"A 'história universal'já não pode hoje ser entendida como sendo somente a história da humanidade (com algumas centenas de milhares de anos), mas deve sê-lo como uma verdadeira história de um universo com 13,7 biliões de anos desde a explosão inicial. Foram precisos contudo cerca de quatrocentos anos para que o novo modelo físico e astronómico do universo se impusesse em absoluto como o fundamento científico da moderna imagem do universo" (Hans Küng, in O Principio de Todas as Coisas, Edições 70).
É uma mudança de paradigma "traumática" até aos nossos dias, quando o homem tem de assimilar que nem a Terra é mais o "centro do mundo" (logo, centro das atenções divinas), nem o luminoso sol ou a nossa imensa via láctea são mais que pontos perdidos na imensidão de um universo em movimento.
E como se tudo isto fosse ainda coisa pouca, a ciência da evolução da vida coloca o homem como apenas mais um acontecimento na incrível odisseia da vida.
Somos um momento na história do universo conhecido e um instante como consciência dessa história que parece ultrapassar-nos até ao infinito.
A nossa conversa acerca do "apego" e "desapego" deverá ter sempre em conta esta circunstancia, para não perdermos a perspectiva do conjunto.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Sagrado Apego
Este titulo sugere o percurso contrário ao do budismo e do ideal monástico em geral.
Nas também sugere o naturalíssimo movimento da vida.
Aquilo a que hoje chamamos de "apegos" são o movimento natural da vida que se foi replicando, multiplicando e complicando, até atingir a misteriosa complexidade que hoje somos. E está bem patente que a nossa mente consciente não sabe muito bem lidar com esta realidade. Como se a própria natureza tivesse dado um passo maior que o que devia, precipitando-se. A chegada à mente consciente foi, de facto, um verdadeiro salto. E depois, como se conservássemos, e conservando mesmo, o exercício e a memória dos automatismos originais, percebemos que nem sempre tudo corre bem e começamos a recear pelo sucesso do movimento vital. É o medo e a dor vividos em consciência, que ora nos pode tolher os movimentos, ora nos pode aguçar o engenho para triunfar.
Eu só posso e quero pensar uma sabedoria que se ajuste a este percurso natural da vida, que as ciências actuais, como nunca na História Humana, nos vão revelando cada vez com mais precisão e profundidade.
António Damásio acaba de publicar o título que resume toda uma filosofia: " E O Cérebro Criou o Homem". Por mais voltas que dermos ao pensamento, nunca será ao contrário. Mas também é verdade que, depois de perceber isso, o homem já sonha ser a sua vez de criar um cérebro consciente...
Um dos muitos paradoxos com que temos de lidar é o percurso da mente consciente, que pretende libertar-se das amarras dos automatismos e ganhar a liberdade criativa, sabendo que esses mesmos automatismos são a sua matriz indissociável e inalienável. Como se fosse possível a metafísica sem a física. Como se fizéssemos de conta que não é o cérebro que cria o homem e que agora é o homem a querer criar um homem novo.
Por isso considero sagrado o "apego" às nossas raízes: à física que faz a metafísica.
Complicado? Se é! Mas talvez mais de acordo com a sucessão dos acontecimentos ou, como gostamos de dizer, mais de acordo com a senhora realidade.
Matthieu Ricard, quando esteve em Lisboa para dar uma conferencia, deixou-nos esta definição do budismo:
"Em essência, eu diria, que o budismo é uma tradição metafísica da qual emana uma sabedoria aplicável a todos os instantes da existência e em todas as circunstâncias".
Não será que a sabedoria desta "tradição metafísica" desvalorizou demasiado a física enquanto raiz dessa mesma metafísica?
Eu penso que sim. O sonho do homem em criar o cérebro que o criou é um completo apego à realidade estruturada.
No principio eram as formas...
Nas também sugere o naturalíssimo movimento da vida.
Aquilo a que hoje chamamos de "apegos" são o movimento natural da vida que se foi replicando, multiplicando e complicando, até atingir a misteriosa complexidade que hoje somos. E está bem patente que a nossa mente consciente não sabe muito bem lidar com esta realidade. Como se a própria natureza tivesse dado um passo maior que o que devia, precipitando-se. A chegada à mente consciente foi, de facto, um verdadeiro salto. E depois, como se conservássemos, e conservando mesmo, o exercício e a memória dos automatismos originais, percebemos que nem sempre tudo corre bem e começamos a recear pelo sucesso do movimento vital. É o medo e a dor vividos em consciência, que ora nos pode tolher os movimentos, ora nos pode aguçar o engenho para triunfar.
Eu só posso e quero pensar uma sabedoria que se ajuste a este percurso natural da vida, que as ciências actuais, como nunca na História Humana, nos vão revelando cada vez com mais precisão e profundidade.
António Damásio acaba de publicar o título que resume toda uma filosofia: " E O Cérebro Criou o Homem". Por mais voltas que dermos ao pensamento, nunca será ao contrário. Mas também é verdade que, depois de perceber isso, o homem já sonha ser a sua vez de criar um cérebro consciente...
Um dos muitos paradoxos com que temos de lidar é o percurso da mente consciente, que pretende libertar-se das amarras dos automatismos e ganhar a liberdade criativa, sabendo que esses mesmos automatismos são a sua matriz indissociável e inalienável. Como se fosse possível a metafísica sem a física. Como se fizéssemos de conta que não é o cérebro que cria o homem e que agora é o homem a querer criar um homem novo.
Por isso considero sagrado o "apego" às nossas raízes: à física que faz a metafísica.
Complicado? Se é! Mas talvez mais de acordo com a sucessão dos acontecimentos ou, como gostamos de dizer, mais de acordo com a senhora realidade.
Matthieu Ricard, quando esteve em Lisboa para dar uma conferencia, deixou-nos esta definição do budismo:
"Em essência, eu diria, que o budismo é uma tradição metafísica da qual emana uma sabedoria aplicável a todos os instantes da existência e em todas as circunstâncias".
Não será que a sabedoria desta "tradição metafísica" desvalorizou demasiado a física enquanto raiz dessa mesma metafísica?
Eu penso que sim. O sonho do homem em criar o cérebro que o criou é um completo apego à realidade estruturada.
No principio eram as formas...
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
A Santissima Realidade
Este post pretende ser uma continuação do anterior e surge na sequência dos 66 comentários ao "Budismo Sem Mim".
Estabelecendo uma espécie de analogia com a Santíssima Trindade do cristianismo, começo por especificar quais são as três entidades de uma Santíssima Realidade:
EU (o "mim" da consciência)
TU (a alteridade)
UNIVERSO (as formas objectivas)
São três realidades que se constituem como um verdadeiro mistério e tão paradoxal como o da Santíssima Trindade cristã.
Tal como na minha catequese católica, vou responder "sim" a cada uma das três perguntas sobre o inexplicável paradoxo.
EU sou Realidade? Sim
TU és Realidade? Sim
O UNIVERSO é Realidade? Sim
Então são TRÊS Realidades? Não senhor! São três Entidades iguais e distintas numa só Realidade verdadeira.
Existe proximidade entre o pensamento de Platão e o pensamento de Buda, apesar de uma divergência fundamental. O que os aproxima é a desvalorização do "mundo sensível". O que os separa é a realidade-múltipla.
(O Luís nota que Buda e Platão quase não são contemporaneos. Buda terá vivido um pouco antes. Mas também é verdade que Buda não escreveu nada e o que dele conhecemos recebêmo-lo através das escolas posteriores dos seus muitos seguidores).
Platão afirma a falsa realidade do mundo sensível e todas as suas formas. Mas a cada forma enganosa corresponde uma ideia que é a sua verdadeira essência e, esta sim, perfeita, inteligível e bela.
Buda foge desta confusão toda, em que a cada forma enganosa do mundo material corresponde uma realidade essencial e reduz tudo a uma única ideia-entidade, o SER Uno, Indivisível, Informe, Impessoal.
Em que se fundamenta Buda para dizer que "eu" sou precisamente "tu" e "tu" és exactamente o Universo?
Porque ficou desencantado com a fluidez das formas com que a Realidade se oferece à nossa mente consciente? Porque ficou desenganado com a volatilidade e fragilidade da própria mente consciente? Porque desistiu de procurar (filosofar e viver) perante a grandeza insondável do universo que a sua inteligencia aguda vislumbrou?
A ideia do "ser-uno" de Buda foi gerada pela mesma mente que gerou a ideia múltipla de Platão. Ou alguém duvida que assim tenha sido? O princípio de qualquer filosofia ou teologia é o próprio homem: EU e TU, contemplando um UNIVERSO que, simultanemente, somos e temos consciência de ser. E é esta consciência de ser, este "nada-de-ser" que nos constitui como EU e TU.
Será errado dizer que Buda pretende anular esta "luz da consciência", o EU, e muito menos considerá-lo intrinsecamente uma ilusão. Intrinsecamente, o universo existe, "eu" existo e "tu" existes. Sim, mas integrados, até à completa fusão, no Uno Impessoal. O supremo objectivo do homem é reconhecer "finalmente" que só ilusoriamente "é" ou alguma vez "foi" outra realidade que não a absoluta unidade do SER. Logo, qualquer pensamento de compartimentação é estranho à sua Ideia. E, mais que estranho, Buda determina que é ilusório.
É uma ideia. Que não partilho.
Há uma verdade fundamental que partilho com Buda: a "realidade intrínseca das coisas", seja lá o que ela for, para Buda ou para mim. Eu aceito que não sabemos o que é essa realidade intrínseca mas fazemos parte dela. Por isso mesmo é que discorremos sobre como será.
Para Buda ela é intrinsecamente monolítica e para mim é intrinsecamente multiforme ou multi-estrutural, a ponto de a descrever como a "Realíssima Trindade".
Se imaginarmos a Realidade como uma bola multicolor de plasticina, esta pode ser modelada numa infinidade de "bonecos" sem nunca deixar de ser intrinsecamnete o que é. Enquanto a forma dura, somos intrinsecamente essa forma. E desde que descobrimos isso o nosso sonho é fazer durar o "boneco", se possível, até sempre...
Duas filosofias e duas propostas concretas para a vida: fazer desaparecer o "EU" (o boneco da analogia) ou fazer emergir o "EU".
Por mim, "viva o boneco"!
Estabelecendo uma espécie de analogia com a Santíssima Trindade do cristianismo, começo por especificar quais são as três entidades de uma Santíssima Realidade:
EU (o "mim" da consciência)
TU (a alteridade)
UNIVERSO (as formas objectivas)
São três realidades que se constituem como um verdadeiro mistério e tão paradoxal como o da Santíssima Trindade cristã.
Tal como na minha catequese católica, vou responder "sim" a cada uma das três perguntas sobre o inexplicável paradoxo.
EU sou Realidade? Sim
TU és Realidade? Sim
O UNIVERSO é Realidade? Sim
Então são TRÊS Realidades? Não senhor! São três Entidades iguais e distintas numa só Realidade verdadeira.
Existe proximidade entre o pensamento de Platão e o pensamento de Buda, apesar de uma divergência fundamental. O que os aproxima é a desvalorização do "mundo sensível". O que os separa é a realidade-múltipla.
(O Luís nota que Buda e Platão quase não são contemporaneos. Buda terá vivido um pouco antes. Mas também é verdade que Buda não escreveu nada e o que dele conhecemos recebêmo-lo através das escolas posteriores dos seus muitos seguidores).
Platão afirma a falsa realidade do mundo sensível e todas as suas formas. Mas a cada forma enganosa corresponde uma ideia que é a sua verdadeira essência e, esta sim, perfeita, inteligível e bela.
Buda foge desta confusão toda, em que a cada forma enganosa do mundo material corresponde uma realidade essencial e reduz tudo a uma única ideia-entidade, o SER Uno, Indivisível, Informe, Impessoal.
Em que se fundamenta Buda para dizer que "eu" sou precisamente "tu" e "tu" és exactamente o Universo?
Porque ficou desencantado com a fluidez das formas com que a Realidade se oferece à nossa mente consciente? Porque ficou desenganado com a volatilidade e fragilidade da própria mente consciente? Porque desistiu de procurar (filosofar e viver) perante a grandeza insondável do universo que a sua inteligencia aguda vislumbrou?
A ideia do "ser-uno" de Buda foi gerada pela mesma mente que gerou a ideia múltipla de Platão. Ou alguém duvida que assim tenha sido? O princípio de qualquer filosofia ou teologia é o próprio homem: EU e TU, contemplando um UNIVERSO que, simultanemente, somos e temos consciência de ser. E é esta consciência de ser, este "nada-de-ser" que nos constitui como EU e TU.
Será errado dizer que Buda pretende anular esta "luz da consciência", o EU, e muito menos considerá-lo intrinsecamente uma ilusão. Intrinsecamente, o universo existe, "eu" existo e "tu" existes. Sim, mas integrados, até à completa fusão, no Uno Impessoal. O supremo objectivo do homem é reconhecer "finalmente" que só ilusoriamente "é" ou alguma vez "foi" outra realidade que não a absoluta unidade do SER. Logo, qualquer pensamento de compartimentação é estranho à sua Ideia. E, mais que estranho, Buda determina que é ilusório.
É uma ideia. Que não partilho.
Há uma verdade fundamental que partilho com Buda: a "realidade intrínseca das coisas", seja lá o que ela for, para Buda ou para mim. Eu aceito que não sabemos o que é essa realidade intrínseca mas fazemos parte dela. Por isso mesmo é que discorremos sobre como será.
Para Buda ela é intrinsecamente monolítica e para mim é intrinsecamente multiforme ou multi-estrutural, a ponto de a descrever como a "Realíssima Trindade".
Se imaginarmos a Realidade como uma bola multicolor de plasticina, esta pode ser modelada numa infinidade de "bonecos" sem nunca deixar de ser intrinsecamnete o que é. Enquanto a forma dura, somos intrinsecamente essa forma. E desde que descobrimos isso o nosso sonho é fazer durar o "boneco", se possível, até sempre...
Duas filosofias e duas propostas concretas para a vida: fazer desaparecer o "EU" (o boneco da analogia) ou fazer emergir o "EU".
Por mim, "viva o boneco"!
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Budismo Sem Mim
"Não-Si no Budismo é a Não-Dualidade de Sujeito e Objecto, o que é muito explicitamente afirmado pelo Buda em versos tais como
"Na visão, há apenas visão.
Nem visualizador nem nada visto.
Na audição, há apenas, audição.
Nenhum ouvinte nem coisa ouvida." (Bahiya Sutta, Udana 1.10).
A Não-Dualidade no Budismo não constitui uma fusão com um Brama supremo, mas a realização de que a dualidade de um si/sujeito/agente/observador/fazedor em relação com o objecto/mundo é uma ilusão."
Repesquei tudo isto de um dos teus comentários ao post anterior. Penso, Luis, que é altura de confrontar a negação budista da dualidde com a atitude positiva da afirmação da unidade do ser humano. Esta última é a proposta tanto da "filosofia ocidental" como da neurociência.
A "não dualidade" do budismo aqui referida não tem nada a ver com a unidade intrínseca do homem, sustentada, por exemplo, pela neurociência de Damásio em oposição à dualidade da "dupla substancia" de Descartes. Adiante direi porquê.
Dos versos citados e do comentário que se lhe segue poderia deduzir-se que existe uma espécie de "entidade" que ilusoriamnente interage com o universo. Mas pelo discurso percebe-se que é ilusório o sujeito e ilusório o objecto. Na verdade, só existe a "universalidade" e daí comentar-se que não há fusão alguma com um "Brama Supremo". Não se pode "fundir" aquilo que nunca passou de uma ilusão e portanto nunca esteve fundido ou "desligado". Total ausência de acção e movimento de "fora para dentro" ou o inverso.
Mas aqui começam as interrogações todas. Se não há "fusão", porque a não-dualidade é realíssima, como justificar toda a filosofia do "desapego"! Esta pressupõe que escapou "algo" para o exterior do "universo fundido" ou da realidade como um TODO indissociável e é necessário que a ascese o faça regressar à "unidade".
Faço a pergunta de outro jeito: porque e como se criou a ilusão da quebra de Unidade? A ilusão a criar a ilusão? Ou a doutrina de um "pecado original" no budismo? Impossível, porque não há sujeito que viola nem coisa violada. Apenas violação.
Violação da Unidade? Só pode, para justificar a procura do "caminho do meio".
Desisto.
Do outro lado do pensamento temos a unidade do ser humano. É uma "unidade" que se define não em ralação a uma realidade universal mas ao próprio individuo humano. "Eu e o meu corpo somos um só". Esta é que é a "não-dualidade" da neurociência e da filosofia que a acompanha.
Já em relação à realidade universal a dualidade é assumida na forma de alteridade: "eu" e o "universo". É uma indidualização assumida e a tarefa do homem é construir a individualidade, o "eu", a "identidade", a "pessoa". Quanto menos "fundido" com uma universalidade difusa e impessoal, maior grandeza e nobreza humana. Neste processo de individualização a consciência é o momento mais alto do "distanciamento". Tão "alto" que se pensou ser uma realidade totalmente nova dentro da realidade universal. Aceita-se que seja um fenómeno novo mas que evoluiu como um filho desde o ventre materno.
Está por explicar este fenómeno e permanece Tao intrigante quanto a Realidade-Mãe donde procede.
Talvez porque esta alteridade é incompreensivel, o budismo a considera uma ilusão.
E tenho maneira de provar o contrário?
Não me parece, apesar dos palpites que vou deixando à consideração do meu amigo budista Luís.
Como é sempre assinalado nesta altura do discurso da razão, somos atropelados no nosso optimismo pela fragilidade mortal de um "eu" tão laboriosamente construído.
Se não fosse a emoção da construção da história individual e colectiva, íamos ficar a remoer a ideia de que viemos do nada para lá voltar "quando deus quer".
Se pararmos de remoer aquela ideia pessimista, a História que construimos deixa-nos a sonhar que há mais vida para além da vida.
"Na visão, há apenas visão.
Nem visualizador nem nada visto.
Na audição, há apenas, audição.
Nenhum ouvinte nem coisa ouvida." (Bahiya Sutta, Udana 1.10).
A Não-Dualidade no Budismo não constitui uma fusão com um Brama supremo, mas a realização de que a dualidade de um si/sujeito/agente/observador/fazedor em relação com o objecto/mundo é uma ilusão."
Repesquei tudo isto de um dos teus comentários ao post anterior. Penso, Luis, que é altura de confrontar a negação budista da dualidde com a atitude positiva da afirmação da unidade do ser humano. Esta última é a proposta tanto da "filosofia ocidental" como da neurociência.
A "não dualidade" do budismo aqui referida não tem nada a ver com a unidade intrínseca do homem, sustentada, por exemplo, pela neurociência de Damásio em oposição à dualidade da "dupla substancia" de Descartes. Adiante direi porquê.
Dos versos citados e do comentário que se lhe segue poderia deduzir-se que existe uma espécie de "entidade" que ilusoriamnente interage com o universo. Mas pelo discurso percebe-se que é ilusório o sujeito e ilusório o objecto. Na verdade, só existe a "universalidade" e daí comentar-se que não há fusão alguma com um "Brama Supremo". Não se pode "fundir" aquilo que nunca passou de uma ilusão e portanto nunca esteve fundido ou "desligado". Total ausência de acção e movimento de "fora para dentro" ou o inverso.
Mas aqui começam as interrogações todas. Se não há "fusão", porque a não-dualidade é realíssima, como justificar toda a filosofia do "desapego"! Esta pressupõe que escapou "algo" para o exterior do "universo fundido" ou da realidade como um TODO indissociável e é necessário que a ascese o faça regressar à "unidade".
Faço a pergunta de outro jeito: porque e como se criou a ilusão da quebra de Unidade? A ilusão a criar a ilusão? Ou a doutrina de um "pecado original" no budismo? Impossível, porque não há sujeito que viola nem coisa violada. Apenas violação.
Violação da Unidade? Só pode, para justificar a procura do "caminho do meio".
Desisto.
Do outro lado do pensamento temos a unidade do ser humano. É uma "unidade" que se define não em ralação a uma realidade universal mas ao próprio individuo humano. "Eu e o meu corpo somos um só". Esta é que é a "não-dualidade" da neurociência e da filosofia que a acompanha.
Já em relação à realidade universal a dualidade é assumida na forma de alteridade: "eu" e o "universo". É uma indidualização assumida e a tarefa do homem é construir a individualidade, o "eu", a "identidade", a "pessoa". Quanto menos "fundido" com uma universalidade difusa e impessoal, maior grandeza e nobreza humana. Neste processo de individualização a consciência é o momento mais alto do "distanciamento". Tão "alto" que se pensou ser uma realidade totalmente nova dentro da realidade universal. Aceita-se que seja um fenómeno novo mas que evoluiu como um filho desde o ventre materno.
Está por explicar este fenómeno e permanece Tao intrigante quanto a Realidade-Mãe donde procede.
Talvez porque esta alteridade é incompreensivel, o budismo a considera uma ilusão.
E tenho maneira de provar o contrário?
Não me parece, apesar dos palpites que vou deixando à consideração do meu amigo budista Luís.
Como é sempre assinalado nesta altura do discurso da razão, somos atropelados no nosso optimismo pela fragilidade mortal de um "eu" tão laboriosamente construído.
Se não fosse a emoção da construção da história individual e colectiva, íamos ficar a remoer a ideia de que viemos do nada para lá voltar "quando deus quer".
Se pararmos de remoer aquela ideia pessimista, a História que construimos deixa-nos a sonhar que há mais vida para além da vida.
sábado, 22 de outubro de 2011
Eu Sou O Meu Corpo
Não sei se não será mais que uma "nuance". Eu colocava assim a tua frase: "o nosso corpo-cérebro" não luta para preservar o "eu", mas, ao invés, é justamente por construir um "eu" que a sua auto-preservação se tornou mais eficiente".
O corpo-cérebro não "usa" um "eu" mas constrói um "eu". Esta afirmação pressupõe que não existe um "eu" que vai ser "usado" mas um "eu" que as capacidades físicas e biológicas do corpo-cérebro vai construir.
Neste sentido o "eu" será sempre muito mais um projecto que uma determinada realidade. Tem mais sentido de verbo (acção) que substantivo (coisa).
O que não podemos, em momento algum, é pensar um "eu" autónomo do corpo-cérebro.
A neuro ciência e a psicologia insistem cada vez mais na unidade indissolúvel do ser humano e isto significa que "eu" sou o "todo" corpo-cérebro, testemunhado ou "iluminado" pelo fenómeno da mente consciente.
Assim como não existe uma dupla substancia, também não existe o binómio eu/corpo-cérebro.
Aquilo a que nós chamamos as capacidades ou potencialidades do corpo-cérebro constituem o "todo" que a mente consciente identifica como o "eu". Para facilitar, nós dizemos que apenas o ser humano tem capacidade para construir um tal "eu". Anotemos que no próprio ser humano esta construção é progressiva. Incipiente no bebé,, até atingir o pleno desenvolvimento na "idade da razão" (adulto). Mesmo assim, esta extraordinária realidade do "eu" pode ser suspensa temporária ou definitivamente por qualquer disfunção ou acidente. Nos casos extremos de ausência do "eu" dizemos que alguém está reduzido a um vegetal. Nem como animal é identificado, reconhecendo-se, implicitamente, que também o animal tem a sua consciência.
Escusado será dizer que a disfunção total e definitiva é a morte.
A linguagem corrente assente nesta ciência e filosofia antropológicas criou uma expressão extremamente significativa para designar esta realidade: "eu sou o meu corpo".
Entenda-se "corpo-cérebro".
O profundo significado desta afirmação e deste facto ficará mais evidenciado se estabelecermos o paralelo com o contrafacto "eu sou o meu cadáver".
Uma criança, desde muito pequenina, entra no jogo interessantissimo do faz-de-conta. É literalmente brincar ao falso e ao verdadeiro. É brincar com a capacidade humana de inventar.É a emergência do processo criativo. É quando se percebe que podemos ser enganados e enganar os outros. E também enganar-nos a nós próprios.
E foi a brincar ao faz-de-conta que começamos a desenvolver o espírito crítico e a estruturar a nossa personalidade, a nossa identidade.
"Eu sou o meu cadáver" não é um facto mas um contrafacto e nós começamos a perceber isso desde muito crianças. Depois, pela vida fora, constantemente deixamos acordar a criança que há em nós e fizemos a arte, a filosofia e a teologia. Construimos a cultura como quem brinca ao faz-de-conta.
"Eu sou o meu cadáver". Fernando Pessoa di-lo de uma forma deliciosamente "mentirosa" na sua arte de poeta: "cadáver adiado que procria".
Não tens vergonha, homem, com essa idade andar a brincar ao faz-de-conta?
Posso dizer "eu sou o meu corpo" como posso escrever "eu sou o meu cadáver". Mas eu sei e todos sabem do que estou a falar...
O corpo-cérebro não "usa" um "eu" mas constrói um "eu". Esta afirmação pressupõe que não existe um "eu" que vai ser "usado" mas um "eu" que as capacidades físicas e biológicas do corpo-cérebro vai construir.
Neste sentido o "eu" será sempre muito mais um projecto que uma determinada realidade. Tem mais sentido de verbo (acção) que substantivo (coisa).
O que não podemos, em momento algum, é pensar um "eu" autónomo do corpo-cérebro.
A neuro ciência e a psicologia insistem cada vez mais na unidade indissolúvel do ser humano e isto significa que "eu" sou o "todo" corpo-cérebro, testemunhado ou "iluminado" pelo fenómeno da mente consciente.
Assim como não existe uma dupla substancia, também não existe o binómio eu/corpo-cérebro.
Aquilo a que nós chamamos as capacidades ou potencialidades do corpo-cérebro constituem o "todo" que a mente consciente identifica como o "eu". Para facilitar, nós dizemos que apenas o ser humano tem capacidade para construir um tal "eu". Anotemos que no próprio ser humano esta construção é progressiva. Incipiente no bebé,, até atingir o pleno desenvolvimento na "idade da razão" (adulto). Mesmo assim, esta extraordinária realidade do "eu" pode ser suspensa temporária ou definitivamente por qualquer disfunção ou acidente. Nos casos extremos de ausência do "eu" dizemos que alguém está reduzido a um vegetal. Nem como animal é identificado, reconhecendo-se, implicitamente, que também o animal tem a sua consciência.
Escusado será dizer que a disfunção total e definitiva é a morte.
A linguagem corrente assente nesta ciência e filosofia antropológicas criou uma expressão extremamente significativa para designar esta realidade: "eu sou o meu corpo".
Entenda-se "corpo-cérebro".
O profundo significado desta afirmação e deste facto ficará mais evidenciado se estabelecermos o paralelo com o contrafacto "eu sou o meu cadáver".
Uma criança, desde muito pequenina, entra no jogo interessantissimo do faz-de-conta. É literalmente brincar ao falso e ao verdadeiro. É brincar com a capacidade humana de inventar.É a emergência do processo criativo. É quando se percebe que podemos ser enganados e enganar os outros. E também enganar-nos a nós próprios.
E foi a brincar ao faz-de-conta que começamos a desenvolver o espírito crítico e a estruturar a nossa personalidade, a nossa identidade.
"Eu sou o meu cadáver" não é um facto mas um contrafacto e nós começamos a perceber isso desde muito crianças. Depois, pela vida fora, constantemente deixamos acordar a criança que há em nós e fizemos a arte, a filosofia e a teologia. Construimos a cultura como quem brinca ao faz-de-conta.
"Eu sou o meu cadáver". Fernando Pessoa di-lo de uma forma deliciosamente "mentirosa" na sua arte de poeta: "cadáver adiado que procria".
Não tens vergonha, homem, com essa idade andar a brincar ao faz-de-conta?
Posso dizer "eu sou o meu corpo" como posso escrever "eu sou o meu cadáver". Mas eu sei e todos sabem do que estou a falar...
sábado, 15 de outubro de 2011
Pontos de Vista ou Níveis de Análise
Um ponto de vista resulta, necessariamente, de uma análise, nem que seja de uma primeirissima análise, a que vulgarmente chamamos "primeira impressão". Não cavemos, pois, entre ambos um sulco divisório.
Quando dizes que "o ponto de vista sugere uma alternativa", estás muito certo. Acontece é que, quando falamos de realidades tão fundamentais como a nossa própria existência, a vida ou a morte, a alternativa ao "nosso humano ponto de vista" é uma ilusão, uma "jogo de palavras", caindo, como diz Luc Ferry, "pesadamente na metafísica".
Retomando a ideia subjacente ao post anterior, julgar que é verdadeiro um ponto de vista alternativo ao limitado ponto de vista da nossa humana condição, é ter a ilusão que se derruba a muralha onde permanece encerrada a nossa existência.
A lucidez da mente consciente, tanto quando aceita a limitação do seu ponto de vista, que é todo o conhecimento humano acumulado, como quando aceita a realidade inelutável da morte, faz-lhe compreender que tem apenas uma forma de romper o cerco: criar o futuro das suas capacidades, as que já tem e as que vier a desenvolver, consciente de que, se não pode alterar o passado do seu "nascimento" (um certo e incerto desígnio), pode escolher o definitivo que será o seu, tanto como indivíduo como espécie.
Habitualmente chamaríamos a isto "contrariar o destino". Chamar-lhe-ei "contrariar o desígnio".
Apetece-me dizer, de uma forma grandiloquente: nunca o homem esteve tão ciente da sua limitação e da sua liberdade.
Paradoxal? É como somos.
E bastou-lhe, para tanto, a humildade e o realismo de contentar-se com o seu ponto de vista. "Imanente", dirá o filósofo.
A única abertura à trasncendencia é o olhar sobre o futuro por construir. E nunca esquecer que este "olhar sobre o futuro" é, para o individuo, não mais que o horizonte de uma vida. Já para a espécie, até pode ser a eternidade...
Quem quiser fazer drama sobre a sua individualidade tão curta, faça. Arranque os cabelos, esgadanhe-se todo ou fuja para um convento. Fique sabendo, porém, que perdeu a oportunidade de construir um desígnio para si e um desígnio para a sua espécie, limitando-se a ser "a vontade e o desígnio dos deuses"...
Quando dizes que "o ponto de vista sugere uma alternativa", estás muito certo. Acontece é que, quando falamos de realidades tão fundamentais como a nossa própria existência, a vida ou a morte, a alternativa ao "nosso humano ponto de vista" é uma ilusão, uma "jogo de palavras", caindo, como diz Luc Ferry, "pesadamente na metafísica".
Retomando a ideia subjacente ao post anterior, julgar que é verdadeiro um ponto de vista alternativo ao limitado ponto de vista da nossa humana condição, é ter a ilusão que se derruba a muralha onde permanece encerrada a nossa existência.
A lucidez da mente consciente, tanto quando aceita a limitação do seu ponto de vista, que é todo o conhecimento humano acumulado, como quando aceita a realidade inelutável da morte, faz-lhe compreender que tem apenas uma forma de romper o cerco: criar o futuro das suas capacidades, as que já tem e as que vier a desenvolver, consciente de que, se não pode alterar o passado do seu "nascimento" (um certo e incerto desígnio), pode escolher o definitivo que será o seu, tanto como indivíduo como espécie.
Habitualmente chamaríamos a isto "contrariar o destino". Chamar-lhe-ei "contrariar o desígnio".
Apetece-me dizer, de uma forma grandiloquente: nunca o homem esteve tão ciente da sua limitação e da sua liberdade.
Paradoxal? É como somos.
E bastou-lhe, para tanto, a humildade e o realismo de contentar-se com o seu ponto de vista. "Imanente", dirá o filósofo.
A única abertura à trasncendencia é o olhar sobre o futuro por construir. E nunca esquecer que este "olhar sobre o futuro" é, para o individuo, não mais que o horizonte de uma vida. Já para a espécie, até pode ser a eternidade...
Quem quiser fazer drama sobre a sua individualidade tão curta, faça. Arranque os cabelos, esgadanhe-se todo ou fuja para um convento. Fique sabendo, porém, que perdeu a oportunidade de construir um desígnio para si e um desígnio para a sua espécie, limitando-se a ser "a vontade e o desígnio dos deuses"...
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Rompendo A Muralha
Se não existe um desígnio, nem para o universo nem para o homem, também pouca diferença faz que exista mesmo um, pois a verdade é que não fomos tidos nem achados para que tudo isto tivesse acontecido. E, como tal, não nos diz respeito e, muito menos, nos responsabiliza.
Mas as coisas ganham outra dimensão se nos descobrimos com a capacidade não de compreender como aqui chegamos mas de intervir e até decidir acerca do nosso futuro, ainda que dentro de limites reconhecidos e aceites em cada momento.
Nesta perspectiva, em vez de estarmos dependentes e atados a um problema epistemológico (insolúvel à partida e, portanto, tão fútil quanto inútil)deparamos com a tarefa exaltante da construção do nosso próprio desígnio. Se aparecemos aqui sem um, como indica o evolucionismo de Darwin, nada impede que, na fase da evolução a que o homem chegou, comece a criar o seu próprio destino.
Já imaginaram como é empolgante e motivadora uma tal postura? Seremos o projecto que estamos a criar, num crescendo de consciencialização e empenhamento.
A filosofia e as ciências deverão, em consequencia, concentrar-se na forma como construir o futuro que se for idealizando e sonhando. Agora, sim, como canta o poeta Gedeão:
O sonho comanda a vida
E sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança...
E a propósito: recordando estes versos de liberdade pelo sonho, compreendem-se mal aqueles outros versos do mesmo Gedeão, carregados de grilhões deterministas.
Ajuda aí Louis, ajuda aí Lima, nesta reactivação do nosso blog, após umas férias, leituras e reflexões.
Mas as coisas ganham outra dimensão se nos descobrimos com a capacidade não de compreender como aqui chegamos mas de intervir e até decidir acerca do nosso futuro, ainda que dentro de limites reconhecidos e aceites em cada momento.
Nesta perspectiva, em vez de estarmos dependentes e atados a um problema epistemológico (insolúvel à partida e, portanto, tão fútil quanto inútil)deparamos com a tarefa exaltante da construção do nosso próprio desígnio. Se aparecemos aqui sem um, como indica o evolucionismo de Darwin, nada impede que, na fase da evolução a que o homem chegou, comece a criar o seu próprio destino.
Já imaginaram como é empolgante e motivadora uma tal postura? Seremos o projecto que estamos a criar, num crescendo de consciencialização e empenhamento.
A filosofia e as ciências deverão, em consequencia, concentrar-se na forma como construir o futuro que se for idealizando e sonhando. Agora, sim, como canta o poeta Gedeão:
O sonho comanda a vida
E sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança...
E a propósito: recordando estes versos de liberdade pelo sonho, compreendem-se mal aqueles outros versos do mesmo Gedeão, carregados de grilhões deterministas.
Ajuda aí Louis, ajuda aí Lima, nesta reactivação do nosso blog, após umas férias, leituras e reflexões.
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