"Foram budistas japoneses que se interrogaram por que motivo a moderna ciência se expandiu no solo da tradição judaico-cristã".
É uma citação do livro do teólogo católico (excomungado)Hans Kung, da sua obra "O Principio de Todas as Coisas".
O teólogo sugere, como resposta à interrogação dos budistas, que foi fé na Criação que dessacralizou radicalmente a natureza. Judeus e cristãos estabeleceram um divisória intransponível entre a divindade e a natureza. E que ao homem, ele próprio criatura e natureza, foi dado todo o poder sobre a natureza: "crescei e multiplicai-vos e dominai a Terra".
Esta proclamação surge numa época em que judeus, e depois cristãos, tinham de resistir à tentação de divinizar as forças da natureza, como era usual noutras culturas.
Podemos aceitar sem dificuldade esta resposta. Mas a verdade é que, dessacralizando-se a natureza, abriu-se a janela do ateísmo, quando a ciência descobriu que a natureza tem leis próprias pelas quais se rege, dispensando-se o "dedo do Criador" para funcionar na perfeição...
Mas não é por aqui que quero ir agora.
No seguimento da postagem anterior e dos comentários que o Lima, o Luís e eu próprio fizemos, sobressai a questão acerca da "experiência" da realidade "em si", que intriga mais o Luís, que o misterioso fenómeno da mente consciente.
A nossa "sensibilidade-experiência" do dia a dia, que integra a acção dos sentidos, do cérebro e da consciência interage com o todo da "realidade em si" ou vivemos na ilusão dessa aproximação?
Os três ensaiávamos uma resposta, na caixa de comentários. Vamos continuar? Por mim, vamos, porque isto é fundamental para compreender o que andamos cá a fazer.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
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Duas coisas: primeiro, a «experiência» na minha acepção *precede* a consciência. Ou seja, uma barata (potencialmente?) tem experiência, , mas um cão (talvez?), um homem (de certeza!) racionalizam mais essa experiência, porque a integram num contexto mais completo: um modelo do mundo, um modelo de si próprio, uma noção de "agora", uma sensação de posse das próprias acções, um posicionamento do modelo de se no modelo do mundo e no instante "agora". Duvido que uma barata tenha isto tudo...
ResponderEliminarOutra coisa, agora em resposta explícita à tua questão:
«A nossa "sensibilidade-experiência" do dia a dia, que integra a acção dos sentidos, do cérebro e da consciência interage com o todo da "realidade em si" ou vivemos na ilusão dessa aproximação?»
Depende de onde traçares a fronteira. . "Tu" enquanto globalidade tal como convencionalmente a aceitamos, interages com a realidade efectiva. Mas "tu" enquanto mente consciente não o fazes, pois a tua manipulação da realidade é feita através de um modelo dessa realidade e de um modelo de ti próprio, que são aproximações por vezes grosseiras da realidade. Como é o caso, por exemplo, das pessoas amputadas que sentem objectivamente os seus membros-fantasma.
Ao ler o post do Mário veio-me à ideia uma provável resposta do Luís que encontrei, logo a seguir no seu último parágrafo. E não posso deixar de concordar, mas... venhamos à consciência. A consciência é uma entidade que eu vejo difusa, escondida atrás da memória e do sistema sensorial, agindo basicamente como um contentor de resultados de experiências vividas, resultados esses que interagem, consciente ou inconscientemente com os sistemas racionais e relacionais de todo o complexo reflexivo e decisional do ser humano. Quando a nossa consciência interage com a realidade, essa realidade só pode ser aquela da qual temos uma determinada experiência, isto é, percepções cuja sensibilidade nos marcou num determinado momento, e que guardámos em parte incerta, passando a fazer parte do nosso memorial interno, espécie de reserva de “saber adquirido”. Se interagimos com uma realidade, esta só pode ser a realidade da nossa percepção, isto é, a “nossa” realidade.
ResponderEliminarAté aqui, recalco a ideia do Luís, de “mente consciente”. Esta é o que eu chamaria a consciência “consciente”, aquela que utilizamos sabendo que o fazemos. Parece-me, no entanto, que a consciência preponderante no nosso sistema pensante é aquela que nos é imposta... inconscientemente. Aquela que, insidiosamente nos leva a agir de uma certa maneira e não de outra, sem que saibamos explicar porquê. Aquela que nos sugere uma determinada direcção e não outra. Aquela que está por detrás de uma certa intuição para a qual a razão nada nos sabe dizer. Numa palavra aquela que nos manipula.
Será esta consciência o resultado, e unicamente o resultado, da nossa experiência e sensibilidade?
Prolemas de acesso? Eu que estou mais longe nao tenho!!!
ResponderEliminarAproveito esta abertura milagrosa da caixa de comentários para dizer ao Lima que será em vão procurar esquivar-se à "ditadura" do nosso "inconsciente profundo" e do subconsciente. Eles estarão sempre presentes, de algum modo, em qualquer pensamento e em qualquer decisâo. Não existe a "razão pura" de Kant, não existe a liberdade como um absoluto, não existe a consciência plena ou transparência de nós a nós mesmos. Bem sonhamos com isso, tentando escapar a toda a espécie de limites ou determinismos, que teimosamente se constituem como a parte "obscura" de nós mesmos. Aliás, quando dizemos "nós mesmos" ou quando digo "EU", não sabemos muito bem o que estamos a afirmar.Exactamente como quando dizemos "universo" ou "Realidade", ou "Ser", apenas balbuciamos uma ínfima parcel a de verdade. Temos de aceitar isso, nâo com um sentimento de impotência ou derrota, mas com a alegria de alguém que descobre um mundo riquissimo para explorar. E entâo é como se a nossa ignorancia, a este nível, nos libertasse em vez de nos oprimir, porque faz nascer promessas de novos horizontes.
ResponderEliminarO que venho insistindo é que a nossa experiência completa, englobando a razão e a consciência, é sempre um contacto com a realidade "em si", mesmo quando tropeçamos e nos iludimos, exactamente porque há um conflito permanente entre a minha consciência e o lastro determinista do inconsciente e do subconsciente. Os tropeçoes que damos e nos atiram para o engano ensinam-nos também a criar as próprias ilusões, como representações da realidade de seres inventados... por um outro ser, o homem, que evoluiu até ser capaz de os criar.
O problema que tu sugeres, já no fim do comentário, é que nós podemos ser completamente "manipulados" por uma "consciência imposta (...) inconscientemente". Bem visto. Mas agora pensa que tu e eu estamos aqui a indagar sobre essa mesma "ditadura"! Este trabalho realissimo do nosso pensamento é a verdadeira janela para a liberdade possivel.
Às vezes invaideço-me, a ponto de afirmar que o homem que nunca chegou a este patamar, nunca sentiu verdadeiramente o que é ser livre.
Mas isto sou eu a simplificar, porque a liberdade é muito mais que um pensamento. Não fosse ela também uma experiência da realidade "em si"
Acabo por não dizer nada, qué o qe acaba por me acontecer quando a falta de tempo se junta à necessidade de dizer montes de coisas. Melhor será talvez continuar a ler o Metzinger, pois ele está mais ou menos na nossa onda!... E já volto.
ResponderEliminarO fundo problemático está na imbricação matéria/consciência. Como nasceu esta associação? Biologicamente a consciência é filha da matéria, mas que processos esta utilizou para chegar a um tal resultado? Por certo que a memória, com os sentidos como porta de entrada, foi o primeiro patamar, mas tem que haver algo mais. Consciência, razão, espírito, são termos que apontam, senão a mesma realidade, pelo menos uma Trindade muito parecida com Pai, Filho e Espírito Santo.
ResponderEliminarE lá caímos nós na eterna metafísica. Talvez, afinal, uma realidade intrínseca do homem!
«a consciência preponderante no nosso sistema pensante é aquela que nos é imposta... inconscientemente. [...] Será esta consciência o resultado, e unicamente o resultado, da nossa experiência e sensibilidade?»
ResponderEliminarBem, Lima, julgo que não. Sobram os genes, e são muito determinantes. Já vi repetidas vezes que 50% da nossa atitude relativamente à felicidade vem dos genes. Só os restantes 50% resultam da nossa vidinha, o emprego, etc.
Entretanto, o Mário produziu um texto lapidar. Se lhe tocasse só se seria para puxar o lustro, e não lhe aumentava o brilho.
«O fundo problemático está na imbricação matéria/consciência.»
Ui Lima, que dor. Tu chamas-lhe "consciência", eu chamo-lhe "experiência", melhor: "subjectividade". Mas a nossa dor é a mesma.
Para mim a consciência é um pacote mais completo de que a "subjectividade". Para me derrotar, basta a subjectividade.