quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Triplice Dimensão de Mim

Retornando à pequena história do Pe Anselmo que eu trouxe noutra postagem mais atrás, claramente ela sugere-nos todo o poder intrigante da mente humana que nos "decompõe" numa tríplice realidade: eu-corpo, eu-personalidade e eu-contemplação (ou reflexão). Esta "decomposição" não é mais que uma simulação da realidade pela nossa mente consciente, um "não-facto", pois a decomposição efectiva do conjunto solidário daquela trilogia seria a morte. De facto, no acontecimento da morte dissolve-se o eu-corpo, o eu-personalidade e o eu-contemplativo (reflexivo). Ou não será assim?
Alimenta-se a dúvida, desde há milénios. Talvez, mais do que uma dúvida, seja a expressão do inconformismo de quem (o eu-contemplativo) se viu nascer, crescer e tornar-se alguém (personalidade). Como pode, pergunta o eu-contemplativo, "tudo" acabar em "nada"? E o "tudo" é o corpo, a personalidade, o próprio acto de reflectir.
Como nunca tivemos resposta conclusiva, considerando o enigma do universo que somos, pensou-se, sonhou-se ou simplesmente imaginou-se uma solução para preservar a identidade individual: a imortalidade, a ressurreição, a reencarnação.
Numa época pre-cientifica estas respostas eram suficientes e chegavam a arrebatar a mente humana. Com o advento da era científica persistiu a esperança de escapar à dissolução da pessoa humana, invocando-se a capacidade misteriosa da mente em contemplar o nascimento, a vida experienciada e a pre-visão da própria morte. Mas acontece que a neurociência demonstra cada vez melhor que o processo mental que nos permite recuar a um "antes da vida" e avançar até um "depois da morte", resulta da actividade essencial e indissociável do corpo e da mente, condicionando-se mutuamente. É um enigma por desvendar, a forma como este processo se desenrola "de baixo", "para cima", ou seja, da não-vida para a vida, até à contemplação e à reflexão.
Mas por ser enigmático, nada justifica afirmar categoricamente a autonomia de um "eu-contemplativo" em relação à sua "humilde" origem.
Estou convencido que, por muitos anos ainda, os homens não consigam viver sem a expectativa da imortalidade, da ressurreiçâo e da reencarnação. Elas vão continuar a garantir, pela fé, cada uma a seu modo, a preservação bem sucedida da identidade.
Haverá alguma vantagem em colocar em causa estas expectativas felizes, desassossegando as pessoas?
Respondendo de uma forma simples eu diria que não foi menor o desassossego quando a ciência revolucionou o mundo geocêntrico, criacionista e antropocentrico.
Dói, mas passa, acabando-se sempre por descobrir que amamos tanto a verdade, quanto o sonho e a esperança. De modo que a humanidade, como um todo, vai continuar a sonhar e a procurar a verdade.
E depois, aqueles que consideram como falaciosas as respostas "tradicionais" da pre-ciência, que solução propõem para a preservação da identidade como garante da felicidade?
Em definitivo, nenhuma, na verdade. Digamos que, até hoje, o máximo que podem oferecer é uma maior e mais sadia longevidade, vivida no sonho possível e na esperança possível.
O facto de tantos, quase todos, se agarrarem, até hoje, a uma transcendencia que preserve, de algum modo, a sua identidade, significa que o homem da era científica também não aceita ter o mesmo destino de uma estrela, de uma planta ou de um animal. Apesar disso, e dando mostras de um "homem de pouca fé", no dia a dia investe "tudo", como sabe e pode, para preservar a integridade do seu corpo, da sua personalidade, da sua mente reflexiva.
Não admira, pois, que a mais verdadeira das orações é aquela que todos rezamos nos momentos críticos: "enquanto há vida, há esperança". E, naturalmente, estamos a falar da única vida que conhecemos e experienciamos.

11 comentários:

  1. Queres tu dizer, (ou o Pe Anselmo?), que o homem, na sua ânsia de atingir os píncaros da divindade, já fabricou a sua trindade? Primeiro, nos primórdios da humanidade, o homem estava só, e cada individuo era um, nascido de um só bloco, que a morte levava de uma só vez, inteiro como nascera. Depois, à força de enfrentar a crueldade da sua vida efémera, e inconformado com o seu destino, pensou que bom seria se a vida não acabasse inteiramente com a putrefacção do corpo. Nasceu então a alma, filha da consciência, e o homem primitivo continuou a sua ascensão irresistível para se aproximar da imortalidade, agora mais forte, mais completo, já não um, mas dois: o corpo e a alma. E agora, queres tu dizer, o homem atingiu o estado de trindade: já não é um, nem dois, mas três.

    Não me admira, já foi assim na história da nossa Religião Católica. Primeiro, no tempo de Abraão, o Pai estava sozinho, era Um. Depois, por necessidade de redenção, “criou” o Filho que enviou com a missão de resgatar o homem prisioneiro de si próprio, e quando Este partiu enviou o Espírito Santo para acompanhar a obra iniciada. De Um passou a três. Mas como Deus, “Deus verdadeiro”, só há um, os três não passam de Um.

    Trindade de um Deus primordial que afinal é Um; trindade do homem na sua caminhada para a imortalidade que afinal é... um!
    Uma coisa é certa: A inventividade do homem é sem limites!

    ResponderEliminar
  2. Vamos lá ver, Lima: "três dimensões" não é o mesmo que três entidades. Será assim como o cumprimento, largura e altura de um objecto. É neste sentido que penso a triplice dimensão de um "sujeito": o meu corpo, a minha mente reflexiva e a minha personalidade. Cada uma revela uma realidade de "mim" e nenhuma subsiste por si mesma, porque formam um "bloco" solidário e único. Até podemos dizer que enquanto consideradas isoladamente nâo são mais que um mero conceito. Realidade mesmo, só enquanto permanecem conjunto e, mesmo assim, trata-se de uma realidade tão precária que mal dá tempo para tomar consciência dela antes do fim anunciado.

    Mas que tudo isto não explica coisa nenhuma, lá isso é verdade. Talvez se um dia conseguirmos criar um ser com estas exactas três dimensões comecemos a desvendar o enigma.

    ResponderEliminar
  3. Bem,eu queria dizer "comprimento"...
    Mas vinha aqui para acrescentar mais um pormenor ao meu comentário anterior, antes que o Luis me caia em cima.
    Quando eu digo que aquelas três dimensões do sujeito não são mais que meros conceitos, também considero que o "conjunto" ou "sujeito" é um conceito. Mas também considero que, no fundo, os conceitos são a realidade a "chamar nomes" a si própria. Como sabemos, apenas a realidade humana o faz, pela sua enigmática mente consciente. Por isso se diz que o homem é a consciência do universo.
    Quando chegamos aqui, perdemos o fôlego, como se estivessemos suspensos entre o "ser" e o não-ser". Assim como se o homem-que-pensa fosse, ao mesmo tempo, a sua afirmação e a sua negação. Quando me afirmo, não me apanho; quando me nego, não consigo fugir. E se não fossem vocês a fazer-me companhia, sentia-me a falar sozinho. Pelo menos a solidâo o homem consegue evitar, porque são muitos a pensar. Mesmo que seja na corda bamba.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Compreendo, Mário! Claro que não quis atribuir ao homem três entidades. Foi apenas para sublinhar uma certa semelhança que me pareceu evidente entre a ideia que tu exprimiste do ser humano e a noção de um Deus, (Trindade na religião católica). Na sua luta pela perfeição e conhecimento, o homem procurou sempre engendrar uma realidade própria, nem que unicamente “fundamentada” em conceitos exclusivos, com o intuito de se aproximar o mais possível da imagem de um Deus que lhe escapa, em compreensão e em essência.

      E, pois que falas em solidão, esta procura inconsciente de todo o ser humano de algo que o transcenda, bem pode ser a voz do isolamento em que ele se sente. Porque, afinal, o homem, na sua caminhada entre a multidão, ouve o barulho ao redor, mas marcha só, sem que ninguém seja capaz de lhe explicar de onde vem nem para onde vai.

      Eliminar
  4. «Haverá alguma vantagem em colocar em causa estas expectativas felizes, desassossegando as pessoas?»

    Sabes, Mário... já fui mais activista. Mas hoje julgo que é mais sábio pôr em prática as seguintes máximas:

    If it is not truthful and not helpful, don't say it.
    If it is truthful and not helpful, don't say it.
    If it is not truthful and helpful, don't say it.
    If it is truthful and helpful, wait for the right time.

    Buddha

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A sabedoria do Buddha é realmente a sabedoria do bom senso. Mas o problema Luís é que para aceder à convicção do útil ainda poderemos utilizar o nosso bom discernimento, mas para chegar à convicção do verdadeiro, fazemos como?

      Eliminar
    2. Acho que com "se é verdadeiro" ele queria apenas dizer "se cremos que é verdadeiro"...

      Agora aí é cada um por si. Houve uns tempos que tentaram sistematizar a coisa e chamaram-lhe "método científico"... ;-)

      Eliminar
  5. Agora percebo porque Buda não escreveu nada. Ficou à espera do "tempo certo" para o fazer, e morreu antes...
    Prefiro arriscar, nem que tenha de errar tantas vezes quantas as experiências falhadas pelos cientistaa nos laboratórios, até que resultasse em descoberta brilhante.
    "Errandum discitur", em portugues dizemos que a "errar se aprende", e eu prefiro esta sabedoria dos clássicos latinos. Atirámo-nos de cabeça para a futuro, sem receio dos passos em falso e da cabeça partida.
    A cada povo a sua sabedoria. E como os povos estão a trocar experiências a um ritmo como nunca no passado aconteceu, é bem possivel que acasalando a prudência sábia, do oriente, com a audácia irreverente ocidental, comecemos a ver emergir uma humanidade mais equilibrada.
    Talvez assim superemos a crise.

    ResponderEliminar
  6. Já Cristo, era um grande escritor e abancou a escrever o Novo Testamento...

    Nunca mais te passa o preconceito da passividade, mas não vou mexer nem mais uma palha para alterar esse estado de coisas (presumo que isso não te espante...oh oh).

    ResponderEliminar
  7. No caso de Cristo, até podia dar-se o caso de não saber escrever. Há um relato onde aparece a escrever no chão, o episódio da "mulher adúltera", mas os especialistas em exegese são de opinião que é um texto intercalado tardiamente.
    Outro que não escreveu nem uma linha foi Sócrates, o filósofo da arte maiêutica.
    Em todos estes casos foram os discipulos ou seguidores a escrever para a posteridade a sua sabedoria. Os "mestres" talvez pensassem que a sabedoria é "pessoal e intransmissivel" e, quando vertida em palavras, morre um pouco ou muito, pelo caminho, entre o emissor e o receptor. E se é verdade, como diz Damásio, que o pensamento tem na sua génese a emoção e o sentimento, jamais alguém conhecerá o verdadeiro pensamento de alguém.
    Aqui tudo se complica, tanto a oriente como a ocidente. E o preconceito de que falas fica um anãozinho face a esta realidade grande.

    ResponderEliminar
  8. Seguindo Damásio, estamos desafiados a aceitar coma tarefa impossivel reproduzir com fidelidade integral o pensamento de alguém. Não admira que o recurso à poesia, à pintura, à música e todas as formas de arte seja a forma mais expedita de exteriorizar um tal "pensamento". E a interpretração, por terceiros, de toda essa arte expressa é uma tarefa nunca acabada.
    "O que eu quis dizer não é bem isso!". Falhas na expressão e falhas na "leitura".

    ResponderEliminar