Em cima da noticia da morte de Saramago, a TVI deixava algumas notas sobre a mais recente obra do escritor, «Pequenas Memórias». Fixei a leitura deste apelo: «Deixa viver a criança que já foste».
E lembrei-me do que tenho lido ultimamente no «Bebé Filósofo» de Alison Gopnik. Na introdução ela escreve assim: «...nós, adultos, somos apenas o produto final da infância. Os nossos cérebros são os cérebros que foram moldados pela experiência, as nossas vidas são as vidas que começaram como bebés, a nossa consciência é a consciência que recua até à infância. O filósofo grego Heraclito disse que nenhum homem se banha duas vezes nas águas do mesmo rio, porque nem o rio nem o homem são os mesmos.Pensar acerca das crianças e da infância torna nítido que as nossas vidas, e a nossa história como espécie, são esse tipo de rio em fluxo, em perpétua mudança».
Saramago, no fim da sua longa vida, parece ter a consciência perfeita de que a sua identidade permaneceu indissoluvelmente ligada à infância, crescendo das suas raízes, enriquecendo-se e dando os frutos que deu. É como se as suas «Pequenas Memórias» nos apontassem o inicio de um percurso ininterrupto, exactamente como uma semente que germina e cresce e floresce e frutifica e morre, tudo em seu devido tempo.
E ele teve o tempo completo de uma vida.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
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A mais bela recordação que guardo dos seus livros é a daquele personagem que, no cemitério, à socapa, trocava os números às campas, para que as pessoas que lá fossem rezassem por outras que não conheciam.
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