(Comentário repescado do blog aaacarmelitas, que decidi colocar também na Laje Negra porque serve de continuação à mimha resposta - na caixa de comentários - ao leitor Limabar)
«O homem nasceu para ser livre e feliz, e a conquista dessa liberdade é mais importante que o pão de cada dia».(Mariano)
«Mais formoso que o Universo que nos rodeia é o que existe nos nossos corações». (Mariano)
O texto que o Mariano nos trouxe é cheio de eloquência mas, aqui e ali, expressa-se numa linguagem que se proporciona a muitos equívocos, como as frases que citei.
Começando pela primeira citação, a frase é de belo efeito literário mas carregadinha de inverdade. A liberdade nunca pode ser mais importante que o pão de cada dia porque, sem este, somos privados da raiz da própria liberdade, que é a sanidade "corporal", consagrada pelos nossos antepassados, de forma lapidar e sábia: «mente sã em corpo são». No fundo, aquela afirmação equivale a dizer que o nobilíssimo cérebro bem podia dispensar o verdadeiro carregador de pianos que é o coração. E já todos sabem o que vale um cérebro sem irrigação sanguínea.
O equívoco que pode estar escondido por detrás de tal asserção é pensar que a alma e as suas faculdades constituem uma entidade autónoma dentro do «espaço-corporal-material». Bem pode desfazer-se o homem-corpo em podridão ou cinza, que o espírito subsiste vivo e luminoso...
Como repeti vezes sem conta neste espaço, não é nem esta filosofia nem esta teologia que sustentam o dogma fundamental da ressurreição cristã, que assenta no pressuposto do homem integral e uno. O dualismo platónico ou cartesiano foi sempre a grande tentação derrotada. Um bem-haja sincero aos teólogos cristãos.
Quanto à segunda citação, claramente o autor parece ter perdido a noção das proporções e, mais uma vez, tal facto deriva da concepção dualista da vida. Nós somos uma «partícula» de um único universo e não um mundo dentro de outro mundo. A beleza impar que realmente irradia dos nossos "corações" é parte integrante do próprio universo. Por isso mesmo se chama «UNIVERSO». Logicamente estamos englobados na sua «universalidade».
Ai essa velha tentação de partir o homem em duas metades inconciliáveis e com destinos distintos(corpo-espirito)!
Outra coisa bem diferente, intrigante, pertinente, emocionante e verdadeiro quebra-cabeças para a biologia e a neurociência é a emergência do que parece ser o milagre da construção ou organização da mente humana, onde emerge claramente um «eu consciente», capaz de olhar para si próprio e para o UNIVERSO a que pertence, com a mesma facilidade com que olhamos a Terra a partir de uma nave espacial ou quando, numa noite de luar, ficamos fascinados a olhar a lua cheia no mês de Agosto.
O paradoxo que nos deixa estonteados é que nós fazemos isto tudo, sem fazer a mínima ideia de como chegamos até aqui e porque este «eu» fabuloso se desfaz como bola se sabão ou desaparece, em cinzas, no forno crematório.
Perante estes factos inelutáveis, quem pode recriminar o homem de hoje e de sempre por se refugiar no seio consolador da fé numa vida depois da morte, contra todas as evidências?
terça-feira, 16 de novembro de 2010
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
De Fernando Pessoa
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
E o mito brilhante e mudo-
O corpo morto de Deus
Vivo e desnudo.
Este, que por aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo.
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre,
Em baixo a vida, metade
De nada, morre.
(Fernando Pessoa, poema Ulisses)
O mesmo sol que abre os céus
E o mito brilhante e mudo-
O corpo morto de Deus
Vivo e desnudo.
Este, que por aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo.
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre,
Em baixo a vida, metade
De nada, morre.
(Fernando Pessoa, poema Ulisses)
A Propósito de Palácios
(Comentário para um amigo)
Às vezes fico a pensar que quanto mais se esbate a crença na vida para além da vida mais se investe no sonho e na criação de um «paraíso» na terra. E sou levado também a pensar que a crença na vida depois da morte já só move os mais fanatizados. O comum dos crentes respeita profundamente as tradições e professa as crenças ancestrais, mas na hora da verdade vem perguntar, com toda a sinceridade da alma, «como é do outro lado?» Porque, entretanto, se impusera a evidência que instalara a dúvida: «de lá não vêm cartas».
É certo que muitos crentes mandaram erguer maravilhas arquitetónicas, tentando comprar um lugar no paraíso do além. Mas era bem terreno o amor à beleza esculpida, pintada ou musicada. E para quê um mausoléu sumptuoso, se de tudo isto não haveria de restar pedra sobre pedra? Parece mesmo que nunca foram convencidos. Não é por acaso que a explosão artística da antiga Grécia cresceu no contexto da ridicularização dos deuses tradicionais. E os artistas esculpiam-nos a seu bel-prazer e descreviam-lhes a alma conforme os sentimentos e emoções humanos. Sem dó nem piedade. Os artistas demoliram as divindades. No mínimo, reduziram-nas à vulgaridade.
Nunca, como hoje, se investiu tanto numa vida para ser vivida cá, na sua totalidade. A fé não é combatida pela ciência. A ciência investiga e faz o seu caminho «apesar da fé». Nem se dá ao trabalho de a discutir. A prova da existência de vida noutros «sistemas solares» (que são incontáveis) iria estoirar com a cristologia cristã. E os cientistas prosseguem a sua pesquisa sem ligar a mínima. Como os cristãos se estiveram borrifando para a proibição dos anticoncepcionais, do divórcio, do casamento gay, da investigação genética etc.
Atrevia-me as dizer que se as riquezas são mal distribuídas isso fica a dever-se, em boa parte, a uma desgraçada pregação de que estamos aqui de passagem e a nossa verdadeira casa é «no outro lado». Até parece que era mesmo isso que queriam ouvir os «senhores do dinheiro».
A fé foi amplamente utilizada para amordaçar a «revolta» dos esfomeados e injustiçados.
Tudo isto por causa do palácio italiano que te enviei em vídeo...
Às vezes fico a pensar que quanto mais se esbate a crença na vida para além da vida mais se investe no sonho e na criação de um «paraíso» na terra. E sou levado também a pensar que a crença na vida depois da morte já só move os mais fanatizados. O comum dos crentes respeita profundamente as tradições e professa as crenças ancestrais, mas na hora da verdade vem perguntar, com toda a sinceridade da alma, «como é do outro lado?» Porque, entretanto, se impusera a evidência que instalara a dúvida: «de lá não vêm cartas».
É certo que muitos crentes mandaram erguer maravilhas arquitetónicas, tentando comprar um lugar no paraíso do além. Mas era bem terreno o amor à beleza esculpida, pintada ou musicada. E para quê um mausoléu sumptuoso, se de tudo isto não haveria de restar pedra sobre pedra? Parece mesmo que nunca foram convencidos. Não é por acaso que a explosão artística da antiga Grécia cresceu no contexto da ridicularização dos deuses tradicionais. E os artistas esculpiam-nos a seu bel-prazer e descreviam-lhes a alma conforme os sentimentos e emoções humanos. Sem dó nem piedade. Os artistas demoliram as divindades. No mínimo, reduziram-nas à vulgaridade.
Nunca, como hoje, se investiu tanto numa vida para ser vivida cá, na sua totalidade. A fé não é combatida pela ciência. A ciência investiga e faz o seu caminho «apesar da fé». Nem se dá ao trabalho de a discutir. A prova da existência de vida noutros «sistemas solares» (que são incontáveis) iria estoirar com a cristologia cristã. E os cientistas prosseguem a sua pesquisa sem ligar a mínima. Como os cristãos se estiveram borrifando para a proibição dos anticoncepcionais, do divórcio, do casamento gay, da investigação genética etc.
Atrevia-me as dizer que se as riquezas são mal distribuídas isso fica a dever-se, em boa parte, a uma desgraçada pregação de que estamos aqui de passagem e a nossa verdadeira casa é «no outro lado». Até parece que era mesmo isso que queriam ouvir os «senhores do dinheiro».
A fé foi amplamente utilizada para amordaçar a «revolta» dos esfomeados e injustiçados.
Tudo isto por causa do palácio italiano que te enviei em vídeo...
sábado, 13 de novembro de 2010
O Silêncio Fecundo
O silêncio é fecundo hoje, como já foi ontem e desde que o homem atingiu a elevação do pensamento consciente. Do alto, olhou o presente, o passado e o futuro possível ou projectado. Apesar do ruído, que foi ensurdecedor em todas as épocas, assumindo sempre formas de expressão diferentes, desde os electrizantes batuques da savana africana até ao ruído infernal das arenas em combates de morte, o homem sempre soube encontrar os seus tempos de recolhimento. Chego a ficar comovido quando penso nas dezenas ou centenas de milhares de investigadores dedicados e que respeitam apenas o horário da sua paixão pelo conhecimento, ano após ano, nos mais diversos ramos da pesquisa cientifica ou meditação filosófica. Se não estivermos atentos, este mundo maravilhoso passa-nos tão despercebido quanto o génio do nosso Camões foi ignorado pelos seus contemporâneos.
O estardalhaço dos foguetes ou da música pimba não são mais que o ruído normal provocado pelos nossos passos, enquanto avançamos no caminho íngreme e pedregoso de um futuro que vamos sonhando.
Se o Intrometido pode falar do escândalo da sua alma quieta, eu venho aqui, uma vez e outra, com o escândalo de uma alma inquieta, mas, estranha e paradoxalmente, em paz com a vida que amo e me amou primeiro.
( publicado em aaacarmelitas)
O estardalhaço dos foguetes ou da música pimba não são mais que o ruído normal provocado pelos nossos passos, enquanto avançamos no caminho íngreme e pedregoso de um futuro que vamos sonhando.
Se o Intrometido pode falar do escândalo da sua alma quieta, eu venho aqui, uma vez e outra, com o escândalo de uma alma inquieta, mas, estranha e paradoxalmente, em paz com a vida que amo e me amou primeiro.
( publicado em aaacarmelitas)
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Carta a um Amigo
«A história não se refaz, mas repete-se noutras condições...» Dizes.
Como tenho em mente a história de um universo progressivo (em expansão) e a história da vida em processo evolutivo, não direi que o futuro é o passado (« a história repete-se») mas uma novíssima realidade, algo muito próximo de uma verdadeira criação. Sei que este pensamento é o inverso daquilo que seríamos, em lógica, levados a pensar, que é considerar o acto absoluto da criação no «princípio dos tempos» e não a apontar para o «fim dos tempos». Mas, de facto, a mim afigura-se-me que nós e o universo procedemos de coisa nenhuma e somos um puro processo em curso, sem vislumbre de um verdadeiro principio nem tão pouco de um fim à vista. Porque, em rigor, não pode ter principio o que ainda nem realidade é -o futuro - nem tão pouco podemos antecipar o que há-de ser -o futuro, novamente. Em verdade só o presente «é» em plenitude, enquanto «histórico» do passado e embrião do futuro.
O que complica tudo e provoca esta confusão toda é a nossa humana capacidade de, mentalmente, recuar ou avançar no tempo, sem sair do espaço e do tempo que somos no presente. Somos como que um elástico que se estica em todas as direcções e que acaba por regressar e encolher-se no ponto de partida, depois do esticão exploratório. Não admira nada que, face a tamanha «elasticidade» do pensamento consciente, Descartes, na esteira de tantos outros, tenha considerado a dualidade intrínseca do homem como um facto. Para ele a «res extensa» (o corpo) nada tem a ver com «res cogitans» (a alma e as suas faculdades). A tentaçao é grande para aceitar a dicotomia, pela evidencia do poder da mente a contrastar com a fragilidade de um corpo que parece não ser mais que o habitáculo temporário da alma. O avanço da ciência, porém, vai no claro sentido de que é o "frágil" corpo que está na génese da alma e não o inverso. Ambos formam uma unidade indissociável e essencial.
Para a nossa compreensão da realidade, diga-se em abono da verdade, a situação fica ainda mais complicada ou misteriosa.
Neste contexto, a mente humana surge como o patamar mais avançado da história da vida. E falta saber se não será também o prodígio maior de um universo evolutivo, que se organizou num corpo capaz de gerar o pensamento consciente.
Muito honestamente, penso que é cagança a mais pensar o homem como a «consciência do universo».
Mesmo assim, apetece-me acabar este email como tu fizeste num outro que me enviaste: «Eppur si muove»
Como tenho em mente a história de um universo progressivo (em expansão) e a história da vida em processo evolutivo, não direi que o futuro é o passado (« a história repete-se») mas uma novíssima realidade, algo muito próximo de uma verdadeira criação. Sei que este pensamento é o inverso daquilo que seríamos, em lógica, levados a pensar, que é considerar o acto absoluto da criação no «princípio dos tempos» e não a apontar para o «fim dos tempos». Mas, de facto, a mim afigura-se-me que nós e o universo procedemos de coisa nenhuma e somos um puro processo em curso, sem vislumbre de um verdadeiro principio nem tão pouco de um fim à vista. Porque, em rigor, não pode ter principio o que ainda nem realidade é -o futuro - nem tão pouco podemos antecipar o que há-de ser -o futuro, novamente. Em verdade só o presente «é» em plenitude, enquanto «histórico» do passado e embrião do futuro.
O que complica tudo e provoca esta confusão toda é a nossa humana capacidade de, mentalmente, recuar ou avançar no tempo, sem sair do espaço e do tempo que somos no presente. Somos como que um elástico que se estica em todas as direcções e que acaba por regressar e encolher-se no ponto de partida, depois do esticão exploratório. Não admira nada que, face a tamanha «elasticidade» do pensamento consciente, Descartes, na esteira de tantos outros, tenha considerado a dualidade intrínseca do homem como um facto. Para ele a «res extensa» (o corpo) nada tem a ver com «res cogitans» (a alma e as suas faculdades). A tentaçao é grande para aceitar a dicotomia, pela evidencia do poder da mente a contrastar com a fragilidade de um corpo que parece não ser mais que o habitáculo temporário da alma. O avanço da ciência, porém, vai no claro sentido de que é o "frágil" corpo que está na génese da alma e não o inverso. Ambos formam uma unidade indissociável e essencial.
Para a nossa compreensão da realidade, diga-se em abono da verdade, a situação fica ainda mais complicada ou misteriosa.
Neste contexto, a mente humana surge como o patamar mais avançado da história da vida. E falta saber se não será também o prodígio maior de um universo evolutivo, que se organizou num corpo capaz de gerar o pensamento consciente.
Muito honestamente, penso que é cagança a mais pensar o homem como a «consciência do universo».
Mesmo assim, apetece-me acabar este email como tu fizeste num outro que me enviaste: «Eppur si muove»
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Só Temos uma Oportunidade
De luto familiar pela morte de um cunhado meu, aos 73 anos de idade, tempo de vida do qual já se vai dizendo que não é idade para morrer, aproveito para reflectir convosco sobre o único espaço e tempo que nos é dado para viver.
Único, porque não teremos uma segunda chance, para corrigir, aperfeiçoar, em suma, crescer mais. Joga-se tudo na viagem a termo certo, ainda que indeterminado no tempo.
Porém, nem todos pensam que é a única oportunidade. Recordo, a propósito, o «Mito do Destino», de Platão, onde o soldado Er morre no campo de batalha e ressurge dez anos depois, para retomar o fio da vida em segunda oportunidade, admoestando os vivos para que se entreguem à sabedoria.
E retomo a comparação com a ressurreição cristã. Segundo a fé dos cristãos não há segunda oportunidade. A "construção" da morada de cada um para a eternidade é definitiva, na hora da morte: a salvação ou a danação, determinada pelas acções e pela fé.
É uma perspectiva arrasadora, para quem acredita numa vida depois da morte, sabendo-se que, por um deslize da fraca condição humana, podemos perder-nos para sempre no caminho.
Os estudiosos de S.Paulo não chegaram a um acordo sobre o destino exacto dos que não se salvam pela fé. Se é certo que os que morrem na fé ressurgem transformados para uma nova vida, num «corpo» espiritual, no entanto S.Paulo não deixou claro o que é feito dos que se perderam. Não ressuscitam e nem se transformam? Perdem-se no «nada», sem o sustentáculo de TUDO que é o Pai?
Quanto a mim, penso que a bondade de S.Paulo não aceita que o Pai crie um inferno eterno para os filhos perdidos, antes os deixa para sempre no sono da morte, nem os ressuscitando nem os transformando. Não terão a alegria do convívio paternal mas também não arderão num fogo de tortura eterna. Quem poderia ser feliz perante o espectáculo do inferno de tantos?!
Até este, temporário, quase-inteiro-inferno em que vivemos nos horroriza...
Sempre disse que a perspectiva daqueles que acreditam na reencarnação é mais atraente e parece muito mais lógica. Perante a nossa desgraçada condição humana, acreditar que temos uma e outra e outra oportunidade para crescer em sabedoria e verdade é bem mais motivador.
Seja como for, e de facto não sabemos como é, cada um aproveite a oportunidade que tem na mão porque, nesta situação como em nenhuma outra, mais vale um pássaro na mão que dois a voar, como diz a profunda sapiência popular. Sendo certo que, se perdermos a oportunidade presente, já perdemos ou tudo ou muito. Mas perdemos sempre
Único, porque não teremos uma segunda chance, para corrigir, aperfeiçoar, em suma, crescer mais. Joga-se tudo na viagem a termo certo, ainda que indeterminado no tempo.
Porém, nem todos pensam que é a única oportunidade. Recordo, a propósito, o «Mito do Destino», de Platão, onde o soldado Er morre no campo de batalha e ressurge dez anos depois, para retomar o fio da vida em segunda oportunidade, admoestando os vivos para que se entreguem à sabedoria.
E retomo a comparação com a ressurreição cristã. Segundo a fé dos cristãos não há segunda oportunidade. A "construção" da morada de cada um para a eternidade é definitiva, na hora da morte: a salvação ou a danação, determinada pelas acções e pela fé.
É uma perspectiva arrasadora, para quem acredita numa vida depois da morte, sabendo-se que, por um deslize da fraca condição humana, podemos perder-nos para sempre no caminho.
Os estudiosos de S.Paulo não chegaram a um acordo sobre o destino exacto dos que não se salvam pela fé. Se é certo que os que morrem na fé ressurgem transformados para uma nova vida, num «corpo» espiritual, no entanto S.Paulo não deixou claro o que é feito dos que se perderam. Não ressuscitam e nem se transformam? Perdem-se no «nada», sem o sustentáculo de TUDO que é o Pai?
Quanto a mim, penso que a bondade de S.Paulo não aceita que o Pai crie um inferno eterno para os filhos perdidos, antes os deixa para sempre no sono da morte, nem os ressuscitando nem os transformando. Não terão a alegria do convívio paternal mas também não arderão num fogo de tortura eterna. Quem poderia ser feliz perante o espectáculo do inferno de tantos?!
Até este, temporário, quase-inteiro-inferno em que vivemos nos horroriza...
Sempre disse que a perspectiva daqueles que acreditam na reencarnação é mais atraente e parece muito mais lógica. Perante a nossa desgraçada condição humana, acreditar que temos uma e outra e outra oportunidade para crescer em sabedoria e verdade é bem mais motivador.
Seja como for, e de facto não sabemos como é, cada um aproveite a oportunidade que tem na mão porque, nesta situação como em nenhuma outra, mais vale um pássaro na mão que dois a voar, como diz a profunda sapiência popular. Sendo certo que, se perdermos a oportunidade presente, já perdemos ou tudo ou muito. Mas perdemos sempre
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
"Desregular" para Harmonizar
“Desregular” para Harmonizar
De facto «eles» já não comem tudo. Pelo menos já não nos comem as papas em cima da cabeça, como diz o ditado.
A consciência cívica, em crescendo, veio para ficar e as reivindicações das pessoas, também elas em crescendo, aí estão para o confirmar. Depois de uma vida mais longa, reivindica-se uma velhice de qualidade; como depois da democracia, se reivindica uma democracia mais aprofundada. Subindo um degrau na escala do crescimento, aspira-se a subir o degrau seguinte.
Isto assusta os que estão bem ou razoavelmente bem instalados (os tais que «comem tudo e não deixam nada»), talvez com medo que o bolo não chegue para todos. O bolo da oportunidade da formação, da excelência da saúde, do bem-estar, da felicidade.
Curioso é que, não raro, vamos encontrar do mesmo lado da trincheira os tais que querem «comer tudo» e os que falam do homem como ser único e irrepetível.
Onde é que está a dissonância?
Acontece que os defensores de um humanismo radical, e ainda bem que o são, esquecem, frequentemente, por conveniência ou outro motivo qualquer, que todos os seres humanos, e não só «eles» ou uma certa elite, são de facto únicos e irrepetíveis e, como tal, credores da mais alta distinção. E isso vem a lume, às vezes de forma brutal, quando a sociedade é confrontada e tem de pronunciar-se sobre as chamadas «realidades fracturantes». Entre nós, o exemplo mais recente foi a discussão em torno do casamento entre homossexuais.
Não adianta remar contra a maré, porque os sinais dos tempos são bem claros no prenúncio de um Homem Novo que começa a fazer impor, em todos os domínios e por todo o lado, a sua nobilíssima condição de ser único e irrepetível, porque dela está cada vez mais consciente.
Únicos e irrepetíveis pela biologia, pela psique e pela consciência que vão construindo.
Este autêntico "despertar dos mágicos" está a provocar verdadeiras convulsões nas sociedades ditas tradicionais. A mulher ocupa o lugar a que tem direito, como o homem já teve direito, num passado mais distante, a reivindicar a liberdade (ainda não há muitas décadas era legal a escravatura entre os mais «civilizados» povos e o racismo era letra de lei); as crianças e os idosos ganharam direito de cidadania; os casais ganharam direito ao divórcio, em casamentos falhados ou perversos que não respeitem a dignidade dos esposos; os deficientes lutam pelos seus espaços; a orientação sexual de cada um vai conseguindo respeito e direitos para a sua diferença; as opções religiosas e filosóficas são respeitadas e propostas como um direito inalienável de cada pessoa humana...
O mundo clama, neste preciso momento, pela libertação do chinês Nobel da Paz 2010 e da Iraniana (adúltera, diz o Corão) condenada à lapidação. Sinal dos novos tempos.
Hoje, como nunca, as pessoas exigem ser respeitadas no interior das instituições em que o homem se organiza para viver em sociedade. E as fronteiras cavadas entre as nações já não são obstáculo ao apelo para a dignificação da pessoa humana.
Em lugar da uniformização de todos pela lei, começa a emergir a harmonização entre todos, pelo respeito de cada pessoa na sua especificidade. Até já se fala no projecto dos fármacos personalizados.
Num mundo cada vez mais globalizado e de produção em série, este assomo de dignidade individual funciona como precioso e poderoso antídoto, apesar de provocar um tremendo sobressalto nas mentes «conservadoras», porque «desregula» o que sempre foi considerado «lei divina» ou «lei natural» e, como tal, intocáveis. A dignidade para todos e cada um está para além desses padrões sagrados e intocáveis. Sagrado mesmo, só a pessoa consciente e única.
E neste sentido já se ouve, um pouco por todo o lado, aquilo que nunca deveria ter sido deixado de proclamar, e que há muitos séculos foi evangelizado: o “sábado” foi feito para o homem e não o homem para o “sábado”. Modernamente diz-se: PRIMEIRO ESTÃO AS PESSOAS. E agora, cientificamente, acrescenta-se: cada uma delas ÚNICA E IRREPETIVEL.
Lá se foi, de vez, o «sangue azul» para o galheiro, mais a «raça», o «sexo forte» e outras tralhas dos profetas da sub-condição humana...dos outros!
E aqui ocorre-me recordar outra das maravilhas do pensamento cristão: «A lei mata e o espírito dá a vida».
A uniformização pela lei postula, por assim dizer, a irresponsabilização do indivíduo face ao seu destino. E, desse modo, mata mesmo, reduzindo o homem a um autómato sem futuro, que responde perante uma lei e não perante a consciência da sua dignidade e da dignidade dos outros.
Seria tão fácil, em teoria, criar uma sociedade de autómatos, impondo leis rígidas e universais, a que todos e cada um se sujeitassem. Mas o desafio que temos pela frente é infinitamente mais aliciante, que é fazer emergir a pessoa humana em todo o esplendor das suas capacidades. Que é o mesmo que dizer, criar uma sociedade baseada na harmonia de muitos (sons e pessoas) em vez de uma sociedade projectada para a fusão de todos num monstruoso grito monocórdico, resultante de uma “regulação” até ao absurdo.
Os cristãos acreditam numa Divindade plural (Trindade, dizem eles) e pensam uma sociedade à sua imagem e semelhança. Acompanho-os apenas até às portas do céu da sua fé porque, para me fazer sonhar com o infinito, já me basta o universo como ele é e o mundo que nós somos.
(publicado, hoje, in aaacarmelitas)
De facto «eles» já não comem tudo. Pelo menos já não nos comem as papas em cima da cabeça, como diz o ditado.
A consciência cívica, em crescendo, veio para ficar e as reivindicações das pessoas, também elas em crescendo, aí estão para o confirmar. Depois de uma vida mais longa, reivindica-se uma velhice de qualidade; como depois da democracia, se reivindica uma democracia mais aprofundada. Subindo um degrau na escala do crescimento, aspira-se a subir o degrau seguinte.
Isto assusta os que estão bem ou razoavelmente bem instalados (os tais que «comem tudo e não deixam nada»), talvez com medo que o bolo não chegue para todos. O bolo da oportunidade da formação, da excelência da saúde, do bem-estar, da felicidade.
Curioso é que, não raro, vamos encontrar do mesmo lado da trincheira os tais que querem «comer tudo» e os que falam do homem como ser único e irrepetível.
Onde é que está a dissonância?
Acontece que os defensores de um humanismo radical, e ainda bem que o são, esquecem, frequentemente, por conveniência ou outro motivo qualquer, que todos os seres humanos, e não só «eles» ou uma certa elite, são de facto únicos e irrepetíveis e, como tal, credores da mais alta distinção. E isso vem a lume, às vezes de forma brutal, quando a sociedade é confrontada e tem de pronunciar-se sobre as chamadas «realidades fracturantes». Entre nós, o exemplo mais recente foi a discussão em torno do casamento entre homossexuais.
Não adianta remar contra a maré, porque os sinais dos tempos são bem claros no prenúncio de um Homem Novo que começa a fazer impor, em todos os domínios e por todo o lado, a sua nobilíssima condição de ser único e irrepetível, porque dela está cada vez mais consciente.
Únicos e irrepetíveis pela biologia, pela psique e pela consciência que vão construindo.
Este autêntico "despertar dos mágicos" está a provocar verdadeiras convulsões nas sociedades ditas tradicionais. A mulher ocupa o lugar a que tem direito, como o homem já teve direito, num passado mais distante, a reivindicar a liberdade (ainda não há muitas décadas era legal a escravatura entre os mais «civilizados» povos e o racismo era letra de lei); as crianças e os idosos ganharam direito de cidadania; os casais ganharam direito ao divórcio, em casamentos falhados ou perversos que não respeitem a dignidade dos esposos; os deficientes lutam pelos seus espaços; a orientação sexual de cada um vai conseguindo respeito e direitos para a sua diferença; as opções religiosas e filosóficas são respeitadas e propostas como um direito inalienável de cada pessoa humana...
O mundo clama, neste preciso momento, pela libertação do chinês Nobel da Paz 2010 e da Iraniana (adúltera, diz o Corão) condenada à lapidação. Sinal dos novos tempos.
Hoje, como nunca, as pessoas exigem ser respeitadas no interior das instituições em que o homem se organiza para viver em sociedade. E as fronteiras cavadas entre as nações já não são obstáculo ao apelo para a dignificação da pessoa humana.
Em lugar da uniformização de todos pela lei, começa a emergir a harmonização entre todos, pelo respeito de cada pessoa na sua especificidade. Até já se fala no projecto dos fármacos personalizados.
Num mundo cada vez mais globalizado e de produção em série, este assomo de dignidade individual funciona como precioso e poderoso antídoto, apesar de provocar um tremendo sobressalto nas mentes «conservadoras», porque «desregula» o que sempre foi considerado «lei divina» ou «lei natural» e, como tal, intocáveis. A dignidade para todos e cada um está para além desses padrões sagrados e intocáveis. Sagrado mesmo, só a pessoa consciente e única.
E neste sentido já se ouve, um pouco por todo o lado, aquilo que nunca deveria ter sido deixado de proclamar, e que há muitos séculos foi evangelizado: o “sábado” foi feito para o homem e não o homem para o “sábado”. Modernamente diz-se: PRIMEIRO ESTÃO AS PESSOAS. E agora, cientificamente, acrescenta-se: cada uma delas ÚNICA E IRREPETIVEL.
Lá se foi, de vez, o «sangue azul» para o galheiro, mais a «raça», o «sexo forte» e outras tralhas dos profetas da sub-condição humana...dos outros!
E aqui ocorre-me recordar outra das maravilhas do pensamento cristão: «A lei mata e o espírito dá a vida».
A uniformização pela lei postula, por assim dizer, a irresponsabilização do indivíduo face ao seu destino. E, desse modo, mata mesmo, reduzindo o homem a um autómato sem futuro, que responde perante uma lei e não perante a consciência da sua dignidade e da dignidade dos outros.
Seria tão fácil, em teoria, criar uma sociedade de autómatos, impondo leis rígidas e universais, a que todos e cada um se sujeitassem. Mas o desafio que temos pela frente é infinitamente mais aliciante, que é fazer emergir a pessoa humana em todo o esplendor das suas capacidades. Que é o mesmo que dizer, criar uma sociedade baseada na harmonia de muitos (sons e pessoas) em vez de uma sociedade projectada para a fusão de todos num monstruoso grito monocórdico, resultante de uma “regulação” até ao absurdo.
Os cristãos acreditam numa Divindade plural (Trindade, dizem eles) e pensam uma sociedade à sua imagem e semelhança. Acompanho-os apenas até às portas do céu da sua fé porque, para me fazer sonhar com o infinito, já me basta o universo como ele é e o mundo que nós somos.
(publicado, hoje, in aaacarmelitas)
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