Parece-me uma boa altura para trazer à Laje Negra uma das páginas mais comoventes da última obra escrita de Carl Sagan (1995) intitulada "Um Mundo Infestado De Demónios".
Depois de ter desmistificado de forma contundente as aldrabices de espíritos desincarnados, dos contactos com os mortos ou com os extra terrestres, Carl Sagan exprime o desejo íntimo, "infantil", como o classifica, de conversar com os seus entes queridos falecidos. O melhor é passar-lhe a palavra:
"Os meu pais morreram há anos. Eu era-lhes muito chegado.Ainda sinto terrivelmente a sua falta e sei que sempre a hei-de sentir. Anseio por acreditar que a sua essência, as suas personalidades, o que eu tanto amava neles ainda existem -de facto e na realidade- algures. Não pediria muito, só cinco ou dez minutos por ano, por exemplo, para lhes falar dos netos, para os pôr ao corrente das noticias mais recentes, para lhes recordar que os amo. Há uma parte em mim -por muito infantil que isto possa parecer- que se interroga como estarão."Vai tudo bem?", apetece-me perguntar. As últimas palavras que dei comigo a dizer ao meu pai, no momento da sua morte, foram "cuida de ti".
"Por vezes sonho que estou a falar com os meus pais e, de súbito,(...)sou invadido pela sensação intensa de que eles não morreram, de que foi tudo um erro tremendo. (...)Quando acordo, passo de novo por um processo de luto abreviado. Para falar com franqueza, há qualquer coisa dentro de mim pronta a acreditar na vida depois da morte, sem estar minimamente interessada em saber se existe alguma prova disso.
"Por esse motivo não rio da mulher que visita a campa do marido e que conversa com ele de vez em quando. (...)E se tenho problema com o estatuto ontológico daquele com quem ela está a falar, não há problema. Não é disso que se trata, mas de os seres humanos serem humanos".
"Mas isso não significa que eu esteja disposto a aceitar as pretensões de um médium, que afirma comunicar com os espíritos dos seres queridos que nos deixaram, quando estou consciente de que a sua prática tresanda a fraude".
Eu não saberia expressar melhor os meus próprios sentimentos a respeito desta matéria.
Acerca da "vida depois da morte" há muitos palpites e muitos destes palpites transformaram-se em crenças poderosamente arraigadas. Pois a mim parece-me infinitamente mais difícil ter um palpite certeiro nesta matéria do que acertar no euro milhões. É que, para este, quase todas as semanas há um ou mais palpites certeiros; já sobre a "vida depois da morte" está para nascer o primeiro apostador que "esfregue na cara" dos incréus, vitorioso, o bilhete premiado com a sua eternidade...
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Compreendo o teu estado de espírito tendo em conta o que contas no teu ultimo comentário. Este teu post é o prolongamento do que aí exprimes. São tempos de reflexão, de interrogação, de luta contra um sentimento agudamente sentido de incompreensão e inconformismo. Perguntas lançadas no vazio; a angustia de incertezas que sabemos definitivas. Todos por aí passamos! Todos temos, um dia, os nossos momentos de crucificação.
ResponderEliminarÉ o preço a pagar pela nossa tão invejada condição de animais inteligentes, conscientes da vida que nos rodeia, e capazes de sentimentos de amor e compaixão. É a cruz da nossa humanidade.
Que mais dizer? Qual o antídoto ideal? A cada um cabe encontrar o seu. Fora as inúteis banalidades costumeiras, só cada um saberá encontrar dentro de si o remédio anestesiante para encontrar a paz e serenidade para continuar o caminho.
Força! As energias vitais que necessitamos estão dentro de nós próprios. A proeza é saber explorá-las.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarO Buda, a quem uma mãe inconsolável pedia a cura para um filho falecido, pediu-lhe que obtivesse sementes de mostarda de uma família que nunca tivesse perdido um pai, filho, parente ou amigo. O seu nome era Kisa Gotami, e viria a ser uma santa (arhat) do budismo.
ResponderEliminar(Retirei esta tradução de http://psicoterapiaeconsciencia.com.br/ondas-da-consciencia/meditacoes/meditacoes-em-contos/)
ResponderEliminarCerta vez uma jovem chamada Kisa Gotami teve um filho e este morreu. Transida de dor, ia com o filho morto de casa em casa, pedindo um remédio, e as pessoas diziam: “Está transtornada; a criança estpa morta”.
Finalmente, Kisa Gotami encontrou um camponês que respondeu à sua súplica, dizendo:
- Não posso dar um remédio para a criança, porém sei de um médico capaz de o dar.
E Kisa Gotami respondeu:
- Suplico-te que me digas quem é.
- Vai ver o Buda.
Kisa Gotami foi ver o Buda e exclamou chorando:
- Senhor meu e mestre; meu filho estava brincando entre as flores e tropeçou numa serpente que se enroscou no seu braço. Ficou logo pálido e silencioso. Não posso aceitar que ele deixe de brincar, ou que deixe meu colo. Senhor meu e mestre, dá-me um remédio que cure meu filho.
O Senhor Buda respondeu-lhe:
- Sim, irmãzinha, há uma coisa que pode curar teu filho e a ti, se puderes consegui-la, porque os que consultam os médicos tomam o que lhes é receitado.
Procura uma simples semente de mostarda preta, porém só a deves receber de uma casa onde nunca tenha entrado a morte, onde não tenha ainda morrido pai, mãe, filho, nem filha, nem irmão, nem irmã, nem escravo, nem parente.
Aflita, Kisa Gotami foi de casa em casa pedindo o grão de mostarda. As pessoas se compadeciam dela e lhe davam, porém quando ela perguntava se já tinha morrido alguém naquela casa, respondiam:
- Ah! Poucos são os vivos e muitos os mortos. Não despertes nossa dor.
Agradecida, ela lhes devolvia a mostarda e dirigia-se a outros que lhe diziam:
- Aqui está a semente, porém já morreu nosso escravo…
- Aqui está a semente, porém o semeador morreu entre a estação chuvosa e a colheita.
E não encontrou nenhuma casa onde não tivesse morrido alguém.
Kisa Gotami voltou chorosa para o Buda dizendo-lhe:
- Ah! Senhor, não pude encontrar mostarda em casa onde não tivesse havido morte. Então, entre as flores silvestres, na margem do rio, deixei meu filho, que não queria mamar nem sorrir, e volto para ver teu rosto e beijar teus pés, suplicando-te que me digas onde encontrar esta semente sem deparar, ao mesmo tempo, com a morte, pois, apesar de tudo, não posso crer na morte de meu filho, como todos me disseram e temo tenha acontecido.
O Mestre respondeu-lhe:
- Minha irmã, procurando o que não pudeste encontrar, achaste o amargo bálsamo que eu queria dar-te.
Sobre o teu seio dormiu, hoje, o sono da morte o ser que amas. Agora já sabes que todo mundo chora uma dor semelhante à tua. O sofrimento que aflige todos os corações pesa menos do que se concentrado num só.
Escuta! Derramaria eu meu sangue se, ao derramá-lo, pudesse deter tuas lágrimas e descobrir o segredo para o amor não causar angústia e, através de prados floridos, não nos conduzir ao sacrifício, qual mudos animais conduzidos por seus donos. A vida corporal do homem acaba partindo-se como uma vasilha de barro do oleiro. Jovens e adulos, néscios e sábios, todos estão sujeitos à morte.
Porém o sábio, que conhece a lei, não se perturba, porque nem pelo pranto, nem pelo desânimo, obtém a paz – a morte não faz caso de lamentações.
Morre o homem e seu destino está determinado por suas ações. Embora viva dez ou cem anos, acaba o homem por separar-se de seus parentes ao sair deste mundo.
Quem deseja a paz da alma, deve arrancar de sua ferida a flecha do desgosto, da queixa e da lamentação.
Bendito será quem vencer a dor.
Sepulta tu mesma teu filho.
Extenuada pela dor, Kisa Gotami sentou-se à beira do caminho, pôs-se a meditar no silêncio do entardecer e disse consigo:
- Quão egoísta sou em minha dor! A morte é o destino comum de tudo o que vive. Porém neste vale desolado há um caminho que conduz à imortalidade, àquele que elimina todo o egoísmo.
E, sufocando o amor egoísta que sentia por seu filho, enterrou-o no bosque.
Não podias ter melhor lembrança, Luis, que trazer este magnifico texto. Assim vale a pena estar num blog.
ResponderEliminarConfronte-se, agora, o "saudade dolorosa" e o "anseio inconformado" de Carl Sagan, com a "sabedoria" de Buda, sem esquecer que dois mil e quinhentos anos separam sentimentos e pensamentos.
Para começo de conversa, faço esta pergunta: Que seria o nosso mundo e a nossa vida, hoje, sem o "apego", necessariamente doloroso, a algo tão fugaz como a vida humana?
Salto já do começo da conversa para o meio (!!!). Concordo contigo, Mário, porque não duvido que o afirmarás: o caminho do Budismo é um caminho desumanizante, no sentido em que a sua prática não é a prática natural do ser humano. Mas, também, o que raios é a prática natural do ser humano?
ResponderEliminarNão ia afirmar tal! Por isso referi a distancia no tempo entre Buda e Sagan. Nós esquecemos com facilidade que a capacidade do homem para exercer o dominio sobre o mundo, nos dias de Buda, era ínfima, comparada com estes tempos em que não só percorremos os continentes, os mares e o espaço como também penetramos nos mistérios da "materia" e da vida. Pouco falta para reproduzir a vida e até já se imagina criar a vida consciente.
ResponderEliminarA doença é cada vez menos uma fatalidade, não porque conseguimos a imortalidade, mas porque lhe vamos pondo as raizes à mostra. E se é verdade, e eu penso que é, que o sentimento compoe o pensamento (A.Damásio) nós já não pensamos a doença e a morte como insuperáveis, mas como um imenso desafio a vencer.
O maior elogio que me ocorre fazer a Buda é que ele nunca seria budista se vivesse os nossos tempos, porque ele era sabio de mais para não perceber que o homem está a tomar o destino nas suas mãos e que as limitações de hoje podem ser superadas amanhã.
Hoje, existe a consciencia de que podemos mudar o mundo, para o construir ou para o destruir.
Nos dias de Buda, o mundo é que construia ou destruia o homem. A maior sabedoria consistia em ter consciencia desssa realidade e aceita-la até à conformidade total.
Absolutamnete sábio era aquele que, na mais perfeita consciencia, desistia de sonhar.
E era como se dissessemos a nós próprios: se temos de morrer amanhã, porque não morrer já hoje?
Assim, viver e morrer, tanto faz. Só não se percebe porque fica o budista à espera que a morte aconteça.
Talvez, fazendo esta pergunta, os seguidores de Buda introduziram umas tantas alterações aos ensinamentos originais. A história da reencarnação, por exemplo. Não foi, Luis?
Os cristãos fizeram outro tanto. Como o fim do mundo que se pregava iminente há dois mil anos nunca mais chegava, com a prometida ressurreição, inventaram o purgatório, as alminhas e um céu cheio de santos e santas.
"O que raios é a prática natural do ser humano?", pergunta o Luis. A resposta óbvia é exactamente aquilo que praticamos. Sem excluir nada, porque se o fizermos estamos a falsificar a "prática natural". Desse modo, o acervo completo das praticas que conhecemos e das que desconhecemos da nossa História será, naturalmente, a "prática natural".
ResponderEliminarÉ tão natural o budismo como o cristiansmo, o ateismo como teismo, a cieência como a superstição, a sabedoria como a ignorancia, a bondade como a maldade, a moral como a imoraliadde, o amor como o ódio.
É tudo nosso. Ou somos tudo isso.
Penso eu.
Não obstante os progressos fenomenais da ciência e da técnica, o homem moderno, continua a ser aluno dos “mestres” da “pré-história”, no que concerne as ciências humanas.
ResponderEliminarNão é estranho?
Por respeito por aquilo que já pensamos e sentimos, penso eu. Quem fica indiferente perante as pinturas rupestres?
ResponderEliminarO problema está quando, em vez de fazermos a arte do nosso tempo, desatamos a copiar, anacronicamente, os nossos antepassados.
Só pode ser falta de imginação. Há quem diga que é, simplesmente, infantilismo
E, no entanto, a terra continuará a andar à volta do Sol, e não vale a pena reinventar a roda.
ResponderEliminarO que faria Buda hoje em dia? Pois, exactamente o que efectivamente faz, não? Buda não mudou mais de tempo ou de sítio do que, por exemplo, o Tejo. Está ali, parado, sempre no mesmo lugar. Ou não?
Acerca da questão do suicídio, a questão é: o suicídio reduz o sofrimento? Relembro que, na óptica budista, a resposta deve ser procurada para além da ilusão "eu" egoísta.
ResponderEliminarQuer-me parecer que, na maioria das situações, não é verdade que reduza o sofrimento. Mas não sou dogmático quanto a isso. De qualquer forma, há sempre um problema potencial no suicídio: é a possibilidade de a opção ser incorrecta, aliada à sua irreversibilidade.
Limabar, será que o Mário descobre uma qualquer esperança tecnológica que termine com a nossa tão bem lembrada dependência das ancestrais conclusões filosóficas, no que diz respeito a estas questões aparentemente intemporais da humanidade?
ResponderEliminarCom programadores como nós, não admira que alguns ainda defendam o COBOL...
O facto, Luis, é que não existem "questões intemporais"!!!
ResponderEliminarAi o tempo, ai o tempo...
A grande "achega" de Damásio sobre esta questão (ainda que pegando por outra ponta) consiste precisamente em "sugerir-nos" (como humildemente gosta de dizer) que o nosso pensamento está tão sujeito ao tempo quanto o "resto" do homem, porque o pensamento incorpora, intrinsecamente, a emoção e o sentimento, que são filhos legítimos do corpo temporal e material.
Nunca vais saber, Luis, quais as emoções e sentimentos de Buda se ele tivesse conhecimento de que um minúsculo segmento de um dos seus cabelos é réplica completa de todo o organismo.
Eu atrevo-me a sugerir que não seriam os mesmos, apesar do seguidismo fiel a Buda de um Mattieu Ricard...
Vou mais longe e considero um abuso pensar que, apesar das "achegas" de todos os damásios, o pensamento-emoção sentimento de Buda seria o mesmo depois de mais de dois milénios de saber acumulado e dos horizontes impensáveis que se abriram diante do nosso olhar incrédulo.
Pelos vistos há muita gente, ainda, como Mtttieu Ricard, que pensa que o homem é composto de "duas substâncias distintas" (corpo e alma) e que esta fantástica dúplice criatura é capaz do "pensamento puro", quero dizer, não sujeito às vicissitudes do tempo...porque fruto de uma alma imortal, intemporal, imutável etc etc etc.
Medita nestas coisas e nunca admitas, sequer, que o pensamento de Buda é "desumanizante", como de certa forma admitiste aí mais acima. É verdade que perguntaste logo o que raio é isso de "natural" ou "humano". E perguntaste bem.
Eu penso, depois daquilo que me foi dado a conhecer do pensamento budista, que a sua reflexão constitui, hoje e para sempre, um passo gigante para o despertar da nossa condição humana enquanto "consciência do universo". Todos, mas todos sem excepção, devia atingir esta "iluminação".
Mas, francamente, não é preciso ir para o Nepal ou para o Tibete, enfiados dentro de convento amortalhados de amarelo torrado , quando na vulgarissima escola pública poderemos aprender essa verdade que nos torna humanos...
Mas que o folclore é bonito, lá isso é. E dá-nos um ar de gente culta, mergulhada nos profundos mistérios da vida, respondendo à chamada do sino para o recolhimento.
Cada coisa no seu tempo. Cá por mim vou pela "cabra" de Coimbra.
Faltou-me dizer que o meu mestre em budismo tem sido o Luis. Vamos lá ver que nota me dá no fim do curso.
ResponderEliminarTarefa bem complicada para o mestre, pois o aluno está sempre pronto a disparar...
ResponderEliminarAcho que precisa de mais lições!!!
Quanto ao Cobol, Luis, se fosse uma língua viva, seria uma espécie de Mirandês!
E o suicídio? Achas mesmo que ele não resolve a questão do sofrimento? É que, segundo a minha óptica, é essa a única causa da sua existência.
Primeiro respondo ao Limabar, que fala do suicídio. Convém tratar dos suicídios primeiro... são prioritários... pois, o suicídio em geral só resolve o sofrimento dos egos egoístas (passo a expressão). Ultrapassada a lógica estritamente individualista, as coisas mudam. Quanto não sofre uma mãe com o suicídio do filho? Quanto não sofre a sociedade com a perda dos seus membros? Eu diria que, em média, não compensa. Pelo menos, não compensa face a outras abordagens, com mais ganho e menos perda (a budista, por exemplo).
ResponderEliminarMário, a atracção pelos perfumes orientais faz parte do fascínio do budismo, mas não foi ela que me manteve atraído até agora... eu não rapei o cabelo, não concordo com muita coisa do que o Dalai Lama diz, não concordo com muita coisa do que o Matthieu Ricard diz, e nem sequer me visto de amarelo. De Mestre não tenho nem a ponta do robe, quanto mais a sabedoria. E concordo que não é preciso sair de nossa casa para chegar ao "alvo". Como dizia a história, em que o monge estava junto ao portão mas não entrava:
"Então, porque é que não entras?"
"Porque não me sinto do lado de fora".
O "perfume" do budismo é a consciência extraordinária da nossa condição humana, expressa, mais uma vez e de outra forma, na pergunta e na resposta que referes. Assim também se poerá dizer que o "perfume" do cristianismo é a mensagem de fraternidade universal à semelhança de Deus-Amor.
ResponderEliminarPorém, a vida com que somos confrontados (a realidade)é bem mais que aqueles "perfumes". Tal como a rosa é muitissimo mais que a sua fragrância. E, se nos deixarmos embriagar pelo perfume da rosa, podemos esquecer os espinhos que ela tem ou a necessidade de a adubar e regar para a fazer viver, crescer e continuar a exalar o seu perfume.