Ontem vi um filme na RTP, «Birth», titulado em português «Mistério», erradamente, penso eu, porque ali não há mistério nenhum. E se, para muita gente, existe o «mistério da reencarnação», o guião do filme vai no sentido da sua desmistificação. Resumindo a história do filme, há um garoto de 1O anos que se afirma perante uma linda e jovem viúva, agora noiva de de um novo amor, como o seu falecido e apaixonado marido. As "provas" que o garoto apresenta são mais ou menos convincentes, a jovem viúva acaba por acreditar na volta do seu falecido apaixonado e a coisa começa a ficar tão feia que ela propõe fugir com o garoto de 10 anos, esperar que ele cresça até aos 21 e retomar o casamento.
Entretanto, o amor extremoso da viúva tinha uma amante e esta, ouvindo a história do miudo, abordou-o ameaçando mostrar à viuvinha as provas da traição e atira à cara do garoto: se fosses realmente ele, era a mim que procuravas e não à viúva, porque era a mim que ele amava.
O filme acaba com o rapazinho a desmentir-se perante a senhora a quem fizera a vida num inferno.
O que acho interessante nesta história é o facto de o autor recorrer à «verdade dos afectos» para denunciar a falsidade da reencarnação, como quem diz "o amor não engana".
Nós sabemos pela neurociencia, e nisso Damásio é um mestre, que o nosso pensamento se constroi a partir das emoções e dos sentimentos gerados pelo todo integral que é o nosso corpo-cérebro. Assim sendo, não é possivel alguém ter emoções, ter sentimentos e pensar com o corpo de outrem. Para a reencarnação poder ser um facto, o corpo a ser reencarnado teria de ser uma copia integral da anterior encarnação, o que é um perfeito absurdo.
Mas se nós não podemos ter semtimentos e pensamentos com o corpo de outrem, podemos, isso sim, mentir e enganar-nos que é o que mais fazemos nesta vida.
Hoje, a ciência afirma, sem grande contestação, que cada ser vivo é "único e irrepetível", mas parece que muito poucos tiram as devidas ilações de tal verdade científica. E se essa verdade é válida para as mais simples formas de vida, quanto mais o não será para seres de uma complexidade extraordinária, como são os seres dotados de mente consciente.
As investigações cientificas e as teses filosóficas que propôem um espirito que se constroi, de raiz, em cada corpo-cerebro estão em vias de provocar uma revolução tão grande como aquela que definiu a Terra como uma minúscula particula do universo, quando o homem pensava que o seu habitat era o centro do mundo!
Não tarda nada, começam os murmúrios: não bastava ao homem ter que ganhar o pão de cada dia? Vai ter ainda de construir a sua alma? E para quê tanta canseira, se esta vida são "dois dias"?
Pois é, mas não vejo ninguém com vontade de deixar de comer, por pensar que está a alimentar um cadaver adiado...
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
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Parece-me que a encarnação não é um tema que suscita muitas controvérsias ou discussões. Ou se crê ou não se crê. Ainda gostava de saber as ideias bases defendidas pelo Arie, pois segundo parece escreveu bastante sobre o tema.
ResponderEliminarEstás a ver que nem ao Luis interessa! E portanto acho que no Budismo também se fala de reencarnação.
Da minha parte, se reflectirmos com base no paradigma do homem produto da natureza, a questão não tem razão de ser. Pois que uma reencarnação só pode ser considerada como fenómeno sobrenatural; fora, portanto da natureza.
Até breve!
Lima
ResponderEliminarO Arie escreveu sobre ressurreição e não reencarnação.
E tal como tu considero que são temas de fé e não de ciência, embora a pseudo-cência tente acenar com "provas", uns, e com milagres, outros.
O budismo do Luis não quer saber de reencarnaçôes. Aliás, com o budismo aconteceu como no cristianismo: existe uma mão-cheia de "credos" budistas. Não sei se este fenómeno de multiplicação de budismos e cristianismos tem alguma coisa a ver com o facto de nem Buda nem Cristo terem deixado uma única palavra escrita. Os seguidores foram interpretando e escrevendo à sua maneira.
Há dias estive na aldeia e quando uma prima me informava do falecimento de uma conterranea perguntei-lhe, em tom provocador, se na outra vida nos reconheceriamos uns aos outros. Ela, cristã fiel, disse que não, porque no céu seremos como anjos. Insisti: então para que me serve o céu se não vou encontrar lá nem pais, nem amigos, nem conhecidos?
Riu-se e despachou-me: eu sei bem que tu não acreditas em nada disto.
Como vês, é mesmo uma questão de fé.
Só uma nota: o Luís interessa-se bastante por isto. O problema é que, ainda nesta encarnação, foi mandado abaixo pela gripe e estava a ver que nem com um transplante de corpo e alma se safava.
ResponderEliminarAinda ontem estive para escrever o prometido postzinho sobre o assunto, mas faltou-me a coragem. Ou tive de me assoar. Ultimamente acontece muito!