quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Fábula de Higino e Dawin

Vou citar, do livro do Pe Anselmo Borges (Deus e o Sentido da Existência):

"Numa obra essencial da filosofia do século XX, "Ser e o Tempo", o seu autor, Martin Heidegger retoma a famosa fábula sobre o Cuidado, de Higino, um escravo culto (64 a.c. -16 d.c.)

"Uma vez, ao atravessar um rio, Cuidado viu terra argilosa. Pensativo, tomou um pedaço de barro e começou a moldá-lo.Enquanto contemplava o que tinha feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que insuflasse espírito nele, o que Júpiter fez de bom grado. Mas, quando Cuidado quis dar o próprio nome à criatura que havia formado, Júpiter proibiu-lho, exigindo que lhe fosse dado o seu. Enquanto Cuidado e Júpiter discutiam surgiu também a Terra (Tellus) e também ela quis conferir o seu nome à criatura, pois fora ela a dar-lhe um pedaço do seu corpo. Os contendentes invocaram Saturno por juiz. Este tomou a seguinte decisão, que pareceu justa: "Tu, Júpiter, deste-lhe o espírito; por isso receberás de volta o seu espírito por ocasião da sua morte. Tu, Terra, deste-lhe o corpo; por isso, receberás de volta o seu corpo. Mas, como foi Cuidado a ter a ideia de moldar a criatura, ficará ela na sua posse enquanto viver. E, uma vez que há entre vós discussão sobre o nome, chamar-se-á "homo" (Homem), já que foi feita a partir do húmus (Terra)".

Heidegger vê nesta famosa fábula exactamente aquilo que ela pretende transmitir, que é a necessidade, desde a "nascença, de todos os "cuidados" que o homem precisa para sobreviver. O Pe Anselmo chama a atenção para o nome do artesão, "Cuidado", em latim, "cura", e todos os derivados para a nossa língua, que abrangem todo a gama de cuidados e "curativos", que vão da medicina ao afecto, à compaixão, ao amor. Em suma, somos essencialmente "obra do Cuidado".

Ao retomar esta fábula, pretendo focar o contraste com o tema da postagem anterior sobre Darwin, sob dois aspectos.
Primeiro, o pensamento ancestral do criacionismo, presente em todas as narrativas acerca da origem do homem e de todas as outras criaturas, inclusive deuses e deusas. Como sabemos, esta ideia subsiste entre largos extractos da população actual, sendo mesmo a mais aceite.
Segundo, em conexão íntima com esta narrativa do criacionismo surgiu a ideia da dualidade espírito-corpo, com natureza e destinos separados.

O pensamento da "dupla origem" do ser humano determinou o seu destino diferenciado. Estava tudo posto em sossego nesta fé da criação, quando estourou a revolução do evolucionismo, que provocou o tremendo escândalo que se conhece, por contrariar os filósofos e teólogos mais geniais, que vinham sustentando e apontando como a realidade mais nobre da condição humana: o espírito, os seus atributos imortais e as suas sublimes realizações (nestas alturas esquecem-se, quase sempre, as diabólicas maquinações do espírito!).

O debate continua aceso e basta uma atenção mais "cuidada" para perceber que nem a filosofia nem a teologia cederam à evolução, mesmo quando fazem juras em sentido contrário.
Dizem estes filósofos e teólogos (os que aderiram ao evolucionismo) que a diferença entre o homem e os outros seres vivos é "qualitativa" e não uma questão de "grau" na evolução.
Que a diferença é qualitativa, não tenho dúvidas. Mas que essa "qualidade" tem uma origem alheia ao processo evolutivo, já não me parece. E é precisamente neste ponto que se ergue a fronteira entre a ideia do homem como um ser uno e integral e a ideia da dupla substancia, subjacente à fábula de Higino.

É caso para dizer: um pensamento milenar não desaparece em dois séculos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Darwin, Dificil Integração

Estou a terminar a leitura do último livro publicado pelo filósofo e teólogo Pe Anselmo Borges (Deus e o Sentido da Existência)e conclui-se da sua leitura o reconhecimento do evolucionismo e a desesperada tentativa de lhe escapar. O Padre e o Filósofo têm muita dificuldade em sobreviver à revolução darwinista.
Quando tudo parece em harmonia, deixando-se como pano de fundo comum o enigma sempre presente e verdadeiro da vida e do universo, intromete-se a fé do Padre, elevando o estatuto do homem acima do universo e da vida onde emergiu. Literalmente, e sem uma justificação convincente, separa-se o espírito, do corpo, quando no capitulo anterior se havia feito juras à sua indissolúvel unidade!
Por isso não é de estranhar a consideração menor pelos avanços da neurociência, que é sobretudo referida quando confirma o enigma da vida autoconsciente.
O que mais me tem espantado em filósofos e teólogos por quem tenho alta consideração, como é o caso do Pe Anselmo, é a cedência ao peso da ideia milenar de um espírito que ganha autonomia face à matéria. Afirmam, e não se dão conta da incoerência, a unidade do ser humano mas, na hora do "juízo final", segue cada um para o seu destino. Apetecia dizer, que pretendem forçar as portas do paraiso. Laicamente, eu direi antes que querem forçar as portas do futuro. Penso que é melhor ir com calma, descobrindo a chave que as possa abrir.

Chega a ser comovente o exercício mental, e brilhante o jogo de conceitos para provar que "o espírito não é redutível à matéria", que a pessoa não é uma entidade biológica, porque consubstancia uma subjectividade (eu, tu, ele) que transcende a materialidade. De uma penada esquece-se a origem "humilima", mas de uma tal complexidade, que a sua versão macroscópica, o cérebro animal-humano, mais parece um artefacto grosseiro.
É isso mesmo! Só porque é um enigma ainda imperscrutável, esquece-se a complexidade extrema primordial do universo e da vida, que esconde, mas não deixou de transmitir e desenvolver, todas as suas potencialidades. Mesmo esta, que é a extraordinária realidade do homem que se pensa a si própria.
O salto para aquele tipo de transcendencia de que falam os filósofos e teólogos, como o Pe Anselomo, não é consistente com a origem do universo e da vida, tal como resulta do conhecimento que as ciências nos permitem entrever. Força-se a existência de um mundo paralelo a este, um mundo que tem como base de sustentação a fé, a imaginação, o desejo, o sonho, a vontade.
O raciocínio simplista é do género: se eu desejo e penso na eternidade, ela tem que existir.
Nada mais falacioso. A verdade é que se eu desejo a eternidade ou a felicidade, tenho que as construir. O paraíso não existe, muito menos à minha espera, em parte alguma. Quando pensámos e desejámos a saúde, tivemos de construir a medicina, porque o "homem saudável" não estava, algures, à nossa espera. Nem está qualquer espécie de paraíso pronto a desfrutar.
É um perfeito absurdo pensar em construir a eternidade. Eu sei isso e os teólogos melhor do que eu o sabem, por isso imaginaram o estratagema da transcendencia para cumprir o sua humanissima ambição de eternidade.
A saída para esta situação "sem saída" foi proposta aos cristãos, nomeadamente por S.Paulo, há dois mil anos: começar tudo de novo, através da criação de um novo universo e de um novo homem, pela ressurreição. Os gregos riram-se do apostolo e os teólogos trataram de resfriar o entusiasmo dos cristãos. Foi só substituir a ressurreição por um "homem que não morre", ou morre em parte, ou a parte que morre não é homem essencialmente. E foi pena que se tivesse perdido este sonho magnifico de S.Paulo, evoluindo-se não para um mundo de almas fantasioso, mas para o empenho na construção da eternidade para o homem como um todo. Literalmente, fazer da loucura realidade, demorasse o tempo que demorasse...

Já entrados no século XXI, estamos nisto. Bem difícil de digerir o evolucionismo de Darwin, mesmo por aqueles que o apoiam!
Apetecia-me dizer da evolução, aquilo que alguém disse da física quântica: quem diz que já a entendeu, é porque ainda não percebeu mesmo nada.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Shakespeare e Pascal, Dois Olhares

William Shakespeare (Macbeth), citado pelo Lima: “A vida não passa de um fantasma errante, de um pobre comediante que se pavoneia e se agita, durante a sua hora em cena, e que em seguida não mais se ouve; é uma historia dita por um idiota, cheio de raiva e de barulho, e que nada significa...”

Pascal, citado pelo Pe Anselmo Borges, in "Deus e o Sentido da Existência": "O Homem não passa de uma cana, a mais fraca da natureza;mas é uma cana pensante.Para esmagá-lo, não é preciso o universo inteiro armar-se: um vapor, uma gota de água, basta para o matar.Mas, quando o universo o esmagasse, o Homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, pois sabe que morre e conhece a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo não sabe nada disso".

A cada um de nós, o nosso olhar único e verdadeiro, tão genuíno como o destes "senhores" da arte e do pensamento. O comum dos mortais não consegue descrever esse olhar genuíno e profundo, que é o seu, com o virtuosismo dos génios como Shakespeare.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Alma Sem Corpo Não Se Aguenta

Desde que abandonei a crença na dualidade do ser humano, corpo-alma, como duas entidades subsistindo separadas, como que redireccionei o meu pensamento acerca do nosso papel na sociedade e no mundo. Ficou claro que cuidar da saúde do corpo é tao fundamental como cuidar do aperfeiçoamento do espírito. E, sobretudo, que o destino de um é indissociável do destino do outro.
No plano ético não mais passará a ideia de que o bem-estar da alma pode sobrepor-se à saúde do corpo ou vice-versa. A moral terá de levar em conta a boa saúde de um e de outro para poder julgar ou avaliar alguém.
E as religiões terão de abandonar a sua postura cómoda e desculpabilizante de que já fazem o seu papel tratando dos espíritos. Porque esses espíritos que pregam, simplesmente não existem. Poderíamos dizer que chegou a hora de as religiões se reencontrarem com o homem de quem se afastaram para oferecer espíritos à Divindade.
Finalmente, neste inicio do século XXI, chegou a hora de puxarmos todos para o mesmo lado: o da transcendência da dignidade humana, que as filosofias e as teologias muito ajudaram a despertar.
As fabulosas descobertas científicas dos últimos três séculos estão a conduzir à pacificação e união de dois contrários aparentes, o corpo e a sua magnifica e ainda misteriosa realização que é a mente consciente.
Para evitar confusões, esclareço que chamo de transcendência esta capacidade humana única de sobrevoar o passado e o futuro, graças tanto ao poder da memória como à facilidade como olhamos e projectamos o futuro. Graças a essa transcendência vivemos o presente conscientes do passado donde viemos e avisados do futuro que começa no momento seguinte.

Nesta perspectiva de unidade total do ser humano, o nosso objectivo será, em primeirissimo lugar, preservar a saúde do todo. Parece que não, mas representa uma verdadeira revolução no pensamento. Tão revolucionária, que se faz tudo para não acompanhar as descobertas e propostas das ciências. E o caso não é para menos. Como aceitar que a bondade, a maldade, a sanidade mental ou a loucura possam estar dependentes de algo tão "vulgar" como o excesso ou a carência de uma substância química?
Que estas verdades não nos assustem, lembrando-nos que somos nós que estamos a fazer estas descobertas. E aqui é convocada, novamente, a transcendencia da dignidade humana. Por ela estamos a discorrer sobre todas estas coisas e a avaliar a sua maravilhosa realidade.
Não precisamos de subir ao céu da transcendencia mística e mítica para nos descobrirmos a existir para além do momento que vivemos.
Não estivemos no passado remoto donde viemos, mas é como se lá tivéssemos estado; não estaremos no futuro dos nossos netos, mas é como se para lá caminhássemos.
Para isso damos um passo de cada vez.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Uma Pegunta Interessante

"Foram budistas japoneses que se interrogaram por que motivo a moderna ciência se expandiu no solo da tradição judaico-cristã".
É uma citação do livro do teólogo católico (excomungado)Hans Kung, da sua obra "O Principio de Todas as Coisas".
O teólogo sugere, como resposta à interrogação dos budistas, que foi fé na Criação que dessacralizou radicalmente a natureza. Judeus e cristãos estabeleceram um divisória intransponível entre a divindade e a natureza. E que ao homem, ele próprio criatura e natureza, foi dado todo o poder sobre a natureza: "crescei e multiplicai-vos e dominai a Terra".
Esta proclamação surge numa época em que judeus, e depois cristãos, tinham de resistir à tentação de divinizar as forças da natureza, como era usual noutras culturas.
Podemos aceitar sem dificuldade esta resposta. Mas a verdade é que, dessacralizando-se a natureza, abriu-se a janela do ateísmo, quando a ciência descobriu que a natureza tem leis próprias pelas quais se rege, dispensando-se o "dedo do Criador" para funcionar na perfeição...
Mas não é por aqui que quero ir agora.
No seguimento da postagem anterior e dos comentários que o Lima, o Luís e eu próprio fizemos, sobressai a questão acerca da "experiência" da realidade "em si", que intriga mais o Luís, que o misterioso fenómeno da mente consciente.
A nossa "sensibilidade-experiência" do dia a dia, que integra a acção dos sentidos, do cérebro e da consciência interage com o todo da "realidade em si" ou vivemos na ilusão dessa aproximação?
Os três ensaiávamos uma resposta, na caixa de comentários. Vamos continuar? Por mim, vamos, porque isto é fundamental para compreender o que andamos cá a fazer.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sou A Consciencia Das Minhas Memórias

Isto é dizer tão pouco que bem podia acompanhar o Luís quando afirma "eu não existo".
Porém, não o faço, porque este "pouco" é tanto, que chega para não me sentir e perceber anónimo entre anónimos.
A memória e a consciência parecem ser a chave da construção da identidade. E a experiência mostra-nos que perdendo-se a memória perde-se a consciência de si mesmo, porque se perde o "histórico". No limite,quando se perde o próprio nome tem de se recomeçar a partir do zero, acumulando novas memórias e vivendo a consciência delas. Reconstruímos um EU. Se este recomeço se processasse em isolamento completo, nunca saberíamos que tivemos um outro EU no passado.
Às vezes chego a pensar que quando alguém diz "não existo" está sobretudo a manifestar o seu inconformismo, ao constatar que não tem um passado-principio a que se agarrar. Assim como se não tivéssemos "pai e mãe", nascidos por geração espontânea, sem notícia de um "antes". No fundo, também sem identidade, sem nome e apelido, porque para os que temos nos autonomeamos. O nosso fascinio pela história, talvez mais que curiosidade seja a procura da identidade.Sabemos e sentimos que nos afastamos da "origem" e sentimos-nos a perder o pé. Porque a verdade é que cada um de nós, EU e TU, somos agora o EU que não fomos antes, e no futuro não seremos o que hoje somos. A mesma consciência de que num tempo não existimos deixa-nos inseguros perante a perspectiva da inexistência futura.
Melhor que esta incerteza, é o vácuo do Budismos. Não é assim, Luís?

A ilusâo, se há alguma ilusão, é a de que "não sou" , "não existo".
Pretender sugerir que "eu sou" mas "eu não existo" é fazer um jogo de palavras e de conceitos para iludir a questâo fundamental do "ser ou não ser".

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Valor Acrescentado

Cada um de nós é, neste momento, a matéria prima original e o "valor acrescentado" de uma vida. E se este "valor acrescentado" estava potenciado na origem, de modo algum estava implicito nessa mesma materia prima original. De facto, e como a ciência evolutiva evidencia cada vez mais, as vicissitudes do percurso da materia prima original criaram e continuam a criar uma realidade "personalizada", insuspeitada no ponto de partida. No ser humano este "valor acrescentado" assume a novissima realidade de sujeito consciente da sua personalidade.
O tempo em que acordamos para a realidade evolutiva é apenas um instante, se comparado com a grandeza do caminho percorrido. Isto devia fazer-nos pensar que vivemos apenas mais uma fase do percurso da matéria prima original e que o futuro, de maneira nenhuma está implicito na realidade presente.
O que isto significa, na prática, é que vivemos num espaço de liberdade criativa, que nada faria prever, depois de uma origem que aparenta ser totalmente definida e determinada.
O "valor acrescentado" é a completa surpresa. Deram-nos as pedras e nós construimos a "catedral".
Porreiro, pá!