantosa realidade do universo «observado»: a auto-consciência. E o que nos confunde completamente é a certeza da fragilidade e precaridade do vaso de argila em que transportamos tão precioso tesouro.
A metafísica do sonho ou da fé dos homens é a recusa em aceitar esta tremenda realidade.
Pelo que me diz o Luís, o budismo aceita essa fatalidade e prepara o nosso espírito para acolhê-la lúcida e conformadamente, porque o seu «sonho»o» não vai além deste horizonte. Nem deseja ir, nem aconselha ninguém a ir, porque encontrará apenas sofrimento numa demanda que considera inútil.
Do mesmo modo, o designado «materialismo ateu» se limita à «física», sem a metafísica -do sonho ou da fé-e proclama o absurdo de tudo isto. O materialismo ateu seria, então, uma espécie de budismo que perdeu a paciência e vive zangado com a vida. Qualquer bom médico lhe receitaria um estágio prolongado num mosteiro de monges budistas. Garantidamente, regressará de lá sem fé e sem sonhos. Terá desistido de mudar o mundo em três dias ou em três milénios e morrerá tão tranquilo como um canário na gaiola da sua vida.
Eu sou um insensato, preferindo sonhar durante o tempo todo da minha consciência. É uma doença que parece não ter cura. Nasci com os genes do cristianismo que fizeram de mim um sonhador. Sinto-me bem assim e penso que do amor me vem a paz que o budista encontra no "esquecimento de si". Ele diz no «desapego do «eu».
Eu também me «desapeguei» de um «eu» inchado de conceitos e preconceitos, feitos carne nos meus genes ou bebidos na cultura da minha juventude cristã. Desprendi-me dos dogmas todos mas retive do cristianismo a mensagem sublime do amor. Porque experiencio o amor em cada dia da minha vida é que eu alimento o sonho insensato da metafísica inconformada. Balançado entre entre o nascimento e a morte da minha consciência, agarro a mão do meu amor e deixo que a ilusão da imortalidade se apodere de mim. E vou dizer a derradeira tolice: enquanto dura, esta "imortalidade", é muito boa. E quando acaba, inexoravelmente, fica uma doce saudade, que talvez seja o que nos faz sonhar...
domingo, 20 de junho de 2010
O Budismo e o Sonho
Alonguei-me no comentário ao comentário do Luis sobre o post anterior e achei melhor fazer nova postagem. Aqui vai.
Curiosamente, a imagem que eu tenho de um «buda» é de uma figura masculina anafada, sentada sobre os calcanhares, meditabunda, ensimesmada, distante e inerte, parada mesmo, alheada do espaço que ocupa e do tempo que passa.
Mas nunca imaginei o «buda» um sonhador.
Porque do sonho de um homem segue-se a aventura de uma vida, com a sua natural carga de realizações, de alegrias, decepções e sofrimentos. E mais sonhos, e novos sonhos. Sonhamos descer ao fundo mar e mergulhar por entre galáxias, à velocidade da luz; erguer pontes, escavar túneis, construir torres de chegar ao céu; dissecar os corpos, as células, o próprio genoma; já partimos também os "indivisiveis" átomos e agora perseguimos o «santo graal» da «particula de Deus», sonhando espreitar para lá desse profundissimo horizonte...
E, apesar de tudo, conservando a lucidez de de quem sabe que escavando até à raíz do nosso ser, nunca perdemos a visão de conjunto que dá sentido ao que somos e fazemos. É como empreender uma caminhada, em que cada passo ganha sentido tanto pela história do caminho percorrido, como pelo sonho do caminho a percorrer.
Por isso a Humanidade não desiste...
Consciência do passado vivido e do futuro sonhado, será este o «despertar do teu «buda», Luis?
Se é, como se explica que Ricard Matthieu tenha abandonado a «investigação cientifica» e se sente o «homem mais feliz do mundo» acompanhando a pregação itinerante de Dalai Lama, deixando para os dedicados milhões de investigadores a tarefa de viajar até ao coração da vida?
AH! Já sei! Tavez o «homem feliz» de «buda» seja apenas um espirito incarnado na matéria... Para quê perder tempo, nos laboratórios, a fossar na matéria que, no fim de contas, não tem nada a ver com o homem-espirito que somos e muito menos com a nossa felicidade?
É isso?
Acredito que o homem será cada vez mais um «ser espiritual», mas sê-lo-á através desta coisa que chamamos «matéria», que nós sonhamos transformar à medida dos sonhos que vamos sonhando. Porque se esta «matéria» nos fez o que já somos e conhecemos, que maiores segredos não terá para nós descobrirmos?
E, como sempre aconteceu desde que começamos a trabalhar a pedra, o conhecimento e a descoberta implicam a transformação da «matéria».
Do Mundo, quero eu dizer.
Porque será, Luis, que se agarrou a mim a ideia de que o budismo se fica pelo «conhecimento», pelo «despertar», agarrado, ele sim, à jangada (do pensamento) que o transporta?
Tivesse Alexander Fleming, depois da guerra, abandonado a medicina para se juntar a um Dalai Lama no Tibete e não sei quantos milhões de seres humanos teriam continuado a sucumbir às infecções que os seus antibióticos vieram debelar.
Concluo: despertar é essencial e nisso bendito seja o budismo. Mas despertar para quê, se ainda vemos apenas um pouquinho do caminho a percorrer? Por isso compreendo mal como se pode trocar a investigação pela meditação, quando as duas são essenciais e complementares. Parece-me que o problema, embora os budistas não o admitam claramente, é que o budismo assenta no dualismo "ontológico" espirito e matéria.
Curiosamente, a imagem que eu tenho de um «buda» é de uma figura masculina anafada, sentada sobre os calcanhares, meditabunda, ensimesmada, distante e inerte, parada mesmo, alheada do espaço que ocupa e do tempo que passa.
Mas nunca imaginei o «buda» um sonhador.
Porque do sonho de um homem segue-se a aventura de uma vida, com a sua natural carga de realizações, de alegrias, decepções e sofrimentos. E mais sonhos, e novos sonhos. Sonhamos descer ao fundo mar e mergulhar por entre galáxias, à velocidade da luz; erguer pontes, escavar túneis, construir torres de chegar ao céu; dissecar os corpos, as células, o próprio genoma; já partimos também os "indivisiveis" átomos e agora perseguimos o «santo graal» da «particula de Deus», sonhando espreitar para lá desse profundissimo horizonte...
E, apesar de tudo, conservando a lucidez de de quem sabe que escavando até à raíz do nosso ser, nunca perdemos a visão de conjunto que dá sentido ao que somos e fazemos. É como empreender uma caminhada, em que cada passo ganha sentido tanto pela história do caminho percorrido, como pelo sonho do caminho a percorrer.
Por isso a Humanidade não desiste...
Consciência do passado vivido e do futuro sonhado, será este o «despertar do teu «buda», Luis?
Se é, como se explica que Ricard Matthieu tenha abandonado a «investigação cientifica» e se sente o «homem mais feliz do mundo» acompanhando a pregação itinerante de Dalai Lama, deixando para os dedicados milhões de investigadores a tarefa de viajar até ao coração da vida?
AH! Já sei! Tavez o «homem feliz» de «buda» seja apenas um espirito incarnado na matéria... Para quê perder tempo, nos laboratórios, a fossar na matéria que, no fim de contas, não tem nada a ver com o homem-espirito que somos e muito menos com a nossa felicidade?
É isso?
Acredito que o homem será cada vez mais um «ser espiritual», mas sê-lo-á através desta coisa que chamamos «matéria», que nós sonhamos transformar à medida dos sonhos que vamos sonhando. Porque se esta «matéria» nos fez o que já somos e conhecemos, que maiores segredos não terá para nós descobrirmos?
E, como sempre aconteceu desde que começamos a trabalhar a pedra, o conhecimento e a descoberta implicam a transformação da «matéria».
Do Mundo, quero eu dizer.
Porque será, Luis, que se agarrou a mim a ideia de que o budismo se fica pelo «conhecimento», pelo «despertar», agarrado, ele sim, à jangada (do pensamento) que o transporta?
Tivesse Alexander Fleming, depois da guerra, abandonado a medicina para se juntar a um Dalai Lama no Tibete e não sei quantos milhões de seres humanos teriam continuado a sucumbir às infecções que os seus antibióticos vieram debelar.
Concluo: despertar é essencial e nisso bendito seja o budismo. Mas despertar para quê, se ainda vemos apenas um pouquinho do caminho a percorrer? Por isso compreendo mal como se pode trocar a investigação pela meditação, quando as duas são essenciais e complementares. Parece-me que o problema, embora os budistas não o admitam claramente, é que o budismo assenta no dualismo "ontológico" espirito e matéria.
sábado, 19 de junho de 2010
O Sonho e a Metafísica
Hoje li estas palavras de José Saramago: «O escritor é um homem como os outros: sonha».
Eu considero a capacidade de sonhar uma das marcas distintivas do ser humano e por isso não compreendo que se considere o «sonho» como uma fantasia pouco mais que pueril, ingénua, quase primitiva.
Tal como o «sentimento», o sonho foi escorraçado do campo da filosofia, desconsiderado e desvalorizado e relegado para o «saco de gatos» das nossas sensações. Muitas filosofias pensaram o «homem racional» e o «homem sensitivo» como duas realidades incompatíveis, se não mesmo antagónicas.
Ainda bem que António Damásio corrigiu esse «erro de Descartes».
Desprevenido andou Saramago, que preferiu seguir Buda nesta coisa do homem sonhador. Julgou Saramago que «sonhar» será coisa boa no escritor e no homem mas o mesmo sonho já não conta como fundamento da nossa "humanidade". Ele pensa como Buda, quando este afirma que «a vida feliz não depende da solução dos grandes problemas metafísicos». Ambos rejeitam o sonho como forma de abraçar o infinito e tocar o absoluto, num gesto semelhante à loucura, de quem não cuida, sequer, no sofrimento que acompanha o gesto ousado de sonhar.
Com toda a lógica, o budismo pretende exorcizar o sofrimento. Como o ateísmo militante de Saramago pretende iludir a incerteza que nos assalta perante o «mistério» insondável da existência. A forma radical de o fazer, é negar a existência do próprio «mistério».
Para Buda, qualquer sonho é tão fútil quanto inútil e para Saramago não vai além da esperança num sucesso efémero do indivíduo ou da sociedade e ao alcance de quem ouse sonhar e realizar um sonho «bem concreto e definido como outra coisa qualquer», segundo o poeta A.Gedeão.
Mas existe um sonho e uma forma de sonhar que não são nem «bem definidos» nem como outra coisa qualquer. São os sonhos «impossíveis» que nunca chegaremos a realizar. É destes que trata a Metafísica.
Também eu digo, como Buda, que a nossa felicidade não depende da solução dos grandes problemas metafísicos «como o da eternidade ou não eternidade do universo, o da mortalidade ou da imortalidade da alma e o da existência ou não de um Absoluto» (citando o Luís no seu comentário à postagem «Enfrentar a Fatalidade». É a mais pura das verdades. Pobre de cada um de nós se estivesse à espera que fossem resolvidos «os grandes problemas metafísicos» para conseguir um pingo de felicidade!
A metafísica trata dos problemas considerados «insolúveis» e, portanto, diz o povo, como «aquilo que não tem remédio, remediado está», avancemos para o que «realmente interessa».
Porém, imaginem a tremenda pasmaceira em que cairíamos se tudo fosse tão evidente como dois e dois serem quatro, sem ponta de mistério para nos fazer sonhar. Era como viver numa prisão, com horizontes tão definidos e tão imutáveis como uma eternidade. Era como jogar um jogo, sabendo de antemão o resultado final.
E assim parece quando olhamos o nosso nascimento e a nossa morte.
O que faz nascer a “brecha” do sonho é a outra marca distintiva da nossa humanidade, a consciência, que nos permite ver o que está e quem está diante de nós, contemplando-nos com igual espanto.
São dois ou muitos mundos no confronto do “jogo da existência”, tornando o resultado imprevisível, mas permitindo o sonho.
Permitindo também o “sofrimento”, meu caro Buda, como parte integrante da nossa humana condição. Não irei ao ponto de fazer como alguns “mortificados” santos católicos que acarinhavam os «irmãos piolhos» que lhes sugavam o sangue, mas não me importo nada de aconchegar dentro de mim a sombra da incerteza, aceitando disputar, com lealdade, o jogo até ao fim.
Eu considero a capacidade de sonhar uma das marcas distintivas do ser humano e por isso não compreendo que se considere o «sonho» como uma fantasia pouco mais que pueril, ingénua, quase primitiva.
Tal como o «sentimento», o sonho foi escorraçado do campo da filosofia, desconsiderado e desvalorizado e relegado para o «saco de gatos» das nossas sensações. Muitas filosofias pensaram o «homem racional» e o «homem sensitivo» como duas realidades incompatíveis, se não mesmo antagónicas.
Ainda bem que António Damásio corrigiu esse «erro de Descartes».
Desprevenido andou Saramago, que preferiu seguir Buda nesta coisa do homem sonhador. Julgou Saramago que «sonhar» será coisa boa no escritor e no homem mas o mesmo sonho já não conta como fundamento da nossa "humanidade". Ele pensa como Buda, quando este afirma que «a vida feliz não depende da solução dos grandes problemas metafísicos». Ambos rejeitam o sonho como forma de abraçar o infinito e tocar o absoluto, num gesto semelhante à loucura, de quem não cuida, sequer, no sofrimento que acompanha o gesto ousado de sonhar.
Com toda a lógica, o budismo pretende exorcizar o sofrimento. Como o ateísmo militante de Saramago pretende iludir a incerteza que nos assalta perante o «mistério» insondável da existência. A forma radical de o fazer, é negar a existência do próprio «mistério».
Para Buda, qualquer sonho é tão fútil quanto inútil e para Saramago não vai além da esperança num sucesso efémero do indivíduo ou da sociedade e ao alcance de quem ouse sonhar e realizar um sonho «bem concreto e definido como outra coisa qualquer», segundo o poeta A.Gedeão.
Mas existe um sonho e uma forma de sonhar que não são nem «bem definidos» nem como outra coisa qualquer. São os sonhos «impossíveis» que nunca chegaremos a realizar. É destes que trata a Metafísica.
Também eu digo, como Buda, que a nossa felicidade não depende da solução dos grandes problemas metafísicos «como o da eternidade ou não eternidade do universo, o da mortalidade ou da imortalidade da alma e o da existência ou não de um Absoluto» (citando o Luís no seu comentário à postagem «Enfrentar a Fatalidade». É a mais pura das verdades. Pobre de cada um de nós se estivesse à espera que fossem resolvidos «os grandes problemas metafísicos» para conseguir um pingo de felicidade!
A metafísica trata dos problemas considerados «insolúveis» e, portanto, diz o povo, como «aquilo que não tem remédio, remediado está», avancemos para o que «realmente interessa».
Porém, imaginem a tremenda pasmaceira em que cairíamos se tudo fosse tão evidente como dois e dois serem quatro, sem ponta de mistério para nos fazer sonhar. Era como viver numa prisão, com horizontes tão definidos e tão imutáveis como uma eternidade. Era como jogar um jogo, sabendo de antemão o resultado final.
E assim parece quando olhamos o nosso nascimento e a nossa morte.
O que faz nascer a “brecha” do sonho é a outra marca distintiva da nossa humanidade, a consciência, que nos permite ver o que está e quem está diante de nós, contemplando-nos com igual espanto.
São dois ou muitos mundos no confronto do “jogo da existência”, tornando o resultado imprevisível, mas permitindo o sonho.
Permitindo também o “sofrimento”, meu caro Buda, como parte integrante da nossa humana condição. Não irei ao ponto de fazer como alguns “mortificados” santos católicos que acarinhavam os «irmãos piolhos» que lhes sugavam o sangue, mas não me importo nada de aconchegar dentro de mim a sombra da incerteza, aceitando disputar, com lealdade, o jogo até ao fim.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
A Morte de Saramago
Em cima da noticia da morte de Saramago, a TVI deixava algumas notas sobre a mais recente obra do escritor, «Pequenas Memórias». Fixei a leitura deste apelo: «Deixa viver a criança que já foste».
E lembrei-me do que tenho lido ultimamente no «Bebé Filósofo» de Alison Gopnik. Na introdução ela escreve assim: «...nós, adultos, somos apenas o produto final da infância. Os nossos cérebros são os cérebros que foram moldados pela experiência, as nossas vidas são as vidas que começaram como bebés, a nossa consciência é a consciência que recua até à infância. O filósofo grego Heraclito disse que nenhum homem se banha duas vezes nas águas do mesmo rio, porque nem o rio nem o homem são os mesmos.Pensar acerca das crianças e da infância torna nítido que as nossas vidas, e a nossa história como espécie, são esse tipo de rio em fluxo, em perpétua mudança».
Saramago, no fim da sua longa vida, parece ter a consciência perfeita de que a sua identidade permaneceu indissoluvelmente ligada à infância, crescendo das suas raízes, enriquecendo-se e dando os frutos que deu. É como se as suas «Pequenas Memórias» nos apontassem o inicio de um percurso ininterrupto, exactamente como uma semente que germina e cresce e floresce e frutifica e morre, tudo em seu devido tempo.
E ele teve o tempo completo de uma vida.
E lembrei-me do que tenho lido ultimamente no «Bebé Filósofo» de Alison Gopnik. Na introdução ela escreve assim: «...nós, adultos, somos apenas o produto final da infância. Os nossos cérebros são os cérebros que foram moldados pela experiência, as nossas vidas são as vidas que começaram como bebés, a nossa consciência é a consciência que recua até à infância. O filósofo grego Heraclito disse que nenhum homem se banha duas vezes nas águas do mesmo rio, porque nem o rio nem o homem são os mesmos.Pensar acerca das crianças e da infância torna nítido que as nossas vidas, e a nossa história como espécie, são esse tipo de rio em fluxo, em perpétua mudança».
Saramago, no fim da sua longa vida, parece ter a consciência perfeita de que a sua identidade permaneceu indissoluvelmente ligada à infância, crescendo das suas raízes, enriquecendo-se e dando os frutos que deu. É como se as suas «Pequenas Memórias» nos apontassem o inicio de um percurso ininterrupto, exactamente como uma semente que germina e cresce e floresce e frutifica e morre, tudo em seu devido tempo.
E ele teve o tempo completo de uma vida.
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