segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A Transcendência Também Morre

Folheava ontem um livro recentemente publicado, que é uma biografia de Stephen Hawking. Num capítulo sobre a imortalidade do espírito humano aí se refere a entrevista de 2011 de S.Hawking, em que ele se mostra céptico em relação à vida depois da morte, afirmando que é uma história fantasiada da existência de um paraíso, que serve apenas para afugentar o "medo do escuro". E continua afirmando que o nosso cérebro não é mais que um computador e a mente humana o seu produto. E conclui: não há um paraíso para computadores.
A rebater esta posição de Hawking aparece W. Wenham, que sofre da mesma doença degenerativa neuromotora de Stephen. Alega W.Wenham que Hawking está mal esclarecido e mal informado. Diz que, embora não tenha provas, está aberto à teoria que defende a existência de pelo menos 11 dimensões e que homem começa outra existência quando esta for completada. Tive logo vontade de perguntar "completada quando, como e onde?". Porque, no plano individual, pode-se acabar a aventura humana ainda como embrião, mal acabado de nascer, na infância, na juventude, na idade de plena maturidade ou depois da lenta decadência de uma longa velhice...).
Adiante.
Hawking e Wenham abordam o problema a partir da física. Parece-me curto, porque ainda temos a biofísica, a bioquímica , a genética, a neurociência.
Wenham está convencido que há-de ser a física, através das suas dimensões ainda apenas teorizadas, a garantir a imortalidade da vida. Hawking deixa-o sonhar.
Correndo atrás desse mesmo sonho de uma vida para além da morte vão as filosofias do transcendente e é destas que se socorrem os crentes, apostados em defender a razoabilidade da fé, embora continuem a afirmar que a fé não é dedutivel de qualquer raciocinio. "Não há razões para crer", proclamam. Mas então porque vivem da fé?
Neste ponto vale a pena ler o que escreve o nosso já conhecido Pe Anselmo, na obra já citada.

"...Mais graves são as questões que derivam das novas ciências. Evidentemente, as investigações etológicas, bioquímicas, da genética e das neurociências constituem hoje talvez o maior desafio alguma vez lançado a uma concepção verdadeiramente humanista e espiritualista do homem, por causa da tentação de reduzir o humano a uma explicação dentro do quadro da zoologia e da bioquímica. De qualquer forma , ao ser humano reflexivo impor-se-á sempre a subjectividade própria, pois a ciência objectiva só existe para e a partir do sujeito. Por mais que objective de si, o sujeito humano deparará sempre com o inobjectivabel,já que a condição de possibilidade de objectivar é ele mesmo enquanto sujeito irredutivel. O homem enquanto sujeito transcende, portanto, continuamente a explicação das ciências objectivantes".

Pois é, meu caro Pe Anselmo, "o homem enquanto sujeito transcende (...) a explicação das ciências objectivantes", e eu concordo plenamente, mas só o faz enquanto for um sujeito "cheio de vida" e isso implica a existência de um "corpo-cérebro" sadio!
Tem de concordar, Pe Anselmo, que um homem cheio de esperança como o Wenham pelo menos propõe uma solução, com a teoria das 11 dimensões (ou mais). S.Paulo fez o mesmo, à maneira do seu tempo, propondo a fé na "Ressurreição da Carne". O Pe Anselmo e todos os espiritualistas que rejeitam tanto a prodigiosa "Ressurreição da Carne" como a salvação pela teoria da física das 11 dimensões não apresentam outra coisa que não seja uma "transcendência" que nasce com o sujeito e com ele morre. Efectivamente, será sempre um outro sujeito a objectivar a transcendência de um cadáver. Enquanto existir um sujeito para fazer o exercício.

3 comentários:

  1. O tema é de tal maneira pessoal, íntimo e dependente da nossa íntima convicção que todos os discursos do mundo não nos farão desviar um milímetro da nossa “intuição”.
    Resta-nos elucidar como chegamos, cada um de nós, a essa tão íntima convicção.

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  2. Mas eu não tenho nenhuma convicção íntima definitiva. Nem as minhas convicções nem as minhas intuições me livram da dúvida mais profunda. E, pelo que dizem as pessoas de "fortes convicções", parece que não sou apenas eu a sofrer deste "mal". Se não mudou de ideias, de convicções ou de intuições, o actual Papa está como eu, escrevendo esta coisa em 1968: "Não há fuga possivel ao dilema do ser humano. Quem quiser escapar à incerteza da fé, terá de experienciar a incerteza da descrença, que, por sua vez, nunca pode dizer com certeza definitiva se não é a fé que é a verdade. Ninguém pode tornar Deus e o seu Reino evidentes. (...) Nenhum pode escapar completamente à dúvida". (In Deus e o Sentido da Existencia, de Anselmo Borges)

    Esta incerteza acarreta infelicidade? Acredito que sim, mas só para aquele que decida viver para ela ou em função dela, tomando-a como um absoluta e não como apenas mais uma das muitas contigências do nosso ser humano. Não somos donos da certeza absoluta, mas experienciamos uma infinidades de certezas e incertezas, que se desfazem umas e se consolidam outras, num "jogo" que chega a ser apaixonante. Ironicamente, até há quem pense que a incerteza fundamental é o princípio da nossa liberdade. Imagino que quando tudo for evidente e exacto o homem vai adormecer num enorme bocejo.

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  3. Quanto tudo é evidente e exacto, só há o bocejo. ;-)

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