Numa entrevista para o jornal ingles The Guardian, publicada em 16.05.2011, este físico de renome mundial propõe sem rodeios as suas ideias acerca da vida humana. Começa com uma alusão à paralisia que o afecta há muito tempo: “Vivi durante os últimos 49 anos com a perspectiva de uma morte iminente. Não tenho medo da morte, mas não tenho pressa de morrer. Há tantas coisas que eu queria ainda fazer”.
“Eu considero que o cérebro é um computador que cessa de trabalhar logo que os seus componentes se avariam. Não existe paraíso ou vida depois da vida para os computadores avariados; é um conto de fadas destinado àqueles que têm medo do escuro”.
Perguntado, então, “porque é que nós estamos aqui?”, remete a resposta para uma conferência que terá lugar em Londres, mas vai adiantando que “ínfimas flutuações quânticas no começo do universo semearam os germes da vida humana”.
Se nos colocarmos numa perspectiva de “fim da ciência” e que, com Hawking, está tudo descoberto, pensado e dito, só nos resta ficar vergados a essa verdade total e definitiva. Não é, de maneira nenhuma, o que está a acontecer.
Mas não vale a pena tentar “dourar a pílula”, porque a desagregação e desintegração do conjunto prodigioso constituído pelo nosso corpo e nosso cérebro é uma realidade inelutável e tudo o que a ciência pode fazer e faz é tentar preservar-lhe a vida e eficiência por um tempo mais longo possível. Aliás, as ciências têm como objectivo último essa preservação, ciente de que dela depende a existência do individuo e o futuro da humanidade.
Desvalorizando, na prática, o facto de a maior parte das pessoas acreditar na vida depois da vida, a ciência luta em cada dia, no silêncio dos laboratórios, por mais e vida e mais qualidade de vida, para este conjunto corpo-cérebro.
Convenhamos que não faria sentido lutar tanto pela vida que temos, se a ciência tivesse a certeza acerca da “vida depois da vida” e que essa vida fosse precisamente o paraíso, ou seja, o cúmulo de tudo aquilo com que poderíamos sonhar.
A situação criada é paradoxal. Por um lado a ciência de Hawking afirma que já somos tudo o que é possível ser, ou seja, um monumental fogo-de-artifício e, por outro, a mesma ciência aparece na linha da frente a dar tudo por tudo como se, também, na prática, não acreditasse termos chegado ao “fim da linha”.
Numa perspectiva de “fim da cência”, a ética e a moral seriam relativizadas até ao limite da indiferença e frieza com que legislaríamos para meros computadores. E nenhum obstáculo se colocaria ao poder da ciência de um grupo com poder económico ou outro qualquer.
Como dizem muitos cientistas da actualidade, avisada e sabiamente, decretar o “fim da ciência” é liquidar os sonhos da Humanidade.
A certeza de Hawking é apenas a sua certeza. O que nos fez chegar ao que “somos” pode ser bem mais que meras “ínfimas flutuações quânticas”. E a ciência, na prática, ignorando quaisquer limites, continua a investigar.
Quem não suportar a expectativa, pois que se acomode a Hawking e morra em paz. Em alternativa, creia na "ressurreição cristã" ou na "imortalidade da alma".
Só deveria ser proibido, mesmo, parar a caminhada e a demanda do “santo graal”…
segunda-feira, 23 de maio de 2011
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Parece-me haver aqui matéria susceptível de outras análises. Tentarei de expor a minha logo que o tempo mo permitir. (Acabo de chegar de viagem e tenho varias tarefas que esperam pelos meus cuidados...)
ResponderEliminarNão vejo a opinião de Stephen Hawking como o fim da ciência. As flutuações de que ele fala devem refir-se tão somente à quebra de simetria inicial que justifica a variedade do Universo (ou de contrário seria um contínuo absolutamente uniforme).
ResponderEliminarJá o conceito de que "a ética e a moral seriam relativizadas até ao limite da indiferença e frieza com que legislaríamos para meros computadores.", deixa-me dizer-te que isso já está em vigor. Chama-se Zen, para quem tenha "lá" chegado (não olhes para mim!):
Olho!Olho! Porque, deus me livre de atingir o ponto Zen! Apesar de chata e às vezes chatérrima, gosto desta vida que resultou da "quebra de simetria", como diz, então, Hawking. O Zen seria como voltar ao momento anterior às flutuações quanticas: indiferenciação absoluta. É isso?
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