sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Darwin, Dificil Integração

Estou a terminar a leitura do último livro publicado pelo filósofo e teólogo Pe Anselmo Borges (Deus e o Sentido da Existência)e conclui-se da sua leitura o reconhecimento do evolucionismo e a desesperada tentativa de lhe escapar. O Padre e o Filósofo têm muita dificuldade em sobreviver à revolução darwinista.
Quando tudo parece em harmonia, deixando-se como pano de fundo comum o enigma sempre presente e verdadeiro da vida e do universo, intromete-se a fé do Padre, elevando o estatuto do homem acima do universo e da vida onde emergiu. Literalmente, e sem uma justificação convincente, separa-se o espírito, do corpo, quando no capitulo anterior se havia feito juras à sua indissolúvel unidade!
Por isso não é de estranhar a consideração menor pelos avanços da neurociência, que é sobretudo referida quando confirma o enigma da vida autoconsciente.
O que mais me tem espantado em filósofos e teólogos por quem tenho alta consideração, como é o caso do Pe Anselmo, é a cedência ao peso da ideia milenar de um espírito que ganha autonomia face à matéria. Afirmam, e não se dão conta da incoerência, a unidade do ser humano mas, na hora do "juízo final", segue cada um para o seu destino. Apetecia dizer, que pretendem forçar as portas do paraiso. Laicamente, eu direi antes que querem forçar as portas do futuro. Penso que é melhor ir com calma, descobrindo a chave que as possa abrir.

Chega a ser comovente o exercício mental, e brilhante o jogo de conceitos para provar que "o espírito não é redutível à matéria", que a pessoa não é uma entidade biológica, porque consubstancia uma subjectividade (eu, tu, ele) que transcende a materialidade. De uma penada esquece-se a origem "humilima", mas de uma tal complexidade, que a sua versão macroscópica, o cérebro animal-humano, mais parece um artefacto grosseiro.
É isso mesmo! Só porque é um enigma ainda imperscrutável, esquece-se a complexidade extrema primordial do universo e da vida, que esconde, mas não deixou de transmitir e desenvolver, todas as suas potencialidades. Mesmo esta, que é a extraordinária realidade do homem que se pensa a si própria.
O salto para aquele tipo de transcendencia de que falam os filósofos e teólogos, como o Pe Anselomo, não é consistente com a origem do universo e da vida, tal como resulta do conhecimento que as ciências nos permitem entrever. Força-se a existência de um mundo paralelo a este, um mundo que tem como base de sustentação a fé, a imaginação, o desejo, o sonho, a vontade.
O raciocínio simplista é do género: se eu desejo e penso na eternidade, ela tem que existir.
Nada mais falacioso. A verdade é que se eu desejo a eternidade ou a felicidade, tenho que as construir. O paraíso não existe, muito menos à minha espera, em parte alguma. Quando pensámos e desejámos a saúde, tivemos de construir a medicina, porque o "homem saudável" não estava, algures, à nossa espera. Nem está qualquer espécie de paraíso pronto a desfrutar.
É um perfeito absurdo pensar em construir a eternidade. Eu sei isso e os teólogos melhor do que eu o sabem, por isso imaginaram o estratagema da transcendencia para cumprir o sua humanissima ambição de eternidade.
A saída para esta situação "sem saída" foi proposta aos cristãos, nomeadamente por S.Paulo, há dois mil anos: começar tudo de novo, através da criação de um novo universo e de um novo homem, pela ressurreição. Os gregos riram-se do apostolo e os teólogos trataram de resfriar o entusiasmo dos cristãos. Foi só substituir a ressurreição por um "homem que não morre", ou morre em parte, ou a parte que morre não é homem essencialmente. E foi pena que se tivesse perdido este sonho magnifico de S.Paulo, evoluindo-se não para um mundo de almas fantasioso, mas para o empenho na construção da eternidade para o homem como um todo. Literalmente, fazer da loucura realidade, demorasse o tempo que demorasse...

Já entrados no século XXI, estamos nisto. Bem difícil de digerir o evolucionismo de Darwin, mesmo por aqueles que o apoiam!
Apetecia-me dizer da evolução, aquilo que alguém disse da física quântica: quem diz que já a entendeu, é porque ainda não percebeu mesmo nada.

20 comentários:

  1. Bom, eu julgo que entendo razoavelmente bem a evolução, espero que não dê azar.

    Pois, é tramado tentar ser um "espírito" científico e ao mesmo tempo fazer a espargata intelectual (ou anti-intelectual?). Não gabaria a sorte ao padre Anselmo, se fosse sorte, mas como é castigo auto-infligido a minha empatia esbate-se um pouquito...

    Não obstante, devo admitir que lastimavelmente partilho a intuição de David Chalmers de que «todas as formas de Fisicalismo (redutivista ou não-redutivista), que têm dominado moderna filosofia e ciência não são suficientes para provar a existência (ou seja, presença na realidade) da consciência em si» - eu diria melhor, da «experiência», já que dada a experiência não me custa nada perceber a consciência (leia-se para isso Metzinger 3 vezes ao dia, durante duas semanas e passa). Alto, Mário, baixa o calhau que me vais acertar! Digo o que disse mas acrescento que não me deixo, contudo, levar pela referida intuição. Tenho a convicção racional de que tudo, a seu tempo, em particular a história da «experiência» (Metzinger fala da «fenomenologia» mas o termo não me convence) se há-de explicar de forma absolutamente materialista. Mas ainda não percebi como. A opinião contrária também não me convence absolutamente nada.

    Quanto a São Paulo, e enquanto não te dá uma febre de escrita, hás-de me elucidar melhor do cerne da sua teologia. Duas linhas bastarão para me pôr nos carris. J'attend...

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  2. Então aí vai S.Paulo.
    Foi o verdadeiro teólogo do cristianismo e a sua teologia baseia-se na ressurreição/transformação do homem, realidade una, integral e destinado à morte completa e definitiva, de acordo com a tradição biblica hebraica, que abandonou, no que diz respeita à morte.
    Travou uma luta sem tréguas com os seguidores mais´próximos de Jesus de Nazaré, os apóstolos, acabando por lhes "virar as costas" , porque estes insistiam num messias para os judeus e Paulo confrontava-os com Jesus Cristo Ressuscitado, o messias (cristo, em grego)para todo o universo. Todo mesmo, incluindo humanidade, a terra e os céus.
    Jesus fora o primeiro dos ressuscitados e no "final dos tempos", que ele julgava estar imintente, todo o universo seria transformado e quem já tivesse morrido ressuscitava. Ou seja, a ressurreição propriamente dita era apenas para os mortos, porque os vivos, os céus e a terra seriam apenas "transformados", numa realidade incorruptivel.
    Este evangelho era tão fundamental para Paulo que chega a afirmar que "se Cristo não ressuscitou a nossa fé não vale nada e somos os mais desgraçados dos homens". Compreende-se.
    E S.Paulo não se desviou nunca deste anúncio fundamental. Quem ler S.Paulo, nas suas cartas verdadeiras, porque quase metade não são da sua autoria, apesar de lhe terem sido atribuidas (pseudoo-paulistas)fica espantado por nelas nunca se referir aos ensinamentos de Jesus de Nazaré, àquelas lindas e numerosas parábolas, aos mandamentos, às bem-aventuranças. E, no entanto, ele escreveu poucos anos depois da morte de Jesus e muito antes de todos os restantes autores do Novo Testamento.
    A S.Paulo só interessava a ressurreição e o primeiro dos ressuscitados, o Senhor Jesus Cristo. Relativizou tudo o resto, até porque o fim dos tempos estava mesmo a chegar e com ele a vitória completa sobre a morte. Pergunta ele, pensando na ressurreição iminente: "Onde está, ó morte, a tua vitória?".
    Mas o tempo foi passando, Paulo morreu no ano 62 e a ressurreição não acontecia. Havia que dar uma explicação aos fiéis convertidos.
    Em desespero de causa, numa carta atribuida a S.Pedro veio a escrever-se que "para Deus um dia é como mil anos".
    Foi curto.
    Optou-se por esquecer a antropologia hebraica do homem uno e mortal como qualquer ser vivo, e adoptou-se até aos nossos dias o homem-alma da cultura grega.
    Vai-se o corpo, sobra o espirito. Em vez da ressurreiçâo de S.Paulo começou a acreditar-se numa espécie de desmaterialização, que veio a designar-se por desincarnação. No fundo, começou a negar-se a morte do homem.

    Talvez agora entendas porque aprecio tanto S.Paulo. Resistiu à filosofia antroplogica grega que dividiu o homem em corpo e alma e propôs a única saída possivel: transformar esta realissima desgraceira numa realidade fabulosa. Mas como o homem não podia levar a cabo tal empreitada, o próprio Deus Pai providenciaria, através de uma intervenção tão prodigiosa como a da primeira criação no Génesis. Por isso Paulo chama a Jesus Cristo de o Novo Adão e à ressurreição a "Nova Criação". Por isso é que a ressurreição de Paulo é universal.
    E naquele a tempo o mais fácil era acreditar em prodigios e intervenções directas de Deus na História.
    Fico a pensar Paulo de Tarso seria, hoje, um ardoroso evolucionista, dando tempo ao tempo para que essa transformação se concretizasse...

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  3. 1. «todas as formas de Fisicalismo (redutivista ou não-redutivista), que têm dominado moderna filosofia e ciência não são suficientes para provar a existência (ou seja, presença na realidade) da consciência em si», citas de David Chalmers

    A minha convicção é de que não existe a "consciência em si", mas somente o exercício da consciência comprovado quando é experienciada e testemunhada por uma ainda mais intrigante realidade: o eu-sujeito.
    Penso que será completamente inútil procurar a definição e a própria realidade da consciência fora do "funcionamento sincronizado" do corpo-cérebro-mente". Quando algum destes três entra em colapso é todo o conjunto a ruir inapelavelmente.
    Ora é precisamente este facto, aliás bem à vista de toda a gente, que as filosofias espiritualistas e as teologias não conseguem digerir.
    Não vale a pena correr atrás de visões ou intuições, quando a mais incrível realização do processo evolutivo da vida se desagrega.

    Não tenho uma única roseira plantada no meu quintal. Nem vou ter. O meu fascínio é tão grande por essa flor que não suporto testemunhar a brevidade e consequente degradação de tão inebriante beleza e fragrância. Talvez Freud venha ainda sugerir que associei esta maravilha da natureza ao nome da minha mãe, Rosa, que nunca queria ver morrer. Mas aos 92 anos também se desfolhou.

    Infere-se desta minha concepção da realidade humana, na sua globalidade, que o único milagre possível para garantir a experiência fantástica da consciência em si, ao mesmo tempo consciência do universo (possivelmente não única), é preservar a vitalidade e sanidade do corpo-cérebro, a sua naturalíssima e única fonte.
    O resto são fantasias lindas e esperançosas, que muito têm ajudado a humanidade neste parto sem fim para mais e melhor vida.
    Neste sentido eu não sinto o mínimo pudor em afirmar que as religiões da esperança têm sido o sagrado pão de cada dia da Humanidade. Tão sagrado que quem lho tenta tirar da boca, pode acabar trucidado.
    E com isto não estou, de modo algum, a justificar a barbárie religiosa. Estou somente a dizer que compreendo o que se passa.
    2.
    E concluo:: quanto mais investirmos no conhecimento, mais depressa construiremos pelo menos um pouco do nosso paraíso.

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  4. «não existe a "consciência em si", mas somente o exercício da consciência»

    serão ecos de

    "Só existe o caminho, não quem o percorra» ? :-)

    «Não vale a pena correr atrás de visões ou intuições, quando a mais incrível realização do processo evolutivo da vida se desagrega.»

    Completamente em sintonia. Mas gostarei do dia em que esmagarei essa intuição com uma certeza igual à que tenho da evolução da consciência-excepto-experiência, etc.

    «E concluo:: quanto mais investirmos no conhecimento, mais depressa construiremos pelo menos um pouco do nosso paraíso.»

    Um objectivo tão valioso como o da extinção do sofrimento. Aliás, para mim, são o mesmo.

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  5. Caraças, fiquei com pena do São Paulo.

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  6. Duas linhas para o Mário falar de S. Paulo? Aí tens o resultado, Luís. Se lanças o Mário por aí, vai de certeza haver febre de escrita!!!
    Por mim ficaria no tema focado pelo Mário através do livro do P. Anselmo. Isto é a evolução dos seres vivos, segundo as teorias de Darwin e as implicações teológicas dessas mesmas teorias em quase todas as religiões do mundo. É uma temática que continuo a seguir de perto desde que tive a ocasião de descobrir a extraordinária revolução cientifica provocada pela “A origem das espécies” de Darwin. E, embora não conheça os escritos do P. Anselmo, parece-me que ele está em linha com certos filósofos, teólogos e mesmo científicos católicos que tenho lido, que tentam conciliar ou disfarçar as intransponíveis incompatibilidades entre ciência e religião. Esta frase sua que encontrei na net resume bem a ideia base defendida por estes pensadores: «Evolução e a fé são perfeitamente conciliáveis. Se houve e ainda há oposição ao evolucionismo, isso deve-se a uma má compreensão da Bíblia.»
    Dentro dessa linha estão dois grandes científicos franceses, e, como por acaso também religiosos. Um deles da primeira metade do século XX: Teilhard de Chardin, padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo . O outro, ainda em actividade: Jacques Arnould, dominicano, engenheiro agrónomo, doutor em historia das ciências e em teologia. Estes dois cientistas/pensadores, certamente como o P. Anselmo, sugerem ideias e conceitos de maneira a harmonizar uma possível coabitação e compatibilidade entre a ciência moderna e os dogmas e paradigmas das velhas religiões.

    Basto campo de confrontos que dura há 150 anos e não está perto de acabar!

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  7. O escape habitual é juntar tudo o que subsiste de dúvida para a ciência e divinizar essa amálgama.

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  8. Penso que vão subsistir sempre dúvidas na ciência, porque a realidade é demasiado vasta e profunda.
    Para evitar amassar realidade com fantasia é necessário que se continuem a tirar todas as ilações da revolução darwnista do evolucionismo. E concordo com o Lima, que devemos deter-nos mais um pouco neste tema.

    Uma vez aceite a evidência do evolucionismo, não se pode ceder à tentação de pensar numa quebra da corrente da vida como, por exemplo, intervenções pontuais da Divindade. Nem quebras, nem saltos para a "metafísica", como se a vida deixasse de ser uma realidade essencialmente coerente, para ser outra completamente diferente, depois da "quebra" ou do "salto".
    Para mim, o cerne da questão consiste em assimilar ou não assimilar o evolucionismo. Creio que uma enormissima parte do pensadores actuais não sabe para onde há-de cair, porque as implicações da aceitaçâo do "continuum" no curso da vida, pressuposto do evolucionismo, são devastadoras para o pensamento tradicional, muito mais arraigado nas mentes do que se possa imaginar. Diz-se de tudo para iludir a questão.
    O argumento derradeiro daqueles pensadores é sempre o mesmo: a ciência não tem todas as respostas. Ou, simplesmente, "não tem a "Resposta".
    E eu pergunto: alguém tem?

    Sejamos verdadeiros: a filosofia e a teologia fizeram o homem acordar para a fabulosa realidade da sua humanidade. Mas quem rasgou os horizontes do espaço onde emergiu esta humanidade foram os gigantes das ciências.E, diga-se o que se disser, sem "espaço" não existe pensamento algum.
    Por isso penso que cientistas, filósofos e teólogos estão condenados a entenderem-se, quando aceitam que a realidade do homem é una e indivisivel.

    Até parece que seria fácil o entendimento, não? Pois parece, mas vejam o que fizeram a S.Paulo, que insistiu na universalidade da ressurreição! Colocaram-no no altar, mas "amaneiraram" o seu sonho de ressurreição, tornando-o "razoável", mas irreconhecivel.
    Mas que terá Paulo de Tarso a ver com evolução? Nada, que a ideia de evolução era impensável há dois mil anos. (Impensavel, disse eu. Cá está a ciência a alargar o espaço para o pensamento...).
    Se eu trouxe a ressurreição de S.Paulo à colação é porque ele intuiu o "continuum" da história humana e de todo o universo, nunca os separando do destino comum. Claro que S.Paulo sabia que tudo era "obra e graça" de Deus-Pai.
    Nós nem isso sabemos...

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  9. E agora mais directamente para o comentário do Lima.

    "...embora não conheça os escritos do P. Anselmo, parece-me que ele está em linha com certos filósofos, teólogos e mesmo científicos católicos que tenho lido, que tentam conciliar ou disfarçar as intransponíveis incompatibilidades entre ciência e religião.

    O que eu julgo é que as "incompatibilidades intransponíveis" de facto não o sâo, porque são criadas pelo confronto de ideias e, como tal, sujeitas a escrutinio permanente para aferir a sua validade, não podendo, portanto, ser tomadas como definitivas por nenhuma das partes.O nosso conhecimento científico ou filosófico é sempre inacabado e di-se-á que se intergra perfeitamente na prórpia noção e realidade do evolucionismo.

    Só quem se declara senhor da Verdade e da Sabedoria poderia declarar uma tal incompatibilidade.

    Outra coisa é falar-se da incompatibilidade entre uma determinada ideia de evolucionismo,para o afirmar ou negar. Um evolucionista convicto pode começar a negar outras realidades da vida, nomeadamente da vida humana, que embora estejam em linha com o evolucionismo, ultrapassam largamente a nossa compreensão, como é o caso da autoconsciência ou do princípio do "processo evolutivo" que, a este nível, não significa outra coisa que reconhecer o enígma da formção de um "universo evolutivo".
    A referencia da ciência, da filosofia e da teologia humanas terá de ser sempre este enígma "inicial".

    À laia de conclusão sugeria que as incompatibilidades pontificam quando os termos da discussão são determinados pelo imediatismo, em que o pendador fica en- cerrado no circulo que desenhou. Basta romper o esse circulo para o diálogo prosseguir.
    E a ciência tem obrigado a desfazer tantos círculos....

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  10. Quando falei de incompatibilidades intransponíveis entre ciência e religião não me referia tanto às divergências filosóficas e teológicas, meramente virtuais, mas a crenças e conceitos implicando Matéria e Universo. Desde que o homem se interessou às leis da Natureza, foi descobrindo realidades incompatíveis com as ideias conhecidas, encontrando-se assim diante de uma barreira intransponível entre um paradigma, uma crença ou um dogma, unanimemente aceite pelas esferas do pensamento, e uma realidade palpável e comprovada pela experimentação e pelas leis do Universo.
    Quero referir-me ao geocentrismo, crença, conceito e paradigma então defendido por toda a casta de pensadores, fossem eles crentes ou ateus, até que Copernic e Galileu tivessem conseguido explicar racionalmente, baseando-se nas leis do universo, que a realidade contradizia frontalmente tais ideias.
    Depois da revolução provocada pela confirmação do heliocentrismo por Galileu, muitos outras crenças e conceitos das civilizações antigas foram expostos à luz da razão e explicados através das leis da natureza. Mas as crenças e conceitos propagam-se através dos tempos como o ADN se propaga de geração em geração.

    Assim, podemos ficar perplexos, mas a verdade é que, ainda hoje, neste extraordinário século XXI, uma grande parte dos seres humanos tem a firme convicção de que:
    - O Universo e o sistema solar foram criados instantaneamente.
    - A vida na terra apareceu repentinamente há não mais de dez mil anos.
    - O género humano é hoje exactamente igual ao que era no momento do seu aparecimento.
    - Todos os seres vivos têm a mesma idade geológica.
    - O homem e o macaco tem uma origem completamente distinta.
    - As características do planeta terra foram determinadas por processos rápidos, essencialmente devido a catástrofes à escala global e regional, e não a uma evolução lenta e gradual, escalonada sobre milhões de milhares de anos.

    São estes conceitos, crenças e outros dogmas, principalmente dentro do Judaísmo,Cristianismo e Islamismo, e todas as suas derivações, que levam a que Ciência e Religião caminhem lado a lado sem nunca se encontrarem.

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  11. Correcto, Lima, mas eu quis passar por cima desse primarismo, que a teologia e os crentes "progressistas" actuais já abandonaram há muito. E concordo contigo, que esse primarismo é ainda a "cultura" de biliões de crentes. E vai continuar. As verdades científicas podem demorar séculos a ser aceites e uns mais ainda a ser assimiladas. É disto mesmo que tenho estado a falar, quando confronto os tais "crentes progressistas" com a sua dificuldade irremediável em tirar as ilações todas, da verdade do evolucionismo (que aceitam) para as confrontar com as suas filosofias e teologias transcendentais. A ciência reconhece o enigma do universo e da vida;esses crentes também. Mas enquanto que o filósofo-cientista permanece na expectativa e persiste em suprir a sua ignorâcia, avançando no conhecimento, a teologia "antecipa" a verdade, ou verdades com o único fundamento da fé. E muitos sociólogos afirmam que a humanidade entraria em colapso sem esta "antecipação" das verdades da fé. E sou capaz de estar de acordo com eles porque, de facto, a esmagadora maioria das pessoas vive refugiada na esperança que vem da fé, face às agruras insuportáveis da vida e natural degenerescência que conduz à morte inevitável.
    Entretanto, práticos como são todos os seres vivos, os mesmos crentes aproveitam tudo o que a ciência vai disponibilzando, rezando silenciosamente: "fia-te na virgem e não corras".

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  12. Há muitas coisas que nos deixam perplexos e uma delas é esta ideia simples de que a vida de cada individuo traz consigo a necessidade da sua própria morte, caso contrário exigia-se um universo para cada espécie. O sonho de imortalidade tem de ser mesmo para outra vida. Ou então apenas para os tais "espiritos" que não comem nem bebem nem ocupam espaço..
    Conclusão prática: o melhor é navegar à vista. A cada dia, seu cuidado, como sempre fizemos.

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  13. No comentário anterior distingui "outra vida", da existência de "espiritos". Para mim, estes são pura fantasia, "fantasmas" ou "almas penadas" com tanta consistência como a de uma chávena de café fumegante em orbitra lunar, enquanto que a "outra vida" representa a fé e a esperança do evangelho de Paulo de Tarso, que é a ressurreição/transformação desta realidade humana e universal num "corpo espiritual",como ele explicitou.
    São duas atitudes completamente diferentes perante a vida. Em S.Paulo temos o sucesso ou uma saída feliz para a realidade frágil (corruptivel, como ele diz) desta vida, saída essa que nos é oferecida gratuitamente por Deus-Pai. Porque é oferecida, não é mérito nosso nem fruto do nosso esforço, como se S.Paulo nos estivesse a dizer: nem merecemos ser criados nem merecemos ser re-criados-resuscitados. É tudo dádiva divina.

    Toda esta interpretação da vida resulta de um acto de fé e não de uma proposta da inteligência e da razão humanas. Trata-se de uma "sabedoria" que não é como a "sabedoria dos homens" porque totalmende baseada numa revelação divina: "loucura para os gentios, escândalo para os judeus", escreveu S.paulo.

    Em contraponto com esta fé do evangelho de S.Paulo, temos a fantasia dos espiritos que nega a unidade intrinseca do ser humano, destinando uma componente, a matéria-corpo, à dissolução e a outra componente, o espirito, à imortalidade, como se o espirito fosse, desde sempre, o verdadeiro homem.

    É uma verdadeira fraude confundir a fé de S.Paulo, alheia à racionalidade (loucura! diz ele), com a crença nos espiritos desincarnados que resulta de uma determinada racionalização da realidade, seja pela filosofia, seja pela teologia.
    Tem sido desastroso para a cristandade, do ponto de vista do pensamento e da pastoral, o abandono da unidade indissoluvel do ser humano na ressurreição paulina. Chegou a ser mesmo trágico, se pensarmos que os cristãos queimavam os corpos-vivos dos hereges (até dos hereges arrependidos) para lhes salvar a alma.
    Esta verdadeira heresia em relaçâo à ressurreição paulina ainda hoje continua a gerar a maior das confusões e consequente descrédito do cristianismo, que chama de irmãos aos crentes durante a missa e mal eles põem o pé fora da porta da igreja, cada um vai à sua vida, a "vida do corpo", que a "vida da alma" fica à espera de outra missa.

    Tendo como ponto de partida esta falsidade básica do dualismo, todo o discurso da pregação ecoa uma tremenda mentira. Irmãos, amor, filhos de Deus, caridade, bondade, compaixão! Que signigfica tudo isso quando os destinatários destes gestos de humanidade são espiritos encarcerados num corpo e não os homens de carne e osso e espirito, do nosso dia a dia?

    Há uma terceira "saída", bem mais prosaica, para enfrentar o problema da morte da espécie, pelo menos a longo prazo: emigrar para outros planetas.

    O homem não aceita de maneira nenhuma ser encostado à parede.
    Sinto orgulho na nossa Humanidade.

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  14. Mas esta terceira saída para o impasse que se adivinha no horizonte, laica ou "materialista" e que eu diria apenas humanamente natural, em linha com o evolucionismo bilionário, não é equacionada nem pelos homens-espiritos. Nem os mais "progressistas" vão por aí e afirmam-no de mil maneiras. É lê-los:

    "A sobrevivência da nossa herança religiosa é condição para a sobrevivência da civilização".

    E porquê?

    "...Os desejos do homem podem crescer incessantemente, numa espiral de avidez sem fim. Mas, uma vez que o nosso planeta é limitado, somos forçados a limitar os nossos desejos. Ora, sem uma consciência dos limites, que só pode provir da história e da religião, toda a tentativa de limitá-los, terminará numa terrivel frustração e agressividade, possivelmente em grande escala". (Filósofo polaco recentemente falecido (2009) L. Kolakowski, citado pelo Pe Anselmo)
    Eu não sei o que lamentar mais neste filósofo de vistas curtas: se a sua ideia ridicula de que a humanidade como um todo é uma máfia crapulosa, incapaz de gerar uma pleiade de cientistas, santos, artistas, apaixonados, sonhadores e construtores, se a sua miserável filosofia parida entre quatro paredes, com janela aberta para o que de pior produz o ser humano, apontando como saída uma atitude alienante que é o regresso à religião que projecta o futuro da humanidade fora da realidade que ela é.
    É o perfeito contraponto da atitude daqueles que, reconhecendo os limites do presente e do futuro imediato, sonham viajar para as estrelas. E o sonho é a motivação primeira para a acção e não um delirio preguiçoso e descomprometido. Leonardo Da Vinci foi o exemplo do sonhador que nunca existiu na cabeça daquele filósofo. E foram biliões e biliões como Da Vinci, embora sem o seu génio de gigante.
    Claro que sempre existiram multidões de crápulas.
    Claro que as nossas raizes são a "lei da selva", numa luta de vida e morte pela sobrevivência individual e da espécie.
    Claro que essa nossa "desumanidade" ancestral ainda subiste nos nossos genes.

    Mas fomos evoluindo para algo muito diferente e somos, hoje, testemunhas dessa história da evolução. E não é pelo facto de o caminho ser longo e espinhoso que vamos fugir desta nossa realidade intrínseca, imaginando-nos espiritos desincarnados imortais destinados a fantasiosos paraísos fáceis ao virar do século.

    Eu compreendo que nos séculos passados, sem a perspectiva da História, como a nossa actual, era impossivel sonhar com outra saída que não fosse por uma intervenção milagrosa de "quem nos colocou neste mundo".
    Era impossivel pensar que seríamos capazes de transformar a realidade. Qualquer esperança de "saída" teria de provir do "exterior" à humandade. Hoje, quando nos sentimos doentes corremos para a medicina e só quando esta "nâo chega" se levantam os olhos para o além. Chama-se a isso o "Deus tapa buracos" ou "Deus das lacunas", para logo acrescentar que, a prazo, será um "Deus desnecessário".
    Deve-se compreender a fé ancestral dos que ainda não assimilaram a dinâmica intrinseca da História. Há que dar tempo ao tempo para que essa actualização aconteça. E não há drama nenhum pelo facto. Sempre foi assim e a História não parou.
    Porque o "sonho comanda a vida". E são tantos a trabalhar sobre o sonho. Muito mais que a multidâo dos que ainda são dominados pela "lei da selva", remeniscente nos nossos genes.

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    1. Vejo aqui uma certa afinidade entre esta "limitação dos desejos" e a filosofia budista, com a ressalva que no budismo o cerne do problema é o apego e não o acto em si. Assim, o progresso e a riqueza, por ex., são bons, desde que nãotomem a forma de um apego fundado na ignorância fundamental (de não sabermos que não existimos, digo eu!)

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  15. O Luís inquiriu-te sobre o “cerne da filosofia de S. Paulo”. Por minha parte, gostava que um dia me esclarecesses o cerne da Ressurreição de S. Paulo. Sei que tens gasto muita tinta com o tema, mas … ainda não cheguei bem ao cerne...

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  16. Depois de tudo o que tenho escrito sobre S.Paulo, mesmo aqui no blog, não vai ser difícil esclarecer-te sobre o cerne da ressurreição de S.Paulo.
    Em primeiríssimo lugar convém que tenhas presente que o ateísmo é uma "ideologia" que surgiu com a revolução científica dos séculos XVII e XVIII. Até então, a existência de Deus e sua intervenção directa na História era incontestável e uma evidência. Todos os gigantes do pensamento faziam desembocar o sua sabedoria na transcendência divina. "A Verdade é prerrogativa exclusiva dos deuses", proclamavam os sábios gregos.
    Paulo de Tarso "viu" duas intervenções de Deus fundamentais na história humana. A primeira na Criação do Génesis e a segunda na Ressurreição de Jesus Cristo, a cabeça da Humanidade re-criada, ressuscitada ou transformada. Por Jesus Cristo, em Jesus Cristo e com Jesus Cristo, a Primeira Criação, sujeita à corrupção até à ressurreição do mesmo Jesus Cristo, ficará destinada à transformação numa realidade incorruptível.
    O facto de S.Paulo ter ficado agarrado à antropologia dos seus antepassados, que não admitia a divisão do homem em espírito e corpo, fez com que a corrupção a ser transformada em incorruptibilidade fosse do homem total e, logicamente, também dos Céus e da Terra que, deste modo, continuavam a ser a natural e condigna morada do homem, tornado incorruptível.
    Os evangelhos são um hino a esta ressurreição paulina. Eles anunciam o fim da corrupção da carne, patente em toda a espécie de enfermidades, sendo cada cura milagrosa um sinal da chegada da ressurreição, a nova vida, o novo reino; e um hino ao fim da corrupção do espírito, pelo amor a Deus e ao próximo.

    Claro que nada disto se cumpriu como S.Paulo incansável e apaixonadamente anunciara e, então, deram uma grande volta ao Evangelho, da forma que tu e todos conhecemos.
    O que afastou dramaticamente os cristãos do evangelho de S.Paulo foi ter-se começado a pregar a ressurreição do espírito, separada da ressurreição da carne. E agora temos isto: pelo amor ao próximo e a Deus vamos ressuscitando o espírito (passando da morte do pecado à vida da graça)e quanto à ressurreição do corpo, isso fica para o "dia do juízo final".

    Como podes ver, perdeu-se pelo caminho meio homem, não mais cuidando de vencer as enfermidades da carne com vista a realizar a sua ressurreição, como se foi fazendo em relação ao espírito. Felizmente, nem tudo se perdeu porque, na verdade, o espírito muito se transformou em dois mil anos.
    Para os cristãos, para os teólogos e para os filósofos cristãos era muito "normal" que se transformasse o espírito e muito "normal" que se deixasse o "animal do corpo" à sua incurável corrupção!
    Mas não foi isto que S.Paulo anunciou. A sua Boa-Nova era tanto a vitória sobre os males do espírito como sobre as enfermidades do corpo, porque o "homem de S.Paulo" é uma realidade indissociável, tanto em vida como na morte.

    Tudo isto até é fácil de perceber nas Cartas (autentica) de S.Paulo. Mas se ele fosse levado a sério nos nossos dias, esquecendo o facto do desfasamento no tempo e do modo da "transformação", imagina a revolução que ia acontecer na pastoral cristã, com os pastores e os fiéis a prestarem tanto cuidado à saúde do corpo como à saúde da espírito; considerar cada avanço na medicina um progresso na ressurreição da carne...

    Alegarás que os cristãos já fazem a caridade. Pois fazem, mas é com a intenção de salvar a alma. A própria e a dos sem-abrigo. Não dá para disfarçar, meu caro Lima: apenas por ignorância, os cristãos não pensam em ressuscitar a carne dos seus irmãos e a sua, porque isso é tarefa divina e para o dia do Juízo Final.

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  17. Perfeitamente esclarecedor! Nunca me tinha vindo à ideia de ver S. Paulo por este prisma! E, como não podia deixar de ser da tua parte, uma entusiástica apologia do humanismo cristão.
    Não sei se S. Paulo já foi considerado humanista, mas, visto assim, seria o n°1 na galeria dos grandes nomes da historia do humanismo.

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  18. A tua conclusão é certeira. Não há maior humanismo, considerando as circunstancias da época histórica em que escreveu e pregou, que afirmar a Humanidade no seu todo, como a menina dos olhos de um Deus que é Pai de todos, sem distinguir raças, posição social ou credo religioso. Escreve S.Paulo, escandalosamente para o seu tempo: não há grego, nem judeu, nem gentio; não há homem nem mulher, nem senhor, nem escravo. "Deus não faz acepção de pessoas".
    São os direitos universais da pessoa humana proclamados há dois mil anos.

    O seu ensinamento foi clamorosamente abandonado e não vale a pena as igrejas crsistãs afirmarem que sempre pregaram S.Paulo e o seu evangelho. É mentira e a prova mais dramática é que apenas no século dezoito começou a abolição da escravatura e se proclamaram os direitos do "cidadão", através de uma revolução violenta e fora das igrejas cristãs oficiais. Aliás, estas opuseram-se com todo o vigor.A Revolução Francesa.
    Repito mais uma vez: a causa desta divergência evidente com o Evangelho da fraternidade universal de Paulo e dos evangelistas ficou a dever-se à enorme desilusão pela ausência de uma ressurreição que se anunciou iminente.
    Mais tarde, o cristianismo retoma as palavras de S.Paulo, para justificar a manutenção da escravatura e muitos outros atropelos à dignidade dos "filhos de Deus" , onde Paulo recomenda que "cada um permaneça na condição em que o senhor o chamou (à fé). Sim, Paulo escreveu assim, mas nós sabemos que ele tinha em mente a iminencia da ressurreição universal e, logicamente, fazia pouco sentido des-estruturar a sociedade vigente. Era uma questão de anos, para que todos estivessem ressuscitados e incorruptiveis no corpo e no espirito.
    Mas o cristianismo, muito comoda e oportunisticamente o cristianismo viu nas palavras de S.Paulo uma forma de justificar o "staus quo" dos "senhores". E foi ensinando, seculo após seculo, que cada um permanecesse senhor ou escravo, conforme o "berço" ou a cidadania que calhasse em sorte de nascimento.

    Não houve um exegeta, um só, com voz que se fizesse ouvir em "Roma", a avisar que o evangelho de Paulo estava a ser radicalmente atraiçoado. Levantaram-lhe basílicas e enterraram os seus ensinamentos radicais. "Loucura", dizia o próprio Paulo de Tarso.

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