segunda-feira, 4 de abril de 2011

O Conhecimento da Polis (4)

Uma década perdida, disse ele (o presidente Cavaco)...


Investigação científica portuguesa triplica em 9 anos
A página SCImago tem uma enorme base de dados sobre a investigação científica em todo o mundo e todas as áreas, que descobri através do Público.
Nela podemos ver o número de artigos científicos publicados por instituições portuguesas. Este número triplica dos 3655 em 1999 para os 10837 em 2008!
Obviamente que não foi só em Portugal que houve um aumento de produção científica, mas Portugal cresceu mais rápido. De 2007 para 2008 cresce 19%, enquanto a Europa Ocidental cresce apenas 3%, e o mundo 2%. Enquanto em 1996 Portugal era responsável por apenas de 0,76% da ciência na Europa, em 2008 este número já foi de 2%! Comparando com o mundo inteiro, a mesma conclusão: Portugal duplicou a sua importância a nível mundial em 10 anos.

E agora vozes que não chegaram a Belém do Presidente Cavaco...

Nuno Ferrand de Almeida Investigador Universidade do Porto na área da biodiversidade

Em Portugal, temos a sensação que não sabemos o que nos pode acontecer no dia de amanhã. Há um discurso dominante profundamente derrotista...
Tremendo. Nas elites portuguesas instalou-se um pessimismo tremendo...

Como é que um cientista olha para tudo isto?
Sou optimista por natureza. Ainda sou relativamente novo, mas sei exactamente o que era Portugal há 25 anos, quando entrei para a Universidade do Porto, e o que se fez desde aí. Tinha 11 anos no 25 de Abril, mas sei como era Portugal antes disso. Estávamos fora do mundo.
Assistir em menos de 25 anos à transformação que se viveu em Portugal é um privilégio absolutamente extraordinário. Há 20 anos, eu nunca imaginaria que poderia ter um centro que faz investigação no mundo inteiro e que não fica nada atrás dos melhores centros do mundo e estou a falar de Berkeley, Cambridge ou Oxford. E ainda menos imaginaria - falo pela minha experiência, mas isso é visível em muitos outros centros de investigação em Portugal - que seríamos capazes de atrair tantos estrangeiros. Quase 50 por cento dos 1200 investigadores contratados nos últimos dois anos pelo Programa Ciência são estrangeiros e isto diz alguma coisa.

Nem nos apercebemos disso.
Mas isso é fundamental. O caminho tem de passar pela aposta na ciência e isso tem sido feito de uma forma notável. Nos últimos dez, 15 anos conseguimos chegar ao topo dos países que mais têm investido na ciência...

Mas partimos de uma posição muito recuada.
É verdade, não havia nada, ou havia pouco. Mas quando se fala hoje em 5 ou 6 mil artigos científicos publicados e reconhecidos internacionalmente [por ano], isso representa um avanço extraordinário. É quase um milagre. O número de doutorados... E disso as pessoas falam pouco e é preciso que falem muito mais. É preciso falar muito mais das pessoas que trazem conhecimento para cá e que produzem conhecimento cá.
É por isso que me choca muito o pessimismo constante das elites portuguesas. E isso tem reflexo sobre as pessoas. Esse pessimismo cola-se-nos à pele.

Como é que o explica? Mede-se tudo pelo défice?
Em parte é isso. Não sei. Mas não sei porque nunca se olha para o outro país que existe. Existem dois países. Todos os países têm dois países, mesmo que em Portugal essa diferença seja mais acentuada. Mas há 25 anos não tínhamos dois, tínhamos um, que era mau. Hoje temos um país que se distingue nas ciências, nas artes, na literatura, no desporto.

Mas há aquela sensação de que, quando estamos quase a conseguir o nosso objectivo de sermos "europeus", qualquer coisa nos impede. Historicamente, parece que nunca conseguimos percorrer a última milha. Acha que é isso que desmoraliza as pessoas?
Percebo isso. Mas a mim não me desanima. E digo-lhe já porquê: nunca achei que isso fosse possível numa geração. É preciso mais tempo. Estamos a falar de países como a Inglaterra, a França, a Alemanha, que têm uma tradição de mais de 100 anos de investigação e de produção de conhecimento, de reflexão, que nós não tínhamos. Vivíamos completamente marginalizados dessa Europa. Há 30 anos não havia um paper.
Penso que as nossas elites estão um bocadinho gastas na maneira como olham para o lado antigo do que foi Portugal, quando temos ao lado um país a desenvolver-se muitíssimo e a mostrar que é perfeitamente capaz de ombrear com os mais desenvolvidos. Claro que ainda temos o resto, que ainda pesa. E que alimenta essa espécie de frustração que se transmite nesse discurso e que é má, porque leva facilmente as pessoas a desanimarem, a acomodarem-se... Penso que é a nossa obrigação, e também da comunicação social, dar conta desse outro país. Não quero com isso desculpar algumas lideranças...

Justamente, temos hoje muito mais gente educada, universidades muito melhores, uma massa crítica que deveria ser mais exigente. Como é que se explica, então, a fragilidade das lideranças políticas?
Há aí uma contradição para a qual não tenho resposta. Há uma espécie de alheamento em relação ao serviço público e há uma espécie de dissociação progressiva em relação aos partidos e às pessoas que nos governam, que me assusta um pouco... Não sei responder a essa pergunta, só sei que ela faz parte das interrogações que muitos de nós colocamos.

Mas não há também uma responsabilidade das pessoas? Talvez que o país mereça uma coisa melhor e não se esteja a esforçar-se o suficiente para a ter?
Talvez. São contradições e desequilíbrios que julgo que resultam de transformações muito aceleradas do tecido social português. Este pode ser um momento em que isso seja muito visível.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A Polis do Conhecimento (3)

Não me contaram, eu ouvi, na sua tomada de posse, o Presidente Cavaco Silva afirmar, depois de elencar os fracassos da governação, que 2000 a 2010 foi uma "década perdida". Pelos vistos, tudo foi trabalho perdido.
Acontece que há uns meses atrás ouvi e li testemunhos de académicos ligados à investigação cientifica, onde estes, entusiasmados com os novos rumos da investigação científica em Portugal, precisamente nos útimos anos, encaravam o futuro com muita esperança, no que diz respeito a este domínio.
Qualquer pessoa que se ineteressa pelo sucesso da Polis sabe que o avanço científico significa prosperidade, numa sociedade cujo sustentação depende cada vez mais do conhecimento e da inovação.
Ouvir o Primeiro Magistrado da Nação, em sessão solene, ignorar a que talvez tenha sido a maior e melhor obra das últimas décadas e falar naqueles termos, numa altura em que os mercados têm os olhos cravados nas nossas capacidades realizadoras, revela até que ponto o obscurantismo da verdade politica se entranhou na mente da classe politica e dirigente, ao mais alto nivel. (?!)
Ninguém, de entre a chamada intelectualidade portuguesa, teve coragem de dar um murro na mesa e dizer "basta!"
Não é de admirar que as empresas de "rating" nos atirem para o caixote do lixo, quando o Presidente reeleito, ainda por cima economista, é o primeiro a fazê-lo.
Que mal fizemos a Deus, para merecer isto?

terça-feira, 29 de março de 2011

Tudo Na Mente, Até A Pila

Há dias reencaminharam-me um clip que representava uma cabeça de homem e os respectivos apêndices sexuais em bailado exibicionista dentro do cérebro, postos a descoberto numa ressonancia magnética. A mensagem era de leitura fácil, mesmo para quem desconhecesse a acusação provocadora de que o homem pensa com a pila. Quem mo enviou foi uma senhora amiga e eu comentei-o assim:


Apetecia-me dar um titulo a este meu comentário, qualquer coisa como "o mito e a realidade".
Essa história de termos o pénis na cabeça é mais realidade que mito. Penso que virou mito por ser, ao mesmo tempo, tão real e tão intrigante.
Qualquer rapazinho normal, por exemplo, aqui o Mário de outras idades, ainda menino descobre uma pilinha que parece ter vida própria, que ele controla tão pouco quanto a vontade de fazer chichi. Também cedo se apercebe das sensações agradáveis que acompanham as persistentes erecções. Se não houver por perto uma adulto ignorante e castrador, o menino acabará por ter uma relação cada vez mais interessante com a sua pilinha buliçosa e prazerosa. Ao atingir a puberdade, a transformação é explosiva em todos os sentidos. E, de novo, se não houver por perto um adulto "maldoso" ou simplesmente ignorante, o rapazinho testemunha uma nova vitalidade da sua tão "independente" pilinha. Não só se estica como nunca, como convida, teimosa e persistentemente, à sua manipulação, até ao clímax do orgasmo ejaculatório. E pouco adiantará "esquecer porque é feio". Reprimir, no estado de vigilia, a vontade indómita da pilinha, vai proporcionar o espectáculo de uma finta magistral, (se quiserem, de uma rasteira à má fila) quando o rapazinho dorme a sono solto! Isso mesmo! É quando acontecem os "sonhos molhados" , que os técnicos designam por "poluções nocturnas" e que não são outra coisa que uma inesperada ejaculação , com a endiabrada pilinha a não aceitar o jugo de uma abstinência forçada e a impor a sua autonomia.
Diga-me lá, Maria Emilia, como é que nós, os homens saudáveis, podemos furtar-nos à presença impositiva e persistente da nossa pilinha na mente!
Vemo-la, sentimo-la e queremo-la, não podemos, nunca, ignorá-la. Ficaria muito preocupado se a ressonância magnética não acusasse a sua presença, relevante, no meu cérebro.
Eu gosto muito da minha pila.
Felizmente, a minha mulher também.

Hoje, aqui no blog, posso acrecentar, em fidelidade à ciência de Damásio: de facto, a pila está mesmo presente no cérebro do homem e se caparem um infeliz portador da mesma, lá continuará para todo o sempre, apenas com uma nota angustiada em rodapé: cortada!

O Mito do Poder da Mente

Muito se tem escrito sobre este tema nas últimas décadas! E a saga continua. É mais um mito para a ciência desconstruir. E está a fazê-lo, pedra a pedra, sem qualquer intenção expressa, até porque os homens que se debruçam com paixão e carinho sobre os segredos da vida e do universo não têm tempo para perder com as especulações da pseudociência.
Os autores que em volumosos escritos pseudocientíficos endeusaram a mente e os poderes da mente, chegaram ao cúmulo do disparate, com afirmações do género "não é o cérebro que cria a mente, mas a mente que cria o cérebro". Isto é bem mais do que pôr o carro à frente dos bois.
A biologia, a genética e a neurociência vieram colocar as coisas no seu devido lugar.
A genética descobriu um livro escrito no ADN de cada ser vivo que não fala de uma "alma separada", de um "espírito autónomo da matéria" , nem de uma mente sem as raízes mergulhadas na "carne" e da qual recebe todo o seu brilhantismo, numa dependência absoluta para existir e exercer a sua actividade.
A ideia milenar de uma "alma separada" , onde vão beber os criadores do mito do poder da mente, tem impedido pensadores que se julgam muito "actualizados" de constatar o que é óbvio: a simples obstrução das artérias que levam o precioso gás -o oxigénio- ao cérebro, é suficiente para reduzir a cinzas, em alguns minutos, a mente mais lúcida e brilhante.
Os seguidores do mito não querem ver que a estruturação do ADN precede a vida, o cérebro e a mente e que este facto se repete na formação de cada novo ser vivo. E a ciência já pode acompanhar cada fase e cada passo do processo. A novíssima informação é que já foi possível reproduzir a transição da simples química para a vida.
O mito agarra-se, com unhas e dentes, aos limiares que falta transpor e que dizem respeito à origem do universo e ao problema, que permanece insolúvel, da mente humana consciente. E tal desconhecimento pode até justificar a fé dos homens. O que não se pode é confundir a fé com a ciência e a pseudociência enveredou por esse caminho de confusão e depressa chegou aos ”milagres operados pela mente”. Se imaginarmos que o motor é o cérebro de um carro e a mente a respectiva potencia, ainda haveríamos de ver a potência do carro a repara um o furo de um pneu. Pura magia.
A realidade é bem diferente. O cérebro e a mente que nele se produz dependem tanto do corpo inteiro como o corpo da mente, em completa interacção. No seu livro da consciência, Damásio dixit. E quem sou eu para o contradizer e aos seus pares! Nem pretendo, que sei muito bem o que significa cortarem-me o pescoço…

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Polis do Conhecimento (2)

No momento em que escrevo este post (2) sobre o tema em titulo, adivinha-se uma tragédia económica em Portugal. O obscurantismo politico triunfou sobre o conhecimento. A preversa "verdade politica" foi imposta e pôde ser imposta por causa do défice da verdade do conhecimento. A Polis ainda está demasiado à mercê dos que apostam na "fé"cega, fruto da ignorancia.
Sei que esta descida ao abismo acabará por colocar a Polis num novo patamar da verdade que rusulta do conhecimento.
Desta vez, parece-me, a mentira em curso é tão gigantesca quanto as suas prováveis consequencias.
Conjunturalmente, a Polis ficou à mercê do obscurantismo politico.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A Polis do Conhecimento (1)

Às vezes convenço-me que ainda mal acabamos de ensaiar a saída de um certo obscurantismo filosófico e teológico e já entramos a fundo no obscurantismo político. Qualquer coisa como ir deixando para trás a "verdade-mentira" que medra no culto aos deuses e na moral que os mesmos deuses determinam, entrando na pântano da "verdade politica", cozinhada nos interesses das nações, dos governantes e dos que detêm o poder económico e judicial.
Contra qualquer destes obscurantismos, que atrasam o desenvolvimento da vida da Polis, eleva-se cada vez mais a verdade do conhecimento.
A ciência rasga, quase silenciosamente, os caminhos da verdade.
Acusam-me de ser um optimista. E sou e sem emenda. As minhas leituras preferidas, não únicas, são as que me proporcionam os "antónios damásios" destes tempos emocionantes de revelações cientificas. Venero-os, não tenho vergonha de o confessar, como na juventude me ajoelhei perante as "verdades sagradas" da minha fé. Respeito esse passado duas vezes, porque dele parti ao encontro da verdade cientifica. São duas fases da minha vida, como as duas fases da própria história da humanidade. Onde muitos querem ver contradição, eu prefiro realçar a progressão. Fui tão humano enquanto me orientei pelas verdades da fé como sou agora com a verdade da ciência. Cada fase tem o seu tempo próprio e o que me leva a deixar este testemunho é, antes de mais, a convicção de que segui o caminho de uma evolução possivel. Outros terão outra. Se acharem que, perante o testemunho que vos for dando, alguma coisa vos possa aproveitar, sentirei que valeu a pena gastar um pouco do meu tempo neste blog. Ficarei atento ao que de vocês vier, na esperança de aprofundar a minha progressão.
Não me convidem, isso não, porque é perda de tempo, a repetir o passado, sugerindo-me o regresso às "verdades religiosas" da minha juventude. Retroceder nunca foi o movimento espontâneo da vida.
Antes morrer que voltar para trás, diria, se pudesse, um velhinho sobreiro de 300 anos.

domingo, 20 de março de 2011

O Livre Arbitrio E Uma Sinfonia

Meu caro Lima, não referi, no post anterior, o livre arbítrio, mas já que trouxeste o tema para o debate, vamos a ele. Não tarda nada tenho o Luís em cima, a não ser que ande tão mergulhado na física quântica, que nem dê pela nossa conversa.
Os gregos criadores de uma fabulosa mitologia arranjaram um Deus para cada emoção e sentimento humano, materializando-os na pintura, na escultura ou na literatura. Aquilo que começou emoção e sentimento do homem acabou por ser considerado tão real ou mais, quanto a fonte dessas emoções e sentimentos que é o mesmo homem.
Assim se fez a religião para uma alma imaginada dentro do corpo da gente, tão independente deste que pôde ser pensada como pré-existente ao corpo e sobrevivendo-lhe. A ideia da dupla natureza ou substância do homem subsistiu até ao presente. Esta convicção, porque se trata apenas de uma convicção ou fé, esteve na origem da divisão do mundo em duas realidades distintas, uma de ordem material e outra de ordem espiritual.
E estava tudo mais ou menos pacificado com este “pano de fundo” filosófico e teológico, até que os decisivos avanços da ciência sobre a biologia humana puseram seriamente em causa o antiquíssimo mito da "alma separada” e a física concluiu por uma única “substância” a partir de um “big bang” tão remoto quanto a existência do próprio universo. Energia e matéria são comuns ao todo universal e as leis que as regem são as mesmas, sem quebra da “solidariedade" universal .
Outra coisa é saber quando conheceremos todas essas leis, dizem os homens da física.
Nos últimos tempos coube à ciência genética e à neurociência um papel destacado na desmontagem do mito da “alma separada”. Entre nós, António Damásio demonstrou a conexão essencial entre emoção, sentimento e pensamento, não deixando margem nem espaço para uma entidade capaz de um "puro pensamento", originada na pureza e subtileza de um puro espirito. Por mais brilhante que seja uma ideia, diz Damásio, ela tem as raízes todas no cérebro humano, que forma um conjunto indissociável (para a elaboração das ideias) com todo o corpo. Para Damásio, o nosso pensamento será sempre emocionado e sentido na sua génese. Numa bela expressão literária, o nosso prémio Nobel da literatura diz, acerca da relação da alma e do corpo, que "os sentidos são as pernas da alma". Podemos especificar: e do pensamento.
Toda a nossa actividade mental está imersa nesta realidade e só recorrendo ao mito podemos imaginar que transcendemos os limites da condição humana.
Assim, eu penso que o “livre arbítrio “ é um mito quando considerado um absoluto, esquecendo-se as limitações da mente onde se concebe o livre arbitrio. Porque uma coisa é estarmos conscientes da nossa abertura ao infinito e ao absoluto e outra coisa é apresentar o absoluto ou a liberdade absoluta na palma da mão. Seremos sempre a liberdade que conseguirmos concretizar e não aquela que sonhamos, porque esta é um mito.
A citação que fazes de Espinosa sugere-me que este grande pensador rejeita o mito do livre arbítrio daqueles que pretendem conhecer todas as causas e a causa primeira de todas . E, claro, um mito pode ser facilmente “desconstruído”. Tão fácil como desmontar o mito da Deusa Atena ou do Gigante Adamastor.
Se colocarmos a questão do livre arbítrio em termos absolutos, estaremos a extrapolar da nossa realidade humana. Podemos fazê-lo, mas tendo a consciência de que estamos a construir um mito e a revelar mais uma das extraordinárias capacidades do nosso cérebro: a capacidade de olhar o infinito. Porém, olhar é uma coisa; concretizar ou materializar é outra bem diferente. Como quem diz: pensar no livre arbítrio está ao nosso alcance; concretizá-lo é tão impossível como viajar até ao Big-Bang.
Uma janela aberta para o livre arbítrio é apenas poder pensá-lo. Sei que não é tudo nem é muito, mas o homem pode envaidecer-se por ser o único a conseguir a proeza desse pensamento.
Não é drama nenhum reconhecer a nossa falta de liberdade ao nascer e é deveras estimulante saber que podemos fazer escolhas, pensar e sonhar, como se viesse do futuro a liberdade que não existiu no passado.
Assim como se o livre arbítrio fosse algo a conquistar, em vez de uma condição com que nascemos.
E foi a pensar nisto que me lembrei da sinfonia.
Bethoven sonhou, pensou e compôs uma sinfonia. Mas a sinfonia não existe, de facto, enquanto permanece apenas na mente de Bethoven. E também não existe nem na partitura, nem nos músicos, nem nos instrumentos, nem nos gestos do maestro. Só acontece mesmo quando muitos se organizaram para executar o” projecto” musical.
Não vale a pena procurar os responsáveis (os “culpados”) pelos factos. O que interessa mesmo é que os factos sejam como uma sinfonia.