Há um ditado latino antigo que reza assim: se queres a paz, prepara-te para a guerra.´
Por tudo o que o Luis nos tem trazido sobre o budismo, este ditado propõe exactamente o contrário do "caminho" budista.
Logo à partida, o budismo não estabelece um plano de acção para a sua vida. Antecipar e planear acarreta preocupação e ânsia, logo gera sofrimento, que é tudo o que o budismo pretende evitar, fazendo, simplesmente,o que é apropriado em cada situação real. "Esperar acontecer", como diz a canção.
Observo que o budismo tem como motivaçâo central "superar" o sofrimento ou anular as suas causas, através do auto controle, e nâo da "prevenção" das situações que possam acarretar sofrimento. Porque o acçâo preventiva exige uma constante preocupaçâo com o futuro e com os factores que possam estar fora do nosso controle.
E isso representaria uma grande canseira, preocupaçâo e sofrimento.
Evidentemente que o budismo também faz planos. Por exemplo, se prevê mau tempo ou bom tempo para os dias imediatos toma as suas providencias. Mas digamos que tem por lema fazer o minimo indispensável.
No campo oposto, tempos "os ocidentais" que querem prever e planear tudo ao milimetro. Curiosamente, também para evitar contratempos, surpresas desagradáveis e até grandes ou pequenos sofrimentos.
O ojectivo de uns e de outros parece ser o mesmo. Mas não é.
O budista procura a imunidade ao sofrimento, conseguindo, dessa forma, uma "certa" felicidade, que se caracteriza, exactamente, pela ausencia do sofrimento.
O "ocidental" não deseja uma "certa" felicidade. Quer a felicidade TODA. Quer a divindade ou o infinito e a forma que foi encontrando para realizar esse sonho foi "agarrar-se a Deus", um Deus Pessoal com quem sonha poder interagir e partilhar uma plenitude de vida, se nâo for aqui e agora, será depois da morte...
Como tudo isto é vivido em fé e esperança, numa ausencia efectiva e irremediavel de plenitude, o crente carrega a cruz da vida.
E aqui para nós: quem se contenta ou acomoda a uma "certa felicidade"?
domingo, 12 de junho de 2011
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem duvida: quem se contenta? Nem o pobre se contenta com o nada que tem, nem o rico se contenta com o muito que ainda assim podia ter triplicado. A verdade é que ninguém se contenta. E sendo assim, não percebo que valia acrescida tem o hamster que corre loucamente na sua rodinha tola.
ResponderEliminarMas discutir o assunto nestes termos é coisa pouca, quando o problema é bem mais profundo: o problema é que tudo o que dizes é subjectivo, e o subjectivo não tem qualquer significado objectivo. Bem sei que isto pode levar as crianças a abandonarem o TPC, mas a verdade é esta: o entendimento de que a natureza da realidade é a vacuidade estilhaça os conceitos de ocidental e oriental, de feliz e triste, de muito e de pouco, de dor e prazer, de progresso e de atraso.
Pergunto-te, então: o ocidental é feliz? O ocidental ficou mais perto da verdade ao conceber um Deus? De que servem tantas ânsias? Nota que o budismo não prega a inércia: prega a via do Meio. A frugalidade. Se verdadeiramente fizeres em cada momento o que tens de fazer, não precisas de preocupação nem de ânsias. O karateka não precisa de ansiar. Sabe qual é o movimento adequado. É uma questão de disciplina mental.
O rato budista pára a roda e salta fora da gaiola. És tu, Mário, quem julga estar a correr em frente!
Mas não fiques triste, Mário, porque estas maldades que aqui digo de ti com maior propriedade as digo de mim próprio, que ainda não tomei o remédio que apregoo. A diferença entre nós dois é tão somente que eu já tenho da bula uma ideia razoável, e tu teimas em dizer que é banha-da-cobra... mas medicamento ou banha-da-cobra, Luís ou Mário, etc., adaptemos a piada e sai assim... ele há dois tipos de pessoas: as que fazem distinções, e as outras.
ResponderEliminarA imagem do rato e da roda é muito sugestiva, mas é apenas isso. Se pensares bem, o rato que completa uma primeira volta já não é exactamente o mesmo de quando a iniciou.E pode não chegar a completar a segunda volta, se lhe cair o teto da casa em cima. Isto é que é a vida real. Uma sucessão de actos e de acontecimentos e não a abstracção de uma vacuidade. Vacuidade é um conceito, filho do pensamento, a "Res cogitans" de Descartes. O cérebro (res extensa)que gera o pensamento, forma um todo indissociável com os conceitos que produz.Um e outro, corpo e pensamento, são a nossa inteira realidade.Dissociá-las pela base, a ponto de considerar um conceito (neste caso a vacuidade) como uma entidade autónoma (uma subatancia), não tarda nada estamos a falar do sexo dos anjos. Falar do sexo de uma entidade sem consistencia: um anjo ou a vacuidade.
ResponderEliminarA vacuidade enquanto conceito não pode estilhaçar conceito algum: a não ser que tenha um cérebro (res extensa) a possibilitar a destruição. O cérebro o dá, o cérebro o tira, parafraseando o pobre Jó da biblia. Tudo volta sempre à fonte inicial: o cérebro, o corpo, a "res extensa".
A rodinha de brincadeira do hamster é obra do cérebro. De quem fez a roda e do ratinho que nela se diverte. Um diamante não brinca na roda do hamster.
Meu caro Luis, a vida é uma roda que não pára, mesmo que aquilo a chamamos movimento seja um ilusão. Porque aquele que acerta ou se ilude é uma extensissima realidade. Tu ou eu.
Ah ah, sempre hábil, sempre hábil, mas ainda não me deste a volta, e muito menos à bem estruturada filosofia budista. Deixo-te somente a reflexão que se segue, não A conhecia mas sabia que tinha de existir... (e a tradução é minha, mas não fiz marosca a meu favor):
ResponderEliminar"
O Grande Sábio pregou a Lei da Vacuidade
De forma a libertar os homens de todas as visões [pessoais].
Se alguém ainda mantém a visão de que a Vacuidade existe,
Uma pessoa assim os Budas não transformarão.
[...] As visões de que as coisas têm um fim ou são eternas [...], a Vacuidade pode destruí-las. Mas se alguém ainda tem apega à Vacuidade, então não existe remédio que possa eliminar a doença.
"
Como vês, a Vacuidade como aqui descrita faz eco das tuas críticas e, portanto, supera-as.
Como o próprio Buda disse, a noção convencional da realidade é útil designadamente pela possibilidade que confere de conhecer efectiva natureza da realidade. Agora falo só por mim, que não quero vender como budista a minha opinião (embora possa sê-lo). Eu não nego a realidade. Só nego que a nossa visão subjectiva seja uma visão privilegiada dessa realidade, ou seja, nego que essa subjectividade tenha substância. Como não tem substância, é vazia. Mas, naturalmente, o suporte da subjectividade é a realidade. O nosso cérebro não é irreal. Ou seja, negar a existência do nosso cérebro é absurdo. Mas afirmar a sua existência intrínseca é antropocêntrico. No caminho do Meio acharás a solução para o dilema.
Só tenho pena que não tenhas gostado do ratinho. Acho-o um exemplo tão perfeito de como a azáfama nos pode fazer levar uma vida sem sentido.