Numa saltada a Viseu e à Bertrand, tive nas mãos a última obra de Isabel Ferreira, titulada «Entre o Medo e a Liberdade».
Na introdução ao livro destaco esta passagem reveladora do seu conteúdo:
«…«Entre o Medo e a Liberdade» é uma história que nos é contada por dentro, pelo lado de nós onde tudo se desenha e decide. É o lado onde guardamos os nossos sonhos, as nossas mágoas, os registos e as impressões que ficam armazenadas durante toda a viagem. Os processos interiores são infinitos e, de acordo com estimulações e motivações ocultas e inconscientes, desenham a estratégia para cada momento da nossa vida».
Embora o Jorge tenha desvalorizado, aqui no blog, o «Bebé Filósofo», a verdade é que a autora, psicóloga e filósofa, conduz-nos aos primeiros tempos da criação das nossas memórias, emoções, intuições e ligações lógicas de acontecimentos, de que resulta um verdadeiro mapa mental. Este mapa vai sendo desenvolvido e actualizado ao longo da vida, num continuum que nos permite a identificação do caminho percorrido. Por isso podemos olhar para trás e reconhecermo-nos na criança “inconsciente”que fomos, no adolescente sonhador, no jovem de energia inesgotável, no homem temperado e maduro, pronto a enfrentar o declínio do vigor da juventude.
As «motivações ocultas e inconscientes» de que fala Isabel Ferreira, há muito tempo que não constituem mistério para a ciência. Freud remexeu, de uma forma sistemática, como nunca antes havia sido feito, nessas «motivações ocultas e inconscientes» e que eu só não identifico com os «mapas mentais» do «Bebé Filósofo», porque estes «mapas mentais» são muito mais abrangentes do que a restrita interpretação dada por Freud aos conteúdos da nossa mente, da nossa psique, do nosso espírito.
O que me espanta neste género de obras como as de Isabel Ferreira, Osho, Deepak Chopra e tantos outros que agora estão na berra, é o quase desprezo pelas descobertas científicas dos últimos cem anos no campo da psicologia, psico-fisiologia, neuro-ciências e biogenética. Abordam o verdadeiro e espantoso mistério, que ainda continuam a ser a mente e a consciência humana, de uma forma tão primitiva e irracional como os nossos antepassados encaravam os raios e trovões das tempestades: um tenebroso Deus os disparava sobre eles para lhes infernizar a existência.
A Isabel Ferreira fala do Senhor Medo, no país da Medolandia.
Desde o útero materno e até desde a «pré-existencia», por via da herança genética, nas células do pai e da mãe que se fundem para uma nova vida, se começa a desenhar e encher de conteúdo aquilo que será o mapa da vida de cada um de nós. Nascem aqui e, depois, serão como rio a engrossar caudal até desaguar no mar, as tais «motivações ocultas e inconscientes».
Quando o bebé abre os olhos e começa a identificar os rostos que sobre ele se debruçam, começa também a ler os sorrisos e a indiferença, o carinho e a agressividade. Interage com este novo mundo, desenvolvendo o mapa da sua vida, mesmo que não esteja consciente do que se passa. E não está. Mas “ajuíza” de uma forma mais severa e certeira do que um dia o poderá fazer como adulto consciente. É que, por paradoxal que pareça, a consciência atrapalha muito porque é o momento em que nos damos conta da nossa individualidade única e irrepetível. Normalmente nem sabemos o que nos está a acontecer, mas a verdade é que passamos a murmurar: «eu e os outros; eu e o resto do mundo». É a primeira sensação de isolamento absoluto. Se isto acontece quando estamos «felizes», isto é, em paz com o mapa interior que fomos desenhando e tudo «correu bem», poderá ser o momento mais empolgante da vida de um ser humano, porque descobre a sua grandeza sem par. Sente-se como se olhasse «do alto» o universo inteiro, porque pensa que o abarca com um simples pensamento. E é verdade, mas apenas no que respeita ao seu universo conhecido.
O primeiro instante da consciência é apenas o primeiro passo para desenvolver o definitivo “mapa da vida” que nos torna humanos.
Aconteceu na «espécie» e é necessário que a aconteça no «indivíduo».
Mas este momento do despertar da consciência humana poderá ser também o momento da tragédia, se o que vemos no mapa da nossa vida é desastre tão grande ou maior do que aquele que se passa à nossa volta. Onde, antes da consciência da minha individualidade, tudo era «certinho», «preto ou branco», «certo ou errado», agora assalta-nos a insegurança, quando ficamos face a face com um mundo a perder de vista e não conseguimos «definir». Literalmente, não sabemos onde estamos. Surge o medo, não um senhor tenebroso, misterioso e ameaçador, mas o simples fruto da consciência da nossa ignorância. É a lucidez desta descoberta que nos dará um sentimento de liberdade e não a crença, terrivelmente errada, de que somos uma dupla realidade em luta fratricida e penosa da matéria contra o espírito ou do corpo contra a alma, como se cada um de nós fosse um «eu» mais outro «eu».
Se estes dois «eu» estão separados e em luta, quem foi que os separou? Talvez um terceiro «eu».
Ou o diabo, como diziam os nossos antepassados.
Os conselhos dos autores como Isabel Ferreira poderão servir de alívio ao desassossego que nos assalta quando descobrimos quão esfarrapados estão os mapas da nossa vida. Poderão até prevenir-nos ou salvar-nos de piores desastres individuais. Mas essas obras não nos apresentam um «projecto de vida» que sirva de vestimenta e que qualquer um pode enfiar e ficar “apresentável”.
Porquê? Porque sabemos tanto acerca de um tal «projecto» como sabemos acerca das verdadeiras dimensões do Universo.
Não dá para fugir à verdadeira luta e ao desafio que nos é colocado: temos que descobrir o projecto da nossa existência, na exacta medida em que o formos SONHANDO E CONSTRUINDO.
Agora soe dizer-se: faz-se caminho, caminhando.
(também em aaacarmelitas.blodspot.com)
sábado, 4 de setembro de 2010
sábado, 14 de agosto de 2010
Blaise Pascal e a Consciência
«O homem não passa de um junco, a coisa mais fraca da natureza, mas é um junco pensante. Não é preciso que o universo inteiro pegue em armas para o esmagar. Um vapor, uma gota de água bastariam para o matar. Mas ainda que fosse o universo a esmagá-lo, o homem seria sempre mais nobre do aquilo que o matou, porque sabe que morre e que o universo é muito mais forte do que ele, enquanto o universo desconhece tudo isso».
É como se Blaise Pascal nos estivesse a dizer que não podemos negar a realidade inelutável da fragilidade humana, que tem a sua expressão máxima no acontecimento que é a morte, que pode chegar da forma mais imprevista e banal. Porém, a nossa verdadeira "medida" é o pensamento consciente e este parece transcender todo o universo.
Não deixa de causar vertigem saber que desse mesmo universo brotou a nossa consciência.
A não ser que nos consideremos, definitivamente, extra-terrestres ou extra-cósmicos, seja como deuses ou como centelhas divinas.
E em que nos apoiaríamos para tecer tais considerações, se a nossa consciência nos diz que somos «daqui» e «d'agora», sem vislumbre de vida anterior ou futuro garantido?
Negar a morte, transcendendo-a pela consciência, como sugere Blaise Pascal, não basta. Falta garantir a vida, já que a consciência nem a si mesma se garante. Com efeito, sem memória, o esquecimento envolve-nos no silencio da morte. E é como se a raiz do nosso ser não conseguisse desprender-se do tempo e do espaço o que me deixa a pensar que foi o universo que me gerou. Pelo pensamento consciente falo com ele como se fosse meu pai e minha mãe.
Tão dependente e tão adulto...
É como se Blaise Pascal nos estivesse a dizer que não podemos negar a realidade inelutável da fragilidade humana, que tem a sua expressão máxima no acontecimento que é a morte, que pode chegar da forma mais imprevista e banal. Porém, a nossa verdadeira "medida" é o pensamento consciente e este parece transcender todo o universo.
Não deixa de causar vertigem saber que desse mesmo universo brotou a nossa consciência.
A não ser que nos consideremos, definitivamente, extra-terrestres ou extra-cósmicos, seja como deuses ou como centelhas divinas.
E em que nos apoiaríamos para tecer tais considerações, se a nossa consciência nos diz que somos «daqui» e «d'agora», sem vislumbre de vida anterior ou futuro garantido?
Negar a morte, transcendendo-a pela consciência, como sugere Blaise Pascal, não basta. Falta garantir a vida, já que a consciência nem a si mesma se garante. Com efeito, sem memória, o esquecimento envolve-nos no silencio da morte. E é como se a raiz do nosso ser não conseguisse desprender-se do tempo e do espaço o que me deixa a pensar que foi o universo que me gerou. Pelo pensamento consciente falo com ele como se fosse meu pai e minha mãe.
Tão dependente e tão adulto...
sábado, 7 de agosto de 2010
O Prodígio Maior
Enquanto aguardo que o Augusto ou algum augusto letrado em Platão responda ao repto lançado no post anterior, lembrei-me do mestre do mesmo Platão, Sócrates, o Filósofo.
Quando o pensamento humano se centrava no mundo "exterior", no «cosmos» e no «caos», maravilhando-se e intrigando-se com o mistério, a riqueza e a beleza dos "elementos", o Filósofo lembrou-se de centrar o pensamento sobre si próprio, propondo um desafio novo: conhece-te a ti mesmo.
Sócrates teve a lúcida e genial ideia de perscrutar a fonte de todo o conhecimento, que é a inteligencia humana. E foi como se, a partir de Sócrates, o homem deixasse de simplesmente ver, ouvir, sentir, pensar, sonhar, inventar. Ele fez a pergunta óbvia e que apenas o ser humano consegue formular: afinal, quem és tu que pensas, sentes , olhas, rezas, cantas, sonhas e crias? Nem as árvores que se elevam da terra, as aves que cortam os ares, os peixes que dão vida às águas ou os astros que brilham no firmamento conseguem dar a volta prodigiosa de cento e oitenta graus e colocarem-se perante si mesmos para indagar «quem somos nós».
Como se Sócrates nos estivesse a dizer: somos mais que «ser», porque «estar aí» é comum a tudo o que se move ou está parado; peculiar e único no homem é «saber» que se «está aí».
Biliões de galáxias descobertas e infindáveis universos, paralelos ou entrelaçados, não se comparam ao prodígio da consciência humana.
Para nosso contentamento ou medo inconfessado de uma dolorosa solidão.
Pior ainda, se nos detivermos na perspectiva da extinção, pura a simples, deste prodígio maior, a consciência, cuja emergência testemunhamos.
Quando o pensamento humano se centrava no mundo "exterior", no «cosmos» e no «caos», maravilhando-se e intrigando-se com o mistério, a riqueza e a beleza dos "elementos", o Filósofo lembrou-se de centrar o pensamento sobre si próprio, propondo um desafio novo: conhece-te a ti mesmo.
Sócrates teve a lúcida e genial ideia de perscrutar a fonte de todo o conhecimento, que é a inteligencia humana. E foi como se, a partir de Sócrates, o homem deixasse de simplesmente ver, ouvir, sentir, pensar, sonhar, inventar. Ele fez a pergunta óbvia e que apenas o ser humano consegue formular: afinal, quem és tu que pensas, sentes , olhas, rezas, cantas, sonhas e crias? Nem as árvores que se elevam da terra, as aves que cortam os ares, os peixes que dão vida às águas ou os astros que brilham no firmamento conseguem dar a volta prodigiosa de cento e oitenta graus e colocarem-se perante si mesmos para indagar «quem somos nós».
Como se Sócrates nos estivesse a dizer: somos mais que «ser», porque «estar aí» é comum a tudo o que se move ou está parado; peculiar e único no homem é «saber» que se «está aí».
Biliões de galáxias descobertas e infindáveis universos, paralelos ou entrelaçados, não se comparam ao prodígio da consciência humana.
Para nosso contentamento ou medo inconfessado de uma dolorosa solidão.
Pior ainda, se nos detivermos na perspectiva da extinção, pura a simples, deste prodígio maior, a consciência, cuja emergência testemunhamos.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Platão e Platonismo
Caro Augusto
Não tenho a mínima vontade de esmiuçar a filosofia de Platão. Também não briguei propriamente com Platão mas com o «platonismo». Platão expôs o seu pensamento sob forma de mitos e alegorias, como se estivesse a dizer-nos que uma pequena história vale por uma multidão de discursos.
Na sua famosa «Republica», conta o mito do destino. Neste mito a personagem Er morre numa batalha e ressuscita ao fim de 12 dias. Pode contar aos homens a sorte que os espera depois da morte. Cada um voltará à vida para recomeçar e poderá aproveitar a experiência da vida anterior e optar por uma vida mais virtuosa e sábia. Nenhum demónio ou divindade vai escolher por si. É livre, ao recomeçar, em nova encarnação.
O fatalismo da morte acaba, quando o homem tem a possibilidade de reencarnações sucessivas, escolhendo criteriosamente a forma de viver a nova vida depois de toda a experiência e conhecimento acumulado em vidas anteriores.
Como este, Platão inventou mitos carregados de lições para vida. Estes mitos foram interpretados como expressão do seu pensamento, o que está certo, mas também foram considerados como narrativas factuais. O que está errado! Por exemplo, como se ER, no mito do destino, tivesse travado uma batalha concreta e tivesse sido morto e ressuscitado doze dias depois para contar como era, de facto, o nosso destino.
Extrapolou-se do mito para a realidade e passou a acreditar-se que a cada morte segue-se uma ressurreição. Platão quis dizer isso?
Responda à pergunta o caro Augusto, porque eu, seguramente, não pertenço ao grupo dos «raríssimos» que entenderam bem Platão…
Por mim diria que Platão era inteligente demais para confundir mito com realidade e ele saberia por experiência própria e introspecção profunda que nunca antes vivera uma outra vida. Tão pouco dera conta que o seu adorado mestre Sócrates ressuscitara depois de beber a cicuta fatal. E como ele desejaria beber-lhe, mais uma vez, as sábias lições!
O que Platão conhecia era aquela verdade incontornável proclamada por outro grande filósofo grego Heraclito: «nenhum homem se banha duas vezes nas águas do mesmo rio, porque nem o rio nem o homem são os mesmos».
Platão percebeu que a nossa história é como um rio em fluxo, em perpétua mudança. De facto, amanhã não serei o mesmo e posso escolher hoje a forma como vou viver depois de acordar em cada manhã.
No mito do destino, o homem é alertado para escolher convenientemente a sua conduta e pode, assim avisado, recomeçar uma nova vida.
Quem terá «forçado o texto» e inventado uma cadeia de vidas e ressurreições anteriores de que nenhum de nós, nem Platão, tem memória?
Não me importava, nem um pouco, que fosse verdade. E já agora, era capaz de deixar para amanhã, quer dizer para uma outra vida, o que poderia fazer já nesta. Afinal, teria pela frente uma infinidade de vidas para viver…
Platão ensinou isso, caro Augusto? Responde-me, se acaso pertences ao número dos «raríssimos» que o entenderam.
30 Julho, 2010 00:36
Não tenho a mínima vontade de esmiuçar a filosofia de Platão. Também não briguei propriamente com Platão mas com o «platonismo». Platão expôs o seu pensamento sob forma de mitos e alegorias, como se estivesse a dizer-nos que uma pequena história vale por uma multidão de discursos.
Na sua famosa «Republica», conta o mito do destino. Neste mito a personagem Er morre numa batalha e ressuscita ao fim de 12 dias. Pode contar aos homens a sorte que os espera depois da morte. Cada um voltará à vida para recomeçar e poderá aproveitar a experiência da vida anterior e optar por uma vida mais virtuosa e sábia. Nenhum demónio ou divindade vai escolher por si. É livre, ao recomeçar, em nova encarnação.
O fatalismo da morte acaba, quando o homem tem a possibilidade de reencarnações sucessivas, escolhendo criteriosamente a forma de viver a nova vida depois de toda a experiência e conhecimento acumulado em vidas anteriores.
Como este, Platão inventou mitos carregados de lições para vida. Estes mitos foram interpretados como expressão do seu pensamento, o que está certo, mas também foram considerados como narrativas factuais. O que está errado! Por exemplo, como se ER, no mito do destino, tivesse travado uma batalha concreta e tivesse sido morto e ressuscitado doze dias depois para contar como era, de facto, o nosso destino.
Extrapolou-se do mito para a realidade e passou a acreditar-se que a cada morte segue-se uma ressurreição. Platão quis dizer isso?
Responda à pergunta o caro Augusto, porque eu, seguramente, não pertenço ao grupo dos «raríssimos» que entenderam bem Platão…
Por mim diria que Platão era inteligente demais para confundir mito com realidade e ele saberia por experiência própria e introspecção profunda que nunca antes vivera uma outra vida. Tão pouco dera conta que o seu adorado mestre Sócrates ressuscitara depois de beber a cicuta fatal. E como ele desejaria beber-lhe, mais uma vez, as sábias lições!
O que Platão conhecia era aquela verdade incontornável proclamada por outro grande filósofo grego Heraclito: «nenhum homem se banha duas vezes nas águas do mesmo rio, porque nem o rio nem o homem são os mesmos».
Platão percebeu que a nossa história é como um rio em fluxo, em perpétua mudança. De facto, amanhã não serei o mesmo e posso escolher hoje a forma como vou viver depois de acordar em cada manhã.
No mito do destino, o homem é alertado para escolher convenientemente a sua conduta e pode, assim avisado, recomeçar uma nova vida.
Quem terá «forçado o texto» e inventado uma cadeia de vidas e ressurreições anteriores de que nenhum de nós, nem Platão, tem memória?
Não me importava, nem um pouco, que fosse verdade. E já agora, era capaz de deixar para amanhã, quer dizer para uma outra vida, o que poderia fazer já nesta. Afinal, teria pela frente uma infinidade de vidas para viver…
Platão ensinou isso, caro Augusto? Responde-me, se acaso pertences ao número dos «raríssimos» que o entenderam.
30 Julho, 2010 00:36
terça-feira, 13 de julho de 2010
Campeão do Mundo
Viva o Campeão do Mundo e cada um de nós com ele
Parece um fenómeno estranho, esta exaltação impressionante de uma nação à volta de um triunfo desportivo.
Talvez não se trate de um simples evento desportivo.E não é de todo.
Nesta hora recordo os versos do nosso poeta maior:
«aqueles que por obras valorosas
se vão da lei da morte libertando».
Camões refere-se aos heróis de todos os tempos. A heroicidade traz a fama e esta a imortalidade que perdura na lembrança dos povos.
O herói sai do anonimato pelos seus feitos assinaláveis. O herói emerge do nada que a todos cobre como uma capa silenciosamente pesada e ganha um nome e um lugar na história, talvez sonhando que assim nunca morrerá.
Uma forma de imortalidade e de uma verdadeira ressurreição de quem se sente morto e enterrado no anonimato.
Não é nada de novo, o crente sentir como seu o grande poder do seu Deus, o súbdito sentir como sua a glória do seu rei, o cidadão sentir-se engrandecido no triunfo dos seus atletas.
Habitualmente não nos damos conta, mas nós chegamos a vibrar como um corpo e um espírito em uníssono, em alegria arrebatadora, contagiante e genuína. A pele que se arrepia dentro do estádio é a alma de cada um que sonha sair do anonimato para se afirmar como «alguém».
As lágrimas que correm pela face do peregrino no «adeus à virgem», em Fátima, são "prova de vida" e expressão dolorosa de quem se despede «daquela que me ama, me vê e compreende» até ao âmago do meu ser. E como ninguém. Pode não passar de um profundo anseio, mas o peregrino estremece da cabeça aos pés, sonhando com tal possibilidade.
Sempre o eterno desejo de vencer a solidão do anonimato, pelo amor que podemos dar e receber, que não é mais que o primeiro gesto de um reconhecimento que se quer total. Como se cada um de nós precisasse de ouvir
«és tu!»
e nós podermos responder, eternamente reconhecidos,
«sim, meu amor, sou eu!»
A hora da vitória é a hora do reconhecimento. É a hora em que alguém ou muitos olham para nós e nos dizem: sois fantásticos.
A derrota não pode ser o momento da solidão. Mas é o que tantos, tantas as vezes, sentem e "bebem para esquecer".
(In aaacarmelitas. MN)
Parece um fenómeno estranho, esta exaltação impressionante de uma nação à volta de um triunfo desportivo.
Talvez não se trate de um simples evento desportivo.E não é de todo.
Nesta hora recordo os versos do nosso poeta maior:
«aqueles que por obras valorosas
se vão da lei da morte libertando».
Camões refere-se aos heróis de todos os tempos. A heroicidade traz a fama e esta a imortalidade que perdura na lembrança dos povos.
O herói sai do anonimato pelos seus feitos assinaláveis. O herói emerge do nada que a todos cobre como uma capa silenciosamente pesada e ganha um nome e um lugar na história, talvez sonhando que assim nunca morrerá.
Uma forma de imortalidade e de uma verdadeira ressurreição de quem se sente morto e enterrado no anonimato.
Não é nada de novo, o crente sentir como seu o grande poder do seu Deus, o súbdito sentir como sua a glória do seu rei, o cidadão sentir-se engrandecido no triunfo dos seus atletas.
Habitualmente não nos damos conta, mas nós chegamos a vibrar como um corpo e um espírito em uníssono, em alegria arrebatadora, contagiante e genuína. A pele que se arrepia dentro do estádio é a alma de cada um que sonha sair do anonimato para se afirmar como «alguém».
As lágrimas que correm pela face do peregrino no «adeus à virgem», em Fátima, são "prova de vida" e expressão dolorosa de quem se despede «daquela que me ama, me vê e compreende» até ao âmago do meu ser. E como ninguém. Pode não passar de um profundo anseio, mas o peregrino estremece da cabeça aos pés, sonhando com tal possibilidade.
Sempre o eterno desejo de vencer a solidão do anonimato, pelo amor que podemos dar e receber, que não é mais que o primeiro gesto de um reconhecimento que se quer total. Como se cada um de nós precisasse de ouvir
«és tu!»
e nós podermos responder, eternamente reconhecidos,
«sim, meu amor, sou eu!»
A hora da vitória é a hora do reconhecimento. É a hora em que alguém ou muitos olham para nós e nos dizem: sois fantásticos.
A derrota não pode ser o momento da solidão. Mas é o que tantos, tantas as vezes, sentem e "bebem para esquecer".
(In aaacarmelitas. MN)
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Meu Corpo Minha Vida
Desde pequeno que fui ouvindo esta sentença evangélica: «o espírito está pronto mas a carne é fraca». Hoje, ouve-se cantar: «quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga».
Ocorre pensar que antigamente o corpo era responsabilizado pelas nossas desgraças, ao contrário do que pensamos hoje, em que é o espírito a corromper o corpo, numa inversão muito significativa da responsabilidade pelos nossos males.
Temos o privilégio de viver num tempo em que se está a abandonar aquela atitude de «passa-culpas». As filosofias que dividiram o homem em «espírito» e «matéria», como se cada um de nós não fosse inteiramente ambas as realidades, estão a ser corrigidas do erro histórico de um pensamento que não soube ou não pôde aceitar o óbvio: a chama de uma candeia, apesar da magia da sua luz, não subsiste um instante que seja sem o azeite e o pavio que lhe dão a "vida".
Verdade tão simples que ofuscava. Mas só cegava aqueles que pretendiam ter a verdade toda nas mãos e encaixar os sonhos metafísicos e os anseios da fé em sistemas filosóficos da verdade toda. Fatalmente, sobrou-lhes uma filosofia desgarrada da realidade e uma teologia etérea acerca de "homens desincarnados", em que a "parte material" do homem estava ali só para dar chatices.
Hoje, já não se pode pensar que o "azeite e o pavio da candeia" atrapalham o fulgor da chama que eles próprios geram e ouvir-se-á cada vez mais insistentemente: Meu corpo minha vida!
Recentemente, tivemos a notícia de que já é possível sintetizar a vida em laboratório. Não se trata de «criar» a vida mas de o génio humano reproduzir com fidelidade as leis da física e da química que estão na origem da vida, enquanto já se sonha com o derradeiro «milagre» que é dar consciência à vida reproduzida.
Literalmente, para aqueles que sempre acreditaram na imortalidade, seria uma certa concretização da sua esperança. Para os outros, seria, finalmente, a criação da própria imortalidade, o mais antigo dos sonhos do homem, mas nunca antes realizado.
Até esse dia chegar, e se chegar, temos de viver com o mistério de ver um pouco de "azeite" e um "fio de linho" produzir a chama da vida, e de uma vida consciente como a que somos.
A perspectiva de que só no futuro se poderá reproduzir ou criar uma certa imortalidade é susceptível de causar frustração naqueles que querem abraçar a História toda numa vida só. Mas eu não vejo outra saída que não seja continuar a fazer o caminho, pensando que o futuro também é nosso porque lá estarão os nossos filhos. Parca consolação? Talvez, mas correr por gosto não cansa.
A transformação no homem imortal é um cenário de autentica ficção científica e corresponde, de certa forma, à fé cristã na «ressurreição dos mortos».
Pertencemos a um tempo em que Ciência, filosofia e teologia poderão assumir definitivamente a unidade intrínseca do ser humano e levar até às últimas consequencias uma ética e uma moral em conformidade. Como ficará a face da Humanidade quando se generalizar a convicção de que não há salvação da "alma" sem a salvação do "corpo", como quem diz, que só poderemos preservar o espírito quando formos capazes de imortalizar o corpo?
Parece estarmos bem longe desse dia e o cristão obriga-se a viver da fé e o filósofo na expectativa do que vier.
Felizes os que acreditam em fantasmas, que já têm o problema resolvido há muito tempo.
A convicção da unidade do ser humano está a ser expressa no conceito de «pessoa», claramente a sobrepor-se ao de «animal-racional». A ética e a moral estão a ser pensadas para a «pessoa» e não para o "animal". Não se trata de sublimar a nossa animalidade e muito menos negá-la, mas de reconhecer o especialíssimo e exclusivo estatuto que nos confere a consciência.
Cientes desse nobilíssimo estatuto, exigimos ser tratados em conformidade.
Não me admiraria que o próprio conceito de «pessoa» venha a ser vertido no conceito de «homem-espiritual», o homem do futuro, não um fantasma ou alma penada, mas um espírito sustentado na «carne e nos ossos» que nunca deixaremos de ser.
Pela fé, já lá chegou o crente. A ficção cientifica alimenta o sonho dos outros.
Enquanto os académicos se entretêm nas suas intermináveis discussões sobre o assunto, o homem comum, bem mais prático, agarra com sofreguidão os meios que a ciência e a tecnologia vão disponibilizando para ir prolongando a juventude, não de um corpo ou de um espírito, mas da sua "pessoa". Mas há que compreender que a juventude é para o amor e não para a exibição. Depressa se há-de concluir que ser jovem por uma vida longa só valerá se a felicidade for junto
Ocorre pensar que antigamente o corpo era responsabilizado pelas nossas desgraças, ao contrário do que pensamos hoje, em que é o espírito a corromper o corpo, numa inversão muito significativa da responsabilidade pelos nossos males.
Temos o privilégio de viver num tempo em que se está a abandonar aquela atitude de «passa-culpas». As filosofias que dividiram o homem em «espírito» e «matéria», como se cada um de nós não fosse inteiramente ambas as realidades, estão a ser corrigidas do erro histórico de um pensamento que não soube ou não pôde aceitar o óbvio: a chama de uma candeia, apesar da magia da sua luz, não subsiste um instante que seja sem o azeite e o pavio que lhe dão a "vida".
Verdade tão simples que ofuscava. Mas só cegava aqueles que pretendiam ter a verdade toda nas mãos e encaixar os sonhos metafísicos e os anseios da fé em sistemas filosóficos da verdade toda. Fatalmente, sobrou-lhes uma filosofia desgarrada da realidade e uma teologia etérea acerca de "homens desincarnados", em que a "parte material" do homem estava ali só para dar chatices.
Hoje, já não se pode pensar que o "azeite e o pavio da candeia" atrapalham o fulgor da chama que eles próprios geram e ouvir-se-á cada vez mais insistentemente: Meu corpo minha vida!
Recentemente, tivemos a notícia de que já é possível sintetizar a vida em laboratório. Não se trata de «criar» a vida mas de o génio humano reproduzir com fidelidade as leis da física e da química que estão na origem da vida, enquanto já se sonha com o derradeiro «milagre» que é dar consciência à vida reproduzida.
Literalmente, para aqueles que sempre acreditaram na imortalidade, seria uma certa concretização da sua esperança. Para os outros, seria, finalmente, a criação da própria imortalidade, o mais antigo dos sonhos do homem, mas nunca antes realizado.
Até esse dia chegar, e se chegar, temos de viver com o mistério de ver um pouco de "azeite" e um "fio de linho" produzir a chama da vida, e de uma vida consciente como a que somos.
A perspectiva de que só no futuro se poderá reproduzir ou criar uma certa imortalidade é susceptível de causar frustração naqueles que querem abraçar a História toda numa vida só. Mas eu não vejo outra saída que não seja continuar a fazer o caminho, pensando que o futuro também é nosso porque lá estarão os nossos filhos. Parca consolação? Talvez, mas correr por gosto não cansa.
A transformação no homem imortal é um cenário de autentica ficção científica e corresponde, de certa forma, à fé cristã na «ressurreição dos mortos».
Pertencemos a um tempo em que Ciência, filosofia e teologia poderão assumir definitivamente a unidade intrínseca do ser humano e levar até às últimas consequencias uma ética e uma moral em conformidade. Como ficará a face da Humanidade quando se generalizar a convicção de que não há salvação da "alma" sem a salvação do "corpo", como quem diz, que só poderemos preservar o espírito quando formos capazes de imortalizar o corpo?
Parece estarmos bem longe desse dia e o cristão obriga-se a viver da fé e o filósofo na expectativa do que vier.
Felizes os que acreditam em fantasmas, que já têm o problema resolvido há muito tempo.
A convicção da unidade do ser humano está a ser expressa no conceito de «pessoa», claramente a sobrepor-se ao de «animal-racional». A ética e a moral estão a ser pensadas para a «pessoa» e não para o "animal". Não se trata de sublimar a nossa animalidade e muito menos negá-la, mas de reconhecer o especialíssimo e exclusivo estatuto que nos confere a consciência.
Cientes desse nobilíssimo estatuto, exigimos ser tratados em conformidade.
Não me admiraria que o próprio conceito de «pessoa» venha a ser vertido no conceito de «homem-espiritual», o homem do futuro, não um fantasma ou alma penada, mas um espírito sustentado na «carne e nos ossos» que nunca deixaremos de ser.
Pela fé, já lá chegou o crente. A ficção cientifica alimenta o sonho dos outros.
Enquanto os académicos se entretêm nas suas intermináveis discussões sobre o assunto, o homem comum, bem mais prático, agarra com sofreguidão os meios que a ciência e a tecnologia vão disponibilizando para ir prolongando a juventude, não de um corpo ou de um espírito, mas da sua "pessoa". Mas há que compreender que a juventude é para o amor e não para a exibição. Depressa se há-de concluir que ser jovem por uma vida longa só valerá se a felicidade for junto
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Nirvana Não, Amor Sim
Em vez de falar-se em «pensamento» budista será mais apropriado falar em «convicções budistas». Porque o pensamento, qualquer que ele seja, é o discurso sobre a realidade ou o que se julga ser a realidade. Para o budismo, o que chamamos realidade não é mais do que aquilo que nós pensamos acerca dela. E é neste sentido que o Luís refere num dos seus comentários ao penúltimo post, que nem «eu» próprio, enquanto fazedor de pensamentos sobre a realidade, sou, intrinsecamente, real.
A compreensão deste facto é a iluminação definitiva, é quando se atinge o Nirvana.
Traduzindo o que se pretende afirmar no budismo: eu sou nada e, quando perceber isso, é que sou realmente…alguma coisa!
Talvez um «eu» feito de iluminação pura
Decorre desta convicção que, procurar explicações para o nosso destino e para o destino do universo ou, ainda, se nós temos um destino ou o que é tudo isso e mais alguma coisa, é um inútil e desvairado propósito que só acrescenta sofrimento à nossa já sofredora humana condição.
Para escapar a esta verdadeira maldição humana do sofrimento, Buda aponta o caminho de um desapego progressivo de tudo até à extinção, em nós, do simples desejo de formular perguntas. E este desejo de conhecer parece ser o último resquício da existência de um «eu» que se quer completamente anulado.
Notemos então: a vontade de conhecer, que foi a mola impulsionadora de toda a nossa civilização «cristã ocidental» é, para o budismo, não a mãe do sofrimento, porque o sofrimento precede o pensamento, mas um cúmulo de desgraça humana.
Nada de novo, se pensarmos na belíssima alegoria do paraíso de Adão e Eva. Estes pais da humanidade, cedendo à tentação de comer o fruto da «árvore do conhecimento» arranjaram uma bela carga de trabalhos para a desgraçada prole.
O autor do paraíso perdido de Adão e Eva explica porque existe o sofrimento. O budismo entende que o sofrimento não é para ser explicado, mas anulado. O problema, na minha perspectiva, é que se despeja o bebé com a água do banho, por esta simples razão: o homem "é" intrinsecamente, e é "intrinsecamente" sofredor, se entendermos que sofrimento significa “mudança”ou “transformação”. E o nosso Universo anda em “sofrimento” pelo menos desde o Big Bang.
E o «eu» que o budismo pretende anular com o seu Nirvana sabe perfeitamente o que se está a passar. E por saber tal, transforma em deleite o que Buda chama de sofrimento, empolgando-se e, esquecido do curto tempo que dura a sua consciente aventura individual, lança-se a caminho das estrelas.
Verdadeiramente, só queremos deixar o sofrimento budista se isso servir os nossos sonhos mais profundos.
Convivemos bem com o «contentamento descontente» de Camões e o nosso rosto ilumina-se de felicidade quando encontra o olhar do nosso amor. Ia apostar que não há Nirvana que se lhe compare. Nunca me descobri tão plenamente «eu» como no dia em que comecei a ouvir uma voz divinamente meiga a sussurrar-me: meu amor. Não troco esta presença amorosa por iluminação nenhuma deste mundo e de todos os outros. E só desejo que tudo o que descobrirmos e inventarmos com o nosso génio humano seja para tornar mais intensa, perfeita e duradoura a presença dos que nos amam e nós amamos.
Dizia o Luís, repetindo palavras do budismo: «se tens fome, come; se tens sede bebe…».
Chega a ser deprimente, no budismo, a ideia do sentido «utilitário» das coisas. Comer, beber, fazer sexo, vestir, calçar, tudo é sempre encarado numa perspectiva individualista. Tudo deve estar ao «serviço» da “minha” iluminação. Tal atitude pressupõe uma filosofia que pensa o homem como indivíduo solitário face ao universo. Acontece que nós descobrimos alguém e fomos descobertos por alguém e formamos um trio inseparável: eu, tu e o universo. Por isso, quando comemos, bebemos, fazemos sexo e nos enfeitamos; ou pensamos, sonhamos e investigamos, estamos a fazê-lo para os outros e com os outros. É por essa razão que fazemos a festa da vida, sinalizando a nossa presença uns aos outros. O amor é o culminar da festa humana. E não nos conformamos que dure apenas o espaço de uma vida. É um doce sofrimento este inconformismo. E nós temos uma palavra divina para o expressar: saudade.
È uma palavra que só o amor sabe dizer.
A compreensão deste facto é a iluminação definitiva, é quando se atinge o Nirvana.
Traduzindo o que se pretende afirmar no budismo: eu sou nada e, quando perceber isso, é que sou realmente…alguma coisa!
Talvez um «eu» feito de iluminação pura
Decorre desta convicção que, procurar explicações para o nosso destino e para o destino do universo ou, ainda, se nós temos um destino ou o que é tudo isso e mais alguma coisa, é um inútil e desvairado propósito que só acrescenta sofrimento à nossa já sofredora humana condição.
Para escapar a esta verdadeira maldição humana do sofrimento, Buda aponta o caminho de um desapego progressivo de tudo até à extinção, em nós, do simples desejo de formular perguntas. E este desejo de conhecer parece ser o último resquício da existência de um «eu» que se quer completamente anulado.
Notemos então: a vontade de conhecer, que foi a mola impulsionadora de toda a nossa civilização «cristã ocidental» é, para o budismo, não a mãe do sofrimento, porque o sofrimento precede o pensamento, mas um cúmulo de desgraça humana.
Nada de novo, se pensarmos na belíssima alegoria do paraíso de Adão e Eva. Estes pais da humanidade, cedendo à tentação de comer o fruto da «árvore do conhecimento» arranjaram uma bela carga de trabalhos para a desgraçada prole.
O autor do paraíso perdido de Adão e Eva explica porque existe o sofrimento. O budismo entende que o sofrimento não é para ser explicado, mas anulado. O problema, na minha perspectiva, é que se despeja o bebé com a água do banho, por esta simples razão: o homem "é" intrinsecamente, e é "intrinsecamente" sofredor, se entendermos que sofrimento significa “mudança”ou “transformação”. E o nosso Universo anda em “sofrimento” pelo menos desde o Big Bang.
E o «eu» que o budismo pretende anular com o seu Nirvana sabe perfeitamente o que se está a passar. E por saber tal, transforma em deleite o que Buda chama de sofrimento, empolgando-se e, esquecido do curto tempo que dura a sua consciente aventura individual, lança-se a caminho das estrelas.
Verdadeiramente, só queremos deixar o sofrimento budista se isso servir os nossos sonhos mais profundos.
Convivemos bem com o «contentamento descontente» de Camões e o nosso rosto ilumina-se de felicidade quando encontra o olhar do nosso amor. Ia apostar que não há Nirvana que se lhe compare. Nunca me descobri tão plenamente «eu» como no dia em que comecei a ouvir uma voz divinamente meiga a sussurrar-me: meu amor. Não troco esta presença amorosa por iluminação nenhuma deste mundo e de todos os outros. E só desejo que tudo o que descobrirmos e inventarmos com o nosso génio humano seja para tornar mais intensa, perfeita e duradoura a presença dos que nos amam e nós amamos.
Dizia o Luís, repetindo palavras do budismo: «se tens fome, come; se tens sede bebe…».
Chega a ser deprimente, no budismo, a ideia do sentido «utilitário» das coisas. Comer, beber, fazer sexo, vestir, calçar, tudo é sempre encarado numa perspectiva individualista. Tudo deve estar ao «serviço» da “minha” iluminação. Tal atitude pressupõe uma filosofia que pensa o homem como indivíduo solitário face ao universo. Acontece que nós descobrimos alguém e fomos descobertos por alguém e formamos um trio inseparável: eu, tu e o universo. Por isso, quando comemos, bebemos, fazemos sexo e nos enfeitamos; ou pensamos, sonhamos e investigamos, estamos a fazê-lo para os outros e com os outros. É por essa razão que fazemos a festa da vida, sinalizando a nossa presença uns aos outros. O amor é o culminar da festa humana. E não nos conformamos que dure apenas o espaço de uma vida. É um doce sofrimento este inconformismo. E nós temos uma palavra divina para o expressar: saudade.
È uma palavra que só o amor sabe dizer.
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