A partir do momento em que o homem atingiu, na sua evolução, o patamar da consciência nasceram todos os “fatalismos”. A razão é simples: vê uma História que começou sem ele –ou a sua consciência- e essa mesma História vai continuar sem ele e sem a sua consciência.
Estes sãos os factos e não vale a pena escamoteá-los. Se há vida antes de mim e isso é absolutamente verdade, eu não estava lá e a vida continuará depois de mim e eu não vou estar lá. O que vem para além desta fria observação é obra da fé dos homens, fruto dos seus anseios de mais vida e mais felicidade. E este aspecto da «felicidade» é fundamental, porque não estou a imaginar alguém a querer prolongar uma dolorosa e irremediável agonia por uma eternidade. Para ser infeliz, o mínimo que se pode desejar é que tal agonia seja curta.
Porém, o que o homem deseja mesmo é superar a fatalidade ou a agonia e continuar o caminho rumo à felicidade. È um sentimento que pode, perfeitamente, ter as suas raízes nos “mecanismos”da génese da própria vida. O milagre da consciência vem apenas lançar luz sobre “o que se está a passar”e o homem, encantado com o “fenómeno”, empolga-se e quer mais e mais vida. Porém, alguns indivíduos, que não a Humanidade, inconformados e amargurados, chegam a amaldiçoar o dia em que tomaram consciência da sua augusta mas tão precária condição. Provar o milagre da vida por um tão curto tempo…
São estes que encaram tanto o nascimento como a morte, como uma fatalidade, com toda a carga negativa que lhe está associada.
A História prova à saciedade que o “grosso” da Humanidade não desiste nunca, não cedendo a fatalismos. Pelo contrário, no seu conjunto, empreendeu uma caminhada heróica que nenhuma tragédia fez parar. E quando as forças começam a faltar, agarra-se a uma fé cega num destino de felicidade, não se importando de sacrificar a razão e a lógica ao desejo incontido de um futuro com mais e melhor vida. Bem podemos dizer que a humanidade tem por horizonte não o «inferno» mas o «céu». Como quem diz, o triunfo da vida e não a vitória da morte.
É tempo de todos colocarmos os pés bem assentes no chão. A ciência conheceu tais desenvolvimentos que já não permite mais devaneios inconsequentes nem a fé cega dos nossos avós. Eles estavam «encostados à parede», porque o mundo acabava mesmo ali, um pouco acima das nuvens ou mais abaixo, no mar profundo. Mas a ciência dos últimos duzentos anos abriu horizontes inimagináveis. Para onde quer que olhe, o homem já não vê outro muro que não seja o das suas limitações do momento presente. Há quem pergunte, actualmente, se a ciência não terá atingido os seus limites. A resposta tem sido: não! Aliás, recordam os defensores do “não” que, em épocas anteriores, a mesma dúvida pairou nas mentes. E foi o que se viu…
Na minha modesta opinião há dois factos que terão de ser considerados à partida. Primeiro, a unidade intrínseca do ser humano. Com isto quero dizer que o futuro do homem, «a mais vida com que se sonha», será tanto para o seu corpo como para o seu espírito. Definitivamente, digo não aos espíritos «incarnados» ou «desincarnados». Aceito o aparente paradoxo de a «matéria» que somos gerar a «consciência» que também somos. Aceito que «eu» não fazia parte da História, antes de nascer, e não faço a mínima ideia do que acontece a esta criação maravilhosa que «eu» sou, quando se desfizer o suporte que a tornou possível. Posso adiantar que ficaria feliz da vida se «alguém» ou «alguma coisa» lhe deitasse a mão e me juntasse aos amores que partiram antes de mim, para continuar a aventura, mesmo que noutra dimensão.
É apenas um sonho. O que temos pela frente é muito trabalho dedicado, para prolongar a existência deste corpo e desta consciência e com qualidade de vida.
O segundo facto a considerar diz respeito ao modo como abordamos a questão do conhecimento humano. O nosso conhecimento não se reduz a meras «convenções» sem qualquer contacto e correspondência com a verdade intrínseca da realidade. Nisto eu sou «aristotélico». Os nossos sentidos proporcionam-nos «contactos» intrinsecamente verdadeiros com as coisas, as sensações, e estas são transformadas em autênticos mapas, pela nossa mente. Estes mapas vão servir de guia para não nos perdermos no emaranhado impressionante de estradas e carreirinhos da realidade. «Por aqui já passei; este caminho vai dar àquele; se for por aqui é mais perto; aquela estrada desce muito e está cheia de curvas; mas dá para ir por um atalho; ali faz-se uma ponte; ali um túnel». Até se mudar a própria a paisagem…
Sempre presentes os sentidos, a razão e a Senhora Realidade.
E que Senhora! Uma Diva mesmo! Inacessível a um pobretanas e feio mas que a adora. Pobre filósofo, que terá de viver a vida inteira de um amor platónico. Mas o “sentimento” é real, tão real como quem o tem. Platão esquecera este pormenor mas o seu discípulo Aristóteles veio lembrar.
Aquilo que a gente «sente», a «paixão», aparentemente a parte pobre do processo cognitivo, afinal é o primeiro relacionamento com a Realidade. É o primeiro «choque» e não pode ser posto de lado quando elaboramos os mapas mentais para nos orientarmos na floresta da vida. Porque, se o fizermos, às tantas, já nem sabemos do que andamos à procura e paramos, entretidos a fazer contas de somar ou cálculos elaboradíssimos na construção de pontes e estradas, esquecidos de como tudo começou. E, sobretudo, do objecto da nossa paixão. Ou do próprio apaixonado, resultando daí um filósofo oco, um cientista de cabeça perdida e um pregador de mundos imaginários.
Para uma boa teoria do conhecimento: no princípio era a paixão.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
terça-feira, 8 de junho de 2010
Fatal Como O Destino
Vou responder à questão levantada pelo meu querido amigo Zé Moreira nesta “postagem” em vez de o fazer na “caixa de comentários”, porque o assunto merece ser destacado.
Para surpresa da generalidade das pessoas, a teologia cristã é contrária à ideia de fatalismo. Isto quer dizer que ninguém nasce com o destino traçado. Nem Judas, apesar de ter sido imprescindível a sua traição ao desígnio da Obra da Redenção.
O que surpreende ainda mais é que esta doutrina da teologia cristã (estou a referir-me, sempre, à teologia cristã-católica) penetrou no pensamento da generalidade dos crentes e cada um se sente senhor e responsável pelo seu destino. Se falhar o objectivo da sua realização e felicidade a culpa é inteiramente sua. E carrega toda a vida o peso dessa responsabilidade. É dramático e empolgante.
Estamos perante mais um dos muitos mistérios da fé cristã e este afronta directamente a nossa razão. Com efeito, se há um Criador, terá de haver um desígnio e nós fomos concebidos para realizar esse desígnio. Não há como fugir ao destino. Assim, Judas não podia deixar de trair o Redentor da Humanidade. Estava escrito.
E se assim é, onde está a liberdade de escolha? Como se pode culpar e condenar alguém predestinado à traição?
A teologia cristã concilia estes “contrários”, desígnio e liberdade, de uma forma que me parece brilhante. Literalmente, os teólogos cristãos resolvem a situação paradoxal, transcendendo a racionalidade e permanecendo com os pés bem assentes na terra. E matam dois coelhos com uma só cajadada: nem o Deus em que acreditam é uma entidade monolítica nem o homem, sua imagem e semelhança, é uma realidade individualizada. Esta verdade da doutrina cristã é afirmada na alteridade absoluta de Deus em relação ao Homem e deste em relação a Deus.
No discurso teológico dos cristãos, o monolitismo divino é rompido na proclamação de um conjunto de «pessoas divinas», no dogma da «Santíssima Trindade».
Embora não sendo crente cristão, aceitando e professando esta fé como «verdade revelada» a um grupo de homens privilegiados, considero, no entanto, espantosa esta teologia. Para mim é do mais belo e do mais profundo de tudo o que alguma vez o pensamento e o sentimento humano conceberam acerca da Divindade. E fizeram-no, conscientemente ou não, a partir da mais clara realidade do nosso dia a dia.
Quem é pai e mãe e filho ou filha, e somos todos, vive o mistério da alteridade absoluta. Pensa, meu caro Zé, que a vossa filha, sendo “genes dos vossos genes”, teus e da Romy, é uma personalidade totalmente outra. O seu destino será escolhido por ela, a não ser que, despoticamente interfiram e aniquilem a sua personalidade ou, no que vem a dar o mesmo, impeçam que ela se desenvolva.
O destino da vossa filha não está nas vossas mãos, apesar de tudo o que lhe deram desde o primeiro instante.
Também poderíamos dizer que matar alguém não é matar a personalidade desse alguém. Nesse sentido diríamos que Fernando Pessoa “está vivo” e que a imortalidade é um atributo da “pessoa”. Mas não vou por aí, agora.
Prefiro recordar o que dizia o Luís, aqui na Laje Negra: vivemos com um olho no finito e outro no infinito. O finito é a nossa indiscutível paternidade e filiação e o infinito é o universo novo que somos, saído dos genes dos nossos pais.
É claro que podemos especular, recuando até perguntar quem gerou «o pai do avô do bisavô da minha avó», prosseguindo até à derradeira pergunta «quem criou o Criador». Parece-me, no entanto, um exercício pouco profícuo e pouco mais vale que passar a vida a dizer 2+2=4. Conta certeira, em absoluto, mas sem que o persistente contador se tenha um dia lembrado de perguntar «2 quê?». Porque está-se mesmo a ver que dois Zé Moreira + dois nunca serão quatro porque só existe um, o de Marrancos de Braga e mais nenhum.
Como quem diz: a lógica da razão não serve para superar os paradoxos da vida e desvendar os seus mistérios.
Para surpresa da generalidade das pessoas, a teologia cristã é contrária à ideia de fatalismo. Isto quer dizer que ninguém nasce com o destino traçado. Nem Judas, apesar de ter sido imprescindível a sua traição ao desígnio da Obra da Redenção.
O que surpreende ainda mais é que esta doutrina da teologia cristã (estou a referir-me, sempre, à teologia cristã-católica) penetrou no pensamento da generalidade dos crentes e cada um se sente senhor e responsável pelo seu destino. Se falhar o objectivo da sua realização e felicidade a culpa é inteiramente sua. E carrega toda a vida o peso dessa responsabilidade. É dramático e empolgante.
Estamos perante mais um dos muitos mistérios da fé cristã e este afronta directamente a nossa razão. Com efeito, se há um Criador, terá de haver um desígnio e nós fomos concebidos para realizar esse desígnio. Não há como fugir ao destino. Assim, Judas não podia deixar de trair o Redentor da Humanidade. Estava escrito.
E se assim é, onde está a liberdade de escolha? Como se pode culpar e condenar alguém predestinado à traição?
A teologia cristã concilia estes “contrários”, desígnio e liberdade, de uma forma que me parece brilhante. Literalmente, os teólogos cristãos resolvem a situação paradoxal, transcendendo a racionalidade e permanecendo com os pés bem assentes na terra. E matam dois coelhos com uma só cajadada: nem o Deus em que acreditam é uma entidade monolítica nem o homem, sua imagem e semelhança, é uma realidade individualizada. Esta verdade da doutrina cristã é afirmada na alteridade absoluta de Deus em relação ao Homem e deste em relação a Deus.
No discurso teológico dos cristãos, o monolitismo divino é rompido na proclamação de um conjunto de «pessoas divinas», no dogma da «Santíssima Trindade».
Embora não sendo crente cristão, aceitando e professando esta fé como «verdade revelada» a um grupo de homens privilegiados, considero, no entanto, espantosa esta teologia. Para mim é do mais belo e do mais profundo de tudo o que alguma vez o pensamento e o sentimento humano conceberam acerca da Divindade. E fizeram-no, conscientemente ou não, a partir da mais clara realidade do nosso dia a dia.
Quem é pai e mãe e filho ou filha, e somos todos, vive o mistério da alteridade absoluta. Pensa, meu caro Zé, que a vossa filha, sendo “genes dos vossos genes”, teus e da Romy, é uma personalidade totalmente outra. O seu destino será escolhido por ela, a não ser que, despoticamente interfiram e aniquilem a sua personalidade ou, no que vem a dar o mesmo, impeçam que ela se desenvolva.
O destino da vossa filha não está nas vossas mãos, apesar de tudo o que lhe deram desde o primeiro instante.
Também poderíamos dizer que matar alguém não é matar a personalidade desse alguém. Nesse sentido diríamos que Fernando Pessoa “está vivo” e que a imortalidade é um atributo da “pessoa”. Mas não vou por aí, agora.
Prefiro recordar o que dizia o Luís, aqui na Laje Negra: vivemos com um olho no finito e outro no infinito. O finito é a nossa indiscutível paternidade e filiação e o infinito é o universo novo que somos, saído dos genes dos nossos pais.
É claro que podemos especular, recuando até perguntar quem gerou «o pai do avô do bisavô da minha avó», prosseguindo até à derradeira pergunta «quem criou o Criador». Parece-me, no entanto, um exercício pouco profícuo e pouco mais vale que passar a vida a dizer 2+2=4. Conta certeira, em absoluto, mas sem que o persistente contador se tenha um dia lembrado de perguntar «2 quê?». Porque está-se mesmo a ver que dois Zé Moreira + dois nunca serão quatro porque só existe um, o de Marrancos de Braga e mais nenhum.
Como quem diz: a lógica da razão não serve para superar os paradoxos da vida e desvendar os seus mistérios.
domingo, 6 de junho de 2010
A REVELAÇÃO DIVINA ou Conhecer o resultado antes do jogo
O despertar da consciência humana, ao mesmo tempo que abriu ao homem o caminho do conhecimento, deixou-o face a uma cadeia de problemas sem solução, até chegar ao tal impasse que referi na postagem anterior.
O belíssima narrativa bíblica do mito de Adão e Eva são a velhinha e esclarecedora demonstração do que afirmo.
Vivia o Homem feliz sobre a Terra, autentico paraíso de harmonia entre todos os seres que nela habitavam, até ao dia em que os «pais» da Humanidade provaram do fruto proibido (que nada tem a ver com a sexualidade mas com a consciência) «da árvore do conhecimento do bem e do mal». Diz a narrativa que logo que cometeram o acto de desobediência os olhos dos nossos «pais» se abriram e «descobriram que estavam nus».
De uma forma expressiva, poética e profundamente inteligente o «escritor sagrado» põe em evidência o que é distintivo no ser humano: a auto-consciência. Só o Homem «descobre» que está nu ( o macaco não) e só o Homem tem consciência de que cometeu uma infracção.
Resumo desta linda história: o Homem tramou-se porque quis saber demais e sabe muito bem o disparate que fez....
Quando era menino, aprendi na catequese a declinar as virtudes «teologais» que são três: fé, esperança e caridade (amor). Qualquer cristão que vá à missa ao Domingo, se não for para lá dormir, ouve, todos os anos. S.Paulo afirmar, numa das suas epístolas, que com a morte cessam a fé e a esperança e «só o amor permanece». Lembro-me muito bem de que o sr abade aqui de Balugães ensinava, expressamente, isto mesmo às crianças da catequese, quando falava das «virtudes teologais».
Penso que quase todos os que aprenderam esta catequese nunca levaram muito a sério este ensinamento do sr abade porque, se o tivessem feito, ficariam muito intrigados. Então a fé e a esperança são algo de transitório? São «valores relativos»?
No entanto, é o que consta da catequese cristã.
E são valores tão “relativos”, que uma série de personalidades bíblicas foram, efectivamente, dispensadas destas virtudes ainda em vida. Com efeito, um punhado (largo) de privilegiados falaram com Deus e receberam, directamente e antecipadamente, a informação que o comum dos mortais só terá depois da morte. É o que a teologia cristã designa por «Revelação».
Estranhamente, aqueles que pregam a fé e a esperança aos crentes, foram dispensados dessas mesmas virtudes.
S.Paulo, o apóstolo dos apóstolos para os cristãos, é bem claro: «…o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não o recebi nem aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo» (carta aos Gálatas cap.I , 11-12).
O que diz S.Paulo de si mesmo acerca da autoridade com que fala com “conhecimento de causa”é extensivo a todos os autores sagrados, de todas as religiões. Todos, de uma forma ou de outra, falaram com Deus ou mensageiros divinos. O conteúdo das suas mensagens, que para os crentes passa a ser motivo de fé e de esperança, para os autores sagrados sempre foi o resultado final do jogo da vida.
Quem está «de fora», como eu, deste jogo das revelações divinas não pode deixar de reparar na situação estranhíssima de uns saberem o resultado final do jogo da vida e outros terem de esperar pelo “apito final” para saber se acertaram no prognóstico ou, no caso de uma fé total e cega, confirmar que os “reveladores” falaram a verdade.
Porém, o que ainda para mim é mais estranho nesta questão das «revelações divinas» é a ideia que se faz passar de que a vida é um jogo já jogado, de que alguns conhecem todas as peripécias desde o primeiro instante e os outros todos são mantidos na ignorância. Vá-se lá saber porquê.
Para mim, a vida, em vez de um jogo visto como que em diferido na esperança e na fé, aparece-me, antes, como uma epopeia grandiosa, como um jogo a ser jogado, no qual lutamos por um resultado final vitorioso. Imprevisível, é verdade, mas nisso consiste a beleza do jogo e o seu fascínio. E talvez radique aqui o verdadeiro sentido da liberdade humana.
A crença numa revelação divina feita a um punhado de privilegiados, essa sim, parece-me absurda, sem ponta por onde se lhe pegue.
Penso eu de que…
Mas será que os teólogos, especialmente os teólogos cristãos da actualidade, têm este «conceito» de revelação divina? Sei que estão, de facto, a ir por outro caminho, algo do género como «a revelação faz-se na História». Como a História não acabou, a «revelação» não pode estar completa. Mas a grande massa dos crentes não conhece esta deriva interessantíssima.
Quase herética.
Heterodoxa mesmo.
O belíssima narrativa bíblica do mito de Adão e Eva são a velhinha e esclarecedora demonstração do que afirmo.
Vivia o Homem feliz sobre a Terra, autentico paraíso de harmonia entre todos os seres que nela habitavam, até ao dia em que os «pais» da Humanidade provaram do fruto proibido (que nada tem a ver com a sexualidade mas com a consciência) «da árvore do conhecimento do bem e do mal». Diz a narrativa que logo que cometeram o acto de desobediência os olhos dos nossos «pais» se abriram e «descobriram que estavam nus».
De uma forma expressiva, poética e profundamente inteligente o «escritor sagrado» põe em evidência o que é distintivo no ser humano: a auto-consciência. Só o Homem «descobre» que está nu ( o macaco não) e só o Homem tem consciência de que cometeu uma infracção.
Resumo desta linda história: o Homem tramou-se porque quis saber demais e sabe muito bem o disparate que fez....
Quando era menino, aprendi na catequese a declinar as virtudes «teologais» que são três: fé, esperança e caridade (amor). Qualquer cristão que vá à missa ao Domingo, se não for para lá dormir, ouve, todos os anos. S.Paulo afirmar, numa das suas epístolas, que com a morte cessam a fé e a esperança e «só o amor permanece». Lembro-me muito bem de que o sr abade aqui de Balugães ensinava, expressamente, isto mesmo às crianças da catequese, quando falava das «virtudes teologais».
Penso que quase todos os que aprenderam esta catequese nunca levaram muito a sério este ensinamento do sr abade porque, se o tivessem feito, ficariam muito intrigados. Então a fé e a esperança são algo de transitório? São «valores relativos»?
No entanto, é o que consta da catequese cristã.
E são valores tão “relativos”, que uma série de personalidades bíblicas foram, efectivamente, dispensadas destas virtudes ainda em vida. Com efeito, um punhado (largo) de privilegiados falaram com Deus e receberam, directamente e antecipadamente, a informação que o comum dos mortais só terá depois da morte. É o que a teologia cristã designa por «Revelação».
Estranhamente, aqueles que pregam a fé e a esperança aos crentes, foram dispensados dessas mesmas virtudes.
S.Paulo, o apóstolo dos apóstolos para os cristãos, é bem claro: «…o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não o recebi nem aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo» (carta aos Gálatas cap.I , 11-12).
O que diz S.Paulo de si mesmo acerca da autoridade com que fala com “conhecimento de causa”é extensivo a todos os autores sagrados, de todas as religiões. Todos, de uma forma ou de outra, falaram com Deus ou mensageiros divinos. O conteúdo das suas mensagens, que para os crentes passa a ser motivo de fé e de esperança, para os autores sagrados sempre foi o resultado final do jogo da vida.
Quem está «de fora», como eu, deste jogo das revelações divinas não pode deixar de reparar na situação estranhíssima de uns saberem o resultado final do jogo da vida e outros terem de esperar pelo “apito final” para saber se acertaram no prognóstico ou, no caso de uma fé total e cega, confirmar que os “reveladores” falaram a verdade.
Porém, o que ainda para mim é mais estranho nesta questão das «revelações divinas» é a ideia que se faz passar de que a vida é um jogo já jogado, de que alguns conhecem todas as peripécias desde o primeiro instante e os outros todos são mantidos na ignorância. Vá-se lá saber porquê.
Para mim, a vida, em vez de um jogo visto como que em diferido na esperança e na fé, aparece-me, antes, como uma epopeia grandiosa, como um jogo a ser jogado, no qual lutamos por um resultado final vitorioso. Imprevisível, é verdade, mas nisso consiste a beleza do jogo e o seu fascínio. E talvez radique aqui o verdadeiro sentido da liberdade humana.
A crença numa revelação divina feita a um punhado de privilegiados, essa sim, parece-me absurda, sem ponta por onde se lhe pegue.
Penso eu de que…
Mas será que os teólogos, especialmente os teólogos cristãos da actualidade, têm este «conceito» de revelação divina? Sei que estão, de facto, a ir por outro caminho, algo do género como «a revelação faz-se na História». Como a História não acabou, a «revelação» não pode estar completa. Mas a grande massa dos crentes não conhece esta deriva interessantíssima.
Quase herética.
Heterodoxa mesmo.
sábado, 5 de junho de 2010
Se mais Mundo houver, lá chegaremos?
Por mais voltas que a gente dê ao pensamento não conseguimos encontrar uma explicação aceitável para o mistério deste Universo, onde surgiu a vida e a consciência que nós somos.
Cada nova descoberta cientifica aponta-nos sempre um horizonte mais vasto.
A razão falha perante a misteriosa realidade. Qualquer cientista ou pensador intelectualmente honesto já não sente o mínimo prurido em aceitar que a nossa razão é incapaz de lidar com este mistério em toda a sua abrangência. São cada vez menos aqueles que se recusam a aceitar estarmos em presença do mistério profundo que nos envolve. Seja em que direcção for que a ciência desenvolva a sua pesquisa, o caminho é sempre a perder de vista. E parece que ninguém quer cruzar os braços perante a tarefa impossível que têm pela frente. É paradoxal!
Os cépticos são vistos como derrotados e acobardados, porque desistiram de pesquisar ou simplesmente interrogar-se. Porque perderam o sentido da genuína admiração.
No outro lado vemos os “sonhadores”, incarnando a atitude dos primeiros filósofos que, sem filosofias fechadas em sistemas, se definiam simplesmente como «amigos da sabedoria». E estes “sonhadores” têm razões para se “espantarem”, como nunca acontecera antes na história da humanidade. É que o mundo que contemplam e querem compreender cresceu em complexidade e dimensão, inimagináveis ainda há pouco mais que algumas décadas.
Filósofos e cientistas olham-se nos olhos e concordam que já não dá para fazer caminho em separado, porque se, à partida, os métodos para chegar ao conhecimento são diferentes, as perguntas, no final, começam a ser idênticas. Como explicar um mundo que não sabemos nem se começou nem se tem limites?
E, apesar disso, pela nossa consciência, sentimos que tocamos o próprio mistério, porque pensá-lo é descobrir que estamos dentro dele.
É isto que nos baralha. Há dias o Luís escrevia, neste blog, que vivia com um olho no finito e outro no infinito. De facto, quando assomamos, pela consciência, à janela da vida, é como se nos debruçássemos sobre o abismo.
Haverá uma forma diferente de abordar o «mistério»? Será que esta mistura que nós somos de consciência, razão e sentimento nos aponta alguma saída para o impasse?
Cada nova descoberta cientifica aponta-nos sempre um horizonte mais vasto.
A razão falha perante a misteriosa realidade. Qualquer cientista ou pensador intelectualmente honesto já não sente o mínimo prurido em aceitar que a nossa razão é incapaz de lidar com este mistério em toda a sua abrangência. São cada vez menos aqueles que se recusam a aceitar estarmos em presença do mistério profundo que nos envolve. Seja em que direcção for que a ciência desenvolva a sua pesquisa, o caminho é sempre a perder de vista. E parece que ninguém quer cruzar os braços perante a tarefa impossível que têm pela frente. É paradoxal!
Os cépticos são vistos como derrotados e acobardados, porque desistiram de pesquisar ou simplesmente interrogar-se. Porque perderam o sentido da genuína admiração.
No outro lado vemos os “sonhadores”, incarnando a atitude dos primeiros filósofos que, sem filosofias fechadas em sistemas, se definiam simplesmente como «amigos da sabedoria». E estes “sonhadores” têm razões para se “espantarem”, como nunca acontecera antes na história da humanidade. É que o mundo que contemplam e querem compreender cresceu em complexidade e dimensão, inimagináveis ainda há pouco mais que algumas décadas.
Filósofos e cientistas olham-se nos olhos e concordam que já não dá para fazer caminho em separado, porque se, à partida, os métodos para chegar ao conhecimento são diferentes, as perguntas, no final, começam a ser idênticas. Como explicar um mundo que não sabemos nem se começou nem se tem limites?
E, apesar disso, pela nossa consciência, sentimos que tocamos o próprio mistério, porque pensá-lo é descobrir que estamos dentro dele.
É isto que nos baralha. Há dias o Luís escrevia, neste blog, que vivia com um olho no finito e outro no infinito. De facto, quando assomamos, pela consciência, à janela da vida, é como se nos debruçássemos sobre o abismo.
Haverá uma forma diferente de abordar o «mistério»? Será que esta mistura que nós somos de consciência, razão e sentimento nos aponta alguma saída para o impasse?
O Meu Quadro Negro «Pedralhães»
«Em miúdo eu tive um PEDRALHÃES, com monitor de 12 polegadas !... E sei a tabuada, fazer contas de cabeça e escrevo sem erros!!!!!...Ganda máquina aquela !!...»
Recebi, por e-mail, da minha amiga BEBE. Respondi-lhe a dar-lhe conta do meu «pedralhães»...
Olá BEBE
Em miúdo eu também tive um «pedralhães». Também aprendi a tabuada toda, de cor e salteado, decorei rios e montanhas de Portugal a Timor, mais os nomes e cognomes dos réis das nossas dinastias. E muito mais.
Quando passo junto ao edifício que foi a minha escola primária, aqui em Balugães, sinto ainda uma leve comoção de ternura pela minha infância.
Quando era miúdo, havia crianças e idosos a pedir de porta em porta e morria-se por não ter dinheiro para comprar uma «pastilha» no boticário, para fazer baixar a febre.
Quando era miúdo, trabalhava-se no campo de sol a sol e as moças cantavam pelos caminhos enquanto tangiam o gado para os pastos ou no regresso aos currais.
Quando era miúdo havia desfolhadas animadas com sardinha assada, vinho verde tinto a sair da pipa e desgarradas marotas.
Quando era miúdo, uma junta de bois, espicaçada pelos aguilhões das varas, arrastava-se, mesmo assim, um dia inteiro, para lavrar um pequeno campo. E o lavrador derretia-se em suor, guiando o arado.
Quando era miúdo, nos campos só havia férias se faltava o trabalho.
Quando era miúdo, jantava-se à luz da vela e éramos todos muito felizes, os que tínhamos pão para colocar sobre a mesa.
E era o «pedralhães» na escola, mais a «pena» com aparo de molhar no tinteiro e os livros herdados dos irmãos mais velhos. Numa escola gelada no inverno, quatro classes para a mesma professora, ao mesmo tempo e na mesma sala.
Todo este passado é meu e não o troco por coisa nenhuma desta vida.
Mas encanta-me ver um sobrinho neto, de quatro anos, ensinar o avô a trabalhar com o «menu» de um telemóvel.
Imagino o que esta criança não fará, aos seis anos, quando tiver nas mãos o tão vilipendiado «magalhães».
Mesmo antes de saber fazer contas de cabeça, viaja pelo mundo numa linguagem universal.
Amo a infância que sou, tanto como o momento que vivo. Ninguém me verá parado no passado porque eu venho de lá, é verdade, mas trouxe-o todo comigo.
E é a contar com esse passado que construo o futuro que ainda sonho.
Um abraço
Mário
Recebi, por e-mail, da minha amiga BEBE. Respondi-lhe a dar-lhe conta do meu «pedralhães»...
Olá BEBE
Em miúdo eu também tive um «pedralhães». Também aprendi a tabuada toda, de cor e salteado, decorei rios e montanhas de Portugal a Timor, mais os nomes e cognomes dos réis das nossas dinastias. E muito mais.
Quando passo junto ao edifício que foi a minha escola primária, aqui em Balugães, sinto ainda uma leve comoção de ternura pela minha infância.
Quando era miúdo, havia crianças e idosos a pedir de porta em porta e morria-se por não ter dinheiro para comprar uma «pastilha» no boticário, para fazer baixar a febre.
Quando era miúdo, trabalhava-se no campo de sol a sol e as moças cantavam pelos caminhos enquanto tangiam o gado para os pastos ou no regresso aos currais.
Quando era miúdo havia desfolhadas animadas com sardinha assada, vinho verde tinto a sair da pipa e desgarradas marotas.
Quando era miúdo, uma junta de bois, espicaçada pelos aguilhões das varas, arrastava-se, mesmo assim, um dia inteiro, para lavrar um pequeno campo. E o lavrador derretia-se em suor, guiando o arado.
Quando era miúdo, nos campos só havia férias se faltava o trabalho.
Quando era miúdo, jantava-se à luz da vela e éramos todos muito felizes, os que tínhamos pão para colocar sobre a mesa.
E era o «pedralhães» na escola, mais a «pena» com aparo de molhar no tinteiro e os livros herdados dos irmãos mais velhos. Numa escola gelada no inverno, quatro classes para a mesma professora, ao mesmo tempo e na mesma sala.
Todo este passado é meu e não o troco por coisa nenhuma desta vida.
Mas encanta-me ver um sobrinho neto, de quatro anos, ensinar o avô a trabalhar com o «menu» de um telemóvel.
Imagino o que esta criança não fará, aos seis anos, quando tiver nas mãos o tão vilipendiado «magalhães».
Mesmo antes de saber fazer contas de cabeça, viaja pelo mundo numa linguagem universal.
Amo a infância que sou, tanto como o momento que vivo. Ninguém me verá parado no passado porque eu venho de lá, é verdade, mas trouxe-o todo comigo.
E é a contar com esse passado que construo o futuro que ainda sonho.
Um abraço
Mário
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Vinho Novo Em Odres Velhos
Excertos de uma carta a um amigo ex-candidato a padre.
Sabes por experiência própria que há tanta gente, sobretudo jovem, à espera de uma palavra esclarecida sobre o nosso destino. E faz-se uma doutrinação em linguagem envelhecida, já sem significado, com a «pastoral da Igreja» a tentar encher de vinho novo, odres velhos. O resultado é uma debandada generalizada, sem que tal facto preocupe os «pastores». Esvaziaram-se os seminários e conventos, os padres escasseiam, as freiras estão em vias de extinção. A resposta dos responsáveis pela Igreja é o “deixa andar”.
Pessoalmente, e como já te disse, tal facto não me preocupa, porque penso que o que há de melhor no cristianismo, o fermento do amor entre os homens, está a levedar a massa. Os rituais religiosos, lindos e veneráveis, carregados de ensinamento, tendem a acabar, arrumadinhos nas prateleiras da História, para serem visitados e admirados como as velhas e magnificas catedrais góticas. Serão para sempre o hino da fé dos nossos avós.
E qual será o caminho, o seu “hino”, para as gentes de hoje? Vai consistir apenas em mudar o feitio das igrejas, os cânticos e as vestes sacerdotais? Vai ser a permissão do casamento dos padres e a ordenação de sacerdotisas? Mas isso não seria mais que a reedição do passado, enchendo, efectivamente, odres velhos com o vinho novo que é a pujança da jovem humanidade. Está-se a perder o vinho e os odres.
O odre velho é a Igreja nos seus rituais, nas suas vestes, nos seus «paços episcopais», nos seus conceitos de ética e moral desadequados.
No que respeita à ética e à moral o panorama é confrangedor. E não estou a referir-me apenas ao apego a uma sexualidade animalizada, invocando uma «lei natural» que ignora a evolução de milhões de anos até ao «homem-espiritual» que hoje somos. O apego “visceral” a essa pretensa «lei natural» é a fixação na ideia de que as pernas só servem para perseguir a presa, o alimento para ser combustível de um corpo, a palavra o simples substituto do primitivo grunhido para chamar ou avisar de perigos. Esquece-se, displicentemente, que o homem começou a transformou em arte a sua própria vida. E continua o percurso, criando um ser cada vez mais espiritual. Sem espiritismos tolos à mistura, expressão de filosofias ancestrais baseadas num conhecimento incipiente do homem e seu universo.
Até quando vamos continuar a levar ao engano as crianças que ainda vão à «missa», ensinando-as, em tão tenra idade, a linguagem da duplicidade? Estou a lembrar-me dos sermões e das homilias…
-Queridos irmãos e fiéis piedosos...
Era assim que o sr Prior e pregador, de Carvoeiro de Viana do Castelo, mesmo aqui ao lado de Balugães, abria sermões e homilias.
Todos sabemos que só dentro das paredes da igreja éramos irmãos. Fora de portas deste simulacro de paraíso fraterno, éramos ricos ou pobres, lavradores ou "jornaleiros", empregadores ou empregados, feios ou bonitos, doentes ou saudáveis. E, sobretudo, «cada um por si e Deus por todos».
Na nossa cabecinha de meninos começava a germinar a ideia de uma vida dupla ou de um ensinamento enganador, para não dizer mentiroso. Como se nos estivessem a ensinar a mentir.
Lembro-me que tinha um amigo de infância «pobre de pedir» a quem matei a fome algumas vezes quando ele chegava ao fim do dia sem ter comido nadinha. Ele era a prova viva de que o sr prior ou sr abade andavam a brincar às fraternidades, dentro da igreja, ao domingo e durante a homilia. A verdade, nua e crua, é que a minha sociedade de Balugães e todas as outras, se estruturaram à margem do cristianismo do amor.
Na micro sociedade que era a minha família de nove irmãos, mais um pai e uma mãe, todos comiam do que havia. Todos vestiam e calçavam de acordo com o orçamento da pequena comunidade familiar.
Esta sim, verdadeira, que a outra era uma “mentira” do senhor prior, na homilia, ao domingo.
E eu pensava que se fosse padre ia ser diferente. E queria muito ser padre. A «família cristã» tinha que ser para valer. Sonho de criança e não só, porque eu tive a percepção de que algo ia muito mal. Percebi que o catecismo ensinava o que o senhor abade não pregava. Nem o abade nem o Arcebispo de Braga, imponente, distante e luxuoso na sua visita pastoral, ao som de cânticos aclamatórios e foguetes...
Apesar de tudo, silenciosamente, o fermento foi desenvolvendo a sua acção, levedando a massa, criando estruturas fraternas e até um catecismo novo, que nós chamamos carta dos direitos do homem.
Enquanto isso, os bispos lá continuam a entreter beatas, que já têm o céu mais que ganho...
Hoje falei-te de um tempo em sonhávamos mudar a Igreja em que nascemos. Agora parece-me que já não se trata de mudar a Igreja, mas estar atento ao trabalho silencioso do fermento, poderoso fermento do amor anunciado no cristianismo. Não é por acaso, como alguém dizia, que as democracias floresceram no ocidente cristianizado.
Imperfeitas como tudo o que está em crescimento.
Levar a democracia até às últimas consequências é realizar a colheita como deve ser e encubar o vinho novo em odres novos. Guardemos como preciosas relíquias os «velhos odres», cheios durante milénios, da fé dos nossos antepassados.
Sabes por experiência própria que há tanta gente, sobretudo jovem, à espera de uma palavra esclarecida sobre o nosso destino. E faz-se uma doutrinação em linguagem envelhecida, já sem significado, com a «pastoral da Igreja» a tentar encher de vinho novo, odres velhos. O resultado é uma debandada generalizada, sem que tal facto preocupe os «pastores». Esvaziaram-se os seminários e conventos, os padres escasseiam, as freiras estão em vias de extinção. A resposta dos responsáveis pela Igreja é o “deixa andar”.
Pessoalmente, e como já te disse, tal facto não me preocupa, porque penso que o que há de melhor no cristianismo, o fermento do amor entre os homens, está a levedar a massa. Os rituais religiosos, lindos e veneráveis, carregados de ensinamento, tendem a acabar, arrumadinhos nas prateleiras da História, para serem visitados e admirados como as velhas e magnificas catedrais góticas. Serão para sempre o hino da fé dos nossos avós.
E qual será o caminho, o seu “hino”, para as gentes de hoje? Vai consistir apenas em mudar o feitio das igrejas, os cânticos e as vestes sacerdotais? Vai ser a permissão do casamento dos padres e a ordenação de sacerdotisas? Mas isso não seria mais que a reedição do passado, enchendo, efectivamente, odres velhos com o vinho novo que é a pujança da jovem humanidade. Está-se a perder o vinho e os odres.
O odre velho é a Igreja nos seus rituais, nas suas vestes, nos seus «paços episcopais», nos seus conceitos de ética e moral desadequados.
No que respeita à ética e à moral o panorama é confrangedor. E não estou a referir-me apenas ao apego a uma sexualidade animalizada, invocando uma «lei natural» que ignora a evolução de milhões de anos até ao «homem-espiritual» que hoje somos. O apego “visceral” a essa pretensa «lei natural» é a fixação na ideia de que as pernas só servem para perseguir a presa, o alimento para ser combustível de um corpo, a palavra o simples substituto do primitivo grunhido para chamar ou avisar de perigos. Esquece-se, displicentemente, que o homem começou a transformou em arte a sua própria vida. E continua o percurso, criando um ser cada vez mais espiritual. Sem espiritismos tolos à mistura, expressão de filosofias ancestrais baseadas num conhecimento incipiente do homem e seu universo.
Até quando vamos continuar a levar ao engano as crianças que ainda vão à «missa», ensinando-as, em tão tenra idade, a linguagem da duplicidade? Estou a lembrar-me dos sermões e das homilias…
-Queridos irmãos e fiéis piedosos...
Era assim que o sr Prior e pregador, de Carvoeiro de Viana do Castelo, mesmo aqui ao lado de Balugães, abria sermões e homilias.
Todos sabemos que só dentro das paredes da igreja éramos irmãos. Fora de portas deste simulacro de paraíso fraterno, éramos ricos ou pobres, lavradores ou "jornaleiros", empregadores ou empregados, feios ou bonitos, doentes ou saudáveis. E, sobretudo, «cada um por si e Deus por todos».
Na nossa cabecinha de meninos começava a germinar a ideia de uma vida dupla ou de um ensinamento enganador, para não dizer mentiroso. Como se nos estivessem a ensinar a mentir.
Lembro-me que tinha um amigo de infância «pobre de pedir» a quem matei a fome algumas vezes quando ele chegava ao fim do dia sem ter comido nadinha. Ele era a prova viva de que o sr prior ou sr abade andavam a brincar às fraternidades, dentro da igreja, ao domingo e durante a homilia. A verdade, nua e crua, é que a minha sociedade de Balugães e todas as outras, se estruturaram à margem do cristianismo do amor.
Na micro sociedade que era a minha família de nove irmãos, mais um pai e uma mãe, todos comiam do que havia. Todos vestiam e calçavam de acordo com o orçamento da pequena comunidade familiar.
Esta sim, verdadeira, que a outra era uma “mentira” do senhor prior, na homilia, ao domingo.
E eu pensava que se fosse padre ia ser diferente. E queria muito ser padre. A «família cristã» tinha que ser para valer. Sonho de criança e não só, porque eu tive a percepção de que algo ia muito mal. Percebi que o catecismo ensinava o que o senhor abade não pregava. Nem o abade nem o Arcebispo de Braga, imponente, distante e luxuoso na sua visita pastoral, ao som de cânticos aclamatórios e foguetes...
Apesar de tudo, silenciosamente, o fermento foi desenvolvendo a sua acção, levedando a massa, criando estruturas fraternas e até um catecismo novo, que nós chamamos carta dos direitos do homem.
Enquanto isso, os bispos lá continuam a entreter beatas, que já têm o céu mais que ganho...
Hoje falei-te de um tempo em sonhávamos mudar a Igreja em que nascemos. Agora parece-me que já não se trata de mudar a Igreja, mas estar atento ao trabalho silencioso do fermento, poderoso fermento do amor anunciado no cristianismo. Não é por acaso, como alguém dizia, que as democracias floresceram no ocidente cristianizado.
Imperfeitas como tudo o que está em crescimento.
Levar a democracia até às últimas consequências é realizar a colheita como deve ser e encubar o vinho novo em odres novos. Guardemos como preciosas relíquias os «velhos odres», cheios durante milénios, da fé dos nossos antepassados.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Amar Não é Uma Decisão...
Foi-me reencaminhado por um amigo o texto de um padre acerca do amor, sob o título «Amar é Uma Decisão, Não Um Sentimento». O meu amigo encantou-se com o texto e revela todo o seu entusiasmo ao comentar que «é difícil ler uma coisa mais bonita! Este padre, tem de ser alguém muito especial!»
Até pode ser lindo, e no entanto...
Eu penso que o amor não é uma decisão. E apetece dizer que aquele texto só podia ter sido mesmo escrito por um padre.
O padre é um homem só. Pensa que pode partilhar a alma sem partilhar o corpo, porque lhe ensinaram ou porque pensa que o homem não «é» corpo. Mas sem corpo ninguém dá pela nossa presença. Também ninguém sentirá a nossa ausência. Considerando que o amor é uma simples decisão e a decisão é da alma, para que serviria o corpo?
Da alma a decisão, do corpo o sentimento.
Bate tudo certo para definir o amor de um "padre". A sua «vocação» de padre também foi uma decisão, não um sentimento.
A lógica continua.
Certamente por lapso, alguém lhe falou que «vocação» é chamamento. Mas não pode ser assim com este padre que diz que o amor é decisão.A decisão é um acto solitário e "chamamento" implica outra pessoa, outra presença...
Amor é presença! De mim perante ti e de ti perante mim, numa descoberta emocionante pelo olhar, pelo toque suave das carícias ou pela força do abraço; pelo calor do corpo e pelo perfume dos cabelos; pela beleza do rosto e pela leveza dos passos. O amor é a felicidade de ter a presença de alguém e ser presença para esse alguém e por isso amar nunca tem o sentido apenas de «dar» ou «disponibilizar», como quem cuida de alguém, como quem dá uma esmola, como quem cumpre um obrigação...por uma decisão que se tomou.
Se dissermos que amar é «dar-se», está bem melhor. Mas isto implica o ser humano integral (corpo-alma). Não vale dar uma esmola e seguir o seu caminho, consciente do dever cumprido.
Cuidar do nosso semelhante é um dever de solidariedade. Amar é muito mais do que isso. É a loucura de Francisco de Assis a beijar nos lábios o leproso na beira do caminho.
Ninguém o vai imitar numa loucura dessas mas, quem quiser definir o amor, grave na memória, para sempre, esse quadro de loucura. Francisco podia limitar-se a cuidar das feridas horrendas, matar-lhe a fome e a sede, vesti-lo e abrigá-lo, mas o amor de que eu estou a falar teve que deixar-lhe nos lábios miseráveis toda a força da sua presença. Desse-lhe, Francisco, o alimento e o agasalho e o leproso ficaria agradecido, rezando a Deus para que o compensasse pela boa acção.
Momentaneamente de estômago cheio e a alma permanentemente vazia e solitária.
Não podemos beijar-nos e abraçar-nos todos e em todo o tempo, realizando a presença, mas podemos fazer o exercício do amor com quem escolhemos para partilhar o lar e o leito.
Então, sim, cada gesto nosso para com todos aqueles que encontramos no caminho da vida vai carregado da «presença» que, em casa, aprendemos a "ser".
Que grande equivoco pensar que amar é como oferecer um diamante que se tenha guardado no cofre, mesmo que se chame a esse cofre, coração!
Eu quero a tua presença e tu a minha, porque não fomos feitos para a solidão.
«Onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles».
Claramente não chega "Pai" no Céu e "eu" na Terra. Pelo menos Três no Céu e, pelo menos, dois ou três, na Terra...
Entenda-se para sempre: a mensagem do cristianismo não é o «evangelho da esmola» mas da doação mútua, de um ser humano que é tanto corpo como alma.
Podemos decidir procurar o «outro», mas nunca podemos decidir amá-lo. Imagine-se que o "outro" não está para aí virado! E sem o "outro" não se pode fazer a festa do amor. Nem no Céu, nem na Terra.
Temos de procurar o nosso amor, que será o caminho seguro para te encontrar a "ti" e a "ele", na expectativa de um dia podermos, realmente, cantar em coro: nós!
Ninguém se engane pensando que matando a "fome" do corpo sacia a fome mais dolorosa de uma pessoa solitária, porque estamos condenados ao amor.
Que perfeita perdição!
Até pode ser lindo, e no entanto...
Eu penso que o amor não é uma decisão. E apetece dizer que aquele texto só podia ter sido mesmo escrito por um padre.
O padre é um homem só. Pensa que pode partilhar a alma sem partilhar o corpo, porque lhe ensinaram ou porque pensa que o homem não «é» corpo. Mas sem corpo ninguém dá pela nossa presença. Também ninguém sentirá a nossa ausência. Considerando que o amor é uma simples decisão e a decisão é da alma, para que serviria o corpo?
Da alma a decisão, do corpo o sentimento.
Bate tudo certo para definir o amor de um "padre". A sua «vocação» de padre também foi uma decisão, não um sentimento.
A lógica continua.
Certamente por lapso, alguém lhe falou que «vocação» é chamamento. Mas não pode ser assim com este padre que diz que o amor é decisão.A decisão é um acto solitário e "chamamento" implica outra pessoa, outra presença...
Amor é presença! De mim perante ti e de ti perante mim, numa descoberta emocionante pelo olhar, pelo toque suave das carícias ou pela força do abraço; pelo calor do corpo e pelo perfume dos cabelos; pela beleza do rosto e pela leveza dos passos. O amor é a felicidade de ter a presença de alguém e ser presença para esse alguém e por isso amar nunca tem o sentido apenas de «dar» ou «disponibilizar», como quem cuida de alguém, como quem dá uma esmola, como quem cumpre um obrigação...por uma decisão que se tomou.
Se dissermos que amar é «dar-se», está bem melhor. Mas isto implica o ser humano integral (corpo-alma). Não vale dar uma esmola e seguir o seu caminho, consciente do dever cumprido.
Cuidar do nosso semelhante é um dever de solidariedade. Amar é muito mais do que isso. É a loucura de Francisco de Assis a beijar nos lábios o leproso na beira do caminho.
Ninguém o vai imitar numa loucura dessas mas, quem quiser definir o amor, grave na memória, para sempre, esse quadro de loucura. Francisco podia limitar-se a cuidar das feridas horrendas, matar-lhe a fome e a sede, vesti-lo e abrigá-lo, mas o amor de que eu estou a falar teve que deixar-lhe nos lábios miseráveis toda a força da sua presença. Desse-lhe, Francisco, o alimento e o agasalho e o leproso ficaria agradecido, rezando a Deus para que o compensasse pela boa acção.
Momentaneamente de estômago cheio e a alma permanentemente vazia e solitária.
Não podemos beijar-nos e abraçar-nos todos e em todo o tempo, realizando a presença, mas podemos fazer o exercício do amor com quem escolhemos para partilhar o lar e o leito.
Então, sim, cada gesto nosso para com todos aqueles que encontramos no caminho da vida vai carregado da «presença» que, em casa, aprendemos a "ser".
Que grande equivoco pensar que amar é como oferecer um diamante que se tenha guardado no cofre, mesmo que se chame a esse cofre, coração!
Eu quero a tua presença e tu a minha, porque não fomos feitos para a solidão.
«Onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles».
Claramente não chega "Pai" no Céu e "eu" na Terra. Pelo menos Três no Céu e, pelo menos, dois ou três, na Terra...
Entenda-se para sempre: a mensagem do cristianismo não é o «evangelho da esmola» mas da doação mútua, de um ser humano que é tanto corpo como alma.
Podemos decidir procurar o «outro», mas nunca podemos decidir amá-lo. Imagine-se que o "outro" não está para aí virado! E sem o "outro" não se pode fazer a festa do amor. Nem no Céu, nem na Terra.
Temos de procurar o nosso amor, que será o caminho seguro para te encontrar a "ti" e a "ele", na expectativa de um dia podermos, realmente, cantar em coro: nós!
Ninguém se engane pensando que matando a "fome" do corpo sacia a fome mais dolorosa de uma pessoa solitária, porque estamos condenados ao amor.
Que perfeita perdição!
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