segunda-feira, 30 de maio de 2011

De Hawking à ressurreição

(Em atenção ao último post do Mário)

Penso que Hawking não diz nem deixa entender que chegamos ao “fim da ciência”. Se certas afirmações suas nos levam a pensar desse modo, é talvez mais uma interpretação da nossa parte que vai para além do seu próprio conceito nessa matéria. Na longa historia das ciências humanas, por várias vezes isso aconteceu. Lembremo-nos do recente século dezanove, onde ocorreu o mais extraordinário avanço no domínio das ciências, artes e técnicas. Vários “especialistas”, não forçosamente os mais competentes, não hesitavam em proclamar que não havia mais segredos para a inteligência do homem. Tudo o que havia para descobrir estava descoberto.
Deixando de parte a efervescência, repulsiva, condescendente ou admirativa, provocada pelos livros de Hawking nos meios da divulgação científica e no publico em geral, resta-nos considerar o homem e a sua obra como um todo contribuindo para a divulgação do conhecimento. Certamente que, nas suas pesquisas teóricas, largamente reflectidas e longamente repensadas, Hawking procurou ir o mais longe possível na descoberta das leis da natureza e do cosmos em que ela se insere. Uns acusam-no de “meras operações de marketing”, outros de maltratar a filosofia e a física contemporânea. Há quem vá mais longe e afirme que algumas das suas teorias são um “recuo na reflexão racional”. No entanto, a maior parte das críticas dirigidas a Hawking têm por alvo algumas frases lapidares por ele emitidas, onde afirma convicções de ordem pessoal, que chocam com paradigmas ou dogmas, intocáveis dentro de certas “capelas” de um certo saber “absoluto e inquestionável”.
Não tenho capacidade para discutir as teorias divulgadas por Hawking. Vejo-o como alguém que consagrou a vida à ciência dentro das possibilidades físicas que a natureza lhe concedeu, e que tenta divulgar o resultado das suas conclusões, tanto cientificas como filosóficas. Compreendo-o quando diz: “Eu considero que o cérebro é um computador que cessa de trabalhar logo que os seus componentes se avariam. Não existe paraíso ou vida depois da vida para os computadores avariados; é um conto de fadas destinado àqueles que têm medo do escuro”. Ele, mais do que qualquer banal seu semelhante, viveu na pele as incertezas e fragilidades da condição humana, e teve de afrontar, quase quotidianamente, a realidade de um fim ameaçadoramente próximo e inelutável, facto que nós, na esperança de uma vida longa, mesmo conscientes da nossa finitude, consideramos como uma mera e longínqua eventualidade. Não penso que a intenção da citação acima, seja de afirmar a redução do homem a uma simples ou complexa assemblagem de componentes mecânicos e electrónicos. Ela é apenas a simples afirmação do conceito enunciado e defendido por cérebros de todos os tempos que a inteligência universal colocou alto no patamar do conhecimento: o homem veio de algures, cresceu com a natureza, fez-se a si próprio, e partirá como chegou, num sopro do universo, sem compreender como, nem por quê. O enunciado é meu, mas a ideia tem a idade do ser humano.

Bouddha, Sócrates e Jesus falam da morte, não como um fim, mas como uma passagem a outro estado. Porém, nenhum dos três tem exactamente a mesma concepção dessa imortalidade. Ela varia conforme o meio cultural em que viveram e as experiências espirituais de cada um. Para o Bouddha a vida é um ciclo de sofrimento que começa à nascença e se prolonga com o envelhecimento, a doença, os desgostos e a morte. Sócrates pôs em evidência ideias já expressas por Pitágoras e outros do seu tempo. Os dois defendem a tese da reencarnação, mas divergem noutros pontos como na existência de uma alma permanente e indestrutível ou a identidade espiritual do “Si”. Jesus abraça o pensamento generalizado no povo judeu do seu tempo, que professa a ideia de globalidade do ser humano: o corpo e a alma são um. Nunca faz referência ao futuro post mortem de um principio espiritual separado do corpo, mesmo se insiste na ideia de uma vida depois da vida neste mundo perecível.
Já Sócrates dizia que para um filosofo existem dois registos do saber: o saber propriamente racional ou cientifico, e o saber que ultrapassa o quadro da razão, para atingir outros domínios como o da fé, da intuição, do sentimento ou mesmo da tradição. No primeiro caso trata-se de “certezas”, no segundo de “íntima convicção”. Stephen Hawking, cientifico e filosofo, pertence ao primeiro registo; Bouddha, Sócrates e Jesus, filósofos por excelência, pertencem ao segundo. Todos eles exprimem ideias assentes em correntes de pensamento contemporâneas, mas quase sempre enraizadas num passado mais ou menos longínquo. Nenhum é exclusivo, nenhum é globalmente original, nenhum é totalmente convincente.
Bouddha, Sócrates, Jesus ou Hawking, acaso algum deles teorizou um conceito unificador da verdade que satisfaça as aspirações legítimas do homem na sua angustiosa procura de certezas inquestionáveis?
As sábias teorias e conceitos do imenso armazém do saber de que dispomos, dão-nos, à escolha, toda a “verdade” e o seu evidentíssimo “contrário”. Cabe-nos fazer a escolha para formar o leque das nossas “íntimas convicções” já que as “certezas” nos escapam como sabão debaixo do chuveiro.

21 comentários:

  1. "Não penso que a intenção da citação acima, seja de afirmar a redução do homem a uma simples ou complexa assemblagem de componentes mecânicos e electrónicos."
    - Oh! Mas eu penso que sim! Mas, claro, eu não vejo a palavra "redução" de uma forma negativa. é como a palavra "explicação": tudo o que se explica reduz o explicado. Reduz a ignorância, que muitas vezes, é boa parte do que se pretende explicar.

    "Bouddha, Sócrates e Jesus falam da morte, não como um fim, mas como uma passagem a outro estado. Porém, nenhum dos três tem exactamente a mesma concepção dessa imortalidade."
    - Buda e Jesus, bastante diferentes, hum?! Bastante diferentes! Conheço mal os detalhes do pensamento socrático (fui vasculhar um pouco, e o que encontrei é que ele deixava em aberto duas hipóteses: a do sono eterno, e a metempsicose, ou transmigração da alma).

    "Para o Bouddha a vida é um ciclo de sofrimento que começa à nascença e se prolonga com o envelhecimento, a doença, os desgostos e a morte."
    - Isso não é bem a definição de vida, mas sim de samsara, "o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos". Isso não é uma inevitabilidade. Para escapar a tal, basta atingir o estado de Buda.O que não deveria ser difícil, pois todos temos a Natureza de Buda. Não há outro Buda que não sejamos nós. Basta compreendê-lo e aplicá-lo (difícil pra chuchu...?).

    "acaso algum deles teorizou um conceito unificador da verdade que satisfaça as aspirações legítimas do homem na sua angustiosa procura de certezas inquestionáveis?"
    - Buda fá-lo, aniquilando a angustiosa procura, e postulando a futilidade de procurar certezas inquestionáveis, que são votadas ao insucesso (o que é fundamentalmente verdade; é impossível garantir certezas absolutas, a partir do momento que ninguém pode sequer atestar a sua própria sanidade - isto digo-o eu). Pode-se então procurar. Ou não. Fazer em cada momento o que for apropriado. Sem ânsia.

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  2. Nós que conhecemos o funcionamento interno de um PC podemos avaliar quanto a citação de Hawking se assemelha à realidade. No entanto ao PC falta-lhe o ADN humano de alguns milhares...
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    Bouddha e Sócrates estão próximos na teoria da imortalidade. Os dois acreditam no ciclo de renascenças sucessivas, mas divergem quanto à definição da entidade alma. Sócrates defende a dualidade do homem. A alma não precisa do corpo para existir, é imortal. O Bouddha não fala de alma e praticamente nega-a defendendo a inexistência do “eu”.
    Bouddha e Jesus acho que estão muito próximos nos seus ensinamentos originais, mas a evolução desses ensinamentos no tempo divergiu enormemente.
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    Samsara é portanto uma sucessão de vidas. Uma vida é pois um vector (da nascença... à morte) do ciclo.
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    Aqui também, na “angustiosa procura”, repara como o que dizes a respeito dos ensinamentos du Bouddha colam perfeitamente ao que Jesus ensinou. O que me levaria a acrescentar: Jesus também o faz. E afinal talvez seja verdade. Porém a mim falta-me a “intima convicção”...

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  3. Penso que Hawking estava a "falar a sério" quando disse o que disse acerca do homem e e do computador. Um desligado do oxigénio, ou tro da corrente electrica conhecem o mesmo destino: inoperancia. Com vantagem para o computador que pode voltar a ser ligado, sem ter sofrido danos.
    A diferença entre ambos é "à partida" e não no derradeiro instante, quando ambos se avariam definitivamente. Como diz o Lima, um vem abastecido de ADN, que o liga a uma história interminável. Do computador sabemos bem como nasceu e como acabou.
    Claro que o mistério começará a desfazer-se quando fizermos um "outro" igual a nós.
    O Luis concorda comigo sobre a redução do homem a um computador, por Hawking. E eu não podia estar mais de acordo quando afirma que "tudo o que se explica reduz o explicado". De facto "explicar" seja o que for é reduzir a realidade aos nossos conceitos. É como amassar o barro e depois dar-lhe a forma que quisermos. Uma vez construido o "boneco" ficamos muito sábios por saber distinguir um galo de Barcelos de "um" das Caldas...
    Meu deus, o que se pode fazer com o barro da realidade! Até um computador, e depois dizer que é diferente ou igual a nós.
    A conclusão é que não é lá grande coisa: quanto mais se explica, mais se reduz a realidade às formas ou conceitos e mais ignorantes ficamos.
    Depois de me reduzires a átomos, Luis, o que vais ficar a saber de mim?

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  4. “quanto mais se explica, mais se reduz a realidade às formas ou conceitos e mais ignorantes ficamos.”

    E mais ignorantes ficamos? Estou de acordo com todo o resto, mas esta conclusão incomoda-me. Se, explicando, reduzimos a ignorância... é o mesmo que aumentar o saber!

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  5. Ui, ui, que não me fiz entender. E com razão, que ninguém é obrigado a adivinhar o que vai na cabeça dos outros. Foram palavras a menos, ei-las portanto:

    Quando mencionava "a futilidade de procurar certezas inquestionáveis", não estava a referir-me ao conhecimento em geral. Referia-me às grandes questões, do tipo "a vida tem um objectivo?", "o Universo teve um início?", "o que havia antes do tempo?", "Existem Universos paralelos com os quais não podemos interagir jamais?"... etc.

    Sobre esse tipo de questões, embora muito interessantes, Buda declarou que nada tinha a dizer. Podia-se perder demaisiado tempo e esforço à volta delas sem esperança de êxito. A sua doutrina, relembrou, limitava-se à doutrina da cesação do sofrimento.

    Ou seja, a angústia da procura (dessas) certezas inquestionáveis é atingida pela cessação das angústias e não pela obtenção das certezas. Mas nada há de mau em procurar, de preferência sem angústia, alguma dessas certezas, se tal se vislumbrar possível. No entanto, não é exercício intelectual ou científico ao alcance de todos. Não esqueçamos que Buda tinha a ambição de meter muita gente (toda a gente) na sua Arca...

    Assim, penso que fica claro que não há aqui nenhum cepticismo no sentido mais extremo: o da impossibilidade do conhecimento.

    Encontrei uma passagem curiosa (em http://en.wikipedia.org/wiki/Philosophical_skepticism ).

    "Diz-se que Buda tocou a terra no momento da sua iluminação, para que esta fosse sua testemunha".

    Encontrei uma bonita explicação para isso:
    http://realdharma.wordpress.com/tag/awareness/

    "Muitas formas de espiritualidade reclamam descendência do imaterial ou de reinos espirituais "superiores", estabelecendo uma oposição entre o espiritual e o material. Em contraste, Buda era um ser humano e ensinou que o despertar vem da própria terra."

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  6. Estranho, não é? Dito de outra forma: quanto mais sei, mais sei que nada sei. Ou ainda: o mais ignorante é aquele que tem certezas sobre tudo.
    Meu caro Lima, és capaz de me dizer se ficamos mais sábios ou mais ignorantes depois que descobrimos, nas primeiras décadas do século passado que, além da nossa, existem biliões de galáxias?
    É como se a nossa ignorancia aumentasse, exponencialmente, com o desdobramento (explicaçâo) da realidade.
    Não tarda nada, Buda convence-nos que o melhor é mesmo "fazer o que é apropriado em cada momento" e deixar-nos de perseguir "certezas absolutas"...

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  7. Ó Lima, tenho a impressão de que o Mário ganharia em falar com o sr. Godel (http://cronicadaciencia.blogspot.com/p/teorema-de-godel.html) e seria interessante vê-lo provar sem sombra de dúvida que o sr. Godel está certo, ou que está errado, ou que não está certo nem errado, ou ambas ao mesmo tempo. Qualquer delas faria o meu deleite, o do Buda, e o da terra...

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  8. Globalmente de acordo com o Luis, exceptuando o caso do Sr. Godel que ultrapassa as possibilidades de resolução dos meus neurones.
    Quanto ao Mário tenho uma duvida aqui: “quanto mais sei, mais sei que nada sei. Ou ainda: o mais ignorante é aquele que tem certezas sobre tudo.” Acho que o conceito enunciado pelo Luis: -“tudo o que se explica reduz o explicado. Reduz a ignorância, que muitas vezes, é boa parte do que se pretende explicar.”- não se refere exactamente à mesma ideia. A primeira citação, que foi uma das favoritas de Sócrates, aponta para o facto de todo o conhecimento humano ser forçosamente limitado, e que para compreender isso já é necessário chegar a um patamar elevado do saber. A segunda: -”o mais ignorante é aquele que ...”- penso que também não se encaixa muito bem na primeira, embora o seu sentido seja correcto. Para mim, aquele que tem certezas sobre tudo, é um verdadeiro ignorante, muito longe daquele que sabe “que não sabe nada”.
    Na citação do Luis fica-me a ideia de que, reduzindo o explicado, reduz-se a ignorância, que por seu lado vai pôr em evidência outras ignorâncias até aí ignoradas, o que pode provocar uma cadeia infernal... a vantagem é que a cadeia será percorrida em sentido montante, elevando o patamar do conhecimento.

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  9. Até agora, também concordo com o Lima nas interpretações das diferentes afirmações. Excepto com a da minha, claro... mais uma vez sucinto de mais - é o Zen a influenciar-me, o "never tell too plainly". Por miúdos, então:

    "tudo o que se explica reduz o explicado" - ou seja, as coisas desmistificadas perdem, num momento inicial, algum do seu encanto. Como os truques de magia: enquanto não nos explicaram, estão envoltos numa aura de mistério: daí que "Reduz a ignorância, que muitas vezes, é boa parte do que se pretende explicar". Ou seja, se não vemos a explicação na sua simplicidade procuramos soluções mais complexas. Ainda que as soluções complexas possam, tentadoramente, parecer mais simples. Por ex., contra a teoria da evolução das espécies de Darwin, maravilhosamente simples uma vez compreendida, mas complexa de lá chegar (daí o seu génio) surge uma outra teoria bem mais simples na aparência - Deus! - mas que, na realidade, é brutalmente complexa, uma vez que é irreconciliávle com a realidade observável, é mais um truque de "magia".

    Era isto... agora a minha frase, qual truque de magia, perdeu também o seu encanto...

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  10. Pois perdeu e agora vejo como tão mal a interpretei. Pensei, Luis, que estavas a falar do "reducionismo": desmontar a realidade até uma espécie de "nítido nulo". Por isso perguntei se me reduzissem a átomos o que ficariam a conhecer de "mim".

    Quanto ao problema do saber e da ignorancia, meu caro Lima, aí penso que foste tu a interpretar-me mal. Ou melhor, eu é que me expliquei mal demais.
    Com efeito, eu devia ter precisado que estava a colocar-me no plano da provocação, que é a metafísica. É o plano ou patamar a partir do qual se fazem as perguntas "inúteis" ou "fúteis", por saber-se de antemão que não têm resposta. Pura retórica, veio a dizer Buda (Luis dixit que ele dixit)mas os gregos peripatéticos haviam-se entretido longamente com elas. E chegaram a uma conclusão: a sabedoria é privilégio dos deuses e os homens não mais que amigos (filos) dela (sofia).
    Cada macaco no seu galho.
    Buda terá decidido que esta paixão (e procura)pela Sofia nunca passaria de "amor platónico" e virou-se para coisas ao alcance dos mortais: pensar e fazer em cada momento "o que for apropriado" (citando o Luis).
    Desde os "Gregos" e desde "Buda" ficaram delineados dois percursos distintos: os seguidores dos gregos ambicionam roubar o "fogo divino" da Verdade ou da Realidade (seja lá o que ela for)enquanto que os seguidores de Buda se acomodam ao abençoado pão-nosso-de-cada dia.
    Tolos, os gregos, e sábios, os budas?
    Ou então não é nada disto e vem aí bordoada do Luis...

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  11. É coisa certíssima, Mário, que a necessidade aguça o engenho. Desse ponto de vista estrito, o atenuar das necessidades proposto por Buda, que não é o ascetismo, mas apenas a moderação, sem dúvida mete travão a esse espírito de iniciativa. No entanto, é preciso reflectir sobre uma questão fundamental: qual é a função que andamos aqui a optimizar? Isso é crítico para avaliar o sucesso. Se a função é o progresso tecnológico, se calhar o budismo não é a melhor prática. Se é a busca da verdade, vamos degladiar-nos os dois sobre a resposta. Se é a procura da felicidade, é melhor vermos a história recente do Butão (http://en.wikipedia.org/wiki/Gross_national_happiness)...

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  12. Ok, tudo se torna mais claro. Muitas teorias pretensamente complexas, baseiam-se afinal em ideias muito simples. O conceito da evolução das espécies é explicável, portanto susceptível de ser compreendido; o conceito de Deus é inexplicável, portanto não pode ser compreendido. (Talvez Jesus já pensava isso mesmo, quando dizia: bem-aventurados os pobres de espírito …)

    Quanto “ao abençoado pão-nosso-de-cada dia”, Mário, não creio que faça parte do “credo” budista. Eu coloca esse conceito na linha de pensamento das bem-aventuranças, o que não deixa de ser redutor para o ser humano, na medida em que é uma incitação à inércia.

    Em fim de contas tens razão Luis. O progresso tecnológico é uma escravidão dos tempos modernos; a verdade é uma entidade multiforme, impermanente e fugidia; a felicidade então é como a cenoura, na história do burro: Andamos, andamos e nunca a agarramos.
    Resta-nos um ponto importante no ser humano que o diferencia do resto dos animais e que Fernando Pessoa tão bem exprimiu: "Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida ... “

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  13. Não foi o Pessoa, foi o António Gedeão, o amigo aqui do Luis e da fatalidade...
    E quanto ao "pão-nosso" dizes bem que não é nem podia ser credo budista, porque o budismo não tem credo. E tem a sua lógica, porque "crer" é uma atitude eminentemente metafísica. E, desta, o Buda fugiu como o diabo da cruz. A crença é a resposta humana à sua própria inquietação. Infelizmente a crença é geradora de mais ansiedade, "quando o homem se põe a pensar"...

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  14. Voltamos, então, um ano e meio atrás, Mário. Ao Gedeão, de novo. Através deste poema - e dos seus múltiplos significados, que resultam da relação do poema comigo, tal como, de resto, toda a realidade - através dele, dizia, encontro-te nos teus átomos.


    Lágrima de preta

    Encontrei uma preta
    que estava a chorar,
    pedi-lhe uma lágrima
    para a analisar.

    Recolhi a lágrima
    com todo o cuidado
    num tubo de ensaio
    bem esterilizado.

    Olhei-a de um lado,
    do outro e de frente:
    tinha um ar de gota
    muito transparente.

    Mandei vir os ácidos,
    as bases e os sais,
    as drogas usadas
    em casos que tais.

    Ensaiei a frio,
    experimentei ao lume,
    de todas as vezes
    deu-me o que é costume:

    Nem sinais de negro,
    nem vestígios de ódio.
    Água (quase tudo)
    e cloreto de sódio.

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  15. Mas vou ao cerne da questão. Para mim, o objectivo não é nem a Verdade, nem a Felicidade. É uma amálgama inseparável das duas. Estou condenado a procurar a Felicidade, mas só posso encontrá-la reconciliado totalmente com a Verdade.

    Nesse sentido, o hedonismo e o uso de drogas recreativas não é uma alternativa.

    O budismo, para mim, não é uma droga recreativa na forma de compromidos filosóficos. É um avanço científico, e portanto um avanço na busca da Verdade, na medida em que esclarece que a nossa percepção da realidade é relativa e condiciona o nosso entendimento do que se está a passar.

    Tu és aquele aqui, Mário, que mais parece defender o espírito e avanço científicos (sublinho o "parece"). Mas com frases como "Depois de me reduzires a átomos, Luis, o que vais ficar a saber de mim?", pergunto-me se aceitas que, no limite, não há razão para estabelecer uma fronteira entre a matéria que te constitui e toda a restante matéria do Universo, a não ser com objectivos pragmáticos e preconceituosamente humanos e que, de um ponto de vista absoluto, são desprovidos de sentido. Achas que os seres humanos mereciam algo mais?

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  16. Mea culpa pelo meu lapso. Que o António Gedeão me perdoe!

    Luis, antes que o Mário responda dou a minha: Deixando de parte o ponto de vista absoluto, vejo uma fronteira entre a matéria constitutiva do homem e o resto da matéria: é a mesma que existe entre matéria e pensamento.

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  17. Bem, Lima: se eu tentava ir ao cerne, tu agora foste ao busílis do cerne da questão! Eu aí tenho uma certeza e uma fraqueza. São as seguintes:

    É para mim certo que o pensamento é suportado pela matéria. Tal e qual como a execução de um programa é suportada pelo hardware do computador. Tal e qual. Uma lógica determinística, mas demasiado complexa para ser previsível por quem está de fora. E assim se explica para mim todo o comportamento dos seres vivos, humanos naturalmente incluídos. Cada palavra que dizem, cada decisão que tomam, cada paixão que sentem, o comportamento consciente.

    A fraqueza é intuitiva: diz-me exclusivamente respeito à consciência. E o que a intuição me diz é que, se o comportamento consciente se encaixa no esquema descrito atrás, (entendido como o comportamento que denuncia a existência de uma consciência, numa espécie de teste de Turing...), por outro lado a sensação dessa mesma consciência, essa projecção interior, origina o problema vulgarmente chamado de "The Hard Problem Of Consciousness". E essa ainda não resolvi. Tenho a convicção lógica de que isso tem de ser explicado junto com tudo o resto, no esquema anterior, mas não me livro da sensação intuitiva. Dou-lhe é porrada, para não se meter na conversa. Não gosto de intuições. Temos aqui um problema metafísico, e cria-me ânsias.

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  18. Estamos no "centro do furacão", amigos, e eu agora estou cheio de fome. Fica para mais logo, se é que ainda ficou alguma coisa por dizer...

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  19. Fiocu por ler! Esta conversa foi o gatilho para mais uma pesquisa no Google, e sinto que frutosa! Tenho a intuição (outra!) de que estes links abaixo, embora em inglês, têm muito sumo!

    http://www.mentalstates.net/revisited.html
    http://www.mentalstates.net/consciousness.html

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  20. Há quem julgue que não se vai lá por processos ortodoxos...

    (David Chalmers on the "hard problem" of consciousness)
    http://www.youtube.com/watch?v=kdbs-HUAxC8

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  21. Nem de propósito, Luis. Há mesmo quem julgue que não se vai lá por processos ortodoxos. Será o momento de virar a página...É exactamente isso que pensa Marcelo Gleiser. Vou abrir com ele um novo post

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