sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Budismo do Luis

À medida que te leio sobre o teu budismo fico com impressão de que estás a construir o teu próprio budismo. É como se tentasses conciliar o teu amor à ciência com o pensamento budista que te despertou para a consciência da «fragilidade» da nossa humana condição. É um pensamento antigo, subtil, denso e profundo e mexe, naturalmnente, com cordas muito sensíveis da nossa natureza de seres dotados de uma mente consciente. Ele é como uma voz a ecoar do fundo dos tempos e ao mesmo tempo do fundo da alma humana. Vi um «Dalai Lama» português na TV que fez uma pequena demonstração, em que estava presente a atriz Adelaide Ferreira, ela própria seduzida pelo budismo. A sessão começou com o soar de um sino, que só de ouvir convidava ao recolhimento! Acrescenta à "misteriosa voz"do sino uns pensamentos apropriados à circunstancia, recordados e meditados, e temos um budista a elevar-se acima do sofrimento do dia a dia.
Os brincalhões dizem que um bom «charro» faz o mesmo efeito, "anestesiante" da vida real.

7 comentários:

  1. É claro que estou a construir o meu próprio budismo. Enquanto achar que se pode chamar "budismo", usarei essa palavra. Espero que funcione como atalho para quem saiba o que o budismo realmente é. Se calhar tem funcionado ao contrário, e as pessoas pensam que eu acredito que um dia vou reencarnar como um coelho, ou outro disparate qualquer.

    Já agora, uma curiosidade... o budismo é um caminho, que só é para ser percorrido, não é para ficar por lá. Aqueles que atingiram realmente a iluminação deixam de ser budistas. Ser budista é uma característica de quem, não tendo (entre outras coisas) uma visão correcta da realidade, ainda está a aperfeiçoá-la.

    Sendo o budismo uma via que passa pela eliminação do apego, não vejo um charro como boa analogia. O apego ao budismo (como aos charros) é um erro e é dito explicitamente que os que caem nessa situação podem tornar-se incuráveis. Como os tipos viciados em metadona: o que é que se lhes vai dar a seguir...?

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  2. Um iluminado não tem apego a coisa nenhuma, o que lhe permite agir de acordo com as efectivas necessidades das circunstâncias, sem limitações e outras reservas mentais. Penso que já uma vez citei a história abaixo, mas pelo sim pelo não cá vai ela:


    Durante as guerras civis no Japão feudal, os exércitos invasores rapidamente invadiam as cidades e tomavam o controlo. Numa vila em particular, todos fugiram pouco antes da chegada do Exército - todos, excepto o mestre Zen.

    Curioso acerca desse velhote, o general foi ao templo para ver por si próprio que tipo de homem era este mestre. Quando não foi tratado com a deferência e submissão a que estava acostumado, o general encolerizou-se.
    "Seu tolo", gritou ele enquanto estendia a mão para a espada "não percebes que estás diante de um homem que pode trespassar-te sem piscar um olho!"

    Mas, apesar da ameaça, o mestre parecia impassível.
    "E tu, percebes" replicou calmamente o mestre, "que estás diante de um homem que pode ser trespassado sem piscar um olho?"

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  3. «Ser budista é uma característica de quem, não tendo (entre outras coisas) uma visão correcta da realidade, ainda está a aperfeiçoá-la». Dizes, Luis.

    Não ter uma «visão correcta da realidade». Ora aqui é que está o busilis. Eu afirmo que a «realidade» não pode ser "avistada" nem correcta nem incorrectamente (ilusão e erro são incorrecções), mas apenas "parcialmente" e por dois motivos:
    1- A realidade está em «fase de construção».
    2- Assim sendo, só podemos compreendê-la parcialmente, exactamente na parte construida.

    Neste sentido, embora não precisamente, vai o pensamento de Damásio que cita Richard Feynman: «O que não consigo construir não consigo compreender».
    Compreender correcta ou incorrectamente será o natural caminho do nosso «calvário» e a incorrecção (ignorancia) está na origem do sofrimento. Estatelamo-nos no chão, quando calculamos mal o salto. O sucesso da construção da vida iniciado há vastos milhões de anos tem de contar com este percurso sinuoso e íngreme, que supõe sofrimento, stress, acção persistente e erros persistentes...até acertar. E quando se acerta na realidade acerta-se, tão somente na realidade parcial que também poderemos dizer verdade parcial.

    O erro ou a incorrecção nunca são a verdade parcial. A Física de Newton não foi superada por ser errada ou incorrecta, mas traduzir apenas uma parte da física.
    Para mim, a questão fundamental não será uma questão de «iluminação», como de enchergar o invisivel, o tal cavalinho a três dimensões que nos escapa ao primeiro olhar. Não existe «cavalinho» escondido para ver, mas um sonho de «cavalinho» para construir, como viver debaixo de água ou voar no espaço.
    Einstein disse que a «racionalidade está materializada no universo» e nós temos de a captar para reproduzir o próprio universo.
    É uma descoberta, de facto, mas não é o mesmo que uma «iluminação» budista, tanto quanto eu entendo pelo que me dizes da iluminação budista. Não me consta que o budismo se interesse por descobrir e reproduzir as leis do universo.
    O exemplo que dás do General e do sábio monge, apenas nos ensina que podemos olhar um acontecimento sob diferentes perspectivas. É um lindo ensinamento e mais um que pode ser muito útil pela vida fora, para descobrir parcelas de verdade. Nada mais do que isso.
    Agora avança tu, a ver se chegamos a algum lado...

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  4. Discordo de algumas coisas. Bora lá... (mesmo que dois pés não se entendam, parados não ficam).

    Para mim a realidade não está "em construção", mas sim em mudança: "Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

    Quanto à descoberta da verdade, a minha intuição tmbém me diz que dificilmente poderá passar de uma compreensão parcial. Mas vamos progredindo, certo? O nosso modelo da realidade, esse "contrói-se". E, esperemos, aperfeiçoa-se. É útil modelizar para, simplificando, agir sobre a realidade. Mas quanto mais «estatística» fazemos, quantos mais «modelos», quantos mais «diagramas», quantos mais «padrões», mais afastados estamos da natureza da realidade subjacente. E isso não pode ser perdido de vista. Sob pena de estar lá o «cavalinho», e nunca mais ser visto, se só se ver o pano de fundo. Ou só se ver o «cavalinho», e nunca mais se ver o pano de fundo.

    A realidade está para além dos nossos modelos. Pensar que os modelos *são* a realidade, isso não é nada realista! Os modelos são úteis, pragmáticos. Se para defender o humanismo, por vezes há que atacar a tecnocracia, não é menos verdade que, para defender o realismo, por vezes é preciso atacar a antropocracia (à falta de palavra melhor). "Isso é desumanizante", adivinho. Nem mais.

    Permitam-me discordar de que a Física de Newton não esteja errada nem incorrecta. Pode ser entendida como estando efectivamente errada ou incorrecta, na medida em que, não sendo a Teoria de Tudo, possa como tal ser usada. O modelo serve para o que serve, e chegou-se a pensar que servia para mais do que realmente serve. Se um modelo tem determinado objectivo, então está correcto se funciona e permite cumprir o objectivo. Se o objectivo era tudo explicar, estava errada. Encarada com humildade de objectivos, a teoria está certa e dá um jeitão.

    O propósito do budismo, como dizes, não é descobrir nem reproduzir as leis do universo. É um caminho de salvação: procura a cessação do sofrimento. Mas isso não quer dizer, e sublinho-o vivamente, que para tal não se apoie numa concepção do mundo que eu classificaria de ultra-realista, o que poderá, para alguns, constituir um acto tão ou mais sacrílego do que era, há uns séculos, pegar num bisturi para escalpelizar um cadáver. É pôr tudo em dúvida e dizer "isto se calhar não é bem como a gente imagina". É um atrevimento. É uma mudança de paradigma. É saltar fora da carroça. É mijar fora do penico.

    Dá-me vontade de citar este poema:
    http://www.releituras.com/jregio_menu.asp

    Voltamos aos testes de daltonismo:
    http://www.daltonicosnotransito.com.br/descubra_se_e_daltonico.php

    Existem *mesmo* números nestas placas (isto é, têm existência intrínseca)? Ou depende de quem vê?

    Este link parece-me interessante de explorar, para compreender a visão do Budismo sobre algumas coisas, e é o que farei, pois não sei tudo, nem concordo necessariamente com tudo. É em português do Brasil:
    http://www.dantas.com/budismo/origem_dependente_1.htm#T11a

    Ando às voltas?

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. "Para mim a realidade não está "em construção", mas sim em mudança: "Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

    Penso que reside aqui uma das razões fundamentais das nossas discordancias.

    O termo "construção" pode não ser o mais adquad0, mas na verdade, Luis, o que aconteceu comigo ou contigo desde que nascemos não foi uma simples mudança^. Houve crescimento, estruturação e construção efectiva. Nem tão pouco aquilo que sou hoje estava determinado à partida. Estava "determinado" que tivesse duas pernas e cinco sentidos, mas não que eu fosse futebolista ou usasse óculos. Muito menos que fosse para frade carmelita, etc etc. E de um outro qualquer ser vivo se pode dizer algo de semelhante.
    Falar-se em "mudança", diz-se tudo e não se diz nada. Nesse sentido "casa" bem com o pensamento budista.

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  7. Permite-me discordar: no Universo inteiro a entropia está a aumentar, por isso se tivermos que escolher entre "ocnstrução" e "destruição", de certeza que vamos pela última. Só numa perspectiva antropocêntrica, ou egocêntrica, é que vemos a humanidade a construir-se, ou eu a construir-me. Mas isso é insignificante, no espaço e no tempo, face à realidade do Universo. Claro que se focalizarmos a questão, então por ex. a humanidade está em construção - Portugal, em particular, em destruição, ou assim parece - etc.

    Portanto, aqui para mim a palavra chave é humildade.

    Faz-me lembrar (esta carola não pára com as associações!) o índio Alce Negro, no seu maravilhoso livro "Alce Negro Fala":

    "Meu amigo, vou-te contar a história da minha vida, como desejas; e se fosse apenas a história da minha vida, eu acho que eu não o faria, pois que vale um homem, para que ele tome por grande coisa os seus invernos, mesmo quando eles o curvam como a neve pesada? Tantos outros homens já viveram e viverão essa história, para serem erva sobre as colinas."

    Quanto à pré-determinação, ja expus o meu caso, e não o vi desconstruído: tudo respeita as leis da Física, acredite-se ou não na aleatoriedade ao nível quântico. Assim, o modelo funciona suficientemente bem para eu poder afirmar que, se alguma coisa não é certa, não depende de mim. Eu próprio sou suficientemente bem modelizado pela Física. Assim, no que me diz respeito, tudo está pré-determinado.

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