Se estivesse a escrever para um livro colocava o subtítulo “O melhor da consciência é o amor”.
Rios de tinta gastos para definir o amor e quase sempre se esquece, “no ardor da paixão”, que o amor é o filho maior da consciência humana. Assim mesmo, à letra: amamos, quando atingimos a maioridade consciente.
À frieza distante e infinita do Universo ou de um Deus com ele identificado, responde o calor próximo do nosso amor que retribuí com o olhar consciente de um amor finito, bem à nossa medida. De mãos dadas ou consciências entrelaçadas podemos olhar o Universo sem medo da sua esmagadora grandeza. Quase apetece beijar-nos no cimo da montanha mais alta e provocá-lo com a singularidade da nossa consciência amorosa, sem dizer, apenas pensando, porque o universo é cego e surdo:
isto, e olham-se nos olhos os amantes, tu não tens ou não és.
A morte certa destrói a consciência e o amor. A Humanidade tem lutado persistentemente contra esta fatalidade, ora erguendo monumentos de saudade, ora inventando formas de preservar a vida e fazer durar os dias e os anos da felicidade.
Apesar de “ele” aparecer tão insensível às “criaturas” que gerou, nós queremos conhecer o “Pai”. E ficamos confusos. Não sabemos se agradecer-lhe a realidade a que chegamos e somos, se reprovar-lhe o facto de nos ter entreaberto a porta do paraíso, para logo de seguida a fechar com estrondo na nossa cara, como que a dizer “desenrascai-vos na verdade efémera e sofrida de uma vida”.
Mas nós somos bons filhos e acabou por germinar em nós a semente da gratidão. Já não estamos em guerra com o “Pai”. Afinal, a vida pode ser uma festa breve, mas é tão bom enquanto dura. E agora sabemos que podemos prolongá-la mais e mais. No tempo e no carinho.
Também nisto adultos, finalmente.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
Indiferença Desconcertante II
É recorrente as pessoas referirem a “força bruta dos elementos” , em face de uma qualquer catástrofe natural. Sabemos da história religiosa dos homens como estas “forças” ganharam vida e nome próprio e foram entronizadas nos altares do medo, da ignorância genuína e da vontade de sobreviver aos seus ataques impiedosos e destruidores. Em desespero de causa, a Humanidade sacrificou-lhes os próprios filhos, oferecendo-os e imolando-os para aplacar a ira incontrolada. Esta forma derradeira de medo e de impotência perante a “força dos elementos” e, em última análise, da morte iminente, não tem paralelo no Universo, até onde nos foi possível conhecê-lo. E não há como negar que esta atitude “religiosa” da Humanidade resulta da sua condição única de ter chegado à mente consciente.
A emergência da consciência humana foi como terrível despertar em pleno campo de batalha, sem saber como nem porquê. E têm sido milhares de anos vivendo este drama em plena consciência.
Substituir o Universo infinito, escuro, frio e indiferente, por forças personalizadas dos elementos (deuses) ou mesmo por um Deus Único, quer identificando-o com esse universo quer imaginando-o "por detrás”,gerando-o ou criando-o, não nos livra do seu comportamento arbitrário, de absoluta indiferença, em que somos tratados como um caracol que se esmaga com uma patada ou se faz dele um petisco apreciável.
Apesar de tudo, a Humanidade resistiu heroicamente. Desenrascou-se como soube e pôde e andamos nisto desde que nos descobrimos senhores de uma preciosa mente consciente. Preciosa, sim, embora a sua luz quase nos cegue, porque foi graças a ela que inventamos mil e uma formas de fintar o destino e garantir a sobrevivência.
Não somos vencedores de deuses nem escapamos ao universo que nos dá a vida e no-la pode tirar em qualquer curva do íngreme percurso, mas podemos exibir um espírito consciente, com assomos de pura liberdade, capaz de fazer inveja ao Grande Universo que nos pariu. E se “ele” tem melhor, estamos à espera para ver.
A emergência da consciência humana foi como terrível despertar em pleno campo de batalha, sem saber como nem porquê. E têm sido milhares de anos vivendo este drama em plena consciência.
Substituir o Universo infinito, escuro, frio e indiferente, por forças personalizadas dos elementos (deuses) ou mesmo por um Deus Único, quer identificando-o com esse universo quer imaginando-o "por detrás”,gerando-o ou criando-o, não nos livra do seu comportamento arbitrário, de absoluta indiferença, em que somos tratados como um caracol que se esmaga com uma patada ou se faz dele um petisco apreciável.
Apesar de tudo, a Humanidade resistiu heroicamente. Desenrascou-se como soube e pôde e andamos nisto desde que nos descobrimos senhores de uma preciosa mente consciente. Preciosa, sim, embora a sua luz quase nos cegue, porque foi graças a ela que inventamos mil e uma formas de fintar o destino e garantir a sobrevivência.
Não somos vencedores de deuses nem escapamos ao universo que nos dá a vida e no-la pode tirar em qualquer curva do íngreme percurso, mas podemos exibir um espírito consciente, com assomos de pura liberdade, capaz de fazer inveja ao Grande Universo que nos pariu. E se “ele” tem melhor, estamos à espera para ver.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Indiferença Desconcertante
Todos conservamos fresca a memória das tragédias nos mares do Japão e da Indonésia que provocaram centenas de milhares de mortos, resultantes de maremotos seguidos de tsunami.
Com a mesma indiferença com que esmago no meu quintal um caracol, inadvertidamente no meu caminho, a natureza se abate "impiedosa" sobre a humanidade.
O advento da ciência, em força, com os "gigantes" como Kepler, Galileu ou Newton, a presença de "forças sobrenaturais" era aceite sem questionar. Se algo se movia ou acontecia é porque alguém empurrava ou fazia acontecer.
Seja para proteger e ajudar, seja para atacar e punir, o "sobrenatural" assinalava continuamente a sua presença.
Atingimos um patamar de conhecimento que nos permite constatar que as forças conhecidas ou ainda desconhecidas "tratam" com a mesma indiferença uma galáxia, uma estrela, um planeta, a matéria morta ou a matéria viva, a vida sem consciência e a vida consciente. O Único privilégio de cada ser consiste na sua própria existência.
O ser humano que se considera único por ser consciente, terá de reconhecer que a consciência não faz dele um privilegiado no universo. Torna-o, apenas perante si mesmo, raro e único, mas apesar de ter a consciência da sua especificidade está tão sujeito à "indiferença" das leis universais como a mais insignificante realidade da matéria. Um meteorito perdido pode acabar quase de repente com biliões de anos de evolução da vida.
Como se o homem tivesse escapado das "mãos de Deus" para cair na teia implacável das leis do Universo.
Terá o budismo intuído esta constrangedora realidade "moderna" e daí apontou o tal "caminho do meio" como a saída mais "airosa"?
Com a mesma indiferença com que esmago no meu quintal um caracol, inadvertidamente no meu caminho, a natureza se abate "impiedosa" sobre a humanidade.
O advento da ciência, em força, com os "gigantes" como Kepler, Galileu ou Newton, a presença de "forças sobrenaturais" era aceite sem questionar. Se algo se movia ou acontecia é porque alguém empurrava ou fazia acontecer.
Seja para proteger e ajudar, seja para atacar e punir, o "sobrenatural" assinalava continuamente a sua presença.
Atingimos um patamar de conhecimento que nos permite constatar que as forças conhecidas ou ainda desconhecidas "tratam" com a mesma indiferença uma galáxia, uma estrela, um planeta, a matéria morta ou a matéria viva, a vida sem consciência e a vida consciente. O Único privilégio de cada ser consiste na sua própria existência.
O ser humano que se considera único por ser consciente, terá de reconhecer que a consciência não faz dele um privilegiado no universo. Torna-o, apenas perante si mesmo, raro e único, mas apesar de ter a consciência da sua especificidade está tão sujeito à "indiferença" das leis universais como a mais insignificante realidade da matéria. Um meteorito perdido pode acabar quase de repente com biliões de anos de evolução da vida.
Como se o homem tivesse escapado das "mãos de Deus" para cair na teia implacável das leis do Universo.
Terá o budismo intuído esta constrangedora realidade "moderna" e daí apontou o tal "caminho do meio" como a saída mais "airosa"?
quarta-feira, 22 de junho de 2011
O "Ministerio Da Saúde"
A ideia para este post surgiu-me no seguimento dos meus últimos dois comentários à postagem EU SO QUERO SER. Aí afirmei que a única forma de preservar a minha identidade (se quiserem chamem-lhe alma ou espirito ou mente ou o que vos der mais jeito) era preservar a vida do conjunto indissociável e intrinsecamente solidário "corpo-cérebro". E mais uma vez lembro que estou a seguir a neurocência de António Damásio, oferecida de bandeja no seu LIVRO DA CONSCIENCIA. E quando falo no "corpo-cérebro" da neurociência, também podia falar do "pensamento-sentimento" do mesmo Damásio, na sua outra obra SENTIMENTO DE SI ou no ERRO DE DESCARTES.
Todo este intróito para repisar que EU me vou inteirinho juntamente com aquele suporte tão frágil, tão exposto a perigos de toda ordem e tão radicalmente necessário para que continue a dizer "estou aqui" e "sei que estou aqui". Este momento de auto-consciência, único na vida do Universo conhecido, é a mais fabulosa criaçâo da vida e ao mesmo tempo a raiz do "pensamento sentido" da solidâo individual e colectiva.
É quando EU me comprazo no abraço emocionado e consciente do meu amor- um outro EU -ou quando a Humanidade -Colectivo EU - perscruta os céus e pensa no Universo como um Infinito EU. Vulgo, Deus.
E posso garantir-vos que se entrelaçarmos a nosso consciência com a consciência do nosso amor, deixamos de andar perdidos de templo em templo, de deus em deus, em busca de um lenitivo para a solidão porque, pelo menos para a minha e para a tua solidão, o amor consciente é antídoto perfeito.
A Humanidade, o colectivo EU, pode contar com os muitos séculos que tem pela frente para sonhar com o EU INFINITO do seu INFINITO UNIVERSO.
Mas EU não tenho séculos à minha frente e posso nem ter anos nem meses nem dias. Por isso é tão urgente o "meu amor", como o encontro possivel com o Infinito e com alguém que me "reconhece" e me "recebe", e EU reconheço, recebo e integro na minha vida. Este amor será tâo precário, breve e esplendoroso como um fogo-de-artificio mas nem por isso deixa de ser a coisa mais importante da vida.
E assim podemos viver a festa de um dia depois do outro, na expectativa de muitos mais. Mas para isso precisamos de um bom "Ministério da Saúde".
Já sem contar com os precalços de toda a ordem, imprevistos e violentos como um tsunami e contra os quais ainda nada podemos fazer, é urgente cuidar da saúde do "corpo-cérebro", do nosso e dos "outros", sustentáculo e garante da breve festa da vida. Porque é nesta realidade corporal que tudo começa e tudo acaba. Pensar que é de outro jeito, apenas servirá para disfarçar o desastre pessoal de nunca ter encontrado o amor consciente de alguém.
Estava a pensar agora mesmo se foi boa ideia convidar um banqueiro para o "Ministério da Saúde". Porém, muitas vezes as coisas não são o que parecem.
A ver vamos.
Todo este intróito para repisar que EU me vou inteirinho juntamente com aquele suporte tão frágil, tão exposto a perigos de toda ordem e tão radicalmente necessário para que continue a dizer "estou aqui" e "sei que estou aqui". Este momento de auto-consciência, único na vida do Universo conhecido, é a mais fabulosa criaçâo da vida e ao mesmo tempo a raiz do "pensamento sentido" da solidâo individual e colectiva.
É quando EU me comprazo no abraço emocionado e consciente do meu amor- um outro EU -ou quando a Humanidade -Colectivo EU - perscruta os céus e pensa no Universo como um Infinito EU. Vulgo, Deus.
E posso garantir-vos que se entrelaçarmos a nosso consciência com a consciência do nosso amor, deixamos de andar perdidos de templo em templo, de deus em deus, em busca de um lenitivo para a solidão porque, pelo menos para a minha e para a tua solidão, o amor consciente é antídoto perfeito.
A Humanidade, o colectivo EU, pode contar com os muitos séculos que tem pela frente para sonhar com o EU INFINITO do seu INFINITO UNIVERSO.
Mas EU não tenho séculos à minha frente e posso nem ter anos nem meses nem dias. Por isso é tão urgente o "meu amor", como o encontro possivel com o Infinito e com alguém que me "reconhece" e me "recebe", e EU reconheço, recebo e integro na minha vida. Este amor será tâo precário, breve e esplendoroso como um fogo-de-artificio mas nem por isso deixa de ser a coisa mais importante da vida.
E assim podemos viver a festa de um dia depois do outro, na expectativa de muitos mais. Mas para isso precisamos de um bom "Ministério da Saúde".
Já sem contar com os precalços de toda a ordem, imprevistos e violentos como um tsunami e contra os quais ainda nada podemos fazer, é urgente cuidar da saúde do "corpo-cérebro", do nosso e dos "outros", sustentáculo e garante da breve festa da vida. Porque é nesta realidade corporal que tudo começa e tudo acaba. Pensar que é de outro jeito, apenas servirá para disfarçar o desastre pessoal de nunca ter encontrado o amor consciente de alguém.
Estava a pensar agora mesmo se foi boa ideia convidar um banqueiro para o "Ministério da Saúde". Porém, muitas vezes as coisas não são o que parecem.
A ver vamos.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O Meu Karma Karmelita
Esta foi bem achada, Luis. Ao ler fiquei a sorrir, agradado, pelo teu "olho clínico".
Há dias um amigo, filósofo encartado e tudo, disse-me o mesmo mas d forma mais "radical". Já lhe respondi pessoalmente e também no blog dos aaacarmelitas. Pesco do blog:
Re-convertido ao cristianismo
Assim mesmo me escreveu um amigo de longa data. Não sei em que texto viu a minha "re-conversão", mas posso garantir que está equivocado, pela simples razão que eu nunca me des-converti.
Há muito tempo que para mim o cristianismo é muito mais que um "corpo" de ensinamentos, de dogmas e de liturgias. Reconheço-o como a matriz da minha cultura e des-converter-me dela seria negar-me a mim próprio.
No cristianismo interiorizei a fraternidade universal e o amor como o único mandamento para a vida. Nele me tornei militante dos direitos universais da pessoa humana.
Nele vi nascer as democracias, tão imperfeitas quanto as pessoas que as puseram de pé.
Do cristianismo vi emergir uma filosofia humanista, centrada na dignidade da pessoa humana, que produziu a magna carta dos Direitos do Homem.
Das raízes profundas da minha cultura cristã cheguei a esta conclusão libertadora de todos os fantasmas e medos ancestrais: Deus só pode ser este misterioso e infinito Universo que nos gerou, mas um “Infinito de Consciência Pessoal”, que não pode ser identificado com as estrelas ou galáxias, porque a “Consciência” está par além delas de uma forma tão real e misteriosa como a nossa própria e pessoalíssima consciência.
Mas isto é pouco mais que um sonho e no cristianismo se chamou fé e tomou, precipitadamente, como certeza. Não faz mal nenhum que as pessoas vivam como certezas os seus sonhos, desde que respeitem as certezas e os sonhos dos outros.
Por causa deste sonho que fiz meu, comecei a valorizar o papel central das ciências neste mundo do século XXI. Elas procuram desvendar os mistérios da Vida e do Universo, porque tudo o que é mistério está dentro de nós e à nossa volta e não num qualquer “outro mundo” de fábula e superstição. É um mistério que está ao alcance do génio humano que, paulatinamente o “revelará”. Se alguma vez o irá conseguir é um sonho, não uma certeza da fé como “Palavra de Deus” ou “ Deus falou”..
Sei que isto é uma re-leitura do cristianismo da minha matriz cultural, diferente, por exemplo, de filosofias e teologias orientais, que identificam Deus com o Universo Impessoal. Estas propõem um “EU SOU”, mas tão esmagadoramente “Único” que anula tanto o meu “eu sou” como o “eu” do meu amor e do meu amigo. E a última coisa que eu quero perder na vida é a “identidade” do meu amor e dos meus amigos. É essa “identidade” que nos faz ser mais que um átomo, um ADN ou calhau.
A minha genuína admiração por Paulo de Tarso explica-se em grande parte pelo desassombro com que foi capaz de re-ler pela base o judaimso que tão bem conhecia e amava. Construiu o seu "evangelho" sobre a sua história e a sua cultura, abrindo uma nova esperança. Na minha linguagem “dessacralizada” eu diria “um novo sonho”.
Logo que acabe a leitura do “SÃO PAULO” do Pe Carreira das Neves vou trazer aqui o “evangelho de Paulo”, nítida e perturbadoramente diferente do evangelho de Tiago, Pedro e João. Tão perturbador, que as conclusões que o Pe Carreira das Neves vai tirando são contraditórias com o que ele próprio escreve. Quase me apetecia dizer que nem podia ser de outra maneira, sob pena de se provocar um verdadeiro tsunami sobre as igrejas cristãs. Todas. É tão radical o evangelho de Paulo, que até hoje não foi entendido como devia ser. De facto, ninguém leva a sério que amar a Humanidade é amar a Deus. E não devia nem podia haver equívocos, pois reza o Evangelho Segundo S. Paulo, que Deus fez-se homem em Jesus Cristo, assim divinizando a Humanidade.
A grande revolução do evangelho de Paulo de Tarso é que este não propõe um novo culto, depois de se abandonar todo o culto judaico (ou qualquer outro), porque Deus não precisa de nenhuma espécie de culto (Oh sacrílego Paulo!). O evangelho de Paulo é uma “história de amor” entre Deus e a Humanidade, que se inicia com a surpreendente e novíssima revelação de uma verdadeira declaração de amor de Deus à Humanidade, feita na Criação e na Ressurreição.
Digam-me lá se esta não é uma boa razão para eu amar o cristianismo em que me criei. Para não falar das catedrais, belíssimos testemunhos tanto do amor declarado como da confusão entre o vestido da noiva e o coração do noivo.
Há dias um amigo, filósofo encartado e tudo, disse-me o mesmo mas d forma mais "radical". Já lhe respondi pessoalmente e também no blog dos aaacarmelitas. Pesco do blog:
Re-convertido ao cristianismo
Assim mesmo me escreveu um amigo de longa data. Não sei em que texto viu a minha "re-conversão", mas posso garantir que está equivocado, pela simples razão que eu nunca me des-converti.
Há muito tempo que para mim o cristianismo é muito mais que um "corpo" de ensinamentos, de dogmas e de liturgias. Reconheço-o como a matriz da minha cultura e des-converter-me dela seria negar-me a mim próprio.
No cristianismo interiorizei a fraternidade universal e o amor como o único mandamento para a vida. Nele me tornei militante dos direitos universais da pessoa humana.
Nele vi nascer as democracias, tão imperfeitas quanto as pessoas que as puseram de pé.
Do cristianismo vi emergir uma filosofia humanista, centrada na dignidade da pessoa humana, que produziu a magna carta dos Direitos do Homem.
Das raízes profundas da minha cultura cristã cheguei a esta conclusão libertadora de todos os fantasmas e medos ancestrais: Deus só pode ser este misterioso e infinito Universo que nos gerou, mas um “Infinito de Consciência Pessoal”, que não pode ser identificado com as estrelas ou galáxias, porque a “Consciência” está par além delas de uma forma tão real e misteriosa como a nossa própria e pessoalíssima consciência.
Mas isto é pouco mais que um sonho e no cristianismo se chamou fé e tomou, precipitadamente, como certeza. Não faz mal nenhum que as pessoas vivam como certezas os seus sonhos, desde que respeitem as certezas e os sonhos dos outros.
Por causa deste sonho que fiz meu, comecei a valorizar o papel central das ciências neste mundo do século XXI. Elas procuram desvendar os mistérios da Vida e do Universo, porque tudo o que é mistério está dentro de nós e à nossa volta e não num qualquer “outro mundo” de fábula e superstição. É um mistério que está ao alcance do génio humano que, paulatinamente o “revelará”. Se alguma vez o irá conseguir é um sonho, não uma certeza da fé como “Palavra de Deus” ou “ Deus falou”..
Sei que isto é uma re-leitura do cristianismo da minha matriz cultural, diferente, por exemplo, de filosofias e teologias orientais, que identificam Deus com o Universo Impessoal. Estas propõem um “EU SOU”, mas tão esmagadoramente “Único” que anula tanto o meu “eu sou” como o “eu” do meu amor e do meu amigo. E a última coisa que eu quero perder na vida é a “identidade” do meu amor e dos meus amigos. É essa “identidade” que nos faz ser mais que um átomo, um ADN ou calhau.
A minha genuína admiração por Paulo de Tarso explica-se em grande parte pelo desassombro com que foi capaz de re-ler pela base o judaimso que tão bem conhecia e amava. Construiu o seu "evangelho" sobre a sua história e a sua cultura, abrindo uma nova esperança. Na minha linguagem “dessacralizada” eu diria “um novo sonho”.
Logo que acabe a leitura do “SÃO PAULO” do Pe Carreira das Neves vou trazer aqui o “evangelho de Paulo”, nítida e perturbadoramente diferente do evangelho de Tiago, Pedro e João. Tão perturbador, que as conclusões que o Pe Carreira das Neves vai tirando são contraditórias com o que ele próprio escreve. Quase me apetecia dizer que nem podia ser de outra maneira, sob pena de se provocar um verdadeiro tsunami sobre as igrejas cristãs. Todas. É tão radical o evangelho de Paulo, que até hoje não foi entendido como devia ser. De facto, ninguém leva a sério que amar a Humanidade é amar a Deus. E não devia nem podia haver equívocos, pois reza o Evangelho Segundo S. Paulo, que Deus fez-se homem em Jesus Cristo, assim divinizando a Humanidade.
A grande revolução do evangelho de Paulo de Tarso é que este não propõe um novo culto, depois de se abandonar todo o culto judaico (ou qualquer outro), porque Deus não precisa de nenhuma espécie de culto (Oh sacrílego Paulo!). O evangelho de Paulo é uma “história de amor” entre Deus e a Humanidade, que se inicia com a surpreendente e novíssima revelação de uma verdadeira declaração de amor de Deus à Humanidade, feita na Criação e na Ressurreição.
Digam-me lá se esta não é uma boa razão para eu amar o cristianismo em que me criei. Para não falar das catedrais, belíssimos testemunhos tanto do amor declarado como da confusão entre o vestido da noiva e o coração do noivo.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Eu Só Quero Ser
Assim cantava António Variações, um minhoto como eu. Muito mais do que "ser", ele procurava a sua identidade. Porque "ser", simplesmente, também o ratinho ou sol são.
E não consta que pretendam ir mais além do que aquilo que são. Ir "mais além" é a definiçâo da transcendência. É uma certa consciência do que se foi ontem, se é agora e se quer ser amanhã. Mesmo que o que se deseja ser amanhã seja o regresso ao que se foi ontem.
De modo que o "querer ser" de António Variações é puro inconformismo com o que hoje se é.
O pensamento-sentimento do que fomos ontem, somos hoje e queremos ser amanhã produz-se numa mente sustentada num cérebro tão frágil quão dependente, ele também, de um pouco de oxigénio. E assim temos um ser inerte, um gas apenas, como raiz da nossa vida e do pensamento.
Até parece que o Luis tem razão e a vacuidade é mesmo a essencia da natureza das coisas.
Parece, só parece, porque realmente tudo começa para lá do gas identificado e também ele ligado à raiz de uma realidade mais profunda.
E depois, percebida a subtil dependencia da cadeia dos seres, é a própria realidade dessa cadeia que nos intriga e nos fazer cantar "Eu só quero ser", como se vissemos a nossa própria existencia esfumar-se no infinito...
O filósofo ou o cientista dizem o mesmo, mas de outra forma: eu só quero saber.
A felicidade do homem estará perto da realização desta trilogia sedutora a que os antigos chamaram "Sofia": Querer, Conhecer, Ser.
A mente consciente os convocou.
E não consta que pretendam ir mais além do que aquilo que são. Ir "mais além" é a definiçâo da transcendência. É uma certa consciência do que se foi ontem, se é agora e se quer ser amanhã. Mesmo que o que se deseja ser amanhã seja o regresso ao que se foi ontem.
De modo que o "querer ser" de António Variações é puro inconformismo com o que hoje se é.
O pensamento-sentimento do que fomos ontem, somos hoje e queremos ser amanhã produz-se numa mente sustentada num cérebro tão frágil quão dependente, ele também, de um pouco de oxigénio. E assim temos um ser inerte, um gas apenas, como raiz da nossa vida e do pensamento.
Até parece que o Luis tem razão e a vacuidade é mesmo a essencia da natureza das coisas.
Parece, só parece, porque realmente tudo começa para lá do gas identificado e também ele ligado à raiz de uma realidade mais profunda.
E depois, percebida a subtil dependencia da cadeia dos seres, é a própria realidade dessa cadeia que nos intriga e nos fazer cantar "Eu só quero ser", como se vissemos a nossa própria existencia esfumar-se no infinito...
O filósofo ou o cientista dizem o mesmo, mas de outra forma: eu só quero saber.
A felicidade do homem estará perto da realização desta trilogia sedutora a que os antigos chamaram "Sofia": Querer, Conhecer, Ser.
A mente consciente os convocou.
Morte Assistida II
Sinto que a nossa Polis está numa encruzilhada e que a partir daqui nada será como dantes. Os dados estão lançados e de novo as frágeis caravelas vão aventurar-se no mar alto. Resta saber se os tempos são propícios a estas aventuras.
O caminho percorrido para aqui chegar foi-se degradando até um ponto de quase não retorno. E não me estou a referir ao defice das contas públicas e privadas, porque com essas a Polis tem meios para lidar. Sempre tem, haja vontade.
Preocupa-me, sim, o resvalar persistente e descontrolado para o abismo da manipulaçâo das mentes, por quem tinha o cívico dever de as esclarecer. O poder económico sem pátria, sem rosto e sem outra moral e ética que não seja o lucro, e um lucro rápido e fácil, acabou por ter nas mãos todos os meios para ditar a sua lei selvagem. E fá-lo-á "democraticamente", depois de ter conseguido o controlo total dos media e das instituições de soberania da Polis.
As muralhas da Polis foram derrubadas e resta saber se ficará pedar sobre pedra. Democraticamente, o voto do povo, astuciosamente seduzido e ludibriado por Ulisses, introduziu na cidade cercada por todos os lados o imponente cavalo que escondia no no ventre a destruição e a morte.
Hoje, acordei assim. Não liguem. Foi apenas um sonho mau, um pesadelo mesmo, por uma ceia que me incomodou o fígado.
O caminho percorrido para aqui chegar foi-se degradando até um ponto de quase não retorno. E não me estou a referir ao defice das contas públicas e privadas, porque com essas a Polis tem meios para lidar. Sempre tem, haja vontade.
Preocupa-me, sim, o resvalar persistente e descontrolado para o abismo da manipulaçâo das mentes, por quem tinha o cívico dever de as esclarecer. O poder económico sem pátria, sem rosto e sem outra moral e ética que não seja o lucro, e um lucro rápido e fácil, acabou por ter nas mãos todos os meios para ditar a sua lei selvagem. E fá-lo-á "democraticamente", depois de ter conseguido o controlo total dos media e das instituições de soberania da Polis.
As muralhas da Polis foram derrubadas e resta saber se ficará pedar sobre pedra. Democraticamente, o voto do povo, astuciosamente seduzido e ludibriado por Ulisses, introduziu na cidade cercada por todos os lados o imponente cavalo que escondia no no ventre a destruição e a morte.
Hoje, acordei assim. Não liguem. Foi apenas um sonho mau, um pesadelo mesmo, por uma ceia que me incomodou o fígado.
Subscrever:
Mensagens (Atom)