Para mim, o mistério dos mistérios é o papel de «observadores» que desempenhamos na incrível sinfonia da existência. Estou convencido de que, se queremos pegar no fio desta intrincada meada que somos neste nosso universo, temos de centrar o nosso pensamento na condição única a que chegamos, que é a auto consciência.
Nós somos o universo a olhar para si mesmo. Perguntamo-nos: «quem és tu?». E atónitos perante o universo que nos envolve, indagamos: «O que é isto?».
Confundidos, caímos na tentação de pensar que somos «dois em um», como se aquele que pergunta não fosse o mesmo que responde, como se estivéssemos em presença de duas entidades autónomas e até conflituantes.
Ousava dizer que a filosofia e a física só entrarão, definitivamente, no caminho certo, quando aceitarem o principio da unidade intrínseca do homem e vingue a ideia de que nós somos o despertar da consciência do universo.
E será que poderemos reproduzir este "milagre" em laboratório? Há cientistas a dizer que só compreenderemos o mistério da auto consciência quando a conseguirmos reproduzir. Se isso acontecer será muito mais do que ter descoberto o elixir da juventude. Reproduzindo a consciência humana e compreendendo-a, estaremos aptos a prolongar por tempo indeterminado a nossa própria consciência. Será um principio da imortalidade do homem, porque o que nos falta mesmo é um suporte «material» para as nossas memórias, de modo a poder revisita-las sempre que quisermos e continuar a reinventar a vida a partir delas. O que temos, por enquanto...
É muito lindo falar, genérica e pomposamente, em nós sermos a consciência do universo. O pior é quando nos damos conta de que esta «consciência do universo» só existe na forma «individualizada». A dita «consciência do universo» na sua forma universalizada não é mais que um conceito traduzido num desejo e acarinhado num sonho! Este desejo e este sonho são intrinsecamente reais mas o conceito de «consciência do universo» não é mais que a expressão do desejo e do sonho e como tal não é, como gosta de dizer o Luís, «intrinsecamente» real. E o Luís está coberto de razão.
E vejam, então, como as coisas começam a ficar feias e negras! Se a «consciência do universo» só existe porque eu e tu somos essa consciência, o que será feito dessa coisa linda se desapareceram da face da Terra ou da vastidão do Universo todas as formas individualizadas de consciência?! Eu, tu, ele... nós todos os conscientes! Vão-se os magníficos "mapas mentais" dentro do caixão. A não ser que os tenhamos gravado na "pedra", para serem lidos enquanto houver alguém para os ler.
É caso para pensar e pasmar: cada um de nós carrega em si a mais espantosa realidade do universo «observado»: a auto-consciência. E o que nos confunde completamente é a certeza da fragilidade e precaridade do vaso de argila em que transportamos tão precioso tesouro.
A metafísica do sonho ou da fé dos homens é a recusa em aceitar esta tremenda realidade.
Pelo que me diz o Luís, o budismo aceita essa fatalidade e prepara o nosso espírito para acolhê-la lúcida e conformadamente, porque o seu «sonho»o» não vai além deste horizonte. Nem deseja ir, nem aconselha ninguém a ir, porque encontrará apenas sofrimento numa demanda que considera inútil.
Do mesmo modo, o designado «materialismo ateu» se limita à «física», sem a metafísica -do sonho ou da fé-e proclama o absurdo de tudo isto. O materialismo ateu seria, então, uma espécie de budismo que perdeu a paciência e vive zangado com a vida. Qualquer bom médico lhe receitaria um estágio prolongado num mosteiro de monges budistas. Garantidamente, regressará de lá sem fé e sem sonhos. Terá desistido de mudar o mundo em três dias ou em três milénios e morrerá tão tranquilo como um canário na gaiola da sua vida.
Eu sou um insensato, preferindo sonhar durante o tempo todo da minha consciência. É uma doença que parece não ter cura. Nasci com os genes do cristianismo que fizeram de mim um sonhador. Sinto-me bem assim e penso que do amor me vem a paz que o budista encontra no "esquecimento de si". Ele diz no «desapego do «eu».
Eu também me «desapeguei» de um «eu» inchado de conceitos e preconceitos, feitos carne nos meus genes ou bebidos na cultura da minha juventude cristã. Desprendi-me dos dogmas todos mas retive do cristianismo a mensagem sublime do amor. Porque experiencio o amor em cada dia da minha vida é que eu alimento o sonho insensato da metafísica inconformada. Balançado entre entre o nascimento e a morte da minha consciência, agarro a mão do meu amor e deixo que a ilusão da imortalidade se apodere de mim. E vou dizer a derradeira tolice: enquanto dura, esta "imortalidade", é muito boa. E quando acaba, inexoravelmente, fica uma doce saudade, que talvez seja o que nos faz sonhar...
segunda-feira, 21 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
O Budismo e o Sonho
Alonguei-me no comentário ao comentário do Luis sobre o post anterior e achei melhor fazer nova postagem. Aqui vai.
Curiosamente, a imagem que eu tenho de um «buda» é de uma figura masculina anafada, sentada sobre os calcanhares, meditabunda, ensimesmada, distante e inerte, parada mesmo, alheada do espaço que ocupa e do tempo que passa.
Mas nunca imaginei o «buda» um sonhador.
Porque do sonho de um homem segue-se a aventura de uma vida, com a sua natural carga de realizações, de alegrias, decepções e sofrimentos. E mais sonhos, e novos sonhos. Sonhamos descer ao fundo mar e mergulhar por entre galáxias, à velocidade da luz; erguer pontes, escavar túneis, construir torres de chegar ao céu; dissecar os corpos, as células, o próprio genoma; já partimos também os "indivisiveis" átomos e agora perseguimos o «santo graal» da «particula de Deus», sonhando espreitar para lá desse profundissimo horizonte...
E, apesar de tudo, conservando a lucidez de de quem sabe que escavando até à raíz do nosso ser, nunca perdemos a visão de conjunto que dá sentido ao que somos e fazemos. É como empreender uma caminhada, em que cada passo ganha sentido tanto pela história do caminho percorrido, como pelo sonho do caminho a percorrer.
Por isso a Humanidade não desiste...
Consciência do passado vivido e do futuro sonhado, será este o «despertar do teu «buda», Luis?
Se é, como se explica que Ricard Matthieu tenha abandonado a «investigação cientifica» e se sente o «homem mais feliz do mundo» acompanhando a pregação itinerante de Dalai Lama, deixando para os dedicados milhões de investigadores a tarefa de viajar até ao coração da vida?
AH! Já sei! Tavez o «homem feliz» de «buda» seja apenas um espirito incarnado na matéria... Para quê perder tempo, nos laboratórios, a fossar na matéria que, no fim de contas, não tem nada a ver com o homem-espirito que somos e muito menos com a nossa felicidade?
É isso?
Acredito que o homem será cada vez mais um «ser espiritual», mas sê-lo-á através desta coisa que chamamos «matéria», que nós sonhamos transformar à medida dos sonhos que vamos sonhando. Porque se esta «matéria» nos fez o que já somos e conhecemos, que maiores segredos não terá para nós descobrirmos?
E, como sempre aconteceu desde que começamos a trabalhar a pedra, o conhecimento e a descoberta implicam a transformação da «matéria».
Do Mundo, quero eu dizer.
Porque será, Luis, que se agarrou a mim a ideia de que o budismo se fica pelo «conhecimento», pelo «despertar», agarrado, ele sim, à jangada (do pensamento) que o transporta?
Tivesse Alexander Fleming, depois da guerra, abandonado a medicina para se juntar a um Dalai Lama no Tibete e não sei quantos milhões de seres humanos teriam continuado a sucumbir às infecções que os seus antibióticos vieram debelar.
Concluo: despertar é essencial e nisso bendito seja o budismo. Mas despertar para quê, se ainda vemos apenas um pouquinho do caminho a percorrer? Por isso compreendo mal como se pode trocar a investigação pela meditação, quando as duas são essenciais e complementares. Parece-me que o problema, embora os budistas não o admitam claramente, é que o budismo assenta no dualismo "ontológico" espirito e matéria.
Curiosamente, a imagem que eu tenho de um «buda» é de uma figura masculina anafada, sentada sobre os calcanhares, meditabunda, ensimesmada, distante e inerte, parada mesmo, alheada do espaço que ocupa e do tempo que passa.
Mas nunca imaginei o «buda» um sonhador.
Porque do sonho de um homem segue-se a aventura de uma vida, com a sua natural carga de realizações, de alegrias, decepções e sofrimentos. E mais sonhos, e novos sonhos. Sonhamos descer ao fundo mar e mergulhar por entre galáxias, à velocidade da luz; erguer pontes, escavar túneis, construir torres de chegar ao céu; dissecar os corpos, as células, o próprio genoma; já partimos também os "indivisiveis" átomos e agora perseguimos o «santo graal» da «particula de Deus», sonhando espreitar para lá desse profundissimo horizonte...
E, apesar de tudo, conservando a lucidez de de quem sabe que escavando até à raíz do nosso ser, nunca perdemos a visão de conjunto que dá sentido ao que somos e fazemos. É como empreender uma caminhada, em que cada passo ganha sentido tanto pela história do caminho percorrido, como pelo sonho do caminho a percorrer.
Por isso a Humanidade não desiste...
Consciência do passado vivido e do futuro sonhado, será este o «despertar do teu «buda», Luis?
Se é, como se explica que Ricard Matthieu tenha abandonado a «investigação cientifica» e se sente o «homem mais feliz do mundo» acompanhando a pregação itinerante de Dalai Lama, deixando para os dedicados milhões de investigadores a tarefa de viajar até ao coração da vida?
AH! Já sei! Tavez o «homem feliz» de «buda» seja apenas um espirito incarnado na matéria... Para quê perder tempo, nos laboratórios, a fossar na matéria que, no fim de contas, não tem nada a ver com o homem-espirito que somos e muito menos com a nossa felicidade?
É isso?
Acredito que o homem será cada vez mais um «ser espiritual», mas sê-lo-á através desta coisa que chamamos «matéria», que nós sonhamos transformar à medida dos sonhos que vamos sonhando. Porque se esta «matéria» nos fez o que já somos e conhecemos, que maiores segredos não terá para nós descobrirmos?
E, como sempre aconteceu desde que começamos a trabalhar a pedra, o conhecimento e a descoberta implicam a transformação da «matéria».
Do Mundo, quero eu dizer.
Porque será, Luis, que se agarrou a mim a ideia de que o budismo se fica pelo «conhecimento», pelo «despertar», agarrado, ele sim, à jangada (do pensamento) que o transporta?
Tivesse Alexander Fleming, depois da guerra, abandonado a medicina para se juntar a um Dalai Lama no Tibete e não sei quantos milhões de seres humanos teriam continuado a sucumbir às infecções que os seus antibióticos vieram debelar.
Concluo: despertar é essencial e nisso bendito seja o budismo. Mas despertar para quê, se ainda vemos apenas um pouquinho do caminho a percorrer? Por isso compreendo mal como se pode trocar a investigação pela meditação, quando as duas são essenciais e complementares. Parece-me que o problema, embora os budistas não o admitam claramente, é que o budismo assenta no dualismo "ontológico" espirito e matéria.
sábado, 19 de junho de 2010
O Sonho e a Metafísica
Hoje li estas palavras de José Saramago: «O escritor é um homem como os outros: sonha».
Eu considero a capacidade de sonhar uma das marcas distintivas do ser humano e por isso não compreendo que se considere o «sonho» como uma fantasia pouco mais que pueril, ingénua, quase primitiva.
Tal como o «sentimento», o sonho foi escorraçado do campo da filosofia, desconsiderado e desvalorizado e relegado para o «saco de gatos» das nossas sensações. Muitas filosofias pensaram o «homem racional» e o «homem sensitivo» como duas realidades incompatíveis, se não mesmo antagónicas.
Ainda bem que António Damásio corrigiu esse «erro de Descartes».
Desprevenido andou Saramago, que preferiu seguir Buda nesta coisa do homem sonhador. Julgou Saramago que «sonhar» será coisa boa no escritor e no homem mas o mesmo sonho já não conta como fundamento da nossa "humanidade". Ele pensa como Buda, quando este afirma que «a vida feliz não depende da solução dos grandes problemas metafísicos». Ambos rejeitam o sonho como forma de abraçar o infinito e tocar o absoluto, num gesto semelhante à loucura, de quem não cuida, sequer, no sofrimento que acompanha o gesto ousado de sonhar.
Com toda a lógica, o budismo pretende exorcizar o sofrimento. Como o ateísmo militante de Saramago pretende iludir a incerteza que nos assalta perante o «mistério» insondável da existência. A forma radical de o fazer, é negar a existência do próprio «mistério».
Para Buda, qualquer sonho é tão fútil quanto inútil e para Saramago não vai além da esperança num sucesso efémero do indivíduo ou da sociedade e ao alcance de quem ouse sonhar e realizar um sonho «bem concreto e definido como outra coisa qualquer», segundo o poeta A.Gedeão.
Mas existe um sonho e uma forma de sonhar que não são nem «bem definidos» nem como outra coisa qualquer. São os sonhos «impossíveis» que nunca chegaremos a realizar. É destes que trata a Metafísica.
Também eu digo, como Buda, que a nossa felicidade não depende da solução dos grandes problemas metafísicos «como o da eternidade ou não eternidade do universo, o da mortalidade ou da imortalidade da alma e o da existência ou não de um Absoluto» (citando o Luís no seu comentário à postagem «Enfrentar a Fatalidade». É a mais pura das verdades. Pobre de cada um de nós se estivesse à espera que fossem resolvidos «os grandes problemas metafísicos» para conseguir um pingo de felicidade!
A metafísica trata dos problemas considerados «insolúveis» e, portanto, diz o povo, como «aquilo que não tem remédio, remediado está», avancemos para o que «realmente interessa».
Porém, imaginem a tremenda pasmaceira em que cairíamos se tudo fosse tão evidente como dois e dois serem quatro, sem ponta de mistério para nos fazer sonhar. Era como viver numa prisão, com horizontes tão definidos e tão imutáveis como uma eternidade. Era como jogar um jogo, sabendo de antemão o resultado final.
E assim parece quando olhamos o nosso nascimento e a nossa morte.
O que faz nascer a “brecha” do sonho é a outra marca distintiva da nossa humanidade, a consciência, que nos permite ver o que está e quem está diante de nós, contemplando-nos com igual espanto.
São dois ou muitos mundos no confronto do “jogo da existência”, tornando o resultado imprevisível, mas permitindo o sonho.
Permitindo também o “sofrimento”, meu caro Buda, como parte integrante da nossa humana condição. Não irei ao ponto de fazer como alguns “mortificados” santos católicos que acarinhavam os «irmãos piolhos» que lhes sugavam o sangue, mas não me importo nada de aconchegar dentro de mim a sombra da incerteza, aceitando disputar, com lealdade, o jogo até ao fim.
Eu considero a capacidade de sonhar uma das marcas distintivas do ser humano e por isso não compreendo que se considere o «sonho» como uma fantasia pouco mais que pueril, ingénua, quase primitiva.
Tal como o «sentimento», o sonho foi escorraçado do campo da filosofia, desconsiderado e desvalorizado e relegado para o «saco de gatos» das nossas sensações. Muitas filosofias pensaram o «homem racional» e o «homem sensitivo» como duas realidades incompatíveis, se não mesmo antagónicas.
Ainda bem que António Damásio corrigiu esse «erro de Descartes».
Desprevenido andou Saramago, que preferiu seguir Buda nesta coisa do homem sonhador. Julgou Saramago que «sonhar» será coisa boa no escritor e no homem mas o mesmo sonho já não conta como fundamento da nossa "humanidade". Ele pensa como Buda, quando este afirma que «a vida feliz não depende da solução dos grandes problemas metafísicos». Ambos rejeitam o sonho como forma de abraçar o infinito e tocar o absoluto, num gesto semelhante à loucura, de quem não cuida, sequer, no sofrimento que acompanha o gesto ousado de sonhar.
Com toda a lógica, o budismo pretende exorcizar o sofrimento. Como o ateísmo militante de Saramago pretende iludir a incerteza que nos assalta perante o «mistério» insondável da existência. A forma radical de o fazer, é negar a existência do próprio «mistério».
Para Buda, qualquer sonho é tão fútil quanto inútil e para Saramago não vai além da esperança num sucesso efémero do indivíduo ou da sociedade e ao alcance de quem ouse sonhar e realizar um sonho «bem concreto e definido como outra coisa qualquer», segundo o poeta A.Gedeão.
Mas existe um sonho e uma forma de sonhar que não são nem «bem definidos» nem como outra coisa qualquer. São os sonhos «impossíveis» que nunca chegaremos a realizar. É destes que trata a Metafísica.
Também eu digo, como Buda, que a nossa felicidade não depende da solução dos grandes problemas metafísicos «como o da eternidade ou não eternidade do universo, o da mortalidade ou da imortalidade da alma e o da existência ou não de um Absoluto» (citando o Luís no seu comentário à postagem «Enfrentar a Fatalidade». É a mais pura das verdades. Pobre de cada um de nós se estivesse à espera que fossem resolvidos «os grandes problemas metafísicos» para conseguir um pingo de felicidade!
A metafísica trata dos problemas considerados «insolúveis» e, portanto, diz o povo, como «aquilo que não tem remédio, remediado está», avancemos para o que «realmente interessa».
Porém, imaginem a tremenda pasmaceira em que cairíamos se tudo fosse tão evidente como dois e dois serem quatro, sem ponta de mistério para nos fazer sonhar. Era como viver numa prisão, com horizontes tão definidos e tão imutáveis como uma eternidade. Era como jogar um jogo, sabendo de antemão o resultado final.
E assim parece quando olhamos o nosso nascimento e a nossa morte.
O que faz nascer a “brecha” do sonho é a outra marca distintiva da nossa humanidade, a consciência, que nos permite ver o que está e quem está diante de nós, contemplando-nos com igual espanto.
São dois ou muitos mundos no confronto do “jogo da existência”, tornando o resultado imprevisível, mas permitindo o sonho.
Permitindo também o “sofrimento”, meu caro Buda, como parte integrante da nossa humana condição. Não irei ao ponto de fazer como alguns “mortificados” santos católicos que acarinhavam os «irmãos piolhos» que lhes sugavam o sangue, mas não me importo nada de aconchegar dentro de mim a sombra da incerteza, aceitando disputar, com lealdade, o jogo até ao fim.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
A Morte de Saramago
Em cima da noticia da morte de Saramago, a TVI deixava algumas notas sobre a mais recente obra do escritor, «Pequenas Memórias». Fixei a leitura deste apelo: «Deixa viver a criança que já foste».
E lembrei-me do que tenho lido ultimamente no «Bebé Filósofo» de Alison Gopnik. Na introdução ela escreve assim: «...nós, adultos, somos apenas o produto final da infância. Os nossos cérebros são os cérebros que foram moldados pela experiência, as nossas vidas são as vidas que começaram como bebés, a nossa consciência é a consciência que recua até à infância. O filósofo grego Heraclito disse que nenhum homem se banha duas vezes nas águas do mesmo rio, porque nem o rio nem o homem são os mesmos.Pensar acerca das crianças e da infância torna nítido que as nossas vidas, e a nossa história como espécie, são esse tipo de rio em fluxo, em perpétua mudança».
Saramago, no fim da sua longa vida, parece ter a consciência perfeita de que a sua identidade permaneceu indissoluvelmente ligada à infância, crescendo das suas raízes, enriquecendo-se e dando os frutos que deu. É como se as suas «Pequenas Memórias» nos apontassem o inicio de um percurso ininterrupto, exactamente como uma semente que germina e cresce e floresce e frutifica e morre, tudo em seu devido tempo.
E ele teve o tempo completo de uma vida.
E lembrei-me do que tenho lido ultimamente no «Bebé Filósofo» de Alison Gopnik. Na introdução ela escreve assim: «...nós, adultos, somos apenas o produto final da infância. Os nossos cérebros são os cérebros que foram moldados pela experiência, as nossas vidas são as vidas que começaram como bebés, a nossa consciência é a consciência que recua até à infância. O filósofo grego Heraclito disse que nenhum homem se banha duas vezes nas águas do mesmo rio, porque nem o rio nem o homem são os mesmos.Pensar acerca das crianças e da infância torna nítido que as nossas vidas, e a nossa história como espécie, são esse tipo de rio em fluxo, em perpétua mudança».
Saramago, no fim da sua longa vida, parece ter a consciência perfeita de que a sua identidade permaneceu indissoluvelmente ligada à infância, crescendo das suas raízes, enriquecendo-se e dando os frutos que deu. É como se as suas «Pequenas Memórias» nos apontassem o inicio de um percurso ininterrupto, exactamente como uma semente que germina e cresce e floresce e frutifica e morre, tudo em seu devido tempo.
E ele teve o tempo completo de uma vida.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Budismo e Cristianismo. Outra Vez
Segundo «critérios neurológicos», como diz o Luis, Matthieu Ricard foi considerado o homem mais feliz do planeta. Tenho curiosidade em saber se a Madre Teresa de Calcutá entrou no teste-concurso.
Mas hoje não é por aqui que pretendo ir.
Diz-se do budismo que este não é nem religião, nem filosofia, nem teologia. E também já encontramos cristãos a afirmar que o cristianismo não é uma religião nem uma filosofia. Mas estes últimos afirmam, claramente, que o cristianismo é uma teologia.
Não sei porque se há-se pensar que a filosofia é alheia ao budismo e ao cristianismo. De facto, a filosofia, na sua essência, é o primeiro movimento da mente humana e da consciência humana face ao grandioso espectáculo que se lhe depara, que é a festa e o drama da vida e o universo onde eles se desenrolam. Espanto, encantamento e também todos os medos e todas as interrogações.
É isto que eu entendo por filosofia.
Os discursos produzidos por séculos de interrogações são a «história da filosofia» e o museu precioso, onde sentimos o pulsar da alma dos nossos antepassados. Vibramos com pensamento de Platão ou Aristóteles como nos deslumbramos perante a magia das catedrais.
Também nos comovemos profundamente perante a alma patenteada do budista e do cristão.
O que eu pretendo dizer, com todo este intróito, é que os «movimentos» da alma budista e cristã emergiram da mais pura filosofia.
Separar estes movimentos da alma humana daquele primordial,espontâneo e real encontro com a vida e o universo - a filosofia - é criar mistificações para «levar a água ao seu moinho». E isto significa, na prática, criar barreiras e distancias, baralhando os dados simples da realidade.É confundir o «meu» espanto,encantamento, interrogação ou medo com a essência da Realidade e da Verdade.
Literalmente, esquece-se como tudo começou.
Ninguém, de boa fé, pode negar esta evidencia: no principio era a filosofia.
Se disserem «no principio era a paixão», também vale.
O resto, um vastíssimo e valioso património da humanidade, são apenas interpretações. Neste património se incluem as religiões, as teologias, as "filosofias". Também o cristianismo e o budismo, traduzidos em catedrais de pedra e pensamento.
Mas hoje não é por aqui que pretendo ir.
Diz-se do budismo que este não é nem religião, nem filosofia, nem teologia. E também já encontramos cristãos a afirmar que o cristianismo não é uma religião nem uma filosofia. Mas estes últimos afirmam, claramente, que o cristianismo é uma teologia.
Não sei porque se há-se pensar que a filosofia é alheia ao budismo e ao cristianismo. De facto, a filosofia, na sua essência, é o primeiro movimento da mente humana e da consciência humana face ao grandioso espectáculo que se lhe depara, que é a festa e o drama da vida e o universo onde eles se desenrolam. Espanto, encantamento e também todos os medos e todas as interrogações.
É isto que eu entendo por filosofia.
Os discursos produzidos por séculos de interrogações são a «história da filosofia» e o museu precioso, onde sentimos o pulsar da alma dos nossos antepassados. Vibramos com pensamento de Platão ou Aristóteles como nos deslumbramos perante a magia das catedrais.
Também nos comovemos profundamente perante a alma patenteada do budista e do cristão.
O que eu pretendo dizer, com todo este intróito, é que os «movimentos» da alma budista e cristã emergiram da mais pura filosofia.
Separar estes movimentos da alma humana daquele primordial,espontâneo e real encontro com a vida e o universo - a filosofia - é criar mistificações para «levar a água ao seu moinho». E isto significa, na prática, criar barreiras e distancias, baralhando os dados simples da realidade.É confundir o «meu» espanto,encantamento, interrogação ou medo com a essência da Realidade e da Verdade.
Literalmente, esquece-se como tudo começou.
Ninguém, de boa fé, pode negar esta evidencia: no principio era a filosofia.
Se disserem «no principio era a paixão», também vale.
O resto, um vastíssimo e valioso património da humanidade, são apenas interpretações. Neste património se incluem as religiões, as teologias, as "filosofias". Também o cristianismo e o budismo, traduzidos em catedrais de pedra e pensamento.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Enfrentar a Fatalidade
A partir do momento em que o homem atingiu, na sua evolução, o patamar da consciência nasceram todos os “fatalismos”. A razão é simples: vê uma História que começou sem ele –ou a sua consciência- e essa mesma História vai continuar sem ele e sem a sua consciência.
Estes sãos os factos e não vale a pena escamoteá-los. Se há vida antes de mim e isso é absolutamente verdade, eu não estava lá e a vida continuará depois de mim e eu não vou estar lá. O que vem para além desta fria observação é obra da fé dos homens, fruto dos seus anseios de mais vida e mais felicidade. E este aspecto da «felicidade» é fundamental, porque não estou a imaginar alguém a querer prolongar uma dolorosa e irremediável agonia por uma eternidade. Para ser infeliz, o mínimo que se pode desejar é que tal agonia seja curta.
Porém, o que o homem deseja mesmo é superar a fatalidade ou a agonia e continuar o caminho rumo à felicidade. È um sentimento que pode, perfeitamente, ter as suas raízes nos “mecanismos”da génese da própria vida. O milagre da consciência vem apenas lançar luz sobre “o que se está a passar”e o homem, encantado com o “fenómeno”, empolga-se e quer mais e mais vida. Porém, alguns indivíduos, que não a Humanidade, inconformados e amargurados, chegam a amaldiçoar o dia em que tomaram consciência da sua augusta mas tão precária condição. Provar o milagre da vida por um tão curto tempo…
São estes que encaram tanto o nascimento como a morte, como uma fatalidade, com toda a carga negativa que lhe está associada.
A História prova à saciedade que o “grosso” da Humanidade não desiste nunca, não cedendo a fatalismos. Pelo contrário, no seu conjunto, empreendeu uma caminhada heróica que nenhuma tragédia fez parar. E quando as forças começam a faltar, agarra-se a uma fé cega num destino de felicidade, não se importando de sacrificar a razão e a lógica ao desejo incontido de um futuro com mais e melhor vida. Bem podemos dizer que a humanidade tem por horizonte não o «inferno» mas o «céu». Como quem diz, o triunfo da vida e não a vitória da morte.
É tempo de todos colocarmos os pés bem assentes no chão. A ciência conheceu tais desenvolvimentos que já não permite mais devaneios inconsequentes nem a fé cega dos nossos avós. Eles estavam «encostados à parede», porque o mundo acabava mesmo ali, um pouco acima das nuvens ou mais abaixo, no mar profundo. Mas a ciência dos últimos duzentos anos abriu horizontes inimagináveis. Para onde quer que olhe, o homem já não vê outro muro que não seja o das suas limitações do momento presente. Há quem pergunte, actualmente, se a ciência não terá atingido os seus limites. A resposta tem sido: não! Aliás, recordam os defensores do “não” que, em épocas anteriores, a mesma dúvida pairou nas mentes. E foi o que se viu…
Na minha modesta opinião há dois factos que terão de ser considerados à partida. Primeiro, a unidade intrínseca do ser humano. Com isto quero dizer que o futuro do homem, «a mais vida com que se sonha», será tanto para o seu corpo como para o seu espírito. Definitivamente, digo não aos espíritos «incarnados» ou «desincarnados». Aceito o aparente paradoxo de a «matéria» que somos gerar a «consciência» que também somos. Aceito que «eu» não fazia parte da História, antes de nascer, e não faço a mínima ideia do que acontece a esta criação maravilhosa que «eu» sou, quando se desfizer o suporte que a tornou possível. Posso adiantar que ficaria feliz da vida se «alguém» ou «alguma coisa» lhe deitasse a mão e me juntasse aos amores que partiram antes de mim, para continuar a aventura, mesmo que noutra dimensão.
É apenas um sonho. O que temos pela frente é muito trabalho dedicado, para prolongar a existência deste corpo e desta consciência e com qualidade de vida.
O segundo facto a considerar diz respeito ao modo como abordamos a questão do conhecimento humano. O nosso conhecimento não se reduz a meras «convenções» sem qualquer contacto e correspondência com a verdade intrínseca da realidade. Nisto eu sou «aristotélico». Os nossos sentidos proporcionam-nos «contactos» intrinsecamente verdadeiros com as coisas, as sensações, e estas são transformadas em autênticos mapas, pela nossa mente. Estes mapas vão servir de guia para não nos perdermos no emaranhado impressionante de estradas e carreirinhos da realidade. «Por aqui já passei; este caminho vai dar àquele; se for por aqui é mais perto; aquela estrada desce muito e está cheia de curvas; mas dá para ir por um atalho; ali faz-se uma ponte; ali um túnel». Até se mudar a própria a paisagem…
Sempre presentes os sentidos, a razão e a Senhora Realidade.
E que Senhora! Uma Diva mesmo! Inacessível a um pobretanas e feio mas que a adora. Pobre filósofo, que terá de viver a vida inteira de um amor platónico. Mas o “sentimento” é real, tão real como quem o tem. Platão esquecera este pormenor mas o seu discípulo Aristóteles veio lembrar.
Aquilo que a gente «sente», a «paixão», aparentemente a parte pobre do processo cognitivo, afinal é o primeiro relacionamento com a Realidade. É o primeiro «choque» e não pode ser posto de lado quando elaboramos os mapas mentais para nos orientarmos na floresta da vida. Porque, se o fizermos, às tantas, já nem sabemos do que andamos à procura e paramos, entretidos a fazer contas de somar ou cálculos elaboradíssimos na construção de pontes e estradas, esquecidos de como tudo começou. E, sobretudo, do objecto da nossa paixão. Ou do próprio apaixonado, resultando daí um filósofo oco, um cientista de cabeça perdida e um pregador de mundos imaginários.
Para uma boa teoria do conhecimento: no princípio era a paixão.
Estes sãos os factos e não vale a pena escamoteá-los. Se há vida antes de mim e isso é absolutamente verdade, eu não estava lá e a vida continuará depois de mim e eu não vou estar lá. O que vem para além desta fria observação é obra da fé dos homens, fruto dos seus anseios de mais vida e mais felicidade. E este aspecto da «felicidade» é fundamental, porque não estou a imaginar alguém a querer prolongar uma dolorosa e irremediável agonia por uma eternidade. Para ser infeliz, o mínimo que se pode desejar é que tal agonia seja curta.
Porém, o que o homem deseja mesmo é superar a fatalidade ou a agonia e continuar o caminho rumo à felicidade. È um sentimento que pode, perfeitamente, ter as suas raízes nos “mecanismos”da génese da própria vida. O milagre da consciência vem apenas lançar luz sobre “o que se está a passar”e o homem, encantado com o “fenómeno”, empolga-se e quer mais e mais vida. Porém, alguns indivíduos, que não a Humanidade, inconformados e amargurados, chegam a amaldiçoar o dia em que tomaram consciência da sua augusta mas tão precária condição. Provar o milagre da vida por um tão curto tempo…
São estes que encaram tanto o nascimento como a morte, como uma fatalidade, com toda a carga negativa que lhe está associada.
A História prova à saciedade que o “grosso” da Humanidade não desiste nunca, não cedendo a fatalismos. Pelo contrário, no seu conjunto, empreendeu uma caminhada heróica que nenhuma tragédia fez parar. E quando as forças começam a faltar, agarra-se a uma fé cega num destino de felicidade, não se importando de sacrificar a razão e a lógica ao desejo incontido de um futuro com mais e melhor vida. Bem podemos dizer que a humanidade tem por horizonte não o «inferno» mas o «céu». Como quem diz, o triunfo da vida e não a vitória da morte.
É tempo de todos colocarmos os pés bem assentes no chão. A ciência conheceu tais desenvolvimentos que já não permite mais devaneios inconsequentes nem a fé cega dos nossos avós. Eles estavam «encostados à parede», porque o mundo acabava mesmo ali, um pouco acima das nuvens ou mais abaixo, no mar profundo. Mas a ciência dos últimos duzentos anos abriu horizontes inimagináveis. Para onde quer que olhe, o homem já não vê outro muro que não seja o das suas limitações do momento presente. Há quem pergunte, actualmente, se a ciência não terá atingido os seus limites. A resposta tem sido: não! Aliás, recordam os defensores do “não” que, em épocas anteriores, a mesma dúvida pairou nas mentes. E foi o que se viu…
Na minha modesta opinião há dois factos que terão de ser considerados à partida. Primeiro, a unidade intrínseca do ser humano. Com isto quero dizer que o futuro do homem, «a mais vida com que se sonha», será tanto para o seu corpo como para o seu espírito. Definitivamente, digo não aos espíritos «incarnados» ou «desincarnados». Aceito o aparente paradoxo de a «matéria» que somos gerar a «consciência» que também somos. Aceito que «eu» não fazia parte da História, antes de nascer, e não faço a mínima ideia do que acontece a esta criação maravilhosa que «eu» sou, quando se desfizer o suporte que a tornou possível. Posso adiantar que ficaria feliz da vida se «alguém» ou «alguma coisa» lhe deitasse a mão e me juntasse aos amores que partiram antes de mim, para continuar a aventura, mesmo que noutra dimensão.
É apenas um sonho. O que temos pela frente é muito trabalho dedicado, para prolongar a existência deste corpo e desta consciência e com qualidade de vida.
O segundo facto a considerar diz respeito ao modo como abordamos a questão do conhecimento humano. O nosso conhecimento não se reduz a meras «convenções» sem qualquer contacto e correspondência com a verdade intrínseca da realidade. Nisto eu sou «aristotélico». Os nossos sentidos proporcionam-nos «contactos» intrinsecamente verdadeiros com as coisas, as sensações, e estas são transformadas em autênticos mapas, pela nossa mente. Estes mapas vão servir de guia para não nos perdermos no emaranhado impressionante de estradas e carreirinhos da realidade. «Por aqui já passei; este caminho vai dar àquele; se for por aqui é mais perto; aquela estrada desce muito e está cheia de curvas; mas dá para ir por um atalho; ali faz-se uma ponte; ali um túnel». Até se mudar a própria a paisagem…
Sempre presentes os sentidos, a razão e a Senhora Realidade.
E que Senhora! Uma Diva mesmo! Inacessível a um pobretanas e feio mas que a adora. Pobre filósofo, que terá de viver a vida inteira de um amor platónico. Mas o “sentimento” é real, tão real como quem o tem. Platão esquecera este pormenor mas o seu discípulo Aristóteles veio lembrar.
Aquilo que a gente «sente», a «paixão», aparentemente a parte pobre do processo cognitivo, afinal é o primeiro relacionamento com a Realidade. É o primeiro «choque» e não pode ser posto de lado quando elaboramos os mapas mentais para nos orientarmos na floresta da vida. Porque, se o fizermos, às tantas, já nem sabemos do que andamos à procura e paramos, entretidos a fazer contas de somar ou cálculos elaboradíssimos na construção de pontes e estradas, esquecidos de como tudo começou. E, sobretudo, do objecto da nossa paixão. Ou do próprio apaixonado, resultando daí um filósofo oco, um cientista de cabeça perdida e um pregador de mundos imaginários.
Para uma boa teoria do conhecimento: no princípio era a paixão.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Fatal Como O Destino
Vou responder à questão levantada pelo meu querido amigo Zé Moreira nesta “postagem” em vez de o fazer na “caixa de comentários”, porque o assunto merece ser destacado.
Para surpresa da generalidade das pessoas, a teologia cristã é contrária à ideia de fatalismo. Isto quer dizer que ninguém nasce com o destino traçado. Nem Judas, apesar de ter sido imprescindível a sua traição ao desígnio da Obra da Redenção.
O que surpreende ainda mais é que esta doutrina da teologia cristã (estou a referir-me, sempre, à teologia cristã-católica) penetrou no pensamento da generalidade dos crentes e cada um se sente senhor e responsável pelo seu destino. Se falhar o objectivo da sua realização e felicidade a culpa é inteiramente sua. E carrega toda a vida o peso dessa responsabilidade. É dramático e empolgante.
Estamos perante mais um dos muitos mistérios da fé cristã e este afronta directamente a nossa razão. Com efeito, se há um Criador, terá de haver um desígnio e nós fomos concebidos para realizar esse desígnio. Não há como fugir ao destino. Assim, Judas não podia deixar de trair o Redentor da Humanidade. Estava escrito.
E se assim é, onde está a liberdade de escolha? Como se pode culpar e condenar alguém predestinado à traição?
A teologia cristã concilia estes “contrários”, desígnio e liberdade, de uma forma que me parece brilhante. Literalmente, os teólogos cristãos resolvem a situação paradoxal, transcendendo a racionalidade e permanecendo com os pés bem assentes na terra. E matam dois coelhos com uma só cajadada: nem o Deus em que acreditam é uma entidade monolítica nem o homem, sua imagem e semelhança, é uma realidade individualizada. Esta verdade da doutrina cristã é afirmada na alteridade absoluta de Deus em relação ao Homem e deste em relação a Deus.
No discurso teológico dos cristãos, o monolitismo divino é rompido na proclamação de um conjunto de «pessoas divinas», no dogma da «Santíssima Trindade».
Embora não sendo crente cristão, aceitando e professando esta fé como «verdade revelada» a um grupo de homens privilegiados, considero, no entanto, espantosa esta teologia. Para mim é do mais belo e do mais profundo de tudo o que alguma vez o pensamento e o sentimento humano conceberam acerca da Divindade. E fizeram-no, conscientemente ou não, a partir da mais clara realidade do nosso dia a dia.
Quem é pai e mãe e filho ou filha, e somos todos, vive o mistério da alteridade absoluta. Pensa, meu caro Zé, que a vossa filha, sendo “genes dos vossos genes”, teus e da Romy, é uma personalidade totalmente outra. O seu destino será escolhido por ela, a não ser que, despoticamente interfiram e aniquilem a sua personalidade ou, no que vem a dar o mesmo, impeçam que ela se desenvolva.
O destino da vossa filha não está nas vossas mãos, apesar de tudo o que lhe deram desde o primeiro instante.
Também poderíamos dizer que matar alguém não é matar a personalidade desse alguém. Nesse sentido diríamos que Fernando Pessoa “está vivo” e que a imortalidade é um atributo da “pessoa”. Mas não vou por aí, agora.
Prefiro recordar o que dizia o Luís, aqui na Laje Negra: vivemos com um olho no finito e outro no infinito. O finito é a nossa indiscutível paternidade e filiação e o infinito é o universo novo que somos, saído dos genes dos nossos pais.
É claro que podemos especular, recuando até perguntar quem gerou «o pai do avô do bisavô da minha avó», prosseguindo até à derradeira pergunta «quem criou o Criador». Parece-me, no entanto, um exercício pouco profícuo e pouco mais vale que passar a vida a dizer 2+2=4. Conta certeira, em absoluto, mas sem que o persistente contador se tenha um dia lembrado de perguntar «2 quê?». Porque está-se mesmo a ver que dois Zé Moreira + dois nunca serão quatro porque só existe um, o de Marrancos de Braga e mais nenhum.
Como quem diz: a lógica da razão não serve para superar os paradoxos da vida e desvendar os seus mistérios.
Para surpresa da generalidade das pessoas, a teologia cristã é contrária à ideia de fatalismo. Isto quer dizer que ninguém nasce com o destino traçado. Nem Judas, apesar de ter sido imprescindível a sua traição ao desígnio da Obra da Redenção.
O que surpreende ainda mais é que esta doutrina da teologia cristã (estou a referir-me, sempre, à teologia cristã-católica) penetrou no pensamento da generalidade dos crentes e cada um se sente senhor e responsável pelo seu destino. Se falhar o objectivo da sua realização e felicidade a culpa é inteiramente sua. E carrega toda a vida o peso dessa responsabilidade. É dramático e empolgante.
Estamos perante mais um dos muitos mistérios da fé cristã e este afronta directamente a nossa razão. Com efeito, se há um Criador, terá de haver um desígnio e nós fomos concebidos para realizar esse desígnio. Não há como fugir ao destino. Assim, Judas não podia deixar de trair o Redentor da Humanidade. Estava escrito.
E se assim é, onde está a liberdade de escolha? Como se pode culpar e condenar alguém predestinado à traição?
A teologia cristã concilia estes “contrários”, desígnio e liberdade, de uma forma que me parece brilhante. Literalmente, os teólogos cristãos resolvem a situação paradoxal, transcendendo a racionalidade e permanecendo com os pés bem assentes na terra. E matam dois coelhos com uma só cajadada: nem o Deus em que acreditam é uma entidade monolítica nem o homem, sua imagem e semelhança, é uma realidade individualizada. Esta verdade da doutrina cristã é afirmada na alteridade absoluta de Deus em relação ao Homem e deste em relação a Deus.
No discurso teológico dos cristãos, o monolitismo divino é rompido na proclamação de um conjunto de «pessoas divinas», no dogma da «Santíssima Trindade».
Embora não sendo crente cristão, aceitando e professando esta fé como «verdade revelada» a um grupo de homens privilegiados, considero, no entanto, espantosa esta teologia. Para mim é do mais belo e do mais profundo de tudo o que alguma vez o pensamento e o sentimento humano conceberam acerca da Divindade. E fizeram-no, conscientemente ou não, a partir da mais clara realidade do nosso dia a dia.
Quem é pai e mãe e filho ou filha, e somos todos, vive o mistério da alteridade absoluta. Pensa, meu caro Zé, que a vossa filha, sendo “genes dos vossos genes”, teus e da Romy, é uma personalidade totalmente outra. O seu destino será escolhido por ela, a não ser que, despoticamente interfiram e aniquilem a sua personalidade ou, no que vem a dar o mesmo, impeçam que ela se desenvolva.
O destino da vossa filha não está nas vossas mãos, apesar de tudo o que lhe deram desde o primeiro instante.
Também poderíamos dizer que matar alguém não é matar a personalidade desse alguém. Nesse sentido diríamos que Fernando Pessoa “está vivo” e que a imortalidade é um atributo da “pessoa”. Mas não vou por aí, agora.
Prefiro recordar o que dizia o Luís, aqui na Laje Negra: vivemos com um olho no finito e outro no infinito. O finito é a nossa indiscutível paternidade e filiação e o infinito é o universo novo que somos, saído dos genes dos nossos pais.
É claro que podemos especular, recuando até perguntar quem gerou «o pai do avô do bisavô da minha avó», prosseguindo até à derradeira pergunta «quem criou o Criador». Parece-me, no entanto, um exercício pouco profícuo e pouco mais vale que passar a vida a dizer 2+2=4. Conta certeira, em absoluto, mas sem que o persistente contador se tenha um dia lembrado de perguntar «2 quê?». Porque está-se mesmo a ver que dois Zé Moreira + dois nunca serão quatro porque só existe um, o de Marrancos de Braga e mais nenhum.
Como quem diz: a lógica da razão não serve para superar os paradoxos da vida e desvendar os seus mistérios.
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