O Luís talvez corrija para "não há mistério, nem quem o pense", a lembrar Gautama: "não há caminho nem quem o percorra".
É o princípio de mais um dos meus desencontros com o "Desperto" Gautama. Mas não ganho nada com isso, porque o "sujeito irredutível" que sustenta o pensamento do enigma é tão frágil quanto o "barro" onde se revela. Sabemos que o "sujeito irredutível", o EU que pensa o mistério, só existe mesmo enquanto é o pensamento do mistério. E podemos, por isso mesmo, afirmar com Gautama que a efémera existência do "eu pensante" equivale a "não-existência"? Julgo que não, porque todo o acto é irreversível e o pensamento é acto de quem pensa. Mas aqui chegados é impossível não esbarrar com o dilema que se nos apresenta: o sujeito, absolutamente efémero, é, apesar dessa sua condição, simultâneamente efeito e causa de si mesmo. É efeito porque nasceu da consciência e do acto de pensar e é causa enquanto sujeito que se pensa a si mesmo.
Neste ponto, saltamos a barreira da lógica, onde causa se confunde com efeito e o acto com quem actua, postulando-se, em última análise, ou o acto puro ou a pura subjectividade.
Quem quiser escolha, mas lembre-se que tem apenas o tempo de uma vida breve para o fazer. Com isto quero dizer que no fim do discurso ou no fim da vida (do sujeito pensante) o enigma persiste desafiante como sempre.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
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Ao contrário: "Existe o caminho, não quem o percorra".
ResponderEliminar"[...] todo o acto é irreversível e o pensamento é acto de quem pensa [...]"
Ah, mas também os relógios são feitos por relojoeiros, e na verdade é apenas ao olhar para o mundo como um relógio que a ideia do relojoeiro faz algum sentido. Assim também com a argumentação acima.
"[...] o sujeito, absolutamente efémero, é, apesar dessa sua condição, simultâneamente efeito e causa de si mesmo [...]"
Um pensamento interessantíssimo, sem dúvida. Mas traiçoeiro, parece-me. Ora vejamos...
"[...] Neste ponto, saltamos a barreira da lógica, onde causa se confunde com efeito e o acto com quem actua, postulando-se, em última análise, ou o acto puro ou a pura subjectividade. [...]"
O acto puro, Mário. O acto puro, julgo eu.
A caligrafia Zen, denominada Shodo, baseia-se justamente na ideia da acção espontânea pura, na qual as letras devem fluir, de um só golpe, sem ensaios ou correcção.
ResponderEliminarConsidero, Luis, que o acto de pensar tem tanta consistência como o "acto" de existir e é por esta razão que falo em "pura subjectividade" e "acto puro". Ambos acontecimentos irreversíveis, no sentido de que o ser não pode retornar ao não-ser e o pensamento emitido esfumar-se no "não-pensado". Como a génese do pensamento é o sujeito, será o sujeito-pensante que se torna irreversivel. E, deste modo, fica claro para mim que sujeito e objecto são irredutiveis um ao outro desde que se constituiram como factos e actos. Em consequência, enquanto existir, actuante, um único sujeito pensante, a subjectividade evidencia-se no SER. E como eu não sou dualista, acrescento que a subjectiviadde é a "voz" ou consciência do Ser e este mesmo Ser é o seu inteiro progenitor. Com legitimidade EU posso chamar-lhe PAI, mas duvido muito que alguma vez ele me chame FILHO: porque a voz ou consciência da minha subjectividade é sinónimo da minha finitude transitória.
ResponderEliminarEsta tremenda fragilidade da subjectividade deixa em farrapos a vaidade de quem pensa poder "tratar por tu" o Inefável Infinito.
"[...] Como a génese do pensamento é o sujeito [...]"
ResponderEliminarOu não. Com maior certeza, a génese do sujeito é o pensamento. Como já tinhas dito, também. Aliás, o próprio pensamento carece de uma unidade ou identidade. Daí que, no limite, só exista a acção. Isto é danado, venha a Física cavar mais um bocado deste buraco.
Não dá para escapar a uma certa indefinição, porque sem sujeito não há pensamento e vice-versa. A física não vai cavar buraco nenhum, antes pelo contrário.Os fundamentos do sujeito pensante assentam no universo da energia e da matéria e até para além delas, porque continuamos a "partir átomos), para vermos aonde é que "isto" vai dar.
ResponderEliminarEu jurei, para não me desviar muito do caminho que julgo certo, nunca perder de vista o "continuum" do UNIVERSO. Física e metafísica são obra do homem e este é obra do nosso enigmático e espantoso universo. Daqui não saio, a não ser quando me apetecer fantasiar uma chávena de café fumegante a orbitrar a lua cheia...
Só nós é que vemos no rio algo de estático, mas a «sua» água corre sempre para o mar. Não será assim com o sujeito e o pensamento?
ResponderEliminarO pensamento antes de o ser é sentimento e emoção. Isto significa que ao ser formulado já tem uma identidade que acaba por ser única e irrepetível. Esta exclusividade subjectiva resulta da unidade intrínseca do corpo-cérebro.
ResponderEliminarDe qualquer ser vivo se pode dizer que é um "exclusivo" mas a diferença no ser humano é que esta exclusividade é conscientemente experienciada. A esta experiência chamamos subjectividade.
Quando todo este conjunto se desintegra biológicamente, com a falência vai toda a subjectividade. É isto que os dualistas não aceitam, defendendo que a pessoa humana não é redutivel à matéria. Eu também digo que o sujeito-pessoa não é redutivel à matéria (seja lá o que for a matéria) mas apenas enquanto a "matéria" está organizada e capaz de produzir a emoçâo, o sentimento e pensamento consciente.
Penso que todos estão à espera que se prove a existência de uma subjectividade que seja autónoma de um corpo-cérebro. Em contraponto, cada vez fica mais demonstrada a total dependência da subjectividade em relaçâo ao corpo-cerebro funcional.
Não percebo como é que o sujeito-pessoa não é redutível à matéria. Só «[...] apenas enquanto a "matéria" está organizada e capaz de produzir a emoçâo, o sentimento e pensamento consciente [...]» ? Mas então quando isso acaba, para onde vai o resto?
ResponderEliminarEnfim, o problema do costume...
Mas *suspiro* eu também não tenho ainda uma cabal explicação para a subjectividade.
Agora fizeste-me rir com gosto.Até a minha mulher me perguntou o que tinha visto no computador. "Para onde vai o resto". Ora essa, vai para o céu! Ou pensas que o sujeito fica agarrado aos átomos?
ResponderEliminarSabes que eu, 1 + 1 = 3, as sinergias, etc., nada disso me convence.
ResponderEliminarPosto isto, não sei se me estás a gozar ou não, a este ponto me baralhas. Tu dizes que o sujeito sobe aos céus, e a mim já me apetece mandar a subjectividade aos infernos!...
Esta gaita não pode ser assim tão difícil. O que irrita é que a resposta está dentro das nossas cabeças, é o maldito olho que não se consegue ver a si próprio. Precisamos aqui dum espelhinho!...
Não estou nada a gozar contigo. Deixa-me dizer-te aquilo que escreveu Carl Sagan no seu último livro (já internado pela doença que o levou): quem me dera continuar a viver depois da morte e reencontrar o meu pai, falar-lhe dos meus filhos, dos meus projectos...nem que fosse apenas mais uma vez. Estou a citar de cor, mas foi mais ou menos o que ele escreveu. Quanto a mim costumo dizer que gramava à brava que estivessem certos os crentes na vida depois desta vida, mas só desde que eu conservasse a minha identidade e reconhecesse os meus amores e os meus amigos. Por chegar a um céu de anjas e anjos sem levar as minha memórias acho que prefiria morrer outra vez...
ResponderEliminarAh, querer viver depois da morte, fora alguns casos limite indesejáveis, penso que todos quereríamos. Mas se te lembras disso, lembras-te também que isso não foi tudo o que Sagan disse. O homem era um ateu de uma integridade e honestidade intelectual notáveis.
ResponderEliminarEu sei. Sagan foi um dos homens que ajudou como poucos a desmistificar o mundo de "anjos e demónios", as histórias dos contactos extra-terrestres, a falácia dos poderes extra-sensoriais. Começou por levar tudo muito a sério para depois demolir os falsos fundamentos. Com a "honestidade intelectual" de que falas. E sem raivas. Tomei-o como um modelo inspirador. Custou-me vê-lo partir tão cedo.
ResponderEliminarE já agora: o "resto" irredutível à sua matéria está em nós, que o lemos e amamos, e corporalizado na obra que nos legou. Mas a subjectividade para a continuada intercomunicação e crescimento desapareceu com a desintegração do “edifício biológico”, o corpo-cérebro.
Consciente desta realidade inelutável, a minha aposta vai na preservação deste "edifício biológico" e na optimização das suas potencialidades. Eu substituo a palavra de S. Paulo "ressurreição" por transformação; e a intervenção divina directa e prodigiosa pelo humaníssimo milagre das ciências, da criatividade e do amor humanos, alicerçando aí a minha esperança. E depois é só reparar no esforço gigantesco da humanidade a fazer exactamente esse caminho, socorrendo-se de todas as formas de fé e de esperança para conseguir viver mais, viver melhor e mais feliz.
Adivinho aquele convencimento e consolo íntimo: mais um dia, mais um pouco de felicidade, um novo conhecimento, uma nova descoberta, um sentimento profundo. Sentindo e rezando como escreveu o poeta: "tudo vale a pena, se alma não é pequena".
Quem acha pouco, é porque deve estar a deixar passar a vida ao lado, por atrofiamento físico ou espiritual. Ou os dois ao mesmo tempo. E o atrofiamento total e irreversível é a morte que, definida deste jeito, nos deixa entrever um horizonte de "ressurreição". Que importa que seja ainda apenas um sonho de fé e de esperança, quando são elas que nos vão enchendo a alma!