No seguimento da conversa que vínhamos tendo, meu caro Lima, fiquei a pensar no percurso de uma vida real, do nascimento até à morte. Não me vou preocupar agora nem com a origem nem com o conteúdo do meu ADN ou meditar no que possa acontecer depois de "fechar os olhos". Sei que se o fizer ficarei sem resposta para as minhas perguntas. Já me conformei que hei-de morrer sem saber de onde viemos nem para onde vamos. E, também, o que realmente somos.
Mas posso contar a minha "história", feita da verdadeira aventura do meu ADN. Será sempre apenas uma parte da história, porque entro num comboio em andamento. De facto, o meu ADN já percorreu milhões de quilómetros e anos. Mas aquela que posso contar é a parte que verdadeiramente me interessa, porque é toda a minha vida. A "parte" que não conto ou não posso contar, "não sou eu". Porque « eu não sou » o ADN com que nasci.
O que a ciência nos vem ensinando é que a história final do ADN (individualizado) resulta das potencialidades iniciais do ADN e da interacção com o meio onde sobrevive. O ADN humano interage de maneira diferente do ADN do gato, mas também o meu ADN interage de maneira diferente do teu, porque nenhum é totalmente idêntico à partida, nem o “meio ambiente” onde sobrevivemos é o mesmo.
Acresce ainda, que o ADN dotado de um cérebro criativo pode alterar o “meio”, adaptando-o cada vez mais e melhor às suas necessidades de sobrevivência, criando até novas necessidades.
Por outro lado, a mobilidade do ADN inteligente permite-lhe alargar o seu “meio ambiente” e multiplicar incrivelmente os seus “contactos”; mas também ficar mais sujeito ao contacto com outras realidades.
O resultado final, a “minha história”, já está muito para além do ADN inicial. E pouco importa se isto ou aquilo aconteceu por acaso ou por decisão consciente. A verdade é que acabamos por ter consciência do momento da história que estamos a viver e a construir, sempre condicionados, é verdade, mas com múltiplas escolhas pela frente. Com a certeza, porém, que para a “minha história” só contarão as escolhas concretizadas.
Apetecia dizer que “eu sou” as escolhas que faço. Mesmo quando escolho não fazer nenhuma. Mesmo quando coagido a fazê-las. Neste último caso, sei bem que estou a agir sem escolha. E é quando me apercebo de um espaço de liberdade.
Espaço e sonho.
quarta-feira, 16 de março de 2011
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Em substância, se bem te compreendo Mário, somos dotados de livre arbítrio, o que nos autoriza, a favorecer na nossa escolha, as decisões que para nós sejam mais proveitosas. E deixas transparecer a ideia de que o ADN com que nascemos, pouco terá a ver com aquele que poderemos legar à nossa descendência.
ResponderEliminarEu subscrevo o teu raciocínio, mas só em parte. Compreendo que o ser humano se constrói ao longo da vida, e que usufrui de uma certa liberdade nas suas escolhas. Mas há uma frase de Spinoza sobre esse assunto, que me embaralha, sempre que a ouço assobiar nos meus ouvidos: “O livre-arbítrio é uma total ilusão que vem de que o homem tem consciência das suas acções, mas não das suas causas...”.
Bom, rediscutir do livre-arbítrio, acho que não nos levará a lado nenhum, mas há uma parte do enunciado acima que parece colar perfeitamente ao percurso de vida do homem ordinário: “... tem consciência das suas acções, mas não das suas causas...”.
Que o homem tenha a capacidade de escolher, criar, remodelar de certa forma a sua herança genética, englobada na progressão da espécie, aceito como princípio, mas faça o que fizer, escolha o que escolher, penso que homem será sempre prisioneiro e, de certo modo escravo, tanto dos genes que o originaram, como dos meios ambientais e sociais no ceio dos quais evoluirá.
Daí a admitir que o homem vive em liberdade condicionada...
Tinha um comentário feitinho e perdi-o. Vou etomar o teu comentário num proximo post.
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