Todos conservamos fresca a memória das tragédias nos mares do Japão e da Indonésia que provocaram centenas de milhares de mortos, resultantes de maremotos seguidos de tsunami.
Com a mesma indiferença com que esmago no meu quintal um caracol, inadvertidamente no meu caminho, a natureza se abate "impiedosa" sobre a humanidade.
O advento da ciência, em força, com os "gigantes" como Kepler, Galileu ou Newton, a presença de "forças sobrenaturais" era aceite sem questionar. Se algo se movia ou acontecia é porque alguém empurrava ou fazia acontecer.
Seja para proteger e ajudar, seja para atacar e punir, o "sobrenatural" assinalava continuamente a sua presença.
Atingimos um patamar de conhecimento que nos permite constatar que as forças conhecidas ou ainda desconhecidas "tratam" com a mesma indiferença uma galáxia, uma estrela, um planeta, a matéria morta ou a matéria viva, a vida sem consciência e a vida consciente. O Único privilégio de cada ser consiste na sua própria existência.
O ser humano que se considera único por ser consciente, terá de reconhecer que a consciência não faz dele um privilegiado no universo. Torna-o, apenas perante si mesmo, raro e único, mas apesar de ter a consciência da sua especificidade está tão sujeito à "indiferença" das leis universais como a mais insignificante realidade da matéria. Um meteorito perdido pode acabar quase de repente com biliões de anos de evolução da vida.
Como se o homem tivesse escapado das "mãos de Deus" para cair na teia implacável das leis do Universo.
Terá o budismo intuído esta constrangedora realidade "moderna" e daí apontou o tal "caminho do meio" como a saída mais "airosa"?
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Eliminei, sem querer, os comentários todos, quando pretendia eliminar o meu último a fim de o corrigir.Peço imensa desculpa. Não sei se~é possivel recuperar.
ResponderEliminarO comentario que queria introduzir era para o Luis e rezava assim:
A constatação da mudança, por parte de Buda, é o reconhecimento de uma realidade que é preciso superar e não de uma "essencia boa" das coisas. Seria desse modo que eu interpretaria a frase que citas, porque tal interpretação se ajusta ao "modus vivendi" budista". É a diferença entre uma "mundo que se cria" e um mundo "que está lá" e contra o qual teremos que lutar. Ou deixar-nos ir com ele sem espernear...
Recuperei, do meu e-mail, o comentário do Luis:
ResponderEliminarLamento, mas nada mais longe da verdade. "Tudo muda, nada permanece sem mudança" é uma citação do Buda, e a impermanência dos fenómenos é justamente a sua "pedra de toque". Assim, a afirmação de que "Por esse tempo, a imutabilidade era a perfeição" não é aplicável. Da mesma forma, "conseguirmos permanecer impassiveis perante o turbilhão da vida" é também passar ao lado do budismo. O budismo é justamente integrar o turbilhão.
Já estamos a chegar a uma zona em que se calhar terias de estar a falar com um Buda para obter uma resposta como deve ser... enfim, vou tentar não me enganar muito...
ResponderEliminarNa vertende, digamos, filosófica do budismo, falar de «"essencia boa" das coisas» não é muito aplicável. Isto porque, para um ser realizado, iluminado, toda a dualidade é eliminada. Nem existem coisas, nem existe o bem e o mal. Não há dualidade. Nem deixa de haver. Nem deixa de não haver. Nem não deixa de não haver.
Já a história do mundo contra o qual temos de lutar.... um estado de coisas a melhorar... isso para mim é tudo muito bonito e estamos todos de acordo, coisa e tal. Mas levada a minha filosofia à ponta de espada, é tudo tanga. Eu sou ultra-fatalista. Ou seja, o mundo segue o seu caminho, para o melhor ou para o pior. Ou temos feitio para tentar melhorar as coisas, e então tentamos, ou não temos e então não tentamos. Ou as coisas têm tendênci a melhorar, e porrieiro, ou não têm, e grande galo. Para verdadeiramente mudar as coisas, seria preciso mudar as leis da Física, porque afnial são elas que regem inexoralvemente tudo isto. Ou ainda melhor, às avessas, as leis da Física constatam a orientação geral da progressão dos fenómenos, e nada a fazer contra isso. Mas se tivermos que não ser inconformistas, não o seremos. Vejo que é o teu caso. O meu também anda lá perto. Mas sou também fatalista. Afinal, como evitá-lo?
De facto não podemos lutar contra as leis da física, mas quanto mais e melhor as conhecemos mais somos capazes de as reproduzir e com isso "criar um designio", o nosso. Isto era impensável no tempo do primeiro Buda. Por isso insisto que devemos atender sempre aos pressupostos filosóficos de uma doutrina. Ou não-doutrina.
ResponderEliminarUm dos graves problemas com que nos debatemos actualmente é precisamente porque,na sua esmagadora maioria, os religiosos e a intelectualidade não interiorizaram a alteração de paradigma. O homem já não é um agente passivo no seu universo. Isto assusta não só porque é novo mas porque nos responsabliza de uma forma quase brutal perante o nosso futuro. Um futuro que já não está "mãos de Deus" e claramente vai deixando de estar entregue ao destino cego e fatal. É só um vislumbre, sejamos realista, mas o paradigma mudou e agora dizemos perante qualquer impasse: "é uma questão de tempo".
Não quero ir por aí, que não sou malandro, senão dizia que chegou a hora de mostrar "quem os tem no sítio".
Como "pater familias", assumindo as minhas responsabilidades perante o teu colega Tiago, dido de forma educada: estamos a ficar adultos.
Mas não estarás a menosprezar os nossos camaradas de há dois mil anos? Ainda agora apareceram templos fenícios nos Açores, e nós a julgar que lá tinhamos chegado antes de ninguém... não estou a ver essa gente assim tão acomodada à espera de que a morte lhes caisse em cima.
ResponderEliminarDe qualquer forma, a nossa diferença essencial, tua e minha, actualmente reside apenas nisto: para ti, o homem é a medida de todas as coisas. Para mim, não é a medida de coisa nenhuma.
Na teoria, claro. Na prática, isso não afectou muito o meu dia-a-dia.
Ora vamos lá ver, nem oito nem oitenta. E se fossemos pelo "caminho do meio"? O homem não é a medida de todas as coisas nem a medida de coisa nenhuma. Porque nâo dizer, simplesmente, que é a sua própria medida! Assim mesmo, sem peneiras. Sem um designio por detrás, sem um modelo a imitar, sem uma lei a cumprir.
ResponderEliminarNunca poderá ser a medida de todas as coisas porque as coisas já cá estavam antes dele e tudo acontece sem lhe dar cavaco algum. Se um enorme meteoro estiver no nosso caminho e ainda não possuirmos tecnologia para o desviar ou para emigrar, era uma vez " a medida de todas as coisas"!
Eu puxo-te para cá. Puxa-me tu para aí, que vamos mesmo pelo caminho do meio.
ResponderEliminarNa teoria, e já não é mau.
E depois, saltar para a água e nadar? Não é para todos.