terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Milagres da Ciencia e Milagres da Fé

Há dias li aqui na net duas notícias que merecem um pouco de reflexão. A primeira contava que o falecido Papa João Paulo II fizera o milagre necessário para se iniciar o processo da sua elevação aos altares. A segunda anunciava a descoberta de um processo revolucionário para detectar as células cancerígenas e que também abria caminho ao tratamento personalizado do cancro.
Não pude deixar de pensar na profunda diferença de atitude dos homens da ciência que procuram servir a Humanidade e dos homens da fé que parecem estar mais preocupados em servir-se cada um a si próprio. A "pedagogia do milagre" está voltada para o individuo e para o destino individual. De certa forma, esta pedagogia cristã do milagre veio preencher o insuportável vazio surgido entre as primitivas comunidades cristãs, após a esperança frustrada da "segunda vinda" de Cristo, tão profusamente anunciada pelo incansável apóstolo S.Paulo. Esta segunda vinda coincidiria com o "fim dos tempos" em que, milagrosamente, a terra e os céus seriam transformados, juntamente com a própria Humanidade. Nessa altura, toda a pedagogia da fé tinha como destinatária a comunidade como um todo, seja para a vida presente, seja para a morte e ressurreição. Foi esse espírito que fez com que os primitivos cristãos vendessem os seus bens e entregassem o produto da venda nas mãos dos apóstolos para serviço de todos. Foi nesse tempo que se consagrou a sugestiva metáfora da Igreja como o "Corpo Místico de Cristo". E esta "igreja" era para a universalidade dos homens.
A "segunda vinda", porém, não aconteceu e desde então até aos nossos dias o cristianismo teve que adaptar não só a sua fé e a sua esperança como também a sua teologia e pedagogia. O resultado foi uma flagrante fileira de contradições entre a palavra dos textos sagrados e as práticas religiosas, exemplarmente ilustrada nesta história de milagres ao jeito da salvação da alma de cada um , que não do homem todo ressuscitado e de uma comunidade ressuscitada.
Se eu pretendesse estabelecer uma ligação entre o cristianismo de S.Paulo e os caminhos percorridos pela ciência, diria que os cientistas estão a concretizar a ressurreição anunciada por S.Paulo, embora de uma forma que ele não poderia suspeitar. É, claramente, uma ressurreição resultante da obra da comunidade humana e para sucesso da mesma comunidade como um todo.
Nesta perspectiva, o culto dos milagres como este que acaba de ser anunciado aparece como um perfeito anacronismo face à evolução das diversas ciências.
A marcha do mundo não pára e, nos tempos que correm, os "prémio Nobel" vão substituindo os santos dos altares.
A canonização vai-se fazendo na Suécia.
Não é o novo culto da "deusa ciência", porque hoje sabemos bem que esta deusa, tanto quanto todas as outras deusas e deuses dos nossos avós, é produto do génio humano. Definitivamente, somos especialistas em sonhar, inventar e criar. Talvez só nos falte mesmo criar um Criador. Não é coisa que não tenha ocorrido a Einstein. Fez a pergunta e tudo...

7 comentários:

  1. "Construí a vossa casa sobre a rocha", diz a Igreja, mas apoiar a fé nos milagres é construí-la num pântano. Porque os milagres são fundados na ignorância da Humanidade, não no conhecimento. Pega-se numa situação inexplicável (por exemplo, uma cura, ou pretensa cura), junta-se uma coincidência (por exemplo, por essa altura fulano rezou pensando no Papa) e associam-se ambas numa relação de pseudo-causalidade. Isto é lastimável. Aliás, os milagers de hoje são as banalidades de amanhã, mas disso ninguém fala. O segredo é conseguir aproveitar a ignorância de hoje...

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  2. Já agora, e por se falar aqui em ressurreição... aplicando a mesma boa vontade de interpretação que tenho com o Buda, é possível reinterpretar o conceito habitual de ressurreição, tal como reinterpreto o conceito habitual de reencarnação. A nossa pseudo-existência (uma vez que não é intrínseca) baseia-se numa incidência de continuidade causal da matéria que "nos" constitui. Ou seja, há mais continuidade causal em mim e no Mário individualmente do que no conjunto eu + Mário ou do que no conjunto eu + esta cadeira em que me sento. A ressurreição / reencarnação de eu em mim próprio, instante a instante, pode ser vista como nada mais do que a manutenção desta continuidade. Reencarnar/ressucitar para uma vida melhor é transformarmo-nos de um instante para outro. É perceber que não somos estáticos, nem talvez haja passado, nem futuro, e os presentes se sucedam.

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  3. Luis, sobre o que disseste acerca dos milagres eu não saberia dizer melhor que tu. O homem que ambos admiramos, Car Sagan, é implacável a combater tanto o simples embuste como as pseudos intervenções do «exterior», divinas ou extra terrestres. Habituei-me a pensar, mesmo quando era crente professo e militante que a «natureza» tem as leis necessárias para a sua existencia «óptima». E, se assim não fosse, Deus, o artífice dos artífices, teria criado uma obra defeituosa, sempre a necessitar de ir à revisão. Ora isso até nós fariamos...
    Quanto à perspectiva budista da "ressurreição", se há alguma ligada a Buda, muito agradecia que a truxesses em post aqui ao blog, para poder confrontá-la com a ressurreição cristã, que esta teologia conheço bem.
    Quem sabe, isso até me ajudará a conhecer o budismo sem ser através de uma TV marada.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Bem estruturado o teu pensamento neste tema, Mário. Sente-se que o vês bem por dentro.
    A terminar falas de criar um Criador. Ora aí fazes-me lembrar um pequeno episódio que se passou comigo há alguns anos. Fazia eu tranquilamente o meu joging semanal nas margens verdejantes do rio Marne, e, como de costume, este passeio não só servia para robustecer o físico, mas também o metafisico. Nessas ocasiões era corrente a minha mente deixar as águas e a verdura, e vaguear em níveis superiores, em prospecções e conjecturas. E foi assim que um dia, ao invocar em pensamento a tão conhecida frase bíblica, “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”, tive uma espécie de estremecimento. É que esta frase, que explicita o dogma da criação, em várias religiões do mundo, me aparecia agora completamente inversa, e nesta posição de uma evidência incontestável: “O homem criou Deus à sua imagem e semelhança.” Na altura tive a impressão de fazer uma descoberta digna do prémio Nobel, depois vim a saber que já há muitos, muitos anos, outros tinham descoberto a mesma coisa. Guardei para mim a vergonha da minha ignorância, e aproveitei para ir mais longe em busca da verdade.
    A verdade, porém, como diria o Luis, é impermanente e fugidia, difícil de se deixar capturar de forma definitiva. De tal maneira que ainda hoje, se deixo solto o pensamento, ouço em eco a pergunta: “Ela está onde, a verdade?”

    Do primeiro comentário do Luis ressalvo uma palavra: ignorância. Já aqui notei a importância deste fenómeno, origem de muitos males e incompreensões. Se alguém se acha com coragem, penso que é assunto que merece exame. Da minha parte, primeiro tenho que me extirpar de dentro, só depois o poderei atacar de frente.

    Vejo que as vossas cogitações continuam num alto patamar de ruminações filosóficas. Lembrem-se que a humanidade do homem é mais real e próxima de nós do que todas as conjecturas metafísicas que possamos inventar.

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  6. Uma notícia para o Luis. (Se o é).

    Nas minhas peregrinações pela FNAC tive ocasião de folhear o novo livro de Matthieu Ricard, (em francês, ediçao “Nil” de 2010), “ CHEMINS SPIRITUELS” - “Petite anthologie des plus beaux textes tibétains”
    É o sumo dos ensinamentos de Buda.
    Penso que não existe ainda edição em português.

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  7. Obrigado! Vou investigar. Mas, embora o budismo tibetano seja tido em grande conta, e eu até goste de ler livros do Dalai Lama, tenho a forte impressão de que é dos que mais impregnado está de toda a sorte de superstições (ver por ex. o Livro Tibetano dos Mortos). Há muitos budismos, e eu só sigo (ou digo que sigo) o meu. Chamo-lhe budismo para abreviar... :-)

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