Ai o tempo, Lima, ai o tempo!...
Apenas te recordo no rosto de um rapazinho de treze anos. Não só "vejo" ainda os traços de um rosto a entrar na puberdade, como "ouço" claramente o timbre da tua voz e paro para te observar sentado num muro velho, da velhinha Falperra, ou sentado no chão, recostado a uma árvore mergulhado na leitura de um livro de aventuras. Talvez de Júlio Verne, porque existia na biblioteca do seminário a colecção completa ou quase. Livros da minha alegria.
Cresceste para adulto, pai e avô e não me admirava nada que, depois de mais de cinquenta anos, nos tivéssemos cruzado em Ponte de Lima, Viana do Castelo ou Barcelos, sem nos reconhecermos. Tu, em férias vindo de França onde resides, eu a partir da pequenina aldeia de Balugães, bem próxima destes centros de turismo.
Imagino que tenhas visitado uma ou outra vez a famosa feira de Barcelos e que a gente se tenha cruzado no meio do turbilhão de carros e gente. E não te reconheci numa figura que deixara de me ser “familiar”. Terás sido um estranho como qualquer outro. Uma simples forma de gente ambulante. Uma identidade, seguramente, porque todos temos uma, no papel ou sem papel.
O que falhou para que não acontecesse o nosso reencontro, na feira de Barcelos, não tem a ver com a tua incontestável identidade, mas com a fragilidade daquele que te observa, neste caso, eu. Fragilidade ou “superficialidade”ou simplesmente falta de “diálogo”.
Bastava que tropeçasse em ti, te pisasse os calos do pé direito (!?) e tu reagisses. Algum de nós poderia “olhar” mais atentamente, ver traços do rosto ou da figura toda que o tempo não conseguira esbater completamente, e entabular uma conversa que nos aproximasse da Falperra de cinquenta anos atrás. E fazia-se luz.
A história do conhecimento segue um percurso semelhante. Se queremos descobrir uma identidade temos de fazer um esforço de memória e entendimento. E mesmo assim, a identidade das coisas é tão profunda e misteriosa que, depois de séculos a perguntar, dissecar, equacionar e, a partir de uns tempos a esta parte, também a reproduzi-la, ainda estamos naquela de «um boi a olhar para um palácio».
Do meu ponto de vista fica claro que o Lima passeava-se sempre na feira de Barcelos, independentemente de eu o encontrar ou não, de eu o reconhecer ou não. Porque a realidade está sempre um passo à nossa frente. E é por isso que a podemos observar. Mas uma simples observação não chega para obter a “identidade”. Teremos que avançar até ao ADN do Universo…para uma identificação completa do que somos e até onde poderemos chegar.
Convenhamos que é uma tarefa mais ao alcance dos Deuses que dos Homens. Há dois mil e quinhentos anos já os gregos tinham percebido isso… E Buda também, só que este achou que o melhor era desaparecer!
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Um designio para o nosso universo?
Vou pegar num dos temas mais controversos da actualidade e que opõe os filósofos ditos ateus aos filósofos teístas e teólogos. É a questão de saber se há ou não um desígnio para o universo que somos.
Será que por este caminho conseguirei dar alguma consistência às formas-modelos voláteis e irrequietas da Realidade do Luis? Não sei, mas uma coisa é certa: vou ter de lhe partir a cabeça por uma segunda vez desde que viemos para este sitio conversar…
“Tudo é composto de mudança”, como diz o poeta, mas em progressão criativa, digo eu. Neste sentido, aquilo que nós percebemos como mudança ou movimento é, fundamentalmente, uma realidade nova. Isto equivale a dizer que as coisas não mudam para ficar tudo como dantes, num bailado incessante , repetitivo e sem sentido. Porém, fique claro que o “sentido” da mudança está na nova realidade criada e não numa qualquer pre-determinação ou desígnio…mas só até que surja um observador interveniente. Penso eu.
Quando a força do vento derruba um vaso da varanda e cai, por acaso, em cima da cabeça do Luis que ia, também por acaso, a passar naquele preciso instante, não existe aqui qualquer desígnio, apesar de haver um nexo inquestionável entre causa e efeito e uma cabeça partida por cauda evidente.
Tudo se altera se for o malandro do Lima a atirar o vaso à cabeça do Luis. O nexo causal é precisamente o mesmo, mas agora há um tenebroso desígnio por detrás…
Esta pequena paródia coloca-nos , de certo modo, perante aquilo que os físicos designam pelos principios copernicano e antrópico. Claro que o vento que derruba o vaso sem qualquer desígnio pode sempre ser transformado no Deus Eólo, mas todos sabemos que tem tanto de verdade como o Pai Natal a descer pela chaminé e colocar as prendas no sapatinho.
Por outro lado, o tenebroso desígnio do Lima, tão real e eficaz como o Deus Eólo, quero dizer, o vento, é uma urdidura bem montada pelo Lima, que calculou a distancia e imprimeiu a força necessária ao gesto para realizar o intento. Esquema. Modelo. Forma. Ideia. Tudo nascido daquela cabecinha malandra.
O que não podemos fazer, em tempo algum, é esquecer a dupla face da realidade que contem nas suas entranhas tanto o desígnio (do Lima)como o não desígnio (do vento). A não ser que o Lima e a sua cabecinha pensadora tenta tanta consistência como o Pai Natal da chaminé!
Esta aparente ou real contradição do senhor “Real”foi percebida pelo Luis budista, o que faz prova da sua inteligência e de que não anda neste mundo por ver andar os outros. Apesar disso, não me dispenso de lhe partir a cabeça, porque fico sempre com a impressão que ficou parado a contemplar a sua fantástica descoberta. Não me admiraria nada que o Luis budista ao ver o Lima a apontar o vaso à sua cabeça, acompanhando o gesto com insultos à sua honrada mãe, lhe dissesse calmamente como o outro: então não sabes que está aqui um homem que não se importa que lhe partas a cabeça?
Assim também eu, Luis! Depois da anestesia da iluminação, aquilo não dói nada…
(E o Lima esfalfou-se em vã glória de exibição de poder).
Já perceberam a conclusão de que o “fundo das coisas”, bem real e bem duro, que eu disse que apalpava, é um paradoxo dos diabos. Ser ou não ser. Com desígnio, sem desígnio. Tudo à molhada!
Ajudem um bocadinho a descalçar esta bota. Seja lá o caminho que tomarem, nunca se vão livrar da contradição.
E cá para nós: que piada tem um jogo depois de chegar ao fim?
Será que por este caminho conseguirei dar alguma consistência às formas-modelos voláteis e irrequietas da Realidade do Luis? Não sei, mas uma coisa é certa: vou ter de lhe partir a cabeça por uma segunda vez desde que viemos para este sitio conversar…
“Tudo é composto de mudança”, como diz o poeta, mas em progressão criativa, digo eu. Neste sentido, aquilo que nós percebemos como mudança ou movimento é, fundamentalmente, uma realidade nova. Isto equivale a dizer que as coisas não mudam para ficar tudo como dantes, num bailado incessante , repetitivo e sem sentido. Porém, fique claro que o “sentido” da mudança está na nova realidade criada e não numa qualquer pre-determinação ou desígnio…mas só até que surja um observador interveniente. Penso eu.
Quando a força do vento derruba um vaso da varanda e cai, por acaso, em cima da cabeça do Luis que ia, também por acaso, a passar naquele preciso instante, não existe aqui qualquer desígnio, apesar de haver um nexo inquestionável entre causa e efeito e uma cabeça partida por cauda evidente.
Tudo se altera se for o malandro do Lima a atirar o vaso à cabeça do Luis. O nexo causal é precisamente o mesmo, mas agora há um tenebroso desígnio por detrás…
Esta pequena paródia coloca-nos , de certo modo, perante aquilo que os físicos designam pelos principios copernicano e antrópico. Claro que o vento que derruba o vaso sem qualquer desígnio pode sempre ser transformado no Deus Eólo, mas todos sabemos que tem tanto de verdade como o Pai Natal a descer pela chaminé e colocar as prendas no sapatinho.
Por outro lado, o tenebroso desígnio do Lima, tão real e eficaz como o Deus Eólo, quero dizer, o vento, é uma urdidura bem montada pelo Lima, que calculou a distancia e imprimeiu a força necessária ao gesto para realizar o intento. Esquema. Modelo. Forma. Ideia. Tudo nascido daquela cabecinha malandra.
O que não podemos fazer, em tempo algum, é esquecer a dupla face da realidade que contem nas suas entranhas tanto o desígnio (do Lima)como o não desígnio (do vento). A não ser que o Lima e a sua cabecinha pensadora tenta tanta consistência como o Pai Natal da chaminé!
Esta aparente ou real contradição do senhor “Real”foi percebida pelo Luis budista, o que faz prova da sua inteligência e de que não anda neste mundo por ver andar os outros. Apesar disso, não me dispenso de lhe partir a cabeça, porque fico sempre com a impressão que ficou parado a contemplar a sua fantástica descoberta. Não me admiraria nada que o Luis budista ao ver o Lima a apontar o vaso à sua cabeça, acompanhando o gesto com insultos à sua honrada mãe, lhe dissesse calmamente como o outro: então não sabes que está aqui um homem que não se importa que lhe partas a cabeça?
Assim também eu, Luis! Depois da anestesia da iluminação, aquilo não dói nada…
(E o Lima esfalfou-se em vã glória de exibição de poder).
Já perceberam a conclusão de que o “fundo das coisas”, bem real e bem duro, que eu disse que apalpava, é um paradoxo dos diabos. Ser ou não ser. Com desígnio, sem desígnio. Tudo à molhada!
Ajudem um bocadinho a descalçar esta bota. Seja lá o caminho que tomarem, nunca se vão livrar da contradição.
E cá para nós: que piada tem um jogo depois de chegar ao fim?
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Reencarnação do post anterior
Fiquei de fazer um post sobre a reencarnação, e aqui vai, portanto, o meu primeiro post neste blog, onde normalmente entro à socapa pelas zonas de comentários.
Podia agora correr o risco de vos passar a minha versãozita do Budismo. Há tantas disponíveis, também teria direito. Mas não fui de facto o autor desta variante (ver por ex. http://www.indianetzone.com/29/rebirth_cycle_consciousness_buddhist_philosophy.htm). Entretanto, gosto de pensar que era assim que o Buda realmente via as coisas. Mas se não via, também não faz mal.
A crença comum de reencarnação está associada ao conceito de karma e será mais ou menos assim (vou já avisando que não acredito em absolutamente nada disto): uma criatura está viva e, ao longo da sua vida, vai fazendo acções que são "boas" ou "más", e com isso acumulando um "saldo" devedor ou credor de "mérito". No momento da morte, consoante o saldo, produz-se uma reencarnação mais "favorável" ou "desfavorável", sendo que uma vida humana é considerado bastante bom, pelo potencial que tem de cessação da ignorância. Se se conseguir atingir a iluminação, o ciclo de renascimento cessa. Ou seja, o renascimento não é um prémio por coisa nenhuma, mas apenas sintomático de que o processo não está concluído. Adicionalmente, alguns seres que atingiram a iluminação escolhem deliberadamente originar uma nova reencarnação para benefício de todas as criaturas, com a missão de as ajudar a atingir a iluminação.
Reitero como ponto fulcral que, ao contrário da ressurreição cristã, a reencarnação não é tida como positiva em si mesma, antes pelo contrário. Ela existe enquanto houver ignorância, e cessa com a cessação da ignorância. Mas há ainda outra diferença fundamental: é que não existe uma alma que reencarne. Ou seja, umas reencarnações são a continuidade "kármica" das outras, mas não há uma entidade que transmigre entre corpos. Há um elo de causalidade que se presume estreito entre a criatura falecida e a renascida. O budismo, além de não ter deus, também não tem alma. Também não é muito activo a negá-la, simplesmente porque essa questão não é crucial ao âmbito do budismo, e o Buda preferiu não batalhar nessas polémicas. Para mim é natural que, num contexto social de hinduísmo, uma interpretação popular tenha sido a de uma alma que passa de corpo em corpo e Buda terá certamente tido grande dificuldade em fazer passar a sua mensagem sem distorções.
A visão que eu privilegio é bastante diferente. Uma diferença crucial é de escala. A outra tem implicações morais. Mas existe um estreito paralelo com o descrito atrás.
Já partilhei convosco esta ideia de inexistência de um ego. Ou seja, embora tudo exista (em particular toda a matéria de mim próprio), sempre que consideramos um agregado particular, seja ele um átomo, um dedo, eu, uma turma de liceu, um país, tudo isso são modelos da realidade mas não têm existência intrínseca. Não há um "eu" de dedo. Não há um "eu" de mim. Não há um "eu" de Portugal. Essas coisas têm um valor enquanto modelos a serem processados por mentes conscientes, neste caso humanas, com a curiosidade adicional de que estas "mentes" enquanto tal também são modelos, porque podem ser considerados grupos de neurónios, ou grupos de agregados de maior nível (córtex, amígdala, etc.) - digo isto sem fazer aqui qualquer apologia de qualquer dualidade mente/corpo; poderia ter dito mentes-no-corpo, portanto, ou mentes-corpo, ou até só corpo se se preferir. E estes modelos são úteis no contexto de um elevadíssimo pragmatismo que é o dos organismos sujeitos a selecção natural. Há que reconhecer que é mais fácil de explicar o comportamento evolutivo das espécies da forma habitual do que tentar reduzir tudo ao movimento de átomos. Mas não me parece de todo impossível. Apenas excessivamente complicado para mentes como as nossas. Dá jeito simplificar. O risco é pensar-se que os modelos é que são a realidade, mas isso é inevitável.
Continuando. A verdade é que é incontestável que, ego ou não ego, há uma incidência de causalidade muito forte na matéria que "me" compõe, incidência essa a que me apetece agora chamar "karma". Sem dúvida, tudo o que se passa com a "minha" matéria (desculpem usar aqui um modelozito que sou eu) tem mais implicações na "minha" matéria, regra geral, do que na de outros. A concepção consciente de continuidade do meu corpo entre dois instantes consecutivos, reforçada pela relativamente reduzida mutabilidade do mesmo em tão curtos períodos, é que é, para mim, a reencarnação. Portanto, enquanto - por ignorância, digo - tiver apego a esta ideia de um "eu" intrinsecamente existente, então renasço em mim próprio, transportando para o instante seguinte toda a carga causa-efeito que provém do instante anterior. A implicação moral aqui é que, na minha acepção, não existe uma justiça universal que premeia o bem com o bem e o mal com o mal. Nem tal faria sentido, na ausência de egos. O sofrimento aumenta ou diminui. Não aumenta nem diminui para ninguém em particular. Aumenta ou diminui. É só. Quem atinge a iluminação transcende a ilusão desta continuidade individual. Transcende as suas próprias motivações egocêntricas. E ao fazê-lo, necessariamente quebra uma parte importante deste efeito de causalidade. Porque é uma mudança grande. E ao quebrar o conceito de ego, não renasce mais.
Também se pode ver um certo paralelismo com a ressurreição cristã, em especial na expressão "é preciso renascer". Renascer face a nós próprios em cada instante, por oposição a morrer e renascer de novo, numa qualquer forma por estabelecer... mais ou menos anjinho...? Mas penso que é forçar um pouco encontrar grandes semelhanças. O cristianismo assenta fortemente no ego individual, sob a forma da alma. É uma diferença lapidar.
Podia agora correr o risco de vos passar a minha versãozita do Budismo. Há tantas disponíveis, também teria direito. Mas não fui de facto o autor desta variante (ver por ex. http://www.indianetzone.com/29/rebirth_cycle_consciousness_buddhist_philosophy.htm). Entretanto, gosto de pensar que era assim que o Buda realmente via as coisas. Mas se não via, também não faz mal.
A crença comum de reencarnação está associada ao conceito de karma e será mais ou menos assim (vou já avisando que não acredito em absolutamente nada disto): uma criatura está viva e, ao longo da sua vida, vai fazendo acções que são "boas" ou "más", e com isso acumulando um "saldo" devedor ou credor de "mérito". No momento da morte, consoante o saldo, produz-se uma reencarnação mais "favorável" ou "desfavorável", sendo que uma vida humana é considerado bastante bom, pelo potencial que tem de cessação da ignorância. Se se conseguir atingir a iluminação, o ciclo de renascimento cessa. Ou seja, o renascimento não é um prémio por coisa nenhuma, mas apenas sintomático de que o processo não está concluído. Adicionalmente, alguns seres que atingiram a iluminação escolhem deliberadamente originar uma nova reencarnação para benefício de todas as criaturas, com a missão de as ajudar a atingir a iluminação.
Reitero como ponto fulcral que, ao contrário da ressurreição cristã, a reencarnação não é tida como positiva em si mesma, antes pelo contrário. Ela existe enquanto houver ignorância, e cessa com a cessação da ignorância. Mas há ainda outra diferença fundamental: é que não existe uma alma que reencarne. Ou seja, umas reencarnações são a continuidade "kármica" das outras, mas não há uma entidade que transmigre entre corpos. Há um elo de causalidade que se presume estreito entre a criatura falecida e a renascida. O budismo, além de não ter deus, também não tem alma. Também não é muito activo a negá-la, simplesmente porque essa questão não é crucial ao âmbito do budismo, e o Buda preferiu não batalhar nessas polémicas. Para mim é natural que, num contexto social de hinduísmo, uma interpretação popular tenha sido a de uma alma que passa de corpo em corpo e Buda terá certamente tido grande dificuldade em fazer passar a sua mensagem sem distorções.
A visão que eu privilegio é bastante diferente. Uma diferença crucial é de escala. A outra tem implicações morais. Mas existe um estreito paralelo com o descrito atrás.
Já partilhei convosco esta ideia de inexistência de um ego. Ou seja, embora tudo exista (em particular toda a matéria de mim próprio), sempre que consideramos um agregado particular, seja ele um átomo, um dedo, eu, uma turma de liceu, um país, tudo isso são modelos da realidade mas não têm existência intrínseca. Não há um "eu" de dedo. Não há um "eu" de mim. Não há um "eu" de Portugal. Essas coisas têm um valor enquanto modelos a serem processados por mentes conscientes, neste caso humanas, com a curiosidade adicional de que estas "mentes" enquanto tal também são modelos, porque podem ser considerados grupos de neurónios, ou grupos de agregados de maior nível (córtex, amígdala, etc.) - digo isto sem fazer aqui qualquer apologia de qualquer dualidade mente/corpo; poderia ter dito mentes-no-corpo, portanto, ou mentes-corpo, ou até só corpo se se preferir. E estes modelos são úteis no contexto de um elevadíssimo pragmatismo que é o dos organismos sujeitos a selecção natural. Há que reconhecer que é mais fácil de explicar o comportamento evolutivo das espécies da forma habitual do que tentar reduzir tudo ao movimento de átomos. Mas não me parece de todo impossível. Apenas excessivamente complicado para mentes como as nossas. Dá jeito simplificar. O risco é pensar-se que os modelos é que são a realidade, mas isso é inevitável.
Continuando. A verdade é que é incontestável que, ego ou não ego, há uma incidência de causalidade muito forte na matéria que "me" compõe, incidência essa a que me apetece agora chamar "karma". Sem dúvida, tudo o que se passa com a "minha" matéria (desculpem usar aqui um modelozito que sou eu) tem mais implicações na "minha" matéria, regra geral, do que na de outros. A concepção consciente de continuidade do meu corpo entre dois instantes consecutivos, reforçada pela relativamente reduzida mutabilidade do mesmo em tão curtos períodos, é que é, para mim, a reencarnação. Portanto, enquanto - por ignorância, digo - tiver apego a esta ideia de um "eu" intrinsecamente existente, então renasço em mim próprio, transportando para o instante seguinte toda a carga causa-efeito que provém do instante anterior. A implicação moral aqui é que, na minha acepção, não existe uma justiça universal que premeia o bem com o bem e o mal com o mal. Nem tal faria sentido, na ausência de egos. O sofrimento aumenta ou diminui. Não aumenta nem diminui para ninguém em particular. Aumenta ou diminui. É só. Quem atinge a iluminação transcende a ilusão desta continuidade individual. Transcende as suas próprias motivações egocêntricas. E ao fazê-lo, necessariamente quebra uma parte importante deste efeito de causalidade. Porque é uma mudança grande. E ao quebrar o conceito de ego, não renasce mais.
Também se pode ver um certo paralelismo com a ressurreição cristã, em especial na expressão "é preciso renascer". Renascer face a nós próprios em cada instante, por oposição a morrer e renascer de novo, numa qualquer forma por estabelecer... mais ou menos anjinho...? Mas penso que é forçar um pouco encontrar grandes semelhanças. O cristianismo assenta fortemente no ego individual, sob a forma da alma. É uma diferença lapidar.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Adenda ao Post Anterior
Onde eu escrevi que para a reencarnação ser um facto, o corpo a reencarnar teria de ser uma «cópia integral» do "falecido", afirme-se também que essa «cópia» teria de ser a do momento da morte, pois só assim transportaria consigo as emoções, os sentimentos e os pensamentos "actualizados".O erro do garoto do filme foi apresentar-se como uma cópia desactualizada...
Palavra de honra, a reencarnação parece-me uma coisa tão simplória que nem dá vontade de falar nela. Mas como tantos falam e acreditam, aqui fica uma ideia diferente, alavancada (como agora se diz) nos resultados das pesquisas da neurociencia.
Palavra de honra, a reencarnação parece-me uma coisa tão simplória que nem dá vontade de falar nela. Mas como tantos falam e acreditam, aqui fica uma ideia diferente, alavancada (como agora se diz) nos resultados das pesquisas da neurociencia.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A Propósito da Reencarnação
Ontem vi um filme na RTP, «Birth», titulado em português «Mistério», erradamente, penso eu, porque ali não há mistério nenhum. E se, para muita gente, existe o «mistério da reencarnação», o guião do filme vai no sentido da sua desmistificação. Resumindo a história do filme, há um garoto de 1O anos que se afirma perante uma linda e jovem viúva, agora noiva de de um novo amor, como o seu falecido e apaixonado marido. As "provas" que o garoto apresenta são mais ou menos convincentes, a jovem viúva acaba por acreditar na volta do seu falecido apaixonado e a coisa começa a ficar tão feia que ela propõe fugir com o garoto de 10 anos, esperar que ele cresça até aos 21 e retomar o casamento.
Entretanto, o amor extremoso da viúva tinha uma amante e esta, ouvindo a história do miudo, abordou-o ameaçando mostrar à viuvinha as provas da traição e atira à cara do garoto: se fosses realmente ele, era a mim que procuravas e não à viúva, porque era a mim que ele amava.
O filme acaba com o rapazinho a desmentir-se perante a senhora a quem fizera a vida num inferno.
O que acho interessante nesta história é o facto de o autor recorrer à «verdade dos afectos» para denunciar a falsidade da reencarnação, como quem diz "o amor não engana".
Nós sabemos pela neurociencia, e nisso Damásio é um mestre, que o nosso pensamento se constroi a partir das emoções e dos sentimentos gerados pelo todo integral que é o nosso corpo-cérebro. Assim sendo, não é possivel alguém ter emoções, ter sentimentos e pensar com o corpo de outrem. Para a reencarnação poder ser um facto, o corpo a ser reencarnado teria de ser uma copia integral da anterior encarnação, o que é um perfeito absurdo.
Mas se nós não podemos ter semtimentos e pensamentos com o corpo de outrem, podemos, isso sim, mentir e enganar-nos que é o que mais fazemos nesta vida.
Hoje, a ciência afirma, sem grande contestação, que cada ser vivo é "único e irrepetível", mas parece que muito poucos tiram as devidas ilações de tal verdade científica. E se essa verdade é válida para as mais simples formas de vida, quanto mais o não será para seres de uma complexidade extraordinária, como são os seres dotados de mente consciente.
As investigações cientificas e as teses filosóficas que propôem um espirito que se constroi, de raiz, em cada corpo-cerebro estão em vias de provocar uma revolução tão grande como aquela que definiu a Terra como uma minúscula particula do universo, quando o homem pensava que o seu habitat era o centro do mundo!
Não tarda nada, começam os murmúrios: não bastava ao homem ter que ganhar o pão de cada dia? Vai ter ainda de construir a sua alma? E para quê tanta canseira, se esta vida são "dois dias"?
Pois é, mas não vejo ninguém com vontade de deixar de comer, por pensar que está a alimentar um cadaver adiado...
Entretanto, o amor extremoso da viúva tinha uma amante e esta, ouvindo a história do miudo, abordou-o ameaçando mostrar à viuvinha as provas da traição e atira à cara do garoto: se fosses realmente ele, era a mim que procuravas e não à viúva, porque era a mim que ele amava.
O filme acaba com o rapazinho a desmentir-se perante a senhora a quem fizera a vida num inferno.
O que acho interessante nesta história é o facto de o autor recorrer à «verdade dos afectos» para denunciar a falsidade da reencarnação, como quem diz "o amor não engana".
Nós sabemos pela neurociencia, e nisso Damásio é um mestre, que o nosso pensamento se constroi a partir das emoções e dos sentimentos gerados pelo todo integral que é o nosso corpo-cérebro. Assim sendo, não é possivel alguém ter emoções, ter sentimentos e pensar com o corpo de outrem. Para a reencarnação poder ser um facto, o corpo a ser reencarnado teria de ser uma copia integral da anterior encarnação, o que é um perfeito absurdo.
Mas se nós não podemos ter semtimentos e pensamentos com o corpo de outrem, podemos, isso sim, mentir e enganar-nos que é o que mais fazemos nesta vida.
Hoje, a ciência afirma, sem grande contestação, que cada ser vivo é "único e irrepetível", mas parece que muito poucos tiram as devidas ilações de tal verdade científica. E se essa verdade é válida para as mais simples formas de vida, quanto mais o não será para seres de uma complexidade extraordinária, como são os seres dotados de mente consciente.
As investigações cientificas e as teses filosóficas que propôem um espirito que se constroi, de raiz, em cada corpo-cerebro estão em vias de provocar uma revolução tão grande como aquela que definiu a Terra como uma minúscula particula do universo, quando o homem pensava que o seu habitat era o centro do mundo!
Não tarda nada, começam os murmúrios: não bastava ao homem ter que ganhar o pão de cada dia? Vai ter ainda de construir a sua alma? E para quê tanta canseira, se esta vida são "dois dias"?
Pois é, mas não vejo ninguém com vontade de deixar de comer, por pensar que está a alimentar um cadaver adiado...
sábado, 15 de janeiro de 2011
A Determinação do Luis
Está tudo pre-determinado? Até o facto de me estares a dizer isso mesmo?
Mas agora não me apetece discutir novamente essa questão. Porém, havemos de voltar, que somos mais casmurros que uma mula.(Vá lá, Dr Luís, só eu é que sou mula velha...-Haja modos, sr Mário! E não pense, seu côdeas, em desculpar-se com o determinismo, que não era bem isso o que o Dr Luís queria dizer aí atrás).
Pronto, já ouvi o raspanete da voz da consciência!
A outra questão que levantas, a da «entropia», para quem não ouviu falar deste conceito da física teórica, esclareço que, «grosso modo», quer dizer que isto vai tudo para o galheiro, que nem uma estrelinha, uma galáxia ou um universo hão-de escapar, numa desconstrução abissal. Uma desconstrução que será por congelação ou esmagamento.
Nada de novo, afinal, se pensarmos no Livro do Apocalipse bíblico.
Meu caro Luís, sei que sabes que a física teórica é ainda uma criança, o Big Bang um começo de trabalho e o multi verso um sonho apenas. Pensa no ensinamento do monge japonês e do general que o ameaçou trespassar com a espada. São apenas perspectivas diferentes da realidade, a construção ou a desconstrução. Pressentimos uma verdade mais profunda por detrás da construção ou da entropia e que nos escapa. Vamos caminhando na sua direcção, cientes de que, conforme o nosso entendimento actual, parece que vimos de um abismo e caminhamos para outro. Entretanto, e é com esta realidade que temos de viver, estamos na fase de construção, e é isto que eu foco, apesar de não saber como isto tudo começou nem como vai acabar, se é que, como eu já disse algures, «isto» teve um começo e vai ter um fim.
Claro que, numa perspectiva meramente antropica e antropocentrica, está tudo claro como a água. E então, no plano individual, é tudo tão evidente como o que diz o ditado: «morreu o bicho, acabou a peçonha».
Numa perspectiva copernicana, a vida e, particularmente, a vida humana consciente, assemelham-se incrivelmente a alguém que, nesta ínfima estação cósmica terráquea, esteja a ver os comboios passar.
Mas agora não me apetece discutir novamente essa questão. Porém, havemos de voltar, que somos mais casmurros que uma mula.(Vá lá, Dr Luís, só eu é que sou mula velha...-Haja modos, sr Mário! E não pense, seu côdeas, em desculpar-se com o determinismo, que não era bem isso o que o Dr Luís queria dizer aí atrás).
Pronto, já ouvi o raspanete da voz da consciência!
A outra questão que levantas, a da «entropia», para quem não ouviu falar deste conceito da física teórica, esclareço que, «grosso modo», quer dizer que isto vai tudo para o galheiro, que nem uma estrelinha, uma galáxia ou um universo hão-de escapar, numa desconstrução abissal. Uma desconstrução que será por congelação ou esmagamento.
Nada de novo, afinal, se pensarmos no Livro do Apocalipse bíblico.
Meu caro Luís, sei que sabes que a física teórica é ainda uma criança, o Big Bang um começo de trabalho e o multi verso um sonho apenas. Pensa no ensinamento do monge japonês e do general que o ameaçou trespassar com a espada. São apenas perspectivas diferentes da realidade, a construção ou a desconstrução. Pressentimos uma verdade mais profunda por detrás da construção ou da entropia e que nos escapa. Vamos caminhando na sua direcção, cientes de que, conforme o nosso entendimento actual, parece que vimos de um abismo e caminhamos para outro. Entretanto, e é com esta realidade que temos de viver, estamos na fase de construção, e é isto que eu foco, apesar de não saber como isto tudo começou nem como vai acabar, se é que, como eu já disse algures, «isto» teve um começo e vai ter um fim.
Claro que, numa perspectiva meramente antropica e antropocentrica, está tudo claro como a água. E então, no plano individual, é tudo tão evidente como o que diz o ditado: «morreu o bicho, acabou a peçonha».
Numa perspectiva copernicana, a vida e, particularmente, a vida humana consciente, assemelham-se incrivelmente a alguém que, nesta ínfima estação cósmica terráquea, esteja a ver os comboios passar.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
O Budismo do Luis
À medida que te leio sobre o teu budismo fico com impressão de que estás a construir o teu próprio budismo. É como se tentasses conciliar o teu amor à ciência com o pensamento budista que te despertou para a consciência da «fragilidade» da nossa humana condição. É um pensamento antigo, subtil, denso e profundo e mexe, naturalmnente, com cordas muito sensíveis da nossa natureza de seres dotados de uma mente consciente. Ele é como uma voz a ecoar do fundo dos tempos e ao mesmo tempo do fundo da alma humana. Vi um «Dalai Lama» português na TV que fez uma pequena demonstração, em que estava presente a atriz Adelaide Ferreira, ela própria seduzida pelo budismo. A sessão começou com o soar de um sino, que só de ouvir convidava ao recolhimento! Acrescenta à "misteriosa voz"do sino uns pensamentos apropriados à circunstancia, recordados e meditados, e temos um budista a elevar-se acima do sofrimento do dia a dia.
Os brincalhões dizem que um bom «charro» faz o mesmo efeito, "anestesiante" da vida real.
Os brincalhões dizem que um bom «charro» faz o mesmo efeito, "anestesiante" da vida real.
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