O meu ultimo comentário neste blog foi como um grito espontâneo de inconformismo, face à realidade da condição humana. Penso que já noutras ocasiões esse sentimento transcendeu nos meus propósitos. Que as contingências da vida provoquem preocupações, e por consequência inconformismo, é certamente inerente à própria vida. E cada um carrega a sua cruz! Não todos a mesma cruz , nem todos com a mesma dotação! A natureza só obedece às suas leis, e desconhece ética ou compaixão.
Esta manhã, ao remexer no fundo de gavetas onde conservo certas velharias, fiquei largos momentos absorvido, o olhar pregado ao manuscrito ferrugento e amachucado que encontrei atrás de um monte de papeis, bem lá no fundo, onde só vamos em caso de despejo. Recordações, ingenuidades de juventude! E, ao ler os versos que aqui transcrevo, um sentimento estranho me invadiu: o meu inconformismo não é da idade! Eu sempre fui assim!
Aniversário
Vinte anos! E agarrei-me a esta pedra bruta
Que é a vida insatisfeita e louca.
E esta esperança que de há muito é pouca
Vai-se acabando nos ardores da luta.
Agreste encosta, atalhos de labuta;
Caminhos de rochedos e de feras!
A vida, altiva, disse: -Porque esperas?
-Sobe, cobarde, ou morre nessa gruta.
Comecei a subir. Qual vagabundo,
Roto e esfaimado, olhei o monte informe!
E outra vez eu a vê-lo eu jamais torne
Se alguma vez quisera vir ao mundo.
Vinte anos! E agarrei-me a esta pedra bruta
Que encontrei a meio da montanha.
Parti-a toda... e a sua alma é estranha
Como esta voz que a minha alma escuta!
Era na foz do Douro. Corria o ano de 1964.
Fizeste bem, Lima, vir na poesia e lembrar a luta que é a vida, na juventude ou na idade madurissima.
ResponderEliminarPor estes dias tenho feito apelo às forças escondidas aqui dentro, para seguir em frente, dorido, pela morte e pela doença de familiares bem próximos. Aí na França onde resides, h'a bem pouco tempo morreu, ainda novo, um primo Neiva. Ontem esteve aí a minha mulher para se despedir de uma irmã, ainda nova (48 anos) em fase terminal. E como se tudo isto fosse ainda pouco, um outro primo (51 anos), agora Morence, do lado minha mãe, também se foi, tragicamente, lá na minha aldeia de Balugães.
O teu poema de apelo à luta veio na hora certa, para que não se morra, de forma inglória "nessa gruta".