sábado, 8 de janeiro de 2011

Padres Ou Professores?

E começo por citar Alberto Einstein: «Quanto maior é a evolução espiritual da humanidade, tanto mais me parece certo que o caminho genuíno para a religiosidade não passa pelo medo da vida, ou pelo medo da morte, ou pela crença cega, mas antes pela busca do conhecimento racional. Neste sentido, acredito que o padre, se deseja fazer justiça à sua elevada missão educativa, deve converter-se num professor». (In "Como Vejo a Ciência, a Religião e o Mundo", da Relógio D'Agua Editores»

Quando Einstein propôs a sua teoria revolucionária da relatividade geral, quantas pessoas no planeta eram capazes de a entender? E quantas pessoas, entre os quase seis biliões que somos hoje, fazem alguma ideia das reacções químicas descobertas por Alexander Fleming, o inventor da fileira dos antibióticos?
E, no entanto, estes homens, como milhares e milhões de outros, deram um contributo enorme para a transformação da vida de cada um dos seis biliões de «ignorantes».
Já ninguém fica surpreendido ver uma criança de três ou cinco anos manipular o comando de aparelhos audiovisuais ou teclar com mestria um telemóvel. E, no entanto, ignoram completamente a espantosa criação tecnológica que seguram na mãozinha inocente.
Na realidade, a maior parte das pessoas vai vivendo tão despreocupadamente quanto Adão e Eva, desfrutando as delicias do Éden, desconhecendo, quase por completo, como aqui chegaram. Mas a verdade é que, para estes seis biliões de «ignorantes» gozarem o paraíso, alguém teve de o construir.
(Não me interrompam para dizer que "isto" é «paraíso coisa nenhuma», para não ter que retorquir-lhes que o de Adão e Eva era muito mais fantasioso!)
O que se pode deduzir das palavras citadas, de Einstein e o que eu quero afirmar com o enunciado das realizações cientificas, é que estamos a viver uma época de alteração persistente de paradigma quanto à forma de pensar a nossa realidade. Segundo este novo paradigma, a primazia vai para a transformação do mundo e não para a sua interpretação. Como quem diz, a filosofia já não pode pensar e interpretar um mundo «feito-acabado», mas um mundo em construção. Um mundo que, em última analise, ainda falta criar.
Ora nós sabemos que o «padre» assenta a sua pregação em dogmas estabelecidos acerca de um mundo ideal e que é só comportar-nos bem para lá chegar, iluminados pelo dogma. Seja iluminados pelo dogma incarnado, Jesus-o-de-Nazaré, do Pe Mário de Macieira da Lixa, seja pelos dogmas de Buda, que o Luís tem feito escorregar aqui pela nossa Laje Negra. (Em miúdo adorava fazer da laje negra o meu escorrega).
Esta nova perspectiva de um mundo em construção não se adequa aos conceitos tradicionais, pensados para um mundo feito e acabado, novinho em folha, como paraíso oferecido à Humanidade. Claro que Adão e Eva não foram expulsos do Paraíso. Simplesmente porque nunca existiu tal paraíso. Como não existe agora. Mas a Humanidade sentiu-se expulsa do aconchego do seio materno, por algum pecado cometido, e viu-de na necessidade absoluta de providenciar o pão de cada dia. E foi como se cada um de nós ainda não se conformasse com o corte do cordão umbilical. O pensamento do paraíso perdido será ressonância nostálgica da vida garantida e segura no ventre da nossa mãe. Numa segunda fase, e para mostrar que «já somos homens», substituímos o seio materno pelo vasto ventre da Mãe-Terra. Ela estava ali, prontinha, com tudo o que nos fazia falta, pregavam, entusiasmados, os «materialistas» dos séculos do iluminismo e do triunfo da ciência sobre a religião. Enquanto isso, os «padres» agarraram-se e ainda se agarram ao «paraíso perdido» e sonham com o retorno, nem que seja numa outra vida a seguir a esta.
E nem os eufóricos «materialistas» nem os saudosistas religiosos compreenderam que se estava a desenhar no horizonte uma realidade, exactamente, sem horizonte.
E não temos ainda conceitos adequados para lidar com esta verdade. Uma coisa me parece certa: o nosso mundo vai sendo transformado; as novas gerações vão sendo lançadas neste surpreendente paraíso; e sê-lo-ão cada vez mais despertas, e em maior número, para a nova realidade; os padres e filósofos vão todos virar professores das ciências da vida, ela mesma em acelerada transformação (que o digam os investigadores da neuro ciência e da genética).
O génio de Einstein viu longe.
E agora diz-me, Luís, para que serve falar de determinismo ou indeterminismo num mundo sem horizonte? Por outro lado, na tua computação, isso é absolutamente determinante. Sem o determinismo puro e duro da matemática não consegues elaborar um único programa. O chato é que a vida é muito mais que matemática e computação. Sem horizonte que se perceba, permanece mistério. Também em Damásio.
Como acabas de ver, para mim, a vida não é uma questão de compreensão ou interpretação mas de construir o que ainda não existe.
Modestamente, muito humildemente, prefiro falar em transformação-reprodução, porque tenho sempre a sensação de que apanhamos o comboio a meio da viagem...

22 comentários:

  1. Definitivamente idealista! Definitivamente optimista! Cuidado, no entanto. A paisagem descrita é vista da colina onde nos encontramos, e o horizonte pouco mais longe vai do que a nossa colina.
    A humanidade na sua caminhada, é semelhante aos corredores de uma maratona. Estende-se por quilómetros a perder de vista. À frente vão os melhores, os mais bem dotados. Formam um grupo organizado, são assistidos, patrocinados, correm à frente onde há espaço e ar fresco. Sabem que vão ganhar.
    A grande massa dos concorrentes segue-lhe os passos. Mas muito poucos aguentam a cadência. A fila alonga-se e engrossa de quilómetro em quilómetro, até chegar ao ponto de o primeiro a chegar ainda avistar o ultimo a sair.
    As causas são imensas, o resultado lamentável. E assim será enquanto o grupo vencedor tiver a vista curta e se esquecer que para trás ficou a maioria.

    ResponderEliminar
  2. - "Segundo este novo paradigma, a primazia vai para a transformação do mundo e não para a sua interpretação."

    Isto para mim não é um ponto assim tão assente. Quando um dos principais problemas é o aquecimento global, e em que todos queremos que as coisas fiquem cada vez mais como já antes foram... ou quando o mais recente grande avanço científico da humanidade foi construir um acelerador capaz de descobrir como as coisas foram primordialmente. Não sei se andamos a olhar mais para a frente, ou mais para trás.

    Mário, dizes que lancei pela Laje abaixo os dogmas do Buda, mas olha que o Buda era um grande pragmático: "O que eu ensino, ó monges, é o sofrimento e a cessação do sofrimento". Não pode haver pragmatismo maior. Tudo numa perspectiva anti-dogmática: que cada um avalie averdade por si é a divisa do Buda. É ele que diz " a alma existe" a uns e "a alma não existe" a outros, e nega qualquer resposta ainda a outros, para perplexidade dos discípulos, tudo para atender às predisposições dos seres, para não dizer a alguém algo que o posa, por exemplo, levar ao suicídio, e sempre na perspectiva da redução do seu sofrimento. E aqui não há um mundo ideal, pelo contrário, é um mundo bem mais longe do mundo das ideias que esse, sim, é relativo. É na tua ideia, e não na minha, que tu e eu existimos. Qual dos dois tem um idealismo maior? O meu realismo é para ti idealismo, e o teu realismo é para mim ilusão. Nós dois aproximamo-nos e afastamo-nos tão depressa e com tal frequência que se podia transformar este efeito em electricidade e vender à EDP...


    - "[...] os padres e filósofos vão todos virar professores das ciências da vida"

    Ah, aqui também há um "paraíso perdido"! Nesse entrava eu também.


    - "E agora diz-me, Luís, para que serve falar de determinismo ou indeterminismo num mundo sem horizonte? [...] a vida é muito mais que matemática e computação. Sem horizonte que se perceba, permanece mistério. Também em Damásio. [...] para mim, a vida não é uma questão de compreensão ou interpretação mas de construir o que ainda não existe. [...] prefiro falar em transformação-reprodução, porque tenho sempre a sensação de que apanhamos o comboio a meio da viagem..."

    Mundo sem horizonte, em transformação, é o meu, não o teu Mário. Só num mundo pseudo-estático podes falar de "eu" e "tu" e das outras formas. Só enquanto nos agarramos às fotografias é que as suas imagens são estáticas. Toda a realidade está em mudança, e não há nada mais budista do que o reconhecimento disso. Não leste no meu comentário as últimas palavras do Buda?: "[...] todas as coisas compostas são transitórias [...]"?

    É claro que se me falas do sentido da vida, a óptica terá de ser diferente. Aí, estamos no âmbito do sentido da vida de um ser humano. É uma óptica relativa, unilateral, antropocêntrica.

    É como dizer que "se há relógios é porque houve relojoeiros", "O mundo foi criado para nós", "Os animais existem para nos servirem". Não, Mário, se para ti a realidade é essa, para mim não é. Também gosto de comer um entrecosto com favas (o que acabei de fazer), mas para mim é claro que nem o porco nasceu para me alimentar, nem as favas cresceram a pensar na minha boca. E ainda acrescento: nem há entrecosto, nem há favas. Nem quem as coma.

    ResponderEliminar
  3. Mas há o colesterol - esse existe!

    ResponderEliminar
  4. Meu caro Lima, da colina onde estamos eu disse que nâo vemos horizonte nenhum, porque nâo existe horizonte quando falamos de atomos e particulas ou quando olhamos pelo radiotelescopio. A verdade è que ao atingirmos um patamar de conhecimento, este se abre para novos desafios. Nâo è assim?
    Ha dias vi um calhamaço de um livro da autoria de Stephen Hwaking com o titulo sugestivo "Aos Ombros de Cinco Gigantes". São eles: Copêrnico, Kepller, Galileu, Newton e Einstein.
    Como vês, os "melhores" não pensam em ganhar aos menos bons, antes os carregam aos ombros para que todos cheguem à meta. Fleming estava a pensar em ganhar uma corrida mas era contra a morte e não aos companheiros de viagem.
    Sou um optimista incorrigivel e vais ter de me aturar assim, enquanto pudermos clicar nestas maravilhas da tecnologia.
    Ao Luis so respondo mais logo, que agora è tarde. Além disso, ele bateu-me de tal forma que se nao me defendo como deve ser arrisco-me a apanhar outras tantas.

    ResponderEliminar
  5. Logo eu, que ando aqui cheio de Betadine. Não, não, era uma acção preventiva. Como diz o Quino, pelo Manelinho da "Mafalda":

    - Uma mãe cansada bate com menos força!

    ResponderEliminar
  6. Pois sim! Mas tu és pai e tens a mão mais pesada...
    Desculpem lá os assentos trocados no comentário anterior. Utilizei o teclado «francês» da minha filhota mais nova e aquilo saiu assim. Bem... àquela hora estava meio a dormir. Mais logo atiro-me ao Luis, que agora vou passear com a minha mulher. Porque é Domingo à tarde, porque gosto de passear e porque é bom estar com o meu amor. E o tempo pôs-se a jeito.

    ResponderEliminar
  7. Declaro que não estava com os copos quando escrevi «assentos»...

    ResponderEliminar
  8. Ao Domingo à tarde, depois de um bom almoço... tenho duvidas!

    ResponderEliminar
  9. Não sei por onde pegar, Luis, porque as pontas são tantas!
    Então começo pelo fim.
    Claro que a Terra não existe para para ti nem o porco nem as favas crescem para a tua boca. Por outro lado, o entrecosto com favas foi um carinhoso e saboroso cozinhado feito especificamente para ti. Como as catedrais e os palácios são feitos para crentes e reis.
    Acabas de colocar a discussão entre os princípios «copernicano» e «antrópico». Segundo o primeiro principio, o homem «é o que é», aqui e agora, sem mais relevância factual que uma qualquer galáxia ou particula atómica de um universo sem fim à vista. Em sentido oposto, o principio antrópico propõe que há um «designio», chame-se Deus ou Realidade Quantica, que fez o universo produzir a vida e a vida da nossa mente consciente. (Como tu és precioso, Luis, e o porco e as favas cresceram mesmo para ti!)
    Saber se vale um principio ou vale outro, dava para uma interminável discussão que só haveria de acabar quando um de nós dois desse o «peido mestre», como dizia a minha avó. E se for a idade a determinar o fatal desfecho, creio bem que eu «darei o berro» muito antes de ti. (Nunca fiar, que a minha mãe e a minha avó morreram na casa dos noventa. Não te cuides e passo-te a perna...)
    Portanto, quanto a este ponto, se formos pragmáticos como o teu Buda, tanto faz viver sob o principio antropico como sob o principio copernicano. Existir é como não existir, citas do budismo, e, assim sendo, tanto faz ser porco no prato como homem à mesa.
    Convenhamos que não é nada prático. Nem a nossa vida pode ser entalada, desta forma, entre dois principios contraditórios ou entre a existencia e a não existencia, porque a realidade só se apresenta como um paradoxo quando olhamos "separadamente" uma face da moeda. A «forma e o fundo» de que falei antes constituem a nossa realidade e nós estamos cientes da sua dupla face. O que nos baralha é esta «ciencia-consciencia» e os neurocientistas como Damásio querem saber como se originou este espantoso fenómeno. Não se trata de saber se somos «mais» ou «menos» que um porco ou uma estrela, mas como chegamos a este patamar, que nos coloca como que face a face a nós mesmos e a todo o Universo. Como quem diz, pouco interessam a «forma e o fundo» em si mesmos, porque tudo tem «forma e fundo». O que interessa mesmo é descobrir como se produziu este milagre no Luis que me diz que come entrecosto com favas e, desse modo, vislumbrar a verdade sobre aqueles principios contraditórios.
    E só há uma maneira de lá chegar: investigar, investigar, investigar.
    Por favor, António Damásio, não largues o laboratório de pesquisas para ir ter com o Dalai Lama. E se fores, para fazer um retiro de meditação, volta depressa, que estes fracos corredores de maratona como eu, o Limabar e o Luis, bem precisamos de ser carregados aos ombros de gigantes como tu.

    (Exagerei um bocado. Não faz mal. E quero corrigir o titulo do calhamaço. Tirem lá o «cinco»).

    ResponderEliminar
  10. E já é tão difícil subir-lhes para os ombros! Pois é, Mário, outro tiro em cheio. Lá como funciona a mente, que nos permite fazer coisas tão fantásticas, isso já eu percebi. Não sou mecânico, mas percebo bem a ideia de que, mais assim, mais "assado", há uns componentes que resolvem os problemas técnicos. Não sou capaz de fazer nenhum, mas percebo que não é preciso magia. Com o cérebro também. Não sou neuroicientista, mas percebo razoavelmente bem. E ser programador ajuda (que a programação agora não é toda procedimental, também há redes neuronais, algoritmos genéticos, uma data de "artilharia").

    O que eu não percebo, nem sequer ainda adivinho, é este desgraçado "sentimento de si". Para mim ainda é um grande mistério.

    ResponderEliminar
  11. Ou será simplesmente porque este sentimento bem real do “sentimento de si”, que é “o problema” de cada ser humano, não encaixa nos conceitos Budistas do ser e do não ser, da existência e da não existência. -"As formas são vazias; a própria vacuidade são as formas; a vacuidade não é diferente das formas; as formas não são diferentes da vacuidade".
    Se partirmos do principio que este “sentimento de si” é uma realidade constituinte do nosso ser, então, Luis tenho a impressão que tens um problema pessoal “existencialista” a resolver.
    Vamos a isso?!

    ResponderEliminar
  12. Precisando: «Sentimento de Si» é o segundo livro de António Damásio e o titulo significa a forma encontrada para o neurocientista, enquanto tal, expressar o maior mistério com que se depara e como se terá chegado aí: a mente consciente ou «consciência de si». E fica claro que esta mente consciente é mais uma potencialidade do ser humano no seu todo integral e interactivo corpo-cérebro (uma dualidade simplesmente funcional)do que uma entidade com existencia autónoma do conjunto único «corpo-cérebro», porque então cairiamos nos dualismo cartesiano que Damásio contraria frontalmente.
    O mistério por resolver é precisamente esse: como é que uma estrutura cuja forma manipulamos e tem os «dias contados», chegou à mente consciente. Este prodigio surpreendente pôe-nos a cabeça à roda e nós conscientes de que andamos de «cabeça perdida».
    E agora venha o problema existencial do Luis. Se é que ele tem algum. E se tem, quem lho arranjou foi Buda e não Damásio, porque Damásio só nos revela coisas lindas da nossa «realidade formal». «Forma e Fundo», como na cantiga de Manuel Freire. O Buda dá-nos uma mão cheia de...vacuidade porque na sua mente só existem-não-existem «formas». O «Fundo» não será a entidade «separada» de Descartes mas é o «facto» que mais intriga «os conscientes de si». E reparem: o mistério resulta de constatarmos a realidade da «forma e do fundo». Eu disse que isto era olhar as duas faces da moeda. O problema é que, para Buda, a moeda nem existe! Não vale dizer que «existe e não existe» porque é brincar com os conceitos. Mas já é muito válido, e sinal do nosso genial pensamento, aceitar o paradoxo como a mais estranha das realidades.
    Até a física quantica já vai experimentando o seu feitiço...

    ResponderEliminar
  13. Note-se: o Buda não é niilista.Se ele diz "existe" ou "não existe" consoante os casos, é mais como quem diz "tá bem, não nos vamos chatear por causa disso, não vamos aumentar o sofrimento por causa disso... a nossa preocupação aqui é outra, não vale a pena.".

    É um não tomar de posição.

    ResponderEliminar
  14. Eu, problema, problema, não tenho. Para isso precisava de ter mais apego à questão. Tenho algum, gostava de saber, sou curioso. E é uma grande questão por responder. Talvez uma das maiores questões, não concordam?

    ResponderEliminar
  15. Passou-me pela cabeça uma questão curiosa: pode haver duas consciências no mesmo cérebro? Assim, por hipótese?

    ResponderEliminar
  16. Se tivesses lido o «Sentimento de Si», do Damásio, saberias que ele disse: «NÃO!». E neste último livro volta a afirmar o mesmo. Mas adverte, humilde e honesto como é (claro que para ser como o Cavaco teria de nascer duas vezes...) que se trata da sua convicção, depois de tudo o que investigou. Quando alguém penetra na mente de outro inibe e neutraliza a «subjectividade» dessa pessoa, deixando a mente tão anestesiada como o corpo depois da injecção anestesiante. A ideia de Damásio é conforme a tudo o que ele diz acerca da unidade absoluta entre corpo e cérebro. Admitir que duas mentes possam subsistir no mesmo cérebro significaria, no limite, que a consciência é autónoma do cérebro-corpo que a gera. Portanto, só a fusão total entre dois corpos-cérebros...Nem digo mais nada, porque a conclusão é perfeito disparate.
    Damásio, e eu aos seus ombros prestimosos, dizemos que essa treta das possessões diabólicas ou angélicas, são mesmo treta.
    O mesmo se pode dizer da ilusão de uma «dupla personalidade», que não é mais que a disfunção dolorosa da única personalidade do paciente que manifesta esse sintoma.
    Nem queiras saber, meu caro Luis, quantos mitos caiem por terra, quando se aceita o espantoso paradoxo que nós somos, da «reles e desprezivel matéria» que se organiza para produzir a luz do nosso pensamento consciente!

    ResponderEliminar
  17. Sobre o budismo tu disseste tudo aquilo que eu sempre pressenti: «não toma posição». Mas isso é o que Buda tenta "fazer passar" porque, na verdade, ele toma uma posição radical em face da vida e da existencia: «não me chateiem nem se chateiem uns aos outros, que serão muito felizes!»
    Prefiro o empenho efectivo e afectivo da outra máxima: «amai-vos uns aos outros».
    Não me importo nada de te aturar, mesmo que seja apenas aqui na Laje Negra. No resto do tempo, a tua mulher que cumpra o prometido...

    ResponderEliminar
  18. Ah, mas eu li os livros todos! Não estava a falar de isso acontecer necessariamente numa mente humana...onde me parece depreender-se naturalmente que sim.

    ResponderEliminar
  19. Então, Luis, na mente de quem? Olha os espiritos...

    ResponderEliminar
  20. Ora, Mário, não me digas que só achas possível a mente humana?... há mentes em muitas criaturas, muitas das quais poderemos nem sequer (nunca vir a) conhecer. Não podemos olhar só para o nosso quintal.

    Entretanto, quanto a outros comentários, não reconheço os princípios budistas nas afirmações que fazes. Parece-me que há aí muito preconceito. Houve pessoas que precisaram de pensar muitos anos para compreender verdadeiramente a sua mensagem, e certamente não eram burras. Por isso, uma crítica superficial a todo um sistema filosófico reflectido longamente por um homem que certamente não era parvo - e, para a época, provavelmente era um génio - e aumentado (bem e mal) durante milhares de anos por muita gente dedicada, corre o risco de falhar. Acho que um dia fizeste a tua concepção do budismo, com base não sei em qual budismo, nem de quem, e agora vês tudo por esse prisma. É como se o tivesses visto em primeiro lugar numa tv estragada e agora não há anda a fazer: ouves falar em budismo, ligas aquela tv, e não sai nada de jeito. Esvazia o copo, e talvez eu possa deitar alguma coisa lá para dentro... ou pensa tu o teu próprio, mas começa com qualquer coisa de jeito (ex: O Evangelho Segundo Buda de Paul Carus).

    Quanto à minha mulher, casou-se comigo naturalmente porque não teve outra opção. Ou pensavas que tinha sido por livre arbítrio? (*MUAHAHAHAHAHAHA!*)

    Volto à mente. Claro que não estava a falar de possessões espíritas ou outra tontice desse género. Perante a evidência de que o cérebro não funciona por um fio único de, digamos, "processamento", ou seja, uma vez que funciona globalmente, havendo certamente alguns processos de alto nível que resultam na consciência e sentimento de si (pela tal maneira por explicar), não vejo razão para que não possa haver mais do que uma para-consciência, chamemos-lhe... no nosso é pouco provável, mas pode haver cérebros em que sim. Partilhando pelo menos parte da mesma estrutura física, não é impossível. Só me pareceu interessante imaginar isso porque a resposta, positiva ou negativa, a essa possibilidade podia ajudar a esclarecer a natureza da consciência.

    Atenção: para mim a dificuldade não é explicar como é que eu posso estar aqui a dizer isto tudo e vocês a comportarem-se como entendendo o que eu digo. A dificuldade é eu me SENTIR aqui a dizer isto tudo e vocês se SENTIREM aí a compreender. Tudo o resto, para mim, são contas complicadas, mas duma matemática que eu entendo.

    Xiça, escrevo sempre que me farto (e não me farto!).

    ResponderEliminar
  21. Temos vindo a falar da mente humana consciente. Pensei que era a esta que te referias. Os animais tambem têm consciencia, mas a outro nivel, segundo os especialistas e os factos comprovam.
    Parece-me, Luis, que imaginas o cerebro a operar independentemente do corpo. Mais ou menos como um computador. Desde que os circuitos estejam operacionais e a energia não falte, poderia funcionar "normalmente".
    A pesquisa dos neurocientistas não vai por aí, por uma razão óbvia: o nosso cerebro tem um historial que remonta às primeiras estrutura da vida e mantem as raízes mergulhadas nessas profundezas de uma forma integrada e interactiva. Pode-se dizer que a neurociencia não desliga o cerebro do resto do corpo do mesmo modo que não pensa a mente desligada do cerebro.
    O estudo da consciencia nos outros seres vivos também é feito segundo o mesmo principio.
    Quanto à existencia de mentes noutras criaturas é bem possivel. Como é possivel existir um sem número de planetas semelhantes ao nosso.
    Serei o último a colocar travões à nossa imaginação.

    ResponderEliminar
  22. Ah, eu sei que não. Era só para checar... :-)

    Não, não penso no cérebro como uma cóisa independente do corpo. É um orgão com alguma autonomia, do ponto de vista estrutural, mas ocmo todos os orgãos depende de muitas outras partes do corpo. No caso do cérebro ainda mais, uma vez que o corpo praticamente envia sinais para o cérebro, o qual sem esse contexto alargado não poderia com efeito operar. Seria quase como se o silêncio fosse ensurdecedor. Há um equilíbrio interno que depende de um conjunto de "inputs".

    Mas vejo que a comparação com um computador te fere a sensibilidade. A mim, não. Vejo até muitas semelhanças, que me parecem naturais, e que não contribuem propriamente para criar aqui uma qualquer dualidade estranha corpo / mente, embora seja importante considerar que o cérebro tem realmente um papel peculiar no cenário do nosso corpo.

    É claro que o cérebro não executa instruções linearmente, como um CPU clássico (note-se no entanto que os CPU's estão cada vez menos lineares, neste aspecto). Mas um computador pode, essencialmente, simular qualquer sistema, dentro de determinados limites dados pela sua capacidade, mas não propriamente teóricos. Nesse sentido, não é descabido um computador emular o funcionamneto de um cérebro-num-corpo ou um cérebro-e-um-corpo, ou um corpo-com-cérebro (o que soar melhor e menos dual). Poderia fazê-lo emulando cada neurónio e cada "input" de um corpo "virtual". Parece, e é ficção científica, mas não é nenhum disparate teórico, de forma alguma. E arrisco-me a dizer aqui que, possivelmente, esse "cérebro" poderia exibir as mesmas propriedades que o nosso, e não excluo à partida a Consciência, de forma alguma.

    Não estou a dizer para tentarem em casa,

    ResponderEliminar