terça-feira, 29 de março de 2011

Tudo Na Mente, Até A Pila

Há dias reencaminharam-me um clip que representava uma cabeça de homem e os respectivos apêndices sexuais em bailado exibicionista dentro do cérebro, postos a descoberto numa ressonancia magnética. A mensagem era de leitura fácil, mesmo para quem desconhecesse a acusação provocadora de que o homem pensa com a pila. Quem mo enviou foi uma senhora amiga e eu comentei-o assim:


Apetecia-me dar um titulo a este meu comentário, qualquer coisa como "o mito e a realidade".
Essa história de termos o pénis na cabeça é mais realidade que mito. Penso que virou mito por ser, ao mesmo tempo, tão real e tão intrigante.
Qualquer rapazinho normal, por exemplo, aqui o Mário de outras idades, ainda menino descobre uma pilinha que parece ter vida própria, que ele controla tão pouco quanto a vontade de fazer chichi. Também cedo se apercebe das sensações agradáveis que acompanham as persistentes erecções. Se não houver por perto uma adulto ignorante e castrador, o menino acabará por ter uma relação cada vez mais interessante com a sua pilinha buliçosa e prazerosa. Ao atingir a puberdade, a transformação é explosiva em todos os sentidos. E, de novo, se não houver por perto um adulto "maldoso" ou simplesmente ignorante, o rapazinho testemunha uma nova vitalidade da sua tão "independente" pilinha. Não só se estica como nunca, como convida, teimosa e persistentemente, à sua manipulação, até ao clímax do orgasmo ejaculatório. E pouco adiantará "esquecer porque é feio". Reprimir, no estado de vigilia, a vontade indómita da pilinha, vai proporcionar o espectáculo de uma finta magistral, (se quiserem, de uma rasteira à má fila) quando o rapazinho dorme a sono solto! Isso mesmo! É quando acontecem os "sonhos molhados" , que os técnicos designam por "poluções nocturnas" e que não são outra coisa que uma inesperada ejaculação , com a endiabrada pilinha a não aceitar o jugo de uma abstinência forçada e a impor a sua autonomia.
Diga-me lá, Maria Emilia, como é que nós, os homens saudáveis, podemos furtar-nos à presença impositiva e persistente da nossa pilinha na mente!
Vemo-la, sentimo-la e queremo-la, não podemos, nunca, ignorá-la. Ficaria muito preocupado se a ressonância magnética não acusasse a sua presença, relevante, no meu cérebro.
Eu gosto muito da minha pila.
Felizmente, a minha mulher também.

Hoje, aqui no blog, posso acrecentar, em fidelidade à ciência de Damásio: de facto, a pila está mesmo presente no cérebro do homem e se caparem um infeliz portador da mesma, lá continuará para todo o sempre, apenas com uma nota angustiada em rodapé: cortada!

O Mito do Poder da Mente

Muito se tem escrito sobre este tema nas últimas décadas! E a saga continua. É mais um mito para a ciência desconstruir. E está a fazê-lo, pedra a pedra, sem qualquer intenção expressa, até porque os homens que se debruçam com paixão e carinho sobre os segredos da vida e do universo não têm tempo para perder com as especulações da pseudociência.
Os autores que em volumosos escritos pseudocientíficos endeusaram a mente e os poderes da mente, chegaram ao cúmulo do disparate, com afirmações do género "não é o cérebro que cria a mente, mas a mente que cria o cérebro". Isto é bem mais do que pôr o carro à frente dos bois.
A biologia, a genética e a neurociência vieram colocar as coisas no seu devido lugar.
A genética descobriu um livro escrito no ADN de cada ser vivo que não fala de uma "alma separada", de um "espírito autónomo da matéria" , nem de uma mente sem as raízes mergulhadas na "carne" e da qual recebe todo o seu brilhantismo, numa dependência absoluta para existir e exercer a sua actividade.
A ideia milenar de uma "alma separada" , onde vão beber os criadores do mito do poder da mente, tem impedido pensadores que se julgam muito "actualizados" de constatar o que é óbvio: a simples obstrução das artérias que levam o precioso gás -o oxigénio- ao cérebro, é suficiente para reduzir a cinzas, em alguns minutos, a mente mais lúcida e brilhante.
Os seguidores do mito não querem ver que a estruturação do ADN precede a vida, o cérebro e a mente e que este facto se repete na formação de cada novo ser vivo. E a ciência já pode acompanhar cada fase e cada passo do processo. A novíssima informação é que já foi possível reproduzir a transição da simples química para a vida.
O mito agarra-se, com unhas e dentes, aos limiares que falta transpor e que dizem respeito à origem do universo e ao problema, que permanece insolúvel, da mente humana consciente. E tal desconhecimento pode até justificar a fé dos homens. O que não se pode é confundir a fé com a ciência e a pseudociência enveredou por esse caminho de confusão e depressa chegou aos ”milagres operados pela mente”. Se imaginarmos que o motor é o cérebro de um carro e a mente a respectiva potencia, ainda haveríamos de ver a potência do carro a repara um o furo de um pneu. Pura magia.
A realidade é bem diferente. O cérebro e a mente que nele se produz dependem tanto do corpo inteiro como o corpo da mente, em completa interacção. No seu livro da consciência, Damásio dixit. E quem sou eu para o contradizer e aos seus pares! Nem pretendo, que sei muito bem o que significa cortarem-me o pescoço…

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Polis do Conhecimento (2)

No momento em que escrevo este post (2) sobre o tema em titulo, adivinha-se uma tragédia económica em Portugal. O obscurantismo politico triunfou sobre o conhecimento. A preversa "verdade politica" foi imposta e pôde ser imposta por causa do défice da verdade do conhecimento. A Polis ainda está demasiado à mercê dos que apostam na "fé"cega, fruto da ignorancia.
Sei que esta descida ao abismo acabará por colocar a Polis num novo patamar da verdade que rusulta do conhecimento.
Desta vez, parece-me, a mentira em curso é tão gigantesca quanto as suas prováveis consequencias.
Conjunturalmente, a Polis ficou à mercê do obscurantismo politico.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A Polis do Conhecimento (1)

Às vezes convenço-me que ainda mal acabamos de ensaiar a saída de um certo obscurantismo filosófico e teológico e já entramos a fundo no obscurantismo político. Qualquer coisa como ir deixando para trás a "verdade-mentira" que medra no culto aos deuses e na moral que os mesmos deuses determinam, entrando na pântano da "verdade politica", cozinhada nos interesses das nações, dos governantes e dos que detêm o poder económico e judicial.
Contra qualquer destes obscurantismos, que atrasam o desenvolvimento da vida da Polis, eleva-se cada vez mais a verdade do conhecimento.
A ciência rasga, quase silenciosamente, os caminhos da verdade.
Acusam-me de ser um optimista. E sou e sem emenda. As minhas leituras preferidas, não únicas, são as que me proporcionam os "antónios damásios" destes tempos emocionantes de revelações cientificas. Venero-os, não tenho vergonha de o confessar, como na juventude me ajoelhei perante as "verdades sagradas" da minha fé. Respeito esse passado duas vezes, porque dele parti ao encontro da verdade cientifica. São duas fases da minha vida, como as duas fases da própria história da humanidade. Onde muitos querem ver contradição, eu prefiro realçar a progressão. Fui tão humano enquanto me orientei pelas verdades da fé como sou agora com a verdade da ciência. Cada fase tem o seu tempo próprio e o que me leva a deixar este testemunho é, antes de mais, a convicção de que segui o caminho de uma evolução possivel. Outros terão outra. Se acharem que, perante o testemunho que vos for dando, alguma coisa vos possa aproveitar, sentirei que valeu a pena gastar um pouco do meu tempo neste blog. Ficarei atento ao que de vocês vier, na esperança de aprofundar a minha progressão.
Não me convidem, isso não, porque é perda de tempo, a repetir o passado, sugerindo-me o regresso às "verdades religiosas" da minha juventude. Retroceder nunca foi o movimento espontâneo da vida.
Antes morrer que voltar para trás, diria, se pudesse, um velhinho sobreiro de 300 anos.

domingo, 20 de março de 2011

O Livre Arbitrio E Uma Sinfonia

Meu caro Lima, não referi, no post anterior, o livre arbítrio, mas já que trouxeste o tema para o debate, vamos a ele. Não tarda nada tenho o Luís em cima, a não ser que ande tão mergulhado na física quântica, que nem dê pela nossa conversa.
Os gregos criadores de uma fabulosa mitologia arranjaram um Deus para cada emoção e sentimento humano, materializando-os na pintura, na escultura ou na literatura. Aquilo que começou emoção e sentimento do homem acabou por ser considerado tão real ou mais, quanto a fonte dessas emoções e sentimentos que é o mesmo homem.
Assim se fez a religião para uma alma imaginada dentro do corpo da gente, tão independente deste que pôde ser pensada como pré-existente ao corpo e sobrevivendo-lhe. A ideia da dupla natureza ou substância do homem subsistiu até ao presente. Esta convicção, porque se trata apenas de uma convicção ou fé, esteve na origem da divisão do mundo em duas realidades distintas, uma de ordem material e outra de ordem espiritual.
E estava tudo mais ou menos pacificado com este “pano de fundo” filosófico e teológico, até que os decisivos avanços da ciência sobre a biologia humana puseram seriamente em causa o antiquíssimo mito da "alma separada” e a física concluiu por uma única “substância” a partir de um “big bang” tão remoto quanto a existência do próprio universo. Energia e matéria são comuns ao todo universal e as leis que as regem são as mesmas, sem quebra da “solidariedade" universal .
Outra coisa é saber quando conheceremos todas essas leis, dizem os homens da física.
Nos últimos tempos coube à ciência genética e à neurociência um papel destacado na desmontagem do mito da “alma separada”. Entre nós, António Damásio demonstrou a conexão essencial entre emoção, sentimento e pensamento, não deixando margem nem espaço para uma entidade capaz de um "puro pensamento", originada na pureza e subtileza de um puro espirito. Por mais brilhante que seja uma ideia, diz Damásio, ela tem as raízes todas no cérebro humano, que forma um conjunto indissociável (para a elaboração das ideias) com todo o corpo. Para Damásio, o nosso pensamento será sempre emocionado e sentido na sua génese. Numa bela expressão literária, o nosso prémio Nobel da literatura diz, acerca da relação da alma e do corpo, que "os sentidos são as pernas da alma". Podemos especificar: e do pensamento.
Toda a nossa actividade mental está imersa nesta realidade e só recorrendo ao mito podemos imaginar que transcendemos os limites da condição humana.
Assim, eu penso que o “livre arbítrio “ é um mito quando considerado um absoluto, esquecendo-se as limitações da mente onde se concebe o livre arbitrio. Porque uma coisa é estarmos conscientes da nossa abertura ao infinito e ao absoluto e outra coisa é apresentar o absoluto ou a liberdade absoluta na palma da mão. Seremos sempre a liberdade que conseguirmos concretizar e não aquela que sonhamos, porque esta é um mito.
A citação que fazes de Espinosa sugere-me que este grande pensador rejeita o mito do livre arbítrio daqueles que pretendem conhecer todas as causas e a causa primeira de todas . E, claro, um mito pode ser facilmente “desconstruído”. Tão fácil como desmontar o mito da Deusa Atena ou do Gigante Adamastor.
Se colocarmos a questão do livre arbítrio em termos absolutos, estaremos a extrapolar da nossa realidade humana. Podemos fazê-lo, mas tendo a consciência de que estamos a construir um mito e a revelar mais uma das extraordinárias capacidades do nosso cérebro: a capacidade de olhar o infinito. Porém, olhar é uma coisa; concretizar ou materializar é outra bem diferente. Como quem diz: pensar no livre arbítrio está ao nosso alcance; concretizá-lo é tão impossível como viajar até ao Big-Bang.
Uma janela aberta para o livre arbítrio é apenas poder pensá-lo. Sei que não é tudo nem é muito, mas o homem pode envaidecer-se por ser o único a conseguir a proeza desse pensamento.
Não é drama nenhum reconhecer a nossa falta de liberdade ao nascer e é deveras estimulante saber que podemos fazer escolhas, pensar e sonhar, como se viesse do futuro a liberdade que não existiu no passado.
Assim como se o livre arbítrio fosse algo a conquistar, em vez de uma condição com que nascemos.
E foi a pensar nisto que me lembrei da sinfonia.
Bethoven sonhou, pensou e compôs uma sinfonia. Mas a sinfonia não existe, de facto, enquanto permanece apenas na mente de Bethoven. E também não existe nem na partitura, nem nos músicos, nem nos instrumentos, nem nos gestos do maestro. Só acontece mesmo quando muitos se organizaram para executar o” projecto” musical.
Não vale a pena procurar os responsáveis (os “culpados”) pelos factos. O que interessa mesmo é que os factos sejam como uma sinfonia.

sexta-feira, 18 de março de 2011

XXI, o século do cérebro

Os especialistas da ciência médica sabem hoje curar, reparar ou substituir praticamente qualquer órgão do corpo humano, seja ele essencial como o coração, os rins, os pulmões, as artérias, etc. Este progresso da medicina, em contínua expansão, tem melhorado de uma forma extraordinária as condições de vida das populações a que ele tem acesso, hoje, praticamente, todo o mundo civilizado.

Há, no entanto, um sector, essencial por excelência na vida das pessoas, onde os esforços dos mais aguerridos especialistas não tem fornecido, até hoje, os frutos tão desejados e logicamente atendidos. Falo do cérebro, centro motor e de comando, que necessita um desempenho sem falhas para que os requisitos de uma vida normal possam ser satisfeitos. O cérebro é uma máquina complexa, uma bola de 1,2 kg de células e água, com atributos variados e funções extremamente imbricadas e de uma complexidade que continua a desafiar os mais ousados e sábios especialistas do sector. É o órgão capaz de nos fazer andar, falar, sonhar, criar; sentir penas e alegrias, atravessar, sobre um fio, o espaço entre dois imóveis... operações que nem o computador do tamanho de um prédio de cinquenta andares poderia realizar.

Até há bem pouco tempo, este tesouro da natureza humana, escondido na caixa craniana que o protege, era considerado inacessível, semelhante a um segredo, guardado em cofre forte, do qual ninguém conhece o código de abertura. Hoje, com o aparecimento de máquinas produzidas pela vanguarda da ciência paramédica, como os “scanner”, “IRM”, “PET-scans”, os cientistas da pesquisa sobre o cérebro têm à disposição um protótipo de chave capaz de dar início à descodificação parcial do seu funcionamento. Este movimento de abertura para novos conhecimentos, é portador de esperanças que ainda há bem pouco tempo seriam consideradas loucas.

Num dos pontos centrais da pesquisa actual neste domínio, está a chamada doença de Alzheimer. Esta doença, em progresso constante nos últimos anos, atinge milhares de pessoas, especialmente em períodos de vida menos activa, sem que a medicina tenha conseguido resultados significativos, tanto na prevenção como na cura. Dizem os especialistas, que o grande problema é a sua detecção demasiado tardia, quando os danos causados no cérebro pela morte de neurónios, em sectores vitais, são irreversíveis. O mecanismo que conduz a este resultado é conhecido, (a acumulação de placas de proteínas que matam os neurónios), mas não as suas causas. Os esforços actuais dos pesquisadores concentram-se na possibilidade de intervir antes da morte neural, de maneira a bloquear a doença, o que significaria, não uma cura, mas uma diminuição importante da evolução da doença, hoje completamente abandonada à sua progressão anárquica. A imagética, a biologia e os testes cognitivos, são ferramentas sobre as quais os especialistas fundam imensas esperanças e esperam um apoio precioso, para atingirem esse objectivo. Os resultados atendidos parecem débeis quando confrontados com a gravidade e amplitude dos prejuízos causados por esta doença. Mas a ciência avança, com optimismo e tenacidade; e, como noutros domínios, a persistência no esforço será um dia recompensada. Se não para nós, que apenas temos a esperança para consolação, talvez para os vindouros próximos, a medicina tenha encontrado soluções que satisfaçam as nossas aspirações legítimas.

Conseguir um dia “reparar” as anomalias de um cérebro doente, é, certamente um dos maiores desafios colocado aos cientistas do corpo humano, neste século vinte e um.


Inicialmente publicado em http://a.lima.b.online.fr/


quarta-feira, 16 de março de 2011

Nascemos ADN, Morremos História

No seguimento da conversa que vínhamos tendo, meu caro Lima, fiquei a pensar no percurso de uma vida real, do nascimento até à morte. Não me vou preocupar agora nem com a origem nem com o conteúdo do meu ADN ou meditar no que possa acontecer depois de "fechar os olhos". Sei que se o fizer ficarei sem resposta para as minhas perguntas. Já me conformei que hei-de morrer sem saber de onde viemos nem para onde vamos. E, também, o que realmente somos.
Mas posso contar a minha "história", feita da verdadeira aventura do meu ADN. Será sempre apenas uma parte da história, porque entro num comboio em andamento. De facto, o meu ADN já percorreu milhões de quilómetros e anos. Mas aquela que posso contar é a parte que verdadeiramente me interessa, porque é toda a minha vida. A "parte" que não conto ou não posso contar, "não sou eu". Porque « eu não sou » o ADN com que nasci.
O que a ciência nos vem ensinando é que a história final do ADN (individualizado) resulta das potencialidades iniciais do ADN e da interacção com o meio onde sobrevive. O ADN humano interage de maneira diferente do ADN do gato, mas também o meu ADN interage de maneira diferente do teu, porque nenhum é totalmente idêntico à partida, nem o “meio ambiente” onde sobrevivemos é o mesmo.
Acresce ainda, que o ADN dotado de um cérebro criativo pode alterar o “meio”, adaptando-o cada vez mais e melhor às suas necessidades de sobrevivência, criando até novas necessidades.
Por outro lado, a mobilidade do ADN inteligente permite-lhe alargar o seu “meio ambiente” e multiplicar incrivelmente os seus “contactos”; mas também ficar mais sujeito ao contacto com outras realidades.
O resultado final, a “minha história”, já está muito para além do ADN inicial. E pouco importa se isto ou aquilo aconteceu por acaso ou por decisão consciente. A verdade é que acabamos por ter consciência do momento da história que estamos a viver e a construir, sempre condicionados, é verdade, mas com múltiplas escolhas pela frente. Com a certeza, porém, que para a “minha história” só contarão as escolhas concretizadas.
Apetecia dizer que “eu sou” as escolhas que faço. Mesmo quando escolho não fazer nenhuma. Mesmo quando coagido a fazê-las. Neste último caso, sei bem que estou a agir sem escolha. E é quando me apercebo de um espaço de liberdade.
Espaço e sonho.